Primeiras Aulas

Os dias em Hogwarts passavam como o bater de asas de uma coruja: rápidos, silenciosos e cheios de encantamento. Ainda me sentia meio perdida nos corredores longos e cheios de escadas caprichosas, mas havia algo de mágico — literalmente — em cada canto daquela escola. Harry parecia se acostumar também, ainda que eu o visse franzindo o cenho vez ou outra quando algum aluno sussurrava seu nome nos corredores.

— “O Menino que Sobreviveu”, para cá… “O Menino que Derrotou Você-Sabe-Quem”, para lá — ele murmurou certa manhã, mexendo distraidamente nas torradas do café. — Juro, Lily, se mais alguém me encarar como se eu fosse uma criatura rara, vou começar a cobrar ingresso.

— Pelo menos te encaram, eu passo despercebida — retruquei, fingindo ofensa. — E, sinceramente, prefiro que pensem que eu sou invisível.

Harry riu, e eu o acompanhei. Era estranho — e um pouco inquietante — perceber que, entre tantos olhares curiosos e cochichos, éramos os únicos que sabiam como era crescer sem o menor vestígio de magia, presos num armário debaixo da escada.

Mas, apesar de toda a agitação, Hogwarts já começava a se parecer com um lar.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

As aulas eram fascinantes. Cada uma trazia algo novo, uma centelha de descoberta. A aula de Feitiços nos deixava ansiosos, especialmente quando o professor Flitwick subia em uma pilha de livros para enxergar a turma e nos fazia praticar encantamentos simples. Já Herbologia era mais... úmida. E fedida. Mas ver as plantas se moverem, reagindo às nossas palavras, era um espetáculo à parte.

Entretanto, nem tudo era empolgante. A aula de História da Magia era o equivalente bruxo a assistir tinta secando. O professor Binns, um fantasma pálido e sonolento, lia as lições em um tom monótono, flutuando de um lado para o outro, completamente alheio aos bocejos coletivos.

— Acho que ele nem percebeu que está morto — cochichei certa vez a Harry, que tentou conter uma risada. — Talvez ache que ainda está dando aula… desde mil oitocentos e alguma coisa.

Ele me cutucou de leve, tentando disfarçar o riso, mas era impossível não rir.

A primeira aula de Transfiguração, contudo, compensou todas as outras. A professora McGonagall entrou na sala na forma de um gato tigrado e, ao se transformar diante de nós, o ar ficou pesado de espanto. Eu me encantei instantaneamente.

— Hoje, aprenderemos a transformar objetos simples em outros — disse ela, com aquela voz firme e autoritária que nos fazia endireitar a postura sem perceber. — Comecem com os palitos de fósforo. Quero vê-los transformando-os em agulhas.

Meus dedos tremiam ao segurar a varinha. Murmurei o feitiço, tentando me lembrar da entonação exata. “Feraverto.” O palito tremeluziu, mas logo voltou ao normal. Suspirei frustrada.

— Nem um pingo de brilho, hein? — Harry comentou.

— Nem sinal de vida. — Tentei novamente, sem sucesso.

Apenas Hermione Granger, sentada duas fileiras à frente, conseguiu transformar seu palito completamente. Ela o ergueu, radiante, enquanto McGonagall arqueava uma sobrancelha, visivelmente impressionada.

— Excelente, senhorita Granger. Dez pontos para a Grifinória.

O resto da turma gemeu. Mas, no fundo, eu estava feliz que alguém tivesse conseguido. Ver Hermione tão entusiasmada despertava em mim um certo orgulho silencioso — ela parecia representar o esforço de todos nós.

Quando o sino tocou, Harry suspirou de alívio.

— Bom, pelo menos não fui o único a fracassar.

— Um dia a gente acerta, Harry — sorri.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Na sexta-feira, o grande salão estava mais barulhento do que nunca. O cheiro de pão quente e ovos mexidos flutuava pelo ar, misturado ao som de corujas chegando com o correio da manhã. Eu lia uma carta de Hagrid que chegara para mim — escrita de forma torta e borrada — convidando-nos para tomar chá naquela tarde.

— Ele escreveu pra você também? — Harry perguntou, erguendo uma carta idêntica.

— Escreveu. E aposto que vai servir bolo queimado e contar histórias sobre dragões.

Rony, sentado ao nosso lado, arregalou os olhos.

— Dragões?

— Longa história — Harry respondeu, desviando o assunto.

O restante da manhã passou devagar, até que chegou a hora da aula de Poções. Descemos juntos para as masmorras, e uma sensação fria percorreu minha espinha. O ar era úmido e pesado, e o som dos passos ecoava nas paredes de pedra.

O professor Snape nos aguardava atrás da mesa, sua capa negra ondulando como uma sombra viva. Seus olhos escuros pareciam perfurar a alma de cada aluno que ousava fitá-lo por mais de três segundos.

— Bem-vindos à aula de Poções — disse ele, com voz arrastada. — Aqui, aprenderão a manipular as mais sutis forças da magia. Não esperem varinhas tremeluzindo nem encantamentos bobos.

O silêncio era absoluto.

— Se forem competentes — continuou ele, andando entre as fileiras — poderão preparar poções capazes de enfeitiçar a mente, confundir os sentidos, até mesmo… engarrafar a fama e preparar a glória.

Eu teria ficado maravilhada se ele não falasse como se nos desprezasse.

E então, seus olhos pousaram em Harry.

— Ah, sim… nossa nova celebridade.

Um murmúrio percorreu a turma. O rosto de Harry empalideceu, mas ele manteve o olhar firme. Snape começou a fazer perguntas — difíceis, precisas, como se quisesse pegá-lo em erro.

— Sr. Potter — disse com um leve sorriso sarcástico. — O que eu obteria se adicionasse raiz de asfódelo em pó a uma infusão de absinto?

Harry piscou, perdido.

— Eu… não sei, senhor.

— Pois deveria — retrucou Snape. — E onde buscaria um bezoar, se alguém fosse envenenado?

— Eu…

— Na barriga de uma cabra — interrompeu Hermione, erguendo a mão.

— Muito bem, senhorita Granger — respondeu Snape, sem sequer olhar para ela. — E menos dez pontos para a Grifinória por interrupção.

Rony resmungou algo ao meu lado, e eu senti uma pontada de raiva. Snape não apenas odiava Harry — ele parecia se deliciar com isso.

Mas, em determinado momento, percebi algo estranho. Snape desviou o olhar de Harry e o pousou em mim. Por um instante, sua expressão endurecida vacilou. Seus olhos escuros se fixaram nos meus traços como se procurassem um fantasma.

— Harriet Potter… — murmurou, num tom quase inaudível, antes de recompor-se. — Concentre-se em cortar as ervas, senhorita Potter, e não em devaneios.

A forma como ele pronunciou meu nome me fez arrepiar. Senti o peso de um olhar que parecia reconhecer algo que eu mesma desconhecia.

Mais tarde, quando a aula terminou e os alunos começaram a guardar os materiais, Snape me chamou.

— Senhorita Potter, um instante.

Harry olhou para trás, preocupado, mas eu lhe fiz um gesto para seguir com Rony. Aproximei-me da mesa do professor, o coração acelerado.

Snape permaneceu em silêncio por um momento, analisando-me sob a luz pálida das tochas.

— Você… é muito parecida com sua mãe — disse ele por fim, em voz baixa, quase amarga. — A mesma expressão atenta, o mesmo modo de segurar o frasco.

Engoli em seco, sem saber o que responder.

— Mas tem os olhos de seu pai — completou, e seu tom perdeu a doçura rarefeita que havia antes. — Isso, suponho, é inevitável.

Ele se virou e retirou um pequeno livro da gaveta, um volume de capa de couro escuro, já gasto nas bordas. Colocou-o sobre a mesa.

— “Poções Fundamentais e suas Aplicações.” É… mais avançado do que o que usamos aqui, mas creio que conseguirá compreendê-lo.

Olhei surpresa.

— Para mim, senhor?

— Não imagine que é um favor — retrucou, secamente. — É apenas… um incentivo para que não desperdice o talento que herdou.

Tomei o livro com cuidado, agradecendo num sussurro. Ao sair, vi pelo canto do olho que Snape ainda me observava, o olhar distante, como se tivesse sido arrastado por lembranças que preferia esquecer.

✩✩ 9 ¾ ✩✩

Mais tarde, seguimos até a cabana de Hagrid, ao final do terreno de Hogwarts. O céu estava nublado, e o vento frio fazia as folhas dançarem sobre o gramado. A fumaça que saía da chaminé indicava que ele já nos esperava.

Canino, o enorme cão de Hagrid, correu até nós, latindo alto — mas, para nossa surpresa, nos lambeu como se fôssemos velhos amigos.

— Ah, não se assustem, ele é um doce — Hagrid disse, rindo. — Só baba um pouco demais.

A cabana era pequena, mas acolhedora. Um caldeirão fumegava no fogo, espalhando o cheiro de ervas e açúcar queimado. Sobre a mesa, havia uma pilha de bolos malfeitos — provavelmente duros o bastante para quebrar um dente.

— Então, como estão gostando das aulas? — perguntou ele, servindo chá em canecas que pareciam baldes.

— Algumas são incríveis — respondi. — Outras nem tanto.

— História da Magia… — Harry completou.

Hagrid gargalhou.

— Ah, o Binns! Aposto que nem percebe que vocês estão dormindo.

Enquanto conversávamos, Canino deitou-se a meus pés, roncando alto. Harry começou a contar sobre a aula de Poções, e o rosto de Hagrid mudou.

— Snape pode parecer carrancudo, mas é um dos melhores professores que temos.

— Ele me odeia — insistiu Harry.

— Besteira. Ele não gosta de ninguém.

Mas o tom de voz de Hagrid soou forçado, como se escondesse algo.

Foi então que notei um jornal aberto sobre a mesa. O título em letras grandes me chamou atenção:

“Invasão em Gringotes: Cofre saqueado horas após ser esvaziado.”

— Hagrid… — apontei o artigo — isso não foi no mesmo dia em que fomos lá?

O Guarda-Caça congelou por um instante, coçando a barba.

— ah, sim… pura coincidência. Nada demais.

— Mas diz aqui que foi o cofre setecentos e treze… — murmurei, reconhecendo o número.

Hagrid levantou-se abruptamente, recolhendo o jornal.

— Melhor não se preocuparem com isso, está bem? Assunto do Ministério.

Harry e eu trocamos olhares. Sabíamos que ele estava escondendo algo.

O restante da visita foi mais leve — ou, ao menos, Hagrid tentou que fosse. Falamos sobre Hogwarts, sobre os professores e sobre quadribol, o esporte bruxo que Rony explicava com a empolgação de quem narrava uma guerra lendária.

Mas, quando nos despedimos, a inquietação permaneceu.


✩✩ 9 ¾ ✩✩


No caminho de volta ao castelo, o sol se punha por trás das torres, tingindo o céu de laranja e violeta. O vento soprava frio, fazendo minhas vestes ondularem.

— Você viu o jeito que ele reagiu? — perguntei, segurando o capuz para que não voasse.

— Vi. — Harry estava pensativo. — Ele ficou nervoso quando mencionamos o cofre.

— E se… — hesitei — o pacote que ele pegou em Gringotes tiver algo a ver com a invasão?

Harry olhou para o horizonte, o olhar fixo nas janelas iluminadas de Hogwarts.

— Foi exatamente o que pensei.

Andamos em silêncio por um tempo, ouvindo apenas o farfalhar da grama sob nossos passos. Quando o castelo surgiu diante de nós, imponente e dourado sob o crepúsculo, senti um arrepio que não vinha do frio.

Hogwarts era um lugar maravilhoso, cheio de mistérios, e, pela primeira vez, eu tinha a certeza de que estávamos prestes a descobrir um deles.

Mas também sabia — no fundo — que algumas respostas podiam ser perigosas demais para dois alunos do primeiro ano.

Ainda assim, quando cruzamos os portões e a noite envolveu o castelo como um manto, uma única certeza me atravessou: o verdadeiro início da nossa história estava apenas começando.