Os Potter: A Pedra Filosofal
15 Capítulo 15
O Preço da Coragem
Acordei com o cheiro de limpeza e poções da Ala Hospitalar. A luz do entardecer entrava suavemente pelas janelas altas, pintando o ambiente com tons dourados. Meu corpo doía, mas a dor aguda na cicatriz havia se transformado em uma latejante lembrança. Virei a cabeça e vi Harry na cama ao lado, já acordado, conversando baixinho com o Professor Dumbledore, que estava sentado entre nossas camas.
— Ah, a senhorita Potter também retorna a nós — Dumbledore disse, seus olhos azuis cintilando ao se voltarem para mim. — Espero que esteja se sentindo melhor.
— Estou, senhor — respondi, minha voz ainda um pouco rouca. — A Pedra?
— Está segura. Mais precisamente, foi destruída. Nicolas e Perenelle concordaram que era a decisão mais sábia.
— E Quirrell? — Harry perguntou, sua voz carregada de uma mistura de medo e repulsa.
— Infelizmente, ele não sobreviveu. Quando alguém permite que o ódio e a ganância cresçam em seu coração, torna-se um hospedeiro frágil para uma alma como a de Voldemort. Ele o abandonou à morte sem um pingo de remorso.
— Ele não podia me tocar — Harry falou, olhando para suas próprias mãos. — A pele dele queimava...
— O amor, Harry. O amor da sua mãe por você. Ela morreu para lhe dar uma chance de viver, e esse sacrifício deixou uma proteção tão poderosa que Voldemort, cuja alma é uma caricatura do que um ser humano deveria ser, não pode compreender, muito menos superar. O amor é uma força que deixa marcas, e a sua é uma marca de proteção.
Pensei na voz sibilante, na dor na minha testa, no ódio puro naquele rosto.
— Ele disse que voltaria.
— É provável que tente — Dumbledore assentiu, sério. — O medo de seu nome é tão forte que muitos se recusam a pronunciá-lo, mas o medo da morte é um convite para que ele retorne. Lembrem-se: para uma mente bem estruturada, a morte é apenas a próxima grande aventura.
Havia um conforto estranho em suas palavras, mas também um aviso.
Harry, então, mudou o rumo da conversa para algo que claramente o atormentava.
— Professor... O Professor Quirrell disse que Snape me odiava por causa do meu pai. Que ele e meu pai se detestavam em Hogwarts.
Dumbledore suspirou, unindo as pontas dos dedos.
— É verdade que o Professor Snape e Tiago Potter não eram... aliados. No entanto, o que o Professor Snape sente por você, Harry, é uma questão complexa. Este ano, ele fez um juramento de protegê-lo. Em parte, por lealdade a mim. E em parte... para saldar uma dívida de honra. Há muito tempo, seu pai salvou a vida do Professor Snape, em um ato de coragem que transcendia sua animosidade. Snape nunca esqueceu.
Eu olhei para Harry, vendo o conflito em seus olhos. Era difícil reconciliar o homem que nos assustava e humilhava alguém que agia por um código de honra.
Mas eu, que havia visto a centelha de reconhecimento em seus olhos quando eu falava de poções, acreditava entender um pouco melhor. Snape era um homem de camadas, como uma cebola, e cada uma delas trazia o risco de fazer você chorar.
Pouco depois, Rony e Hermione irromperam na ala, seguidos por Neville, e fomos inundados com notícias do mundo exterior. A Sonserina estava em primeiro lugar na Taça das Casas, pois Harry não pôde jogar a partida final e a Grifinória perdeu feio para a Corvinal.
— É uma injustiça! — Rony bufou. — Depois de tudo que fizeram!
Mas a maior surpresa veio na Festa de Despedida.
O Salão Principal estava decorado com as cores da Sonserina, bandeiras prateadas e verdes penduradas com orgulho. Eu me sentei à mesa da minha casa, sentindo um nó de ansiedade no estômago. Florence Avery ao meu lado parecia eufórica.
— Finalmente! — ela sussurou, esfregando as mãos. — Vamos esfregar na cara deles.
Mas então, Dumbledore se levantou. A conversa cessou.
— Outro ano se encerra — ele começou, sua voz ecoando tranquilamente. — E antes de nos deliciarmos com este magnífico banquete, temos um último dever: a atribuição da Taça das Casas.
Ele fez uma pausa dramática, olhando para as mesas expectantes.
— Em quarto lugar, com trezentos e doze pontos, a Lufa-Lufa! Em terceiro, com quatrocentos e vinte e seis pontos, a Corvinal! Em segundo lugar... — ele fez outra pausa, e eu pude ver Draco Malfoy se inclinando para frente, — com quatrocentos e setenta e dois pontos, a Grifinória!
Um rugido de comemoração surgiu da mesa verde e prata. Florence soltou um grito de vitória. Mas Dumbledore não terminara.
— No entanto, os eventos recentes requerem um reajuste final de pontos.
O salão ficou em silêncio absoluto.
— Para o Sr. Ronald Weasley... pela melhor partida de xadrez bruxo que Hogwarts já viu, concedo cinquenta pontos.
A mesa da Grifinória explodiu em aplausos atordoados. Rony ficou vermelho como sua própria cabeça.
— Para a Srta. Hermione Granger... pelo uso da lógica fria sob pressão, concedo cinquenta pontos.
Hermione pareceu querer desaparecer na bancada, mas seu sorriso era radiante.
— Para o Sr. Harry Potter... — Dumbledore continuou, e o silêncio se aprofundou, — por coragem e determinação frente a perigos inimagináveis, concedo sessenta pontos.
O salão estava à beira do caos. Os pontos estavam empatados. Então, Dumbledore olhou para a mesa da Grifinória.
— E para o Sr. Neville Longbottom... por ter a coragem de enfrentar seus amigos, o que é mais difícil do que enfrentar um inimigo, concedo dez pontos.
Sorrio, ao ver os pontos serem redistribuídos e o placar da Gifinória aos poucos ganhar da minha Casa.
— E há uma última pessoa a ser reconhecida. Para a Srta. Harriet Potter...
Um murmúrio percorreu a mesa da Sonserina. Draco virou-se para me encarar, confuso.
— ...pela coragem de enfrentar não apenas monstros físicos, mas os monstros internos da dúvida e da solidão. Por demonstrar que a lealdade ao sangue não é nada comparada à lealdade ao coração. Por usar sua astúcia não para ganho pessoal, mas para proteger os outros. E por lembrar a todos nós — ele fez uma pausa, olhando significativamente para as mesas — que o amor de uma irmã, assim como o de uma mãe, pode ser um escudo tão poderoso quanto qualquer magia. Pelo dom da lógica sob pressão, pela coragem de questionar até as verdades mais aterrorizantes, e por permanecer firme ao lado daqueles que ama quando mais importava... concedo sessenta pontos.
O silêncio foi total. Então, como se tivesse quebrado um feitiço, Neville Longbottom, ainda pálido mas com os olhos determinados, gritou da mesa da Grifinória:
— E pelo que fez pelo Hermione! E por tentar nos proteger no corredor!
Dumbledore inclinou a cabeça para Neville, um brilho de orgulho em seus olhos.
— Obrigado, Neville. Você tem toda a razão. Pela coragem de defender uma colega de outra casa contra um trasgo, quando muitos teriam virado as costas, adiciono mais dez pontos à Srta. Potter.
Setenta pontos.
O salão explodiu. Ou melhor, a Grifinória e partes da Corvinal e Lufa-Lufa explodiram em gritos de alegria. Na mesa da Sonserina, o choque era palpável.
Setenta pontos.
Uma valorização monumental. Florence não me olhava mais com euforia, mas com uma expressão complexa de admiração e incredulidade.
O que se seguiu foi o barulho mais ensurdecedor que eu já tinha ouvido. As bandeiras da Sonserina se transformaram em vermelho e dourado. A Taça foi levada para a mesa da Grifinória em meio a uma celebração histérica. Enquanto a mesa da Sonserina afundava em um silêncio furioso, eu me sentei lá, no meio deles, sentindo o peso de dezenas de olhares em mim.
Não era mais apenas Harriet Potter, a garota que sobreviveu.
Era Harriet Potter, que havia roubado a vitória da sua própria casa.
Mas quando levantei os olhos e vi Harry, do outro lado do salão, seu sorriso radiante e seu polegar erguido, soube que, no grande esquema das coisas, aquela era a única vitória que importava.
☆ ☆ 9¾ ☆ ☆
Na manhã seguinte, as malas estavam prontas. O Expresso de Hogwarts nos esperava. O castelo estava um alvoroço de despedidas, risos e promessas de escrever durante as férias.
Enquanto seguia pela entrada principal em direção aos carruagens, carregando a gaiola de Nocturna, avistei uma figura alta e sombria parada à sombra de uma coluna, observando os alunos partirem. Era o Professor Snape.
Minha mão tocou a capa, onde o livro de poções que ele me emprestara estava escondido. Havia decidido que era hora.
Respirei fundo e me aproximei, meu coração batendo um pouco mais rápido.
— Professor?
Ele se virou lentamente, seus olhos negros encontrando os meus sem surpresa, como se estivesse me esperando.
— Senhorita Potter.
Abri minha bolsa e retirei o livro, "Poções Fundamentais e suas Aplicações". Estava um pouco mais gasto nas bordas do que quando o recebi.
— Eu... vim devolver seu livro, professor. Muito obrigada por ter me emprestado.
Ele estendeu a mão, mas não para pegá-lo. Em vez disso, empurrou-o suavemente de volta para mim.
— O livro não era um empréstimo, senhorita Potter. Era seu.
Eu piscei, confusa.
— Mas... o senhor disse...
— Eu disse que poderia ser útil para os seus estudos — ele interrompeu, sua voz baixa e clara. — E, pelos resultados que testemunhei, cumpriu sua função. Você já o decorou, não é?
— Sim, professor — admiti, baixando a cabeça.
— Então não há razão para devolvê-lo. Um artesão não retira suas ferramentas de um aprendiz promissor. — Ele fez uma pausa infinitesimal, seus olhos escaneando meu rosto como se procurando por algo. — Talvez, no próximo ano, eu tenha uma leitura... mais avançada para indicar. Se você demonstrar interesse continuado.
Fiquei paralisada por um momento. Aquilo não era um elogio — Snape não elogiava.
Era um reconhecimento. Um investimento.
— Eu... eu vou demonstrar, professor. Obrigada.
Ele apenas inclinou a cabeça em um aceno quase imperceptível, seu olhar já se desviando, retornando à sua vigilância habitual. A conversa havia terminado.
Virei-me e caminhei em direção ao Expresso, segurando o livro contra o peito. Não era apenas um livro. Era uma chave. E a confirmação de que, mesmo nas masmorras mais escuras de Hogwarts, havia portas que poderiam se abrir para mim.
Encontrei Harry, Rony e Hermione em um compartimento. Harry sorriu ao me ver.
— Pronta para ir para casa, Lily?
Olhei pela janela, para o castelo que se tornara meu verdadeiro lar, para o professor de capa negra que agora era uma figura menos ameaçadora e mais complexa em meu mundo.
— Pronta — respondi, sentando-me. — Mas mal posso esperar para voltar.
O apito do trem soou, anunciando o fim de um ano e o início de tudo que ainda estava por vir.
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