Os Pecados de uma Família
4 Uma Simples família
Gwenhwyfach estava no mesmo carro que Ambrosius, Eigyr e Igraine, dirigido por Aenor. Isolde, Agravaine, Uther, Edmund, Cai e a senhora Elaine estavam logo atrás, em outro veículo. A estrada era de tijolos vermelho-escuros, enfileirados. Os quadrados eram retos, bem cortados. Apesar de velhos e empoeirados, ainda eram resistentes e não pareciam ter falhas — se tinham, eram minúsculas. Ficava a alguns centímetros de altura do chão, para que a neve derretesse e caísse para os lados, e tinha espaço para três carros médios andarem lado a lado. Seja lá qual fosse o material utilizado para tal material, estava perdido nos anais da história. Embora talvez estivesse em algum lugar, muito bem guardado, da Igreja Sacromana da Espada Sagrada.
— São do tempo dos conquistadores — explicou Ambrosius. — Eles construíram muitas destas estradas.
Gwen sorriu.
— Eu sei. — respondeu ela, de um jeito educada. — São comuns na Bretanha, afinal, fomos uma das colônias deles.
O rapaz corou, dando um sorriso sem jeito.
— Ah — foi tudo que ele conseguiu dizer, sem graça. — É verdade.
Igraine deu um risinho. Ela estava ao lado do banco do motorista, segurando a mão do sobrinho Aenor. Quando o homem segurava o volante com as duas mãos, a tia descansava uma mão pálida e de unhas côr-de-rosa bem claras em seu ombro ou na perna dele.
Gwenhwyfach tinha de admitir, era estranho ver os dois tão juntos; era quase como ver dois namorados ou até marido e mulher. Eles serem parecidos só tornava tudo mais estranho, pois era como se Aenor estivesse se engraçando com a mãe ou a irmã dele. Tentava afastar tais pensamento de sua cabeça, afinal, pelo que Ambrosius lhe disse, o relacionamento de ambos, se não fosse de tia e sobrinho, era de mãe e filho. Seria muito errado pensar coisas erradas sobre eles.
— Meu primo é um verdadeiro erudito — desdenhou Eigyr, sentada ao lado dele. A jovem tinha olhos vermelhos brilhantes e um cabelo roxo escuro.
Ambrosius deu um ar carrancudo.
— Sinceramente, nem queria você aqui, Eigyr. — ele disse.
— Ei! — censurou Igraine. — Menos, filho. Seja respeitoso.
O rapaz ainda ficou carrancudo, mas não falou nada. A jovem Eigyr curvou os lábios roxos para cima, em um sorriso. Gwen teve ainda mais certeza de já ter visto aquele sorriso antes.
— Posso fazer uma pergunta, Eigyr? — indagou.
A jovem de olhos rubros assentiu.
— Claro, Gwen.
— Eu já a teria visto em algum lugar? Na TV ou, então, em alguma…?
— Revista? — sugeriu Eigyr. — Claro, afinal, eu sou uma modelo. Deve ter visto meu primo, Artur.
— Artur? — franziu o cenho, tentando se lembrar, mas ninguém veio à sua mente. — Não. Não lembro de ninguém com esse nome. Como ele é?
A jovem abriu a bolsa e pegou o celular. Ela pareceu digitar algo e depois virou a tela para que Gwen pudesse ver a imagem nela.
Ao ver a cena, a jovem enrubesceu-se ao ver a imagem de uma jovem branco, de olhos azuis-claros, com cabelos pretos com pontas rubras, semi-nu, apenas usando uma cueca.
— Nossa, eu… — nem soube o que responder. — Não. Nunca o vi.
A moça riu da reação dela.
— Ora, não finja que nunca viu homens nus, Gwen! Vai dizer que nunca pesquisou? Ou imaginou algum garoto da escola sem roupa? Talvez seu… padrasto?
Gwen arregalou os olhos.
— Pelo Grande Salvador, não! — respondeu, sentindo a ardência no rosto aumentar.
— Ah, sei… — a jovem riu, enquanto o carro se movia. Ao olhar pelas janelas, as árvores pareciam borrões se mexendo.
Gwenhwyfach franziu o cenho. Já detestava aquela moça. Era melhor quando ela estava calada.
— Controle-se, Prima — mandou Aenor, olhando para Eigyr pelo espelho. — Nem todos gostam de suas importunações.
A modelo fez uma expressão de quem não se importava com nada do que o primo lhe dizia. Ambrosius se virou para a amiga e disse:
— Não liga pra essa aí, Gwen, ela é chata. Não sei como alguém tão legal quanto o tio Ban teve uma filha tão irritante.
A prima, ofendida, fez um “humpf!” com a boca e cruzou os braços. Virou-se para encarar a janela, vendo as árvores de diferentes tons de verde e amarelos passarem pela sua vista.
Era possível ver algumas figuras brancas altas enquanto olhavam pelas janelas, mas eram pequenas pela distância, e eram muito finas, passando facilmente despercebidas. As figuras eram na realidade torres eólicas, usadas para energia. Os Gyonnel permitiram que empresas usassem determinadas áreas para conseguir tal energia, tendo uma certa parcela de lucro pela energia obtida pelas torres de 200 metros.
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Quando chegaram nas proximidades da mansão dos Gyonnel, conseguiram vê-la ainda de longe. A figura escura foi ficando maior conforme eles se aproximavam dela.
A Mansão era feita de mármore negro, com fios dourados. Tinha quatro andares, com 50 mil metros quadrados e cinco torres com tetos pontudos. As janelas eram de cristais — não vidro — coloridos, com cada uma tendo uma cor diferente.
Do lado da mansão, a vários metros de distância, era possível ver as ruínas de um velho castelo, desmoronando sobre si. Outrora deve ter sido uma magnífica construção; entretanto, agora, só era um vestígio vergonhoso do que um dia já fora. Ainda mais adiante, passando a ruína que um dia já foi um castelo, se encontrava um monte elevado de terra, um penhasco íngreme.
Do lado oposto, alguns quilômetros de distância da mansão, havia um cemitério, onde a família Gyonnel enterrava seus mortos.
Conforme se aproximavam, não só a mansão ficou maior, mas as muralhas que a envolviam também. As paredes do muro enorme tinha 7 metros de altura, e eram de um aspecto que se assemelhava a pedra, mas com um aspecto metálico, com um brilho cinzento fosco. Gwenhwyfach nunca havia visto nada como aquilo.
— São uma mistura de pedra miracema com chumbo e plástico — explicou Ambrosius. — A fissão nuclear foi utilizada para tal criação. E… Er, alguns outros métodos. Não entendo bem disso, mas é basicamente sobreaquecer e juntar tudo numa coisa só.
Gwen ficou boquiaberta. Tinha ouvido falar de tais criações, mas nunca vira uma com os próprios olhos.
— Não sabia que o Gareth era tão rico — exclamou. — Digo, do jeito que você me falou da riqueza dele, jurava que era pequena…
— E é — ele garantiu. — Minha família por parte de mãe… Bem, minha única família… é muito mais rica. Temos uma linha de restaurantes e resorts em Bretanha Maior e do Norte, Cornualha, Atlas e, recentemente, alguns na Hibéria. Além da venda de lingeries. — Concluiu: — A riqueza de Gareth em nada se compara à nossa. Ela vem de uma fortuna antiga e compartilhamento de certas partes da terra com empresas para obter dinheiro.
— Bem — respondeu Gwen —, isso parece uma grande fortuna para mim.
O rapaz fez uma carranca e franziu o cenho. Era um jovem lindo, mas claramente birrento.
— Você diz isso porque é pobre. — rebateu Ambrosius. — Não sabe o que é riqueza. Afinal, não tem nenhuma.
Ofendida, Gwen apenas bufou e olhou para o outro lado, para a janela, vendo entrarem pelo enorme portão da frente. Ambrosius abaixou a cabeça, envergonhado.
— Tente ser mais educado, filho — aconselhou Igraine, num tom ácido. — Por isso você tem poucos amigos… Bem, na verdade, nenhum. E com razão.
O garoto se retraiu com a brutalidade das palavras ásperas da mãe.
— Deixa ele, tia. — pediu Aenor, virando o volante. — O rapaz puxou o seu gênio.
Passaram por de uma ponte de tijolos vermelhos — claramente mais novos, não sendo antigos como os outros —, acima de um fosso que rodeava a parte interna das muralhas. A mansão que mais parecia um palácio ficava alguns metros à frente, e tinha um brilho iridescente conforme se aproximavam. O mármore havia sido fundido com um minério da Ilha do Verão, que era azul, mas que refletia a luz que batia nele como um arco-íris em sua superfície.
O carro virou para a direita quando a estrada vermelha se abriu em um círculo, perto da entrada da mansão, depois um pouco da esquerda e então parou do lado de uma fonte que havia no centro do círculo, parecendo um buraco no chão, com duas estátuas de trutas feitas de bronze se entrelaçando e jorrando água pela enorme boca. Do lado esquerdo da mansão, fica o jardim; havia um imenso labirinto, bem florido, uma estufa e uma extensa área de jardinagem. A direita, havia um imenso lago, cheio de plantas e peixes dourados e prateados. Ao lado, havia um viveiro, repleto de pássaros exóticos.
Aenor parou o veículo e puxou o freio de mão e retirou as chaves. Irritada, Gwen foi a primeira a sair. Ambrosius ia logo atrás, mas ela fechou a porta do carro, quase batendo o vidro na cara dele. Irritado, ele pegou o puxador do carro e a abriu novamente. Eigyr saiu pelo outro lado. Os empregados enfileirados que os aguardavam, usando roupas vermelhas-escuras como vinho tinto, começaram a se mover, indo até os veículos para pegar as malas.
O carro de Agravaine parou perto do deles. Ele saiu do carro, indo em direção ao lado oposto, indo ajudar a esposa para sair, abrindo a porta e pegando a mão de Isolde para ajudá-la a sair.
— Obrigada, caro mio — ela agradeceu, segurando a mão do esposo e saindo do carro —, mas deveria ajudar a senhora Elaine, não acha?
Agravaine olhou para a mãe de Gareth, que segurava o braço de Uther para sair do veículo.
— A velha já tem quem cuide dela — respondeu em Hibérico, sabendo que a velha caquética não entendia a língua, e o filho sem graça dela não estava por perto para entender.
Isolde franziu o cenho. Ela ajeitou o xale magenta que tinha sobre seus ombros e jogou uma parte dele por cima da cabeça, cobrindo os cabelos negros e roxos.
— Seja educado, esposo — ordenou a moça ao seu companheiro. — Não vai ter de aguentar a pobre senhora para sempre.
Ele sorriu e a puxou pela cintura. Ela estava mais certa do que poderia imaginar, mas não falou nada. Apertou um botão no chaveiro, abrindo o porta-malas, para que os empregados pegassem a bagagem.
As roupas do casal contrastavam: O rapaz usava uma roupa metálica, parecendo com um aspecto borrachudo, de cor verde-claro, que refletia o ambiente como um espelho distorcido, com renda de ouro em formato de folhas longas. Era até difícil olhar para ele, pois os raios de sol batiam e refletiam na camisa. As mangas eram longas, de boca larga, e com um corte profundo no peito, expondo alguns dos pelos que tinha. As calças brancas também tinham bocas largas, expondo suas sandálias; enquanto sua esposa usava um belo vestido roxo-escuro, com calças combinando, com um corte largo e de aspecto caído. Com o xale não o estivesse cobrindo, seria possível ver um dos ombros descoberto. Usava um colar âmbar que caia quase até a barriga. O único adorno que ela usava, além do piercing na testa, era o anel de casamento: uma bela aliança de ametista, que emitia luz.
— Está bem, cara mia, será como você quiser — mentiu, dando um beijo na bochecha escura dela. — Vai querer ver a sua horta agora?
A jovem respondeu que não com a cabeça.
— Isto pode esperar — respondeu. — Vamos entrar primeiro. Quero tomar um banho refrescante.
— Certo, amor — Agravaine virou o rosto e viu um dos homens puxar uma mala para fora do porta-malas de maneira desajeitada. — Ei, cuidado com isso, idiota! — ralhou. — Tem coisas preciosas aí!
— Xiu! — censurou Isolde, não aprovando o tom do marido. — Pelos deuses, Agravaine, não seja rude. — disse em sua língua materna. — Pare de aporrinhar.
— Você é muito boazinha, amore mio — ele disse em cornico, ajeitando os ocúlos escuros. — Esse povinho parece não ter nada na cabeça. Você os trata bem e eles roubam a prataria e estragam os móveis.
Isolde fez um estalo com a língua, mas ficou quieta. Seu marido tinha de aprender a ser menos soberbo com os trabalhadores.
Quando olhou para a mansão, viu uma imensa penumbra, cobrindo o céu. Era como um buraco no mundo, sugando a luz. Isolde deu um passo para trás e levou uma mão assustada para o ombro do marido, apertando o local com os dedos.
— Que foi, amor? — Agravaine indagou, estranhando a reação abrupta da esposa.
Nada. O que quer que Isolde tivesse visto, já não estava mais lá. Nunca esteve.
— Nada — Ela respondeu. — Deve ser o calor. Vamos entrar.
A Senhora Elaine queria entrar logo em sua moradia; detestava estar em lugares abertos assim. Por isso quase nunca saía de casa. Estar dentro das muralhas da propriedade era um pouco melhor, fazendo-a se sentir menos tensa; todavia, ainda estava inquieta, querendo entrar logo em sua imensa mansão. Antes, porém, ela tinha que ver como as coisas estavam, e foi falar com o mordomo chefe, Bailey.
— Tudo pronto para os recém-chegados, Bailey? — indagou ela.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Sim, Dame — respondeu, chamando-a pelo título nobre. — Os quartos já estão preparados, e eu separei cada servo para cuidar preferencialmente de cada um dos residentes.
Ela anuiu.
— Ótimo, bom trabalho. — Ela disse e estendeu a mão. Prontamente, o chefe dos mordomos entregou-lhe uma corrente dourada, com um molho de chaves quase vazio, apenas uma chave. Era a chave mestra, que abria qualquer porta da mansão. Era bem grande, feita de ouro damasco.
O metal dourado era brilhante, com dobras escuras. Aço damasco não era metal fácil de ser feito, muito menos de ser fundido com outros metais. Só aquela chave poderia ser mais cara que toda a imensa mansão.
— Me dá isso aqui, idiota — disse Aenor, pegando uma maleta das mãos de um serviçal de libré vermelha-vinho. Passou a por cima do ombro, segurando pela alça.
Elaine observou o consogro se virar e ir para junto da tia. Ambos se afastaram do veículo e foram em direção a mansão.
— O senhor Aenor ainda é um amor que eu me lembrava que ele era, pelo que posso ver — disse Bailey, enquanto o homem estava longe demais para ouvir.
— Sim — concordou a senhora Elaine, mesmo que não gostasse de falar dos outros. — Vamos torcer para que seja uma estadia rápida.
Quando Aenor e a tia chegaram perto de Elaine, a senhora deu um sorriso agradável e acenou com a cabeça, mas eles passaram reto por ela, como se não a tivessem visto.
A mulher suspirou, mas tinha de ser sincera consigo mesma: era melhor não falar com eles. Preferia ser ignorada.
Elaine subiu os largos degraus da pequena escada que havia na entrada da mansão. Eram de ardósia. Sentiu-se mais firme quando pisou neles. Tocou no corrimão dourado, não para se equilibrar, mas para se sentir mais segura.
Gwenhwyfach foi para a fonte de frente à mansão. Era tão grande, parecia até maior que as imensas fontes que havia no shopping de sua casa. Trutas prateadas e peixes dourados pulavam no ar, mordendo libélulas e mosquitos que por ali voavam, os comendo com a imensa boca de uma só vez. Viu seu reflexo na água turva, parecendo se olhar no espelho. Notou que haviam algumas tartarugas também, com os cascos verdes da mesma cor que a água cheia de musgo. Algumas flores boiavam, com as pétalas coloridas apontando para cima.
— É bem bonito, não é? — indagou Ambrosius, atrás dela. Ela o ignorou e cruzou os braços. Quando não teve resposta, ele disse: — Gwen, desculpa o que te falei lá no carro.
A jovem se virou, de braços ainda cruzados, e o encarou.
— Bem, garotos mimados geralmente não são bem educados — ela passou por ele, indo até a mansão.
Ambrosius viu a moça entrar, cabisbaixo. Sua prima foi falar com ele:
— Vejo que não tem sorte no amor, priminho — zombou ela. — Nem Helena te quis, e agora, nem a pobre da enteada de Pellinore.
O rapaz se virou para ela, irritado.
— Cala a boca, sua putinha — ameaçou, apontando um punho de seis dedos para ela. — Ou eu esmurro essa tua cara, e você não vai mais ser modelo de porra nenhuma!
A moça arregalou os olhos e se afastou, assustada com a reação dele. Apesar do medo, encontrou um pouco de forças para olhar para ele dizer:
— De fato — ela disse, tentando manter a voz firme, deixando a raiva tomar conta —, você é filho de Aenor. — saiu andando, apressada, louca para se afastar daquele bruto.
Ambrosius virou-se para encarar a fonte, olhando as tartarugas nadando na água escura. Um peixe pulou e curvou-se no ar, caindo na água, fazendo um ploof e respingando um pouco.
Edmund viu aquela cena, ignorando os trabalhadores que pegavam a sua bagagem. Balançou a cabeça e virou-se para Cai.
— Nossa tia não cuidou muito bem do filho — ralhou. Seu irmão aquiesceu.
— Bem, nosso irmão também não ajudou muito na criação pelo visto — fez notar Cai. — Apesar que Eigyr tem que aprender a controlar a língua, viu o que ela falou?
Edmund respondeu:
— Eigyr sabe ser uma vaca, verdade seja dita — concordou. — Todavia, isto não dá motivo para Ambrosius ficar ameaçando bater nela. E parece que a enteada de Pellinore também já ficou irritada com ele.
— Ele só sabe aporrinhar — falou Cai, enquanto olhava para um servo de pele oliva e cabelos verdes pegando uma mala dele. A cor do cabelo o lembrou de Vortigern, embora o servo de vermelho fosse mais jovial. O servo deve ter reparado que ele o olhava, pois sorriu para ele.
Uther passou um braço pelo ombro do namorado.
— Ora, deixa a vida alheia de lado, Eddie — pediu ele, dando um beijo na bochecha vermelha do companheiro. — Anda, vamos entrar, os empregados vão nos indicar os nossos aposentos.
Edmund assentiu e os três rapazes foram para dentro.
A entrada era imensa, com 12 metros quadrados. O teto era abobadado, com cristal dourado servindo como passagem para que a luz entrasse. Colunas de mármore eram cobertas de ouro, assim como as estátuas que ficavam perto das paredes, segurando vasos, castiçais e instrumentos musicais cobertos de camadas de ouro fino.
Havia arandelas nas paredes, emitindo luz dourada. Não usavam lâmpadas, mas sim pedras luminosas da Ilha de Atlas; o tom dourado era intensificado por fios condutores, que faziam-nas emitir mais luz e calor. As pedras eram cobertas por quadrados de plástico amarelo. Além do minério luminoso nas paredes, candelabros de cristal colorido eram vistos no alto, pendurados por correntes de ferro cobertas de ouro.
Gwen olhou tudo aquilo com admiração, nunca havia visto nada parecido.
— Tudo isto é ouro de verdade? — ela indagou, polhando para o teto abobadado e os candelabros.
A Senhora Elaine — que agora sentia-se mais saudável dentro das negras paredes do local —, sorriu para a moça e disse:
— É tudo trabalhado em douração, minha cara — explicou. — Foram cobertas por finas camadas de ouro puro a ponto de parecerem ser de ouro.
— Ah — a jovem disse, se sentindo estúpida pelo que havia dito. — É muito lindo, senhora.
A mulher sorriu, assentindo.
Quando Ambrosius entrou, viu a colega, parecendo ser pintada de ouro pelas luzes do local. Sua pele oliva parecia brilhar e seus olhos escuros pareciam ser de cor mel. Ela estava linda, de tirar o fôlego!
Entretanto, quando a jovem viu o colega, ela fechou a cara e olhou para Elaine.
— Onde é meu quarto, Senhora?
A Dame virou-se para uma empregada jovem, de cabelos laranjas.
— Leve Gwenhyfach Farroll e Eigyr Grynn para os aposentos delas, Cweyn — ordenou. — Depois, trate de ir para as cozinhas e ver o almoço. — virou-se novamente para Gwen, dando um sorriso. — Lamento, minha cara, mas não lhe perguntei o que gosta de comer. Gosta de lagosta com caranguejo e camarão? Teremos bolo de morango azul também.
Gwen havia comido lagosta pelo menos três vezes na vida, quando seu padrasto levou ela e sua família para comer em um dos restaurantes da família dele.
— Gosto, senhora… er… — corou. — Desculpe, não sei o título…
A mulher abanou o braço, indicando que ela podia deixar tal formalidade de lado.
— Deixe disso, minha criança — pediu. — Não é minha serva, pode me chamar de Senhora Elaine que já está bem.
A jovem sorriu, ainda corada. Seguiu Eigyr e a empregada até seu quarto.
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— Deixe meu querido corvo ali, por favor — pediu Isolde, fazendo um gesto para o canto direito do cômodo em que ficavam, indicando para o servo onde deveria colocá-lo.
— E faça-o direito, entendeu? — disse seu marido, num tom incisivo. Virou-se para a esposa e disse em Hibérico: — Tem que ser mais mandona, Isolde. Essa gente não pode ser relaxada.
A esposa revirou os olhos negros e retirou o xale que cobria a cabeça e os ombros. Dobrou e o deixou descansando na cama. O colchão era enorme e denso, cheio de penas por dentro, coberto por um lençol azul-real. Havia colunas de ébano negro, com entalhes em alto relevo. Um dossel e cortinas roxas cobria o móvel.
O corvo — o qual eles apelidaram de Epona — foi colocado no canto da parede. A gaiola tinha 2 metros e um galho retorcido, onde a ave poderia descansar. Tinha duas tigelas e dois bebedouros, não faltando nada.
— Deixa essas malas aqui — ordenou Agravaine, quando os homens já haviam entrado com a sua bagagem mais simples. Não queria eles vendo o que havia trazido. — Eu e minha esposa arrumamos tudo por aqui, a nosso gosto. Coloquem o restante no closet. De portas fechadas.
Os homens assentiram e foram até o closet, fechando a porta atrás de si.
Isolde estranhou a atitude do marido.
— Por que pediu para fazerem? — indagou ela, enquanto dobrava o xale.
Seu marido deu um dar de ombros.
— Estas duas aqui tem nossas ervas e cristais. Não quero que mexam nas suas ervas e outras coisas — explicou. — Ficam olhando, estranhando… Não, não. Não suporto gente que te julga.
A moça riu e balançou a cabeça. Seu marido sabia ser um clichê romântico brega.
— Deixem que falem — ela disse, indo até uma mala e a puxando pela alça, levando o objeto até a cama. — Afinal, que mais podem eles fazer?
— Podem ir cuidar da vida deles — ele disse, se agachando e puxando um zíper da mala. Pegou um saquinho de plástico que continha folhas e bagas de beladona dentro de uma mala. Ele e a esposa usavam em algumas ocasiões, para relaxar, e para juntar com outras ervas.
Entretanto, ele e a esposa não usavam muito da planta. Pelo menos não em grandes quantidades. Belladona era útil para a saúde — ajudava contra asma, combatia contrações espasmódicas, diminuía secreções, entre outras mil utilidades —; entretanto, também era perigosa se mal administrada.
Sorrindo, ele guardou o saco plástico dentro do bolso da camisa.
Isolde pegou o tapete roxo que seus pais lhe deram e colocou no chão. Botou o cristal em forma de pirâmide cristal no pequeno armário de ébano polido que havia ao lado da cama, junto de uma estátua em miniatura da deusa Lyu-bov, sentada numa meia lua, com olhos de ametistas que contrastavam com a pedra branca. Seu marido pegou um jarro azul-claro e o colocou no aparador do lado oposto. Uma bela peça de porcelana. Ele a comprara em sua lua de mel, em Hibéria. Tinha relevos leves e dourados, que brilhavam conforme se movia.
Isolde pegou um pouco de sálvia e um isqueiro, queimando a borda delas. Ela ergueu a erva no ar, e andou pelo cômodo, fazendo círculos com a mão. A fumaça subia, ondulando, e um cheiro acre tomou conta do local. Seu marido a observou, sorrindo, e abriu as duas enormes janelas de vidro, deixando o ar entrar. Sentiu o ar fresco entrar e bagunçar um pouco seus cabelos espetados. Gostava daquele lugar, era distante e calmo, e fonte de extrema riqueza — a única coisa que estragava tudo aquilo era o fato de ter sua família com ele; entretanto, ele esperava se livrar deles logo.
Após terminar de espalhar sálvia, Isolde foi até a mala em cima da cama e pegou alguns grãos que haviam dentro. Foi até o corvo no canto do cômodo. As asas eram negras como a escuridão, emitindo um brilho azul em alguns locais.
— Feliz, Epona? — a dona indagou.
“Feliz!”, a ave bradou. “”Feliz!”.
A jovem mulher sorriu e jogou alguns grãos para ele. O pássaro de penas escuras grasnou e bateu as asas, pegando algumas sementes no ar. Quando não pegou todas, ele pousou no chão da gaiola e comeu a comida que havia caído ali.
Agravaine foi até ela e passou a mão pela sua cintura. Eles olharam um para o outro e sorriram.
— Você gosta daqui, não é, amor? — ele indagou, olhando o púrpura dos olhos dela.
Isolde gostava daquela mansão, mas sentiu uma energia estranha ao ver a figura mansão, enquanto ainda estava no carro do marido. Tinha algo estranho, mas ela não sabia o que era exatamente. Talvez fosse só coisa de sua cabeça.
Ao invés de falar da estranha sensação que sentia, a companheira de vida de Agravaine apenas assentiu.
— Sim, muito — respondeu. — É uma bela casa. Podíamos ter uma assim.
Agravaine beijou-lhe a bochecha.
— Nós não precisamos fazer uma casa como essa — disse. — Esta está de bom tamanho.
Isolde riu.
— Seu bobo, esta é a casa de Gareth e Helena — lembrou-o. — Claro, talvez eles nos aceitassem aqui, mas é melhor deixar para eles. — a jovem se virou e jogou mais algumas sementes para Epona.
Seu marido observou o pássaro comendo os grãos. Sua esposa estava certa, aquela casa não era deles, mas ele logo faria ser. Afinal, ele e a esposa mereciam do melhor — e ele jurou dar o melhor a sua esposa —, e aquela imensa mansão era do melhor.
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Havia uma porta que conectava os aposentos de Aenor e ao de sua tia. Abrindo-a, dava para o banheiro, e, na parede oposta, havia uma outra porta, que dava para o quarto de Igraine.
— Cuidem do meu quarto primeiro — ordenou Aenor. — Quero falar com a minha tia e o meu sobrinho a sós.
— Na verdade, eu vou tomar um banho antes — mentiu Igraine, antes dos servos partirem.
Os empregados assentiram, deixando as malas de Igraine num canto e indo até o cômodo ao lado, pertencente a Aenor. Quando eles se foram, Aenor assentiu para a tia e esta foi para o banheiro, abrindo a porta do lado da cama. Ao entrar no cômodo, ela abriu as torneiras da enorme banheira branca e abriu as torneiras douradas, deixando-a encher. Abriu três torneiras mais o chuveiro, para que o som da água fosse alto e atrapalhasse.
Quando ela voltou para o quarto, foi até o filho e o segurou pelo ombro com um braço e alisava o cabelo loiro dele com uma mão. O garoto era a cara dele quando era um garoto. Idêntico em cada detalhe. O cabelo era mais pálido, entretanto.
— E então? — ele indagou, olhando para o filho que chamava de sobrinho.
— Agravaine falou que vai cuidar de tudo — ele disse, embora já tivesse dito aquilo antes. — Acho que devemos deixar ele pensar.
Aenor grunhiu ao ouvir aquilo, irritado.
— Agravaine pensa demais e age pouco — ralhou. — Não sei porquê tinha de falar tudo para ele.
— Ele é família, tio — defendeu-se, abraçando a mãe e encostando a cabeça num seio da mãe. Lembrava-se de ter sido amamentado por ela até os oito anos. Era em segredo, é claro, mas sentia saudades, pois fazia-o sentir-se seguro e amado. Teve vontade de puxar o vestido rosa da mãe e expor o seio farto que ali havia, para que pudesse mamar o bico rosado, como quando era uma criança. Sentir o sumo adocicado e maternal do leite dela encher sua boca. Pensar naquilo o fez sentir ter água na boca. Ele passou os braços pela cintura da mãe e a puxou para si, sentindo o calor aconchegante de seu corpo. Mesmo que Helena não o quisesse, e nem a Gwen, a mãe ainda iria amá-lo.
Aquela justificativa não era o bastante para que Aenor estivesse satisfeito. Agravaine não era parte dele. Nascera de dentro de Igraine, um esguicho do seu esperma de Aenor em sua buceta; entretanto, ele era como um erro para seu pai. Com as cores erradas. Não, seu primogênito não era parte da família. Todavia, não podia fazer nada por agora; pois haviam muitas pessoas no ambiente. Não podia se livrar daquela velha caquética que fizera o desfavor ao mundo ao deixar o imbecil do falecido marido dela gozar dentro de sua buceta encardida e parido a inércia em pessoa que era Gareth. Ah, aquela mulher merecia uma surra por tanto desserviço.
— Não gosto de confiar em Agravaine — disse o pai do rapaz. — Ele nunca devia ter sido metido conosco nessa, ainda mais com a esposa dele, à quem ele conta tudo. — sentindo-se irritado com toda aquela irritação, fechou os olhos e apertou dois dedos em volta da raiz do nariz, massageando-a. Respirou fundo e disse: — Que seja. Teremos de lidar com isso depois, agora, estamos em gelo fino. Se fizéssemos algo agora, estávamos fodidos.
Igraine alisou a bochecha rechonchuda do filho, enquanto ele se encolhia com as palavras duro do tio-pai.
— Está assustando a criança, Aenor — ela reclamou. — Deixe que Agravaine cuide disso. Acredito que ele será capaz de resolver toda essa balbúrdia em que nos enfiamos até os joelhos.
Igraine detestava toda aquela situação. Era tudo culpa de seu sobrinho, que insistia em transar com ela. Ele era um homem adulto, mas parecia mais uma criança mimada e carente por atenção. Ele a olhara como um cachorro amuado, querendo atenção e carinho.
Vendo que a tia estava irritada e o garoto amuado, Aenor suspirou e disse:
— Como quiser, minha tia — disse, sentindo-se mal por tê-la irritado. — Desculpem por tudo.
Aenor deu um beijo nos lábios rosados e finos da tia e nos grossos do sobrinho, depois bagunçou seus cabelos, como sempre fazia, sorrindo. Ambrosius havia aprendido que seu tio era mais amoroso e íntimo quando estavam a sós. De noite, ele sempre dividia a mesma cama que ele, junto da mãe, com ambos o abraçando. Mas sabia que eles não podiam fazer o mesmo em público — curiosamente, ele não sabia de nada que envolvesse Agravaine. Seu tio sempre fora distante com o filho, por algum motivo que Ambrosius nunca entendeu.
— Vocês sabem que só quero o bem de vocês não sabe? — indagou Aenor, abraçando os dois. — São tudo para mim.
— Nós sabemos — respondeu Igraine. — Mas deve ir agora, sobrinho. Os empregados logo vão vir e eu devo me banhar.
Os olhos de seu sobrinho e amante brilharam, com o verde de seus olhos cintilando. O rosa de sua íris ficou escuro de desejo.
— Devo banhá-la, tia? — ele indagou, olhando o decote de sua roupa, onde a jóia em formato de coração brilhava.
Igraine ficou irritada com aquilo. Seu sobrinho não aprendera nada com o que houve no casamento?
— Não.
Ela pode ver seu rosto ficar triste com a resposta. Cabisbaixo, o homem ajoelhou-se na frente da tia e esta pousou a palma da mão na cabelereira loira do amante, num sinal de benção.
Quando ele se levantou, foi Ambrosius quem se ajoelhou e curvou a cabeça para o tio, obediente, como se fosse filho dele. Ele percebeu que o membro viriu de Aenor estava duro, mas ignorou e olhou para o chão, sentindo o tio tocar seus xachos loiros e beijar sua nuca, o que fez a sua pele se arrepiar e suas bochechas arderem. Sua barriga também ardeu um pouco. Ele não teve coragem de olhar para o tio até este deixar o quarto.
— Tio Aenor ficou bravo comigo, mamãe — seu filho disse, quando o tio foi embora.
— Seu tio está bravo, apenas isso — ela garantiu. Ergueu o rosto dele e percebeu ele estava com água nos olhos. — Oh, meu nenêm, o que foi?
— Gwen ficou brava comigo — ele disse. — Fui grosseiro com ela.
Igraine franziu o cenho. Não gostava daquela garota; ela ficava respondendo o Ambrosius e chamando a atenção dele desde que vieram. Não gostava dela assim, tão perto da família. Tampouco gostava de Gareth com sua filha, mas teve de aceitar, afinal, a filha não correspondeu aos sentimentos do irmão. Isolde, em contraponto, não lhe incomodava; Agravaine era um homem quieto, parecendo um animal arredio. Ambrosius era mais chorão e precisava mais da atenção dela. Isolde não estava lhe afastando de um filho que ela quisesse.
— Não liga praquela feia, filho — disse para o filho. — ela é chata.
— Ela é legal, mamãe. Eu que fui grosseiro…
Sua mãe lhe deu um olhar irritado.
— Bem, então vá falar com ela — parou de abraçar o corpo dele e foi até a porta que dava para o banheiro.
O rapaz pareceu desconcertado com a reação da mãe, indo atrás dela.
A banheira estaria transbordando, caso Igraine tivesse tampado o ralo. Como não o fez, a água quente só fazia barulho. Uma névoa tomava conta do cômodo, fazendo suas bochechas ficarem vermelhas. Fechou p chuveiro e uma das torneiras da banheira, deixando somente duas abertas. Tampou o ralo, deixando a água se acumular e subir.
— Mamãe, desculpa — disse Ambrosius, como se fosse um garotinho, sendo que já era maior de idade. Ele a abraçou pelas costas, passando os braços pela cintura.
Igraine sorriu, sabendo que seu filho ainda se lembrava de quem ele deveria amar. Aenor também nunca esqueceu. Dalila foi sua esposa, mas ela era seu amor. Era ela em que ele enfiava o pau e queria ter filhos, era por ela quem ele lambia onde os pés haviam pisado. Queria que seu filho fosse assim.
A mulher de quarenta anos se virou, abraçando o filho de vinte, que era maior que ela.
— Oh, meu pequeno menino — ela disse —, você ama a sua mamãe mais do que tudo.
O rapaz assentiu.
— Sim, mamãe — ele respondeu, prontamente. — Você é a melhor mãe do mundo.
Sorrindo, ela o beijou nos lábios, como faz com o pai do rapaz. Sentiu seu filho empurrar a língua para dentro dela, e ela abriu a boca, lambendo-a. Era melecada, agitada, esfomeada. Faminta por amor. As duas línguas se lambendo, como dois vermes inchados e pecaminosos.
Lembrou-se de quando Aenor tinha a idade que o filho deles tinha agora; ele sempre estava pronto para agradar a sua tia, assim como Ambrosius sempre estava pronto para agradar a mãe. Eles não eram como os outros homens na vida dela, que a usavam e a descartavam; eles a amavam. Idolatravam-na. Eram tudo que ela precisava e queria: devoção.
Sentiu seu filho descer as mãos até as nádegas dela e apertá-las. Igraine afastou o rosto do filho, separando seus lábios. Estava sem fôlego.
— Fiz certo, mamãe? — ele indagou, apertando-a contra si. Sentiu os seios fartos dela apertarem-se contra o seu peito. Sentiu seu pau ficar duro, e encheu-se de vergonha, não sabendo se fez algo errado. Talvez fosse, mas sua mãe sempre disse que ele devia demonstrar amor a ela?
— Onde aprendeu isso, filho? — Igraine indagou, vendo seu filho ficar vermelho.
O garoto abaixou os olhos.
— Vi tio Aenor fazer isso com você — respondeu. — E eu já vi Agravaine e Isolde fazerem isso… escondido, é claro, ele não pode saber… E, er, nos filmes que eu vejo, às vezes tem essa cena.
Igraine sorriu. Colocou uma mão sobre a bochecha do filho e afastou uma mecha de cabelo que estava grudada em sua testa, cobrindo os olhos, vendo nele o mesmo sobrinho que lhe apalpava e beijava, de forma desajeitada, não sabendo como dar prazer a uma mulher, mas desesperado para o fazer. Lembrava-se de como Aenor antes ejaculava rápido dentro dela, de forma precoce e irritante. O filho deles claramente seria igual; e ele iria precisar da mãe para guiar ele.
Igraine ergueu a cabeça e sussurrou no ouvido do filho, como uma amante sussurra para o outro na cama:
— Feche a porta, meu benzinho — pediu ela.
O rapaz assentiu e fechou a porta, trancando-a. Igraine fechou a torneira, antes que a água transbordasse. Ambrosius voltou para perto dela, envergonhado, pois o seu falo estava visivelmente empinado por baixo de seu shorts azul.
Sorrindo, a mãe se virou, ficando de costas para o filho.
— Solte o vestido da mamãe, sim? — ela pediu.
Obediente, o rapaz fez o que ela pediu, e desceu o zíper. Igraine o deixou cair no chão e virou-se para o filho. Ele olhou para os seios da mãe, um pouco caídos pelos anos de amamentação, mas ainda fartos e com os bicos empinados. Ele sentiu vontade de apertá-los e botá-los na boca, chupando-os e sentindo o sabor da mãe. Ele olhou para o meio das pernas da mãe, com os pelos loiros cobrindo a fenda que havia ali. Uma vez, ele se lembrava, viu seu tio se ajoelhar na frente da tia, como as pessoas dos templos se ajoelham para rezar, e começou a beijar aquela região, fazendo a sua mãe chorar.
A mulher ergueu uma perna branca e enfiou o pé na água quente. Seu filho segurou sua mão, a ajudando a se equilibrar. Ela sentou-se dentro da banheira. O calor relaxou seu corpo, beijando-a nos lábios de baixo. Deu um gemido de prazer, e fechou os olhos, descansando, deixando seu corpo afundar um pouco mais. Não gostava de pensar na situação em que estava, com aquela sogra nojenta — bem, ela era sua sogra, afinal, Igraine era a mãe de Helena, que estava casada com o filho chato daquela intrometida — sabendo da verdade sobre ela e Aenor. Queria esquecer aquilo. Sentiu a cabeça ficar leve.
Seu filho se ajoelhou ao seu lado, olhando seu corpo nu. Contemplando-a.
— Pegue uns sais de banho, filho — disse Igraine, guiando seu filho inocente.
O rapaz derramou alguns sais na água, que começou a criar espuma na água e exalando um cheiro doce no ambiente. Seu filho pegou um frasco de shampoo e passou nas palmas da mão. Esfregou até começar a sair espuma e levou as mãos até o cabelo loiro de sua mãe, como ela fazia com ele quando era mais novo, fazendo sair espuma de seus fios dourados.
— Mamãe? — seu filho a chamou.
— Hum? — Ela não abriu os olhos.
— O que a Elaine fez a senhora? — ele quis saber. — Tio Aenor disse que ela fez mal a você.
Igraine deu de ombros, quase caibdo no sono.
— Não importa — ela respondeu. — O importahte é que eu sei que você e seu tio vão cuidar disso. Como sempre fazem, não é, benzinho?
— E claro, mamãe.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Gwen achava o cômodo estranhamente imenso. A começar pelo fato de ter um aposento antes do aposento principal. Nunca viu nada assim, nem quando visitou a mansão dos Grynn — na verdade, ela não via sentido em algo assim. Parecia desnecessário.
Não tinha muitas roupas consigo, tendo apenas uma bela camisa amarela, um shorts jeans e uma saia verde, que comprara nas lojas perto da casa de praia de Gareth e Helena.
Que Ambrosius comprou, lembrou-se. Aquilo a fez se sentir um pouco mal por ter se irritado com ele…
Até que logo depois lembrou-se do que ele lhe disse voltou a se zangar. Não queria ver mais aquele metido a playboy tão cedo. Seu padrasto havia lhe avisado sobre ele, antes dela partir.
— Se ele falar mal de você, bata nele — aconselhou, quando a mãe de Gwen não estava por perto. — Com um pedaço de madeira de preferência. — Ele riu. — Brincadeiras a parte, se ele te irritar, você me liga e eu volto pra Gália e dou uma surra com um pedaço de pau eu mesmo. Sério, me avise caso te irrite. Meu sobrinho sabe avacalhar a vida alheia.
O quarto onde ela iria ficar tinha 5 metros quadrados, com duas camas enormes, com colunas de ébano e dossel com cortina para cobrí-las. As duas janelas chumbadas tinham o formato de quadrados coloridos, que enchiam uma parte do chão com arco-íris.
— Nossa, tudo aqui é tão lindo.
A jovem empregada de cabelo ruivo pegou um controle remoto que havia em uma das camas e apertou um botão. Um pequeno zumbido foi ouvido e logo um ar frio tomou conta do ambiente. Gwen não entendia de onde vinha o ar, pois não via qualquer ar-condicionado por ali.
— Vocês podem apertar um botão no painel — disse a empregada ruiva, apontando para um painel amarelo que havia na parede, ao lado da porta — e um empregado virá logo para ver o que desejam. Às dez horas um servo trará café da manhã e preparará uma roupa para vocês vestirem.
Gwen assentiu, sentindo-se uma criança para tanta paparicagem.
A empregada foi até uma porta que havia entre as duas camas. Destrancou e abriu, mostrando um pequeno corredor que terminava em um banheiro cheio de azulejos brancos.
— Aquele é o banheiro — a empregada explicou o óbvio. — Do outro lado, existe um outro quarto igual, caso uma de vocês queira dormir por lá.
— Certo — Gwen disse, sem saber o que exatamente responder. — Obrigada.
A jovem assentiu e sorriu.
— Não tem de quê — respondeu. — Com sua licença, devo ir às cozinhas.
Gwen assentiu — achando que seria o certo a se fazer — e a moça saiu dos aposentos.
Enquanto os serviçais arrumavam o closet com as roupas das jovens — bem, mais a da Eigyr, visto que Gwen quase não tinha —, Gwenhwyfach virou-se para a companheira de quarto, que estava sentada na cama.
— O tio de Ambrosius que vem aqui — ela indagou — é legal?
A jovem de cabelos roxos tirou os olhos da tela do celular e olhou para Gwen, com sobrancelhas púrpuras juntas, fazendo uma expressão de confusão.
— Hum? Ah, o meu primo Brân — deixou o celular de lado. — Sim, ele é legal. Fala muito de livros e filmes, pois tem a chatíssima alma de um cinéfilo, mas é um rapaz legal. Gosto mais dele do que dos meus outros primos. — sorriu. — Bem, Artur é mais legal, mas eu já tive um crush no Brân.
Gwen a olhou, surpresa pela sinceridade da jovem, e arregalou um pouco os olhos. Eigyr riu de sua expressão.
— Ah, não fique vermelha — ela falou, ainda rindi. — Meu primo prefere homens (bem, acho que ele também gosta de mulheres, pois vi como ele me olha, não muito diferente da maioria dos homens), mas já tirei uma foto dele. — a moça pegou o celular e procurou na galeria. Quando a encontrou, mostrou-a para Gwen.
O rapaz era bonito, com um rosto andrógino, com belos cabelos escuros e uma mecha de ouro. Os olhos eram verde-escuros e as bochechas bem cheias e vermelhas, em contraste com a pele pálida. Havia um piercing na testa e outro com duas esferas no canto da sobrancelha direita. Entre seus lábios rosados, havia um cigarro aceso. Entretanto, sem dúvidas, o que mais chamava a atenção — e deixou Gwen ruborescer ainda mais — eram seus seios fartos no peito, com bicos rosados trespassados por piercings, em contraste com o tanquinho definido. As partes íntimas estavam tapadas pela mão do rapaz, que tinha as pernas bem abertas.
— Ele… — Gwen desviou o olhar, sem saber o que falar. — Er, ele é trans? — indagou.
— Não, querida — Eigyr respondeu, voltando a tela do celular para si. — Meu primo é interssexual. — ela lhe dirigiu um sorriso malicioso. — Esta foto foi tirada no ano passado, estávamos curtindo… eu, Artur e Brân… bebendo e dançando, fumando algumas coisas, você sabe. Infelizmente, meu primo não ficou louco o bastante para ter uma noite de transa comigo ou com Artur. Nem me deixar tirar foto do corpo nu. Acho que por que ele tem namorado, sabe?
Gwen se arrependeu de ter puxado papo com aquela garota assanhada. Ignorou tudo que a moça disse e foi deitar-se em sua cama. O colchão era aconchegante. Deitar nele a fez sentir-se relaxada, livrando-se de um cansaço que nem sabia que carregava consigo. Fechou os olhos.
— Se importa se eu usar o banheiro agora, para tomar um banho? — indagou Eigyr. Gwen disse que tudo bem e a moça foi até a porta que havia entre as camas e abriu.
Eigyr trancou a porta por dentro. Ela foi até a banheira e abriu uma das torneiras, fazendo a água correr, e tampou o ralo com uma corrente.
Enquanto a água enchia a banheira, ela foi até a pia, se olhando no espelho. Ainda estava linda. Pousou a bolsa de couro prateado em cima do móvel e pegou o celular e ligou para o primo, tendo que fazer uma ligação internacional.
— Artur, você ainda está posando para alguma revista?
— Hoje é meu último dia, depois estou livre — seu primo respondeu. — E você prima? Como é a vida no campo?
— Muito engraçado — Eigyr colocou a mão dentro da bolsa, procurando uma caixa de comprimidos. — Olha, você devia vir aqui, sério.
— Nha… Não me parece tão interessante assim. Na verdade, nem sei por qual motivo você decidiu ir para aí.
Ela colocou o pote na pia e abriu.
— Acredite, acho que vai ser legal. — colocou a mão dentro do pote e pegou um saquinho com pó rosa. — Brân vai passar por aqui.
— Uau — respondeu Artur com desdém óbvio —, deve ser incrível ouvir ele falar sobre cinematografia e o velho blablabla de sempre…
— Olha, você devia vir — insistiu a moça.
— hhmm… — Artur fez um som pensativo. — Olha, vou ver. Se eu tiver tempo e achar interessante… quem sabe.
Eigyr sorriu.
— Acredite — falou, enquanto abria o pacote de plástico transparente —, eu e você podemos nos divertir um pouco por aqui.
— Sei. Olha, tenho que ir. Tchau, prima.
— Tchau, seu chato — desligou o aparelho e guardou na bolsa prateada.
Eigyr despejou um pouco do pó pálido na pequena pia de porcelana branca. Abaixou a cabeça, tapando uma narina com um nariz e sugando o pó com a outra. Ao sugar, sentiu sua narina esquerda ser cortada e o pó adentrando dentro dela. Um pico de energia começou a aparecer.
Agitada, ela selou o plástico e o botou no pote de remédio. Abriu o espelho que havia ali e colocou o recipiente na pequena prateleira que havia dentro dele. Fechou o espelho.
Balançando a cabeça, sentindo que a droga já ia fazer efeito, Eigyr se dirigiu até a banheira, antes que transbordasse.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
— Sabe eu ficaria aqui para sempre — disse Uther, deitado ao lado de Edmund, abraçando-o.
Eddie sentia uma dor nos rins e nas nádegas, causadas pela fome de amor de seu companheiro. Sentia o esperma que ele esguichou dentro dele escorrer pelos quartos traseiros. Teve que afundar a cabeça no travesseiro, para que ninguém o ouvisse gritar com as estocadas do pau de Uther. Eles estavam cobertos, com o ar-condicionado no máximo — Edmund amava a sensação de frio enquanto estava coberto de forma aconchegante.
— Sim, é um lugar lindo — concordou Eddie. — Uma pena não ser nosso. — virou-se para ficar de frente ao namorado. Sentiu os braços dele o envolvendo. O namorado tinha um cheiro acre, de suor.
— Sabe, nós deveríamos ir para Hibéria — sugeriu Uther, pegando na mão do namorado e entrelaçando os dedos dele. — Já foi para lá, Eddie?
O namorado respondeu com um dar de ombros.
— Acho que sim, mas era muito novo — respondeu. — Não lembro-me direito.
Uther sorriu e beijou-lhe a testa, enquanto a mão alisava o couro cabeludo do rapaz, lustrado de suor, mas bem perfumado.
— Lá é lindo — Uther disse, sorrindo, enquanto se lembrava de seu antigo lar. — As ondas do mar sempre podem ser ouvidas, em um tom calmante, e havia um cheiro de salgado no ar; o céu era lindo de ver, ainda mais no pôr do sol; eu e a minha irmã vivíamos correndo pelas altas escadas do morro, vendo o mar pelas pequenas muradas. — Continuou: — Havia belas barcas do amor por lá, algumas com forma de cisnes.
Edmund sentiu seus olhos pesarem conforme seu namorado falava, se aconchegando em seu peito peludo, arranhando a sua pele. Sentiu o calor de seu corpo, seu cheiro acre e seu batimento cardíaco.
— Parece lindo… — o rapaz disse, enquanto tentava abrir os olhos, mas pareciam pesados demais para ele. Sentia a respiração do peito do namorado de forma lenta. Subindo e descendo, subindo e descendo, subindo e descendo…
— Eu quero levar você lá um dia — confidenciou Uther. — Vou te levar para lá, onde nós ficaremos em uma bela barca de amor, e eu tocarei uma lira para você, enquanto o sol se põem. — prometeu, embora soubesse que Eddie já estivesse dormindo. Beijou a bochecha dele. — Prometo que você vai gostar.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Enquanto os dois pombinhos estavam de chamego em seu ninho, Cai estava sozinho em seu quarto. Edmund havia oferecido dividir o quarto para ele, mas Cai sabia que ele só iria atrapalhar o espaço de amor entre ele e seu namorado. Pelo menos um de nós tem sorte no amor, pensou, com ciúmes do irmão. Não por ter qualquer tipo de interesse em Uther, não nutria nada por ele, pelo menos não amorosamente.
Sentia saudade de Vortigern, mas sabia que ele nem devia estar pensando nele. Entretanto, não conseguia não pensar no ex-amante. Seu cabelo verde brilhoso, sua pele oliva…
Deslizou uma mão para dentro das calças jeans, levando-o até o membro viril entre as pernas e o agarrando. Devia parar de pensar no namorado, afinal, ele não claramente não retribuía os sentimentos de Cai. Mas não conseguia. Sentia falta dele e de seu carinho. Cai havia feito de tudo por Vortigern, todavia, este só soube ser frio com ele.
Irritado e vendo que aquilo não iria lhe satisfazer, Cai largou o pau duro e se levantou. Precisava achar um jeito de saciar-se após lembrar-se do idiota do Vortigern. Bem, como este não estava por ali, teria de ir atrás de alguém que estivesse.
Abriu a porta do quarto e foi até o corredor. Andou por ele, olhando os nichos nas paredes, onde haviam vasos e pequenas estátuas decorando o ambiente. Todos os rostos eram perfeitos, perfeitos demais. Inumanos. Haviam braços de mármore em ambas as paredes, segurando castiçais de ouro com velas perfumadas acesas. O cheiro doce era sufocante.
Cai não precisou andar muito pelo local, pois, quando virou o corredor, viu o rapaz de cabelos verdes. Ele tinha olhos finos e curvados, de cor cinza. Ele parecia não estar fazendo nada, apenas olhando um vaso preto por cima de uma coluna.
— Ei, qual o seu nome? — indagou, chamando a atenção do rapaz. Quando ele o viu, virou a cabeça em sua direção e sorriu.
— É Doyoon, senhor — ele respondeu. — Doyoon Wu.
— Certo, certo — respondeu, sem realmente se importar. — Preciso de você agora.
— Ah, é que infelizmente eu devo…
— Deixe qualquer serviço para depois — cortou. — Tenho a certeza de que a Senhora Elaine pode dispensá-lo de qualquer coisa. — acenou com a cabeça, em direção ao corredor de onde veio. — Anda, vem.
O rapaz sorriu e assentiu.
— Como meu senhor o quiser.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Brân sabia que tinha acontecido alguma coisa enquanto os seus pais estavam no casamento. Sua mãe estava estranha, distraída em um momento, irritada em outro.
— Tem certeza de que quer ir, filho? — sua mãe indagou, mesmo eles estando no aeroporto. Ela só sabia perguntar a mesma coisa. — Não acha melhor ficar?
Brân revirou os olhos, farto daquelas perguntas.
— Deixe o rapaz, Alienor — pediu Ectórios. — Não está vendo que ele quer e vai?
A esposa fez uma cara emburrada.
— Não acho boa ideia — insistiu ela. — Ambrosius é muito bruto, e Agravaine é… — franziu o cenho, tentando pensar em algo, mas não veio nada a sua mente.
— Agravaine parece bem calmo para mim — disse Brân, antes que ela pensasse em algo. — E eu gosto da esposa dele. Foi ela quem me mostrou o Santuário, lembra?
— Claro que eu lembro — ela disse. — Lembro-me de toda aquela cerimônia bizarra deles transando numa mesa. Eu e seu pai até saímos de perto, com toda aquela fumaça azul que agia como um afrodisíaco bizarro. — Continuou: — Eu espero que você e Cormac não queiram casar assim.
O pai de Brân colocou uma mão apaziguadora no ombro de Alienor.
— Você disse que tinha gostado — ele lembrou —, apesar de toda a cena sexual que seguiu. — Ele riu. A fumaça azul do local era tão forte que ele e a esposa haviam transado no quarto que tinham no santuário. Bem, a religião de seu neto e de sua esposa poderia ser tudo, menos chata. Na verdade, era mais interessante que a da Espada Sagrada e suas missas enfadonhas.
Talvez, pensou, eu e Alienor pudéssemos ter tido mais filhos se fossemos dessa fé. Deixou o pensamento de lado, tentando evitá-lo.
— A cerimônia não havia lhe inspirado em algum livro, pai? — indagou Brân, botando um vale na boca e sugando a fumaça adocicada. Expeliu-a pelas narinas e pela boca logo depois.
O pai fez que sim com a cabeça.
— Foi uma cena de “A pérola rara” — falou —; a mãe encontrava as duas filhas transando numa mesa de madrepérola, e, assim, ela descobria a verdade por trás da morte do marido.
Ouvir aquilo fez a pele de Alienor ficar arrepiada, ela se retraiu um pouco.
— Sempre detestei a protagonista desse seu livro — comentou, ajeitando a alça da bolsa. — A mãe sempre foi uma cega a tudo em volta dela.
— Mas esta era justamente a graça, minha musa! — defendeu-se Hector — A mãe vivia ignorando a realidade em que vivia, até que não pôde mais o fazer. É por isso que ela arranca os olhos no final, rasgando-os com as próprias mãos em absoluto terror.
Alienor fez uma careta. Devia fazer tempo que não lia aquele livro, porque não lembrava-se de ser tão cruel.
Brân perguntou:
— Isto foi inspirado naquele conto mitológico em que o cara não sabia que havia casado e trepado com a própria mãe? — pegou o vape e tragou mais fumaça.
Hector fez que sim com a cabeça. Seu filho sempre teve tato para literatura.
— Ainda acho… — começou Alienor.
— Olha — Brân anunciou, pegando a mala pela alça e passando para o seu pai, ficando apenas com a bolsa que levava no outro bolso —, vou ao banheiro e já volto.
Seus pais acenaram com a cabeça e o filho foi para o banheiro.
— Ele deve estar bravo — disse Alienor.
Hector, como todo o bom marido que ama sua esposa, mentiu:
— Claro que não, minha musa inspiradora! Está sendo boba, querida!
Brân não estava suportando sua mãe. Desde que ela voltou, só sabia reclamar e chorar, reclamar e chorar, de novo e de novo…
Alguma coisa aconteceu com ela, ele tinha certeza. Imaginou que ela poderia ter brigado com Aenor, mas seu pai insistiu que era ele mesmo o culpado por sua esposa estar naquele estado. De acordo com ele, sua mãe estava sobrecarregada com a ideia de ter outro bebê novamente, mas acabou guardando muito daquilo para si.
Brân não acreditou naquilo nem por um momento; sua mãe tinha feito tabelas para quando saber estivesse ovulando, ligou para Isolde para conseguir ervas que lhe dessem fertilidade, além dela e de seu marido terem ido até uma empresa de fertilidade. Não, sua mãe queria ter outro filho. Se ela disse o oposto era porque mentiu para o seu fiel marido — que como os próprios protagonistas masculinos de seus romances, tinha coração mole e ouvidos moucos para o que quer fosse contra a palavra do amor de sua vida —; e se ela mentiu, era porque a verdade não era nada boa.
Será que era algo relacionado a Igraine? A Aenor? Talvez a Ambrosius e a Agravaine, visto que ela estava falando deles há alguns instantes? Bem, descartou a possibilidade de ser algo sobre a neta e seu novo marido, pois ela nem sequer os mencionou muito — com exceção de tecer elogios a bela cerimônia de casamento.
O aeroporto não tinha banheiro unissex — algo que Brân obviamente iria preferir —, então ele que entrar no banheiro masculino. Não estava realmente apertado, apenas queria se afastar dos pai, que estavam terrivelmente irritantes desde que chegaram da viagem. Na verdade, nem queria estar com eles no aeroporto, mas eles insistiram em lhe dar uma carona.
Se olhou no espelho que havia no banheiro. Estava bem bonito, com o cabelo amarrado numa trança que caía pelo ombro direito, revelando a orelha esquerda com um brinco.
Colocou a bolsa preta no granito, ao lado da pia. Ele retirou três potes de comprimido e os abriu. O com pílulas azuis ajudava a repor proteínas ósseas, como a osteocalcina, para que ele pudesse manter os ossos e músculos do corpo em bom funcionamento; seu corpo não reproduzia tais proteínas, então ele precisa tomar esses remédios para que pudesse ter boa flexibilidade e resistência óssea, além de permitir mais praticidade em se exercitar. As pílulas amarelas continham hormônios tireoidianos que faltavam em seu corpo. Estes atuavam no metabolismo de seu corpo, adequando os batimentos cardíacos, a pressão sanguínea e resistência muscular. Por último, o pote com pílulas vermelhas, que o ajudavam a melhorar sua concentração, precisava delas para poder ter tantas aulas e ler tantas coisas sem dificuldade sem sobrecarregar o seu cérebro.
Todas aquelas pílulas usavam a geleia real advinda da ilha de Atlas, que possuía características que ajudavam na criação de diversos remédios — elas ainda ajudavam crianças com deficiências neurológicas, como autismo, dislexia, etc…
Brân colocou as duas enormes pílulas e uma pequena — a vermelha era a pequena — na boca e se curvou. Abriu a torneira e bebeu água, engolindo junto das pílulas grossas.
Depois de engolir e fechar a corrente de água, suspirou e se olhou no espelho novamente. Estava ótimo.
Para realçar os lábios, ele pegou um brilho labial no kit de maquiagem e o passou pelos lábios rosados, deixando-os brilhantes.
Enquanto fazia isso, um rapaz saiu da cabine e foi lavar as mãos na torneira ao lado da sua. Ele observou Brân passar brilho na boca. Quando terminou de passar, olhou para o rapaz, através do reflexo do espelho.
— Algum problema, amigo? — indagou.
O rapaz pareceu estranhar sua aparência e olhou de cima para baixo, analisando-o. Ele olhou para os lados, vendo se ninguém estava por perto e olhou novamente para Brân, desta vez, com um sorriso.
— Nada — ele disse. — Só te olhando…
— Hmm, eu percebi — vendo no que aquilo ia dar ele guardou brilho labial no estojo de maquiagem e o colocou na bolsa.
— Sabe, se você estiver interessado…
— Não estou — disse, pegando a bolsa e saindo de perto do sujeito e indo até a porta, saindo dali.
Detestava usar banheiros em lugares públicos. Todos ou olhavam torto para ele, com desprezo, ou o assediavam. Se aquele banheiro não estivesse vazio quando ele entrou, teria saído na hora. Não se sentia seguro perto de um lugar cheio de homens desconhecidos; sabia o tipo de coisa que poderia acontecer com ele.
Por sorte, o babaca lá dentro não o quis agredir, e estava sozinho, mas o olhou com lascívia, dando repulsa para Brân. Sentiu um arrepio subir no seu corpo, tremendo. Seus olhos pareceram estar prestes a chorar, mas ele conseguiu conter as lágrimas, respirando fundo.
Hector viu seu filho vindo e notou os passos agitados. Franziu o cenho.
— Tudo bem, parceiro? — indagou quando o filho chegou mais perto.
Brân forçou um sorriso e assentiu.
— Tudo, só não quis perder a hora. — Mentiu. Não adiantaria falar a verdade, infelizmente, isso só serviria para estressar mais seus pais e dificilmente ia dar em algo — só um bando de manchetes chatas onde vários portais de notícia e ele teria de aguentar um bando de idiotas comentar asneiras sobre ele e sua sexualidade. Odiava ficar quieto, mas estava farto de ler comentários online sobre ele. Lembrava-se de ter visto algumas matérias antigas, datadas de quando ele era uma criança, que falavam de sua “condição” e tentavam expor ele de forma nojenta.
— Tem certeza? — Hector perguntou, parecendo ter dúvidas. — Parece agitado.
— Quase engasguei com os remédios, só isso.
Hector estava preste a questionar a veracidade daquilo que ele dizia quando uma voz feminina surgiu do nada e anunciou que o avião que seu filho ia pegar estava prestes a sair.
— Tenho que ir — disse Brân.
Como um jovem filho obediente, Brân se ajoelhou, e esperou seus pais pousarem as palmas da mão e alisarem seu cabelo preto e brijarem o topo de sua cabeça.
—Amo vocês — Deu um beijo na bochecha do pai e da mãe, e eles deram um beijo nas bochechas vermelhas dele. Pegou a alça da mala no ombro do pai e passou a alça pelo seu próprio ombro e foi até uma trilha de fitas que davam para o seu vôo.
Hector puxou a esposa para si e ambos acenaram para o filho enquanto ele partia, olhando para trás e acenando para eles.
Quando o filho entrou no corredor e sumiu da vista de seus pais, a vista de Alienor começou a ficar borrada e seu beiço tremeu. Ela voltou a sentir as costas formigarem, como quando viu o filho fazer amor com a própria tia. Deu uma fungada e apertou mais o marido. Hector sentiu as lágrimas da esposa molharem sua camisa preta e olhou para ela.
— Alienor? Minha musa, o quê…
— Peça para ele voltar, Ectórios! — ela implorou, olhando para ele com os olhos e rosto vermelhos. Ela agarrou seu braço, fincando suas unhas em seu braço peludo. — Peça para Brân voltar! Obrigue-o! Agora! Faça todos eles voltarem! Algo muito ruim vai acontecer com eles, eu sinto isso!
Ectórios talvez tivesse cedido ao pedido de sua esposa, não suportando vê-la naquele estado deplorável e triste. Era agonizante para ele, fazendo-o sentir uma pontada de dor no peito. Mas seu filho já estava dentro do avião, não voltaria agora, e isso apenas faria uma querela desnecessária entre os três.
— Ah, minha musa, não fique assim — pediu, sentindo ela tremer. — Brân e nossos outros filhos vão voltar logo.
Alienor assentiu, pegando um lenço da bolsa e assoando o nariz com ele. Ela soltou o marido e foi até uma fileira de bancos azuis que havia ali. Seu marido a segurava por uma mãe e passava outra mão acalentadora em suas costas.
Quando a moça se sentou no banco e encostou as costas no encosto pequeno deu um suspiro. Hector se ajoelhou na sua frente.
— Está tonta? — perguntou ele. — Quer uma água? Ou alguma coisa para comer?
Ela respondeu que não com a cabeça, sentindo-se envergonhada pela cena que havia acabado de fazer. Olhou em volta, e viu que poucas pessoas a olhavam; todavia, não tinha dúvida de que aquilo poderia aparecer em algum site de fofoca idiota. Não importava, o que a incomodava não era aquilo. Era o fato de seus filhos estarem na mansão dos Gyonnel, ao lado da vagabunda da sua irmã e os filhos bizarro dela com o próprio sobrinho — ela já não acreditava muito que qualquer um dos filhos de Aenor fossem da falecida Dalila. Claramente eram todos dele.
Alienor perguntou-se o que mais a sua irmã e seu marido eram capazes de fazer. Lembrava-se de seu primogênito dando o chapéu para Elaine, chapéu esse que era ela quem usava, não Elaine. Se seu filho acreditasse que era a sua consogra quem o tinha visto, e acreditasse que isso era uma ameaça aos seus filhos…
— Alienor? — seu marido a chamou, tocando em seu rosto. — O que tem, amor? Diga-me.
Ela balançou a cabeça.
— Só fiquei triste pela partida de Brân, só isso.
Hector franziu o cenho, juntando as sobrancelhas grossas e pretas, não acreditando muito naquilo. Sua esposa nunca ficou nervosa assim, e desde que passara mal na festa de casamento estava agindo estranho. Agira estranho com ele, com o Aenor, e depois, sem entender bem, com a irmã…
Lembrou-se de que a esposa estava à procura de seu filho mais velho antes de voltar abalada para a festa. Pelo que ele sabia, ela não tinha o encontrado, mas Hector nunca soube onde ele estava durante boa parte da festa. Igraine também não estava, lembrou-se. Talvez ela tivesse importunado a irmã… Mas o que a mulher poderia ter feito para deixar Alienor em tal estado? O mais provável era que ela estivesse só acalmando o filho…
Todavia, era claro que havia algo que ele não sabia ali. Talvez Aenor e Brân estivessem certos. Talvez Pellinore estivesse certo também.
— Mamãe não parece o tipo de mulher que iria se dar ao trabalho de fingir querer ter um filho — assegurou seu segundo filho —, talvez ela só esteja confusa, pai. — franziu o cenho. — Não gosto de duvidar das palavras dela, mas ela parecia tão feliz com ideia de cuidar de outra criança… Tem certeza de que não é outra coisa que a está aporrinhando tanto?
Alienor pode ver as dúvidas no olhar do marido. Engoliu seco, sentindo o formigamento nas costas aumentar.
Hector pegou as suas mãos e as alisou com os dedões.
— Minha musa, seja sincera comigo — pediu ele —, tem algo que a está incomodando e você não me falou? Algo que sua irmã ou nosso filho lhe fizeram? — deu um leve aperto nas mãos dela. — Se tiver, eu vou agora mesmo no avião onde nosso filho está e trago aqui, nem que seja arrastado. Depois, eu prometo que mando todos os nossos filhos voltarem.
Alienor respirou fundo. A imagem de sua irmã sendo apalpada por Aenor voltava para a sua mente. Ela não conseguia esquecê-la por nada no mundo. Sabia que deveria falar a verdade para o seu marido. Talvez assim, eles pudessem retirar os filhos da mansão e deixá-las longe de Aenor. Talvez até ajudassem a senhora Elaine…
Entretanto, falar a verdade seria como torná-la real. Seria fazer seu marido sofrer o choque que ela sofreu quando descobriu a profanação que seu filho estava fazendo com a própria tia. E o que aconteceria com a doce Helena? Ela havia acabado de casar, o que seria dela e de seu matrimônio se por acaso acabasse por descobrir a verdade? Gareth se divorciaria? O que seriam dos irmãos dela se descobrissem que eram frutos de incesto? E Aenor, o que Hector faria com o próprio filho se soubesse que ele transara com a própria tia? Ele mataria Igraine por tamanho despudor?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Não. Tinha que ignorar tudo aquilo. Devia guardar para si. Devia lembrar de Aenor como seu doce filho, sempre calado, mas amoroso. Devia apenas lembrar de seu primogênito como ele era: um jovem carinhoso, sem perto de seus pais, mas sempre calado, guardando muito para si mesmo.
— Não tem nada — insistiu Alienor, mentindo na cara do marido, mas dizendo a si mesma que era o melhor para ele. — Só estou triste por nos separarmos de nossos filhos, só isso.
Hector apertou os olhos, estudando o rosto da esposa. Havia nervosismo ali, isso era visível. Ela estava lhe escondendo algo. Algo sério, pois não queria lhe contar nada.
— Certo — Ele disse, forçando um sorriso, dando um tapinha nas mãos dela com os dedos. — Quer comer alguma coisa?
Ela negou com a cabeça.
— Ah, vamos — ele insistiu. — Não quero que passe mal. Coma algo, minha musa, por favor. — sorriu. — Por mim?
Alienor forçou um sorriso.
— Está bem — ela disse. — Se for te acalmar, está bem, querido.
Hector se perguntou: se a esposa realmente estivesse abalada por ele a ter feito querer ter um filho — quando em teoria ele não queria realmente e tinha deixado isso claro para ele — ela estaria assim tão calma em ouvir seu marido dizer que ela deveria fazer algo apenas porque ele assim queria que fosse. Bem, talvez ele estivesse consumindo muitos filmes e livros de detetive, mas tinha um palpite e resolveu seguí-lo.
Hector ajudou a esposa a se levantar da cadeira.
— Vou só ao banheiro retocar a maquiagem e podemos ir a uma cafeteria.
Hector assentiu e deu um beijo na testa dela. Quando ela se foi, sumindo de vista, ele parou de forçar seu sorriso e pegou o celular no bolso. Era um telefone simples, prateado, que abria e fechava. Seu celular era apenas para telefonar, não gostava de videochamadas ou perder tempo mandando mensagens. Foi para os contatos e acessou o número de seu filho Edmund. Enquanto a ligação era feita, com o celular fazendo alguns “bips”, ele foi até uma coluna e descansou o ombro nela, tirando o peso corporal de um pé e o concentrando totalmente no outro.
Uther estava tomando um banho para limpar o suor do corpo e eles se vestirem para o jantar. Edmund, usando um roupão cor de vinho, estava indo compartilhar o chuveiro com ele quando ouviu seu celular tocar. Foi até o aparador ao lado da cama e viu que era seu pai lhe ligando. Apertou o botão para atender e levou o aparelho para a orelha.
— Alô, pai? — atendeu.
— Oi, filho — disse Hector, olhando em volta, para garantir que a esposa ainda estava longe. — Seu irmão já pegou o vôo.
— Ah, que bom!
Hector ouviu uma terceira voz:
— Anda, amor, a água tá boa! — chamou Uther. — Eddieeeee!
— Calma, caramba — ralhou Edmund—, estou falando com o meu pai!
Ectórios riu ao ouvir a conversa.
— Pode ir, mas tenho uma coisa para te pedir antes.
Estranhando aquilo, Eddie franziu o cenho.
— O que é, pai? — indagou.
— Caso veja algo que ache estranho, quero que me diga — mandou. — Não importa o quê seja, nem se você só tem uma leve suspeita acerca do seja-lá-o-que-for que você encontre. Quero que me diga, imediatamente.
Mesmo que o pai não pudesse ver, o rapaz assentiu.
— Está bem, pai, mas por quê? Que houve?
Ectórios olhou em volta. Nada ainda. Sua esposa estava longe.
— Não sei — respondeu. — Pelo menos não ainda. Mas sei que algo anda incomodando a sua mãe e eu quero saber o que é?
— Ela não falou? — ele perguntou, estranhando tudo aquilo. A voz de seu companheiro ecoou de dentro do banheiro:
— Amooooooooooooooooor!
— Já vai caramba! — falou Eddie entre dentes.
— Não, ela não me disse — respondeu Hector, querendo desligar logo. — Na verdade, disse que é outra coisa…
— O quê?
— Não importa — disse de forma incisiva. — Olha, eu tenho de desligar. Só fique de olho no seu irmão mais velho e em sua tia. E nos seus sobrinhos, caso note algo estranho neles. — Concluiu: — Mas lembre-se, não fale nada para ninguém e não faça nada. Não investigue, apenas olhe e me diga caso note algo.
Edmund tinha mil questões para fazer ao pai, mas sabia que ele tinha de encerrar a ligação, então tudo que disse foi:
— Está bem pai. Te amo.
Hector deu um sorriso triste. Sentiu vontade de estar perto do filho para poder abraça-lo.
— Também te amo, filho. Lembre-se disso — e desligou.
Quando guardou o celular no bolso viu a esposa indo até ele. Eles deram trocaram um beijo e ela disse:
— Vamos?
— Claro — ele respondeu, enganchando o braço no dela e a levando até uma cafeteria que havia logo ali.
Edmund largou o celular no aparador e sentou-se no colchão. O que havia acontecido com a sua mãe? Aenor e Igraine haviam lhe feito algo? Ou foi algum de seus filhos?
Se tivesse que apostar, apostaria em Ambrosius. Talvez ele tivesse magoado Alienor — talvez por alguma querela que ela estava tendo com a mãe dele. Talvez ele a tenha agredido? Ele teria coragem — ou talvez imbecilidade e impulsividade— para tal?
— Eddie! — chamou Uther.
Sobressaltado pelo grito, Edmund suspirou e se recompôs. Retirou o roupão e foi até o namorado, ainda pensativo.
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