Gwenhwyfach acordou no colchão que dividia com a sua irmã, na cama ao lado, encontrava-se seu padrasto e sua mãe, com sua pequena irmã, gwyneth, dormindo entre eles. O ronco de sua mãe e de Pellinore eram mais ensurdecedores que o choro de sua pequena irmã. Ela se perguntou como sua irmã mais nova parecia a única que não parecia ser atingida pelo som alto.

A jovem se levantou, tentando não acordar a irmã, colocou uns chinelos, e foi até a porta.

Ao descer as escadas, ela encontrou o filho da tia de Helena, Ambrosius — ou era Ambrose? —, carrancudo, sentado no sofá e de cueca. Ele estava comendo cereal com açúcar e leite. Era um jovem bem bonito, com lindos olhos rosa escuros e um queixo quadrado duplo, com uma fenda no meio, mas a careta em seu rosto o deixava feio.

Gwenhwyfach inicialmente ficou envergonhada ao ver o rapaz seminu, mas ele pareceu nem se importar ao vê-la.

—Bom dia —Disse Gwenhwyfach, se aproximando dele. —Sobrou um pouco disso para mim?

O jovem carrancudo olhou-a por um tempo até responder.

—Sim, pode pegar —Ele pegou a caixa de cereal e passou para ela.

Ela agradeceu e pegou uma tigela azul e uma colher no armário da cozinha e uma caixa de leite na geladeira. Após remexer o cereal no líquido, ela foi até o sofá.

—Você é uma das enteadas de Pellinore, né? —Ambrosius perguntou —Uma das três Gwens, certo?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Sou a Gwen do meio — Ela brincou. —Você é filho da tia-avó de Helena, não é? Ambrose, certo?

— Ambrosius —Ele a corrigiu, franzindo o cenho.

— Desculpe — Gwenhwyfach tomou outra colherada. — Você vai comigo para a mansão de Gareth?

O jovem anuiu, dando outra colherada cheia no cereal.

—Eu, Agravaine e Isolde. — Ambrosius explicou. —Vamos ficar lá durante o verão. —Ele olhou para a tigela dela, vendo que estava mais cheia que a dele. —Podemos dividir? A minha já está acabando.

Gwenhwyfach deu de ombros, deixando Ambrosius despejar o conteúdo de sua tigela na dela. Após isso, ele deixou a tigela vazia dele na mesinha e colocou a colher dele na tigela da jovem, pegando um pouco mais de cereal para si.

—Já esteve lá antes? —Gwenhwyfach perguntou, mexendo o leite com a colher.

Ambrosius fez que sim com a cabeça.

—Sim, umas duas vezes. É uma enorme mansão, mas mais parece um castelo negro de tão grande. É cheia de janelas, chifres de animais, e tapeçarias de ouro e prata... Coisas assim.

Gwenhwyfach tomou uma colherada de leite com cereal, depois de mastigar e engolir, ela perguntou:

—Minha nossa, parece um palácio. —Ela disse, lambendo o conteúdo da colher —Deve ser de tirar o fôlego!

Ambrosius assentiu com a cabeça, enquanto mastigava um pouco de cereal. Gwenhwyfach viu seu gogó descer e depois subir, conforme ele engolia.

—Alguém tedioso como Gareth tinha que ter algo para compensar a falta de personalidade. —Disse o jovem loiro, fazendo mais uma colherada de cereal.

Gwenhwyfach sentiu um pouco de leite escorrer pelo canto da boca e limpou com as costas da mão.

—Não gosta de Gareth, não é? —Ela perguntou, curiosa, lembrando de como ele parecia carrancudo durante toda a cerimônia. —Por que?

Ambrosius a olhou como se estivesse bravo com a pergunta e deu de ombros.

—Eu sou obrigado a gostar dele por acaso? Aquele ruivo é uma porta, Helena merecia alguém melhor, com mais personalidade.

—Minha mãe diz que toda mulher merece alguém que a trate bem.

Ambrosius deu um sorriso malicioso.

—Por isso ela é divorciada, então?

Gwenhwyfach franziu o cenho, irritada.

—Não sei, talvez seja por isso que Gareth está numa cama de algum resort na ilha de Atlas ao lado de Helena, enquanto você aqui chorando como um personagem de filme melodramático?

A cara de ódio de Ambrosius foi tão assustadora que Gwenhyfach achou que ele iria cuspir nela ou até lhe dar um soco.

Ao invés disso, ele apenas apertou as mãos de seis dedos e se encostou no sofá, emburrado.

Gwenhyfach deu de ombros e continuou aproveitando o cereal com leite.

—Tem sorvete? —Ela perguntou, enquanto tomava outra colherada.

Ambrosius deu de ombros, sem falar nada.

—Que tal você pegar um pote? —Ela sugeriu — Para combinar com essa sua fossa aí.

Ambrosius deu um grunhido irritado, como se fosse um cachorro zangado.

—Olha, nós vamos passar o verão inteiro juntos, então é melhor a gente não começar a se odiar antes mesmo de ir para a as terras dos Gyonnel.

Ela achou que ele ia fingir que nem estava lhe ouvindo, mas, ao invés disso, o jovem loiro se levantou e foi até a geladeira, onde pegou um pote de sorvete de chocolate e creme. Gwenhwyfach sorriu quando ele pegou uma colher em forma de concha para fazer algumas bolas de sorvete e jogá-las dentro do pote com cereal. Após derramarem calda de chocolate e granulados, eles voltaram a comer.

—Depois de terminarmos, quer dar uma volta na praia? —Ambrosius sugeriu, com os lábios e o queixo sujos de sorvete.

Gwenhwyfach engoliu o sorvete que estava em sua boca e respondeu:

—Não sei… não trouxe nenhuma roupa de banho. —Como eles só teriam a festa de casamento e iriam embora no dia seguinte, a família de Gwenhwyfach não viu motivos para trazerem mais do que duas ou três roupas para cada pessoa. Já seria difícil conseguir roupas para quando fosse permanecer na mansão de Gareth.

—Então damos uma volta —Ele sugeriu—, afinal, não quer perder um sol desses, né?

Gwenhwyfach pensou um pouco e fez que sim com a cabeça. Ele estava certo, ela não queria desperdiçar uma bela paisagem enfurnada na casa de praia.

—Seu nome é Gwenhwyfar, não? —Ambrosius perguntou, mexendo o leite com a colher de prata.

A jovem de cabelo azul balançou a cabeça, negativamente, enquanto lambia o conteúdo na colher.

—Gwenhwyfach —Ela corrigiu—, Gwenhwyfar é minha irmã mais velha.

Aquela que todo mundo ama, pensou irritada. Ficara feliz ao saber que suas irmãs não iriam ficar com ela e voltar para Bretanha Maior; as duas já tinham atenção o bastante da mãe, do padrasto e de todo o resto.

—Posso te chamar de Gwen? —Ele perguntou, passando a língua rosada nos lábios, para degustar do chocolate e creme.

—Geralmente a minha irmã é chamada de Gwen —Ela explicou —Pois nasceu primeiro e geral chamava ela assim antes de eu e Gwyneth nascermos.

Ambrosius sorriu, com o dente e as bochechas todas meladas de chocolate.

—É, mas não é ela com quem vou passar o verão, não é?

Gwenhwyfach sorriu, sentindo-se corar ante o sorriso largo do rapaz, mesmo sem saber entender o porquê.

—Certo —Ela disse, afastando uma mecha do cabelo azul que estava muito perto de seu olho esquerdo. —, vai ser Gwen, então. —Ela esticou a palma da mão, indicando que ele deveria apertá-la, como se fosse um acordo real.

—Prazer, Gwen. —Ele disse, de forma zombeteira, esticando e apertando a mão da jovem.

Ela não comentou nada dos meus seis dedos, pensou Ambrosius, se sentindo feliz ao perceber isso.

Igraine acordou ao sentir seu sobrinho lhe dar alguns beijos no pescoço, afastando o seu cabelo prateado com pontas cor-de-rosa para beijar sua pele de porcelana. Ela sorriu, ainda de olhos fechados, e levou uma mão ao cabelo cacheado de Aenor. Acariciou os fios de ouro de seu amante, pressionando-o contra ela, indicando que ele devia continuar beijando-a e lambendo-a. Ela sentiu a língua de seu sobrinho de baixo para cima em seu pescoço, subindo até sua bochecha, e depois indo para sua orelha, onde ele mordiscou e deu uma rápida lambida. Igraine deu um gemido de prazer.

Aenor passou uma mão em volta do seio dela e deu um apertão, sentindo-o ficar duro ao seu toque.

—Bom dia, tia —Ele sussurrou, enquanto massageava o seio de Igraine.

A tia se virou, ficando de costas para baixo no colchão, deixando o corpo nu exposto.

—Bom dia, meu lindo sobrinho —Ela respondeu de volta, sorrindo.

Aenor, como um sobrinho obediente, beijou sua tia nos lábios, entrelaçando sua língua com a dela. Ele a tomou nos braços, abraçando-a com força; como quando ele era mais jovem e ela o guiava pelas artes do amor. Quando ele afastou seus lábios, afundou um lado do rosto no peito de sua tia, deixando-a acariciar o louro de sua cabeça. Ele fazia isso desde que era um garotinho, sentindo-se aconchegado quando estava com ela. Aenor sempre se sentia mais amado quando estava com a tia do que quando estava com a mãe ou o pai; eles não o amavam como Igraine.

—Quer que eu faça seu café da manhã, tia?

Igraine assentiu.

—Sim, seja um bom sobrinho para sua amada tia, Aenor.

Aenor deu um último beijo nos lábios dela e se levantou da cama. Gostaria de ficar mais, mas sabia que alguém logo poderia entrar a qualquer momento e vê-los juntos. Não, ele cometeu um erro no dia anterior, teria de se controlar até ficarem a sós novamente. Até lá, teria de agir apenas como um amável sobrinho qualquer, não como ele realmente era.

Num mundo justo, pensou Aenor, eu poderia admitir amar a minha tia como ela deve; como se fosse minha esposa. Podia casar com ela, ao invés de ter de esconder nosso amor.

Ao descer as escadas, viu seu filho Ambrosius e a enteada de Pellinore, lambuzados de sorvete. Seu filho estava com leite pingando de seu queixo. O chocolate em suas bochechas gorduchas lhe dava a aparência de um enorme bebê rechonchudo.

— Bom dia, tio. —Disse Ambrosius ao ver Aenor. — Dormiu bem?

Aenor acenou com a cabeça, para indicar que sim; entretanto, era mentira, pois não pode passar a noite fazendo amor com a tia. Não ajudava sua filha estar casada e longe dele.

Papai tem razão, pensou de forma reflexiva, não existe nada mais triste do que ver seus filhos crescerem e se afastarem. Lembrava-se que seu pai chorou quando eles se despediram no dia em que Aenor deixou a Bretanha. Doía lembrar-se daquilo.

O jovem lambusado de chocolate se levantoi do sofá e se ajoelhou, com a cabeça inclinada, pedindo a benção do tio. Aenor fez o que ele queria, tocando-lhe a cabeça loira e depois lhe deu um beijo.

—Vocês querem algo para comer? —Aenor perguntou aos jovens lambuzados, enquanto se dirigia a cozinha.

Os dois jovens no sofá balançaram suas cabeças e Ambrosius disse que não precisavam.

—Por que não deixa algum empregado fazer seu café, senhor Aenor? —Perguntou Gwenhwyfach, tentando ser mais "formal", pois não era próxima do pai de Helena; ele era quieto e distante, enquanto alguns de seus irmãos eram como primos para ela –principalmente pela idade próxima a dela.

Aenor a olhou e deu de ombros, pegando um pote de morangos.

—Gosto de servir minha tia de manhã. —Ele explicou, tirando um pote de morango da geladeira.

— Ah, que fofo — Gwen comentou, sorrindo. —Queria eu ter alguém assim, minha mãe diz que um homem que te dá comida é para casar.

Aenor riu.

—Do jeito que meu irmão a olha, garanto que ele também deve fazer o café da manhã dela. —Pegou um pouco de açúcar e derramou sobre a montanha de morangos.

Gwen aquiesceu.

— Sim, geralmente ele é quem faz nossa comida, antes de ir trabalhar.

Aenor acenou, sem olhar para ela, colocando uma faca de manteiga dentro do pote de mel.

— Eu sempre ensinei os meus filhos a tratar bem as pessoas que eles amam. — Aenor disse, colocando tudo numa tábua. — É sempre bom tratar bem quem a gente ama.

Gwen assentiu.

— Sua esposa deve ter sido muito bem tratada, tio Aenor.

Aenor franziu as sobrancelhas e ergueu a cabeça para olhar a jovem, sem entender o que ela quis dizer.

—Desculpe? —Ele perguntou.

Gwenhwyfach levantou as sobrancelhas azuis, surpresa que o homem não tivesse lhe entendido.

—Sua esposa. —Ela repetiu —Dalila, certo? Não era esse o nome dela?

—Ah —Aenor por um instante tinha se esquecido dela. —Sim, minha falecida esposa. —Ele abaixou a cabeça, vestindo uma falsa cara de dor, que não lhe pertencia de verdade; a essa altura, já estava acostumado a fazer isso —Desculpe, é que não falo muito dela… É muito doloroso para mim.

Gwen se sentiu uma idiota. Suas bochechas começaram a ficar vermelhas.

—Oh, eu sinto muito —Ela disse, sem saber o que falar para ele —, não quis ser indelicada.

Aenor fez um gesto com a mão, indicando que estava tudo bem.

—Está tudo bem, Gwenhwyfach —Ele respondeu, pegando as laterais da tábua de madeira com as mãos e a erguendo. —Não se sinta mal.

Quando o homem subiu as escadas, Gwen se virou para encarar Ambrosius.

—Me sinto uma idiota!

Ambrosius abanou a cabeça.

— Não se sinta —Ele disse, tentando acalmá-la. —Meu tio não fala muito da esposa… —Ele franziu o cenho ao pensar na estranha reação de Aenor —Admito que é um pouco estranho ver ele assim; ele nunca fala dela, mas as poucas vezes que vi falar dela era quase que com desdém.

Gwen estranhou aquilo, mas imaginou que talvez fosse uma forma de lidar com a dor, afinal, Aenor era um homem quieto, mas pareceu-lhe ser amoroso com sua tia e a sua filha. E lembrava-se de seu padrasto dizendo que seu irmão sempre tratou bem a esposa.

— Vai ver ele só não gosta de lembrar muito dela — Gwenhwyfach sugeriu. — Desde que minha vó morreu há uns anos, demorou para minha mãe querer voltar a falar dela.

Talvez seja por isso que falamos tão pouco de meu pai, pensou Gwenhwyfar, mas nada disse sobre isso. Preferia não falar do pai.

Ambrosius assentiu, enchendo a colher com sorvete e levando para a boca.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Aenor fez o prato que sabia que sua amada tia gostava; bolachas com manteiga, um pote de mel e alguns morangos. Ele era um bom sobrinho e sempre dava o que sua tia Igraine queria.

Enquanto se dirigia até o quarto, uma porta se abriu e, em instantes, como se soubesse que ele estava passando por ali, sua mãe saiu de dentro, se colando na frente do caminho do filho.

Aenor parou abruptamente, quase se assustando com a figura que surgiu na sua frente, fazendo os talheres, pratos e comida tremerem.

— Mãe? — Ele perguntou, sobressaltado. —Está tudo bem?

Alienor tentou parecer calma e dar um sorriso, mas pareceu um largo sorriso branco e até um pouco simples sinistro.

—São para Igraine, não são? —Ela perguntou, vendo a comida que ele havia preparado. —Oh, como você é um bom sobrinho!

Aenor estranhou o jeito que sua mãe estava agindo.

— Sim, temos feito isso… — Respondeu, desconfortável com a situação.

O pai de Aenor saiu de seu quarto, com um roupão cor de vinho.

—Está tudo bem? —Ectório perguntou aos dois, mas olhando para Alienor, com cenho franzido, estranhando que sua esposa simplesmente ficou bisbilhotando a porta e saltando do quarto abruptamente.

Alienor deu o mesmo sorriso forçado que tinha dirigido ao seu filho pouco antes.

— Tudo! —Ela disse, com a voz fina. —Só estava falando como nosso filho é bom para a minha irmã; dando-lhe comida na cama, veja só! Que mulher não ia querer isso?

Seu marido a olhou como se tivesse dito a coisa mais sem sentido de todas.

—Que bom…—Ela estava insinuando que ele não fazia isso? Pois ele também lhe servia um pouco de café da manhã…

Alienor estendeu as mãos para a tábua nas mãos do filho, inicialmente, Aenor ficou um pouco apreensivo, mas logo deixou a mãe pegar.

—Por que não desce com seu pai, filho? —Disse Alienor —Eu quero falar com a minha irmã.

Aenor franziu o cenho, mas assentiu. Quando a mãe passou por ele, virou-se para o pai e se ajoelhou no chão e inclinou a cabeça para frente, esoerando a benção de seu pai, como um bom filho. Hector riu, feliz que seu filho ainda tinha uma boa educação. Pousou a mão na cabeça do filhos, depois se curvou e beijou-o no topo da cabeça.

Aenor se levantou e seu pai passou um braço amigável por cima de seu ombro e eles foram até as escadas.

Quando desceram, viram Gwenhwyfach e Ambrosius, tirando pedaços de papel de um rolo de papel toalha, limpando a lambança no rosto. Ectório sorriu ao ver os dois.

— Boa sorte a senhora Elaine, ela vai precisar de muita para cuidar de vocês dois —Ele brincou, enquanto caminhava em direção a cozinha com o seu filho.

Aenor sentou-se em um banco em frente a mesa de granito da cozinha, que era colada na parede. Hector foi até um armário, procurando café em pó e açúcar.

—Cadê os empregados? —indagou Aenor. —Tenho certeza que ainda sobrou algum…

Ectório balançou a cabeça, em um gesto que indicava que não era necessário. Ele achou o café em um pote de vidro e o retirou do armário.

—Deveria ter empregados —Reclamou Aenor —Gareth claramente tem dinheiro!

Seu pai revirou os olhos.

—Ora, deixe de ser chato, filho —Ele o censurou. —Você sabe que eles foram embora.

Aenor bufou, visivelmente irritado.

—Que tipo de pessoa não deixa empregados para a família?

—Bem, você nem tem empregados, mesmo tendo dinheiro para isso!

—É diferente!

—Se você diz…

—É o que eu digo!

Hector balançou a cabeça. O próprio Aenor lhe avisara que não haveria empregados, afinal, a casa não era grande o bastante e todos saíriam no dia seguinte; ele mesmo havia concordado. Seu filho simplesmente detestava o genro e usava qualquer coisa para falar mal dele.

—Tio Aenor —Disse Ambrosius, indo até a cozinha. Seu rosto ainda tinha uma mancha de sorvete. —Tem algum dinheiro para emprestar? Eu e Gwen queríamos ir para a praia, mas ela está sem maiô. Talvez tenha alguma loja por aqui para a gente comprar.

—Tem uma piscina logo ali —Lembrou Aenor. —Não precisam sair.

Hector derramou a água na cafeteira e apertou o botão vermelho, para ligar a máquina.

—Dê logo o dinheiro, Aenor —Disse Hector. —A garota vai nadar de calcinha e sutiã por acaso?

Aenor pegou a carteira e tirou algumas notas amarelas de dinheiro. Era pelo menos duas de duzentos, bem mais do que o necessário.

—Peguem mais —Ele estendeu as notas amarelas para o sobrinho —, para comprar um sorvete.

Ambrosius pegou as notas da mão do tio e agradeceu.

—Fica de olho no troco, hein? —Ele avisou, bagunçando o louro do sobrinho, de forma brincalhona.

Gwenhwyfach olhou as notas e ficou apreensiva.

—É muito… —Ela disse, não estando acostumada com receber notas de valor tão alto.

Aenor fez um gesto com a mão, indicando que ela não devia dar importância.

—Minha mãe não vai gostar. —Ela disse, mordendo o lábio —Talvez eu deixe para nadar outra hora…

—Ah, vamos, Gwen! — Insistiu Ambrosius. —Não vai querer perder essa!

A jovem ainda se mostrava incerta. Queria muito ir, mas sabia que sua mãe não ia gostar dela pegar dinheiro dos outros e sair assim.

—Vá, Gwen —Disse Aenor, sorrindo. —Divirta-se. Acredite, não tem problema. Deixe que eu me resolva com a sua mãe.

Se deixando levar, ela assentiu.

—Vou só pegar uma roupa melhor, aí podemos ir —Ela disse.

—Eu também —Disse Ambrosius.

Os dois jovens subiram as escadas, fazendo as batidas dos pés ecoarem nos degraus.

—Acho que Ambrosius arrumou uma amiga, finalmente — Brincou Hector, tirando a jarra de vidro da cafeteira. —É bom para ele.

Aenor acenou, enquanto via o pai encher o copo dele e o seu com café preto.

—É, é raro ele se dar bem com alguém assim —Aenor pegou na asa do copo e o levou até os lábios. Franziu os lábios e assoprou a fumaça do líquido escuro para longe; para poder dar um gole. O café era forte, sem açúcar nenhum, como ele gostava.

Hector pegou uma colher e abriu o açucareiro, derrubando três colheradas pequenas no copo. Ao afundar o talher, fez um fino redemoinho ao girar a colher. Quando terminou, bateu o talher nas bordas do copo, para respingar o líquido no copo.

—Mamãe está bem? —Aenor perguntou, depois de tomar um gole de café. —Parecia estranha.

Hector terminou seu gole e pousou seu copo no granito, suspirando.

—A culpa é minha —Disse ele, com um semblante triste.

Aenor franziu o cenho.

—Por que? O que fez?

Hector coçou a nuca, como sempre fazia.

—Bem, eu queria ver se poderíamos ter outros filhos. —Ele disse —E achava que ela também… —Se sentiu embaraçado demais para continuar.

— Mas…? —Disse Aenor, instigando-o a continuar.

—Mas ela aparentemente não queria —Ele revelou. — Ela deve ter ficado mal em me contar isso, e, bem, nós estávamos sempre tendo que cuidar dos nossos outros filhos, fizemos tabelas para quando ela estivesse… —Se sentiu ruborescer. —Você sabe…

—Ovulando —Disse Aenor, remexendo a caneca de café e dando outro gole. —Não é nenhum bicho de sete cabeças, pai. Agravaine já devia saber o que é isso aos 14 e eu sabia disso antes dele; escola serve para isto. Você mesmo

Hector assentiu, ainda sentindo o rubor queimando suas bochechas. Era estranho falar de assuntos assim com o filho.

—Sim, isso. Ovulando. —Ele prosseguiu. —E ontem ela passou mal, e eu pensei que ela poderia estar grávida.

—E ela está? —Aenor perguntou, bebericando mais um gole forte.

Seu pai fez que não com a cabeça.

—Não. Ela passou mal ontem, mas não por isso; acho que ela simplesmente estava mal com toda a pressão de cuidar de algumas crianças, o casamento, e a ideia de que eu a estava forçando a ter outro filho já tendo passado da idade... —Ele balançou a cabeça e mexeu um pouco seu copo de café, criando algumas pequenas ondas negras. —Me magoa pensar que a obriguei a isso. Digo, somos casados há décadas, ela não confia em mim? E como não pude perceber que fiz mal a ela? Me sinto um imbecil, Aenor. Niniane tem razão, eu sou um sonhador idiota.

Aenor balançou a cabeça.

—Pai, a mãe é uma mulher totalmente apaixonada por você, eu sei… Mas tem certeza? Eu não acho que ela abaixaria a cabeça e deixaria você fazer o que ela não quer, ainda mais sendo algo tão particular assim. —Ele deu um longo gole de café, quando terminou, limpou os lábios com as costas da mão, o que seu pai achou rude, mas nada disse sobre. —Ela não iria querer passar pelo parto novamente se não quisesse.

Hector deu de ombros.

—Também pensei assim —Ele disse —Mas, não sei… Acho que fui muito insensível. Podia jurar que ela também queria, mas devo ter apenas me iludido; pensei no que eu queria, e não no que ela queria. — Suspirou. — Já estou velho; meus filhos são você e os seus irmãos. No máximo, posso chamar algum personagem dos livros que eu escrevi de filho. — Ao falar aquilo, sentiu-se um homem medíocre.

Aenor colocou uma mão no ombro do pai.

—Vai dar tudo certo, pai, acredite. —Ele se levantou, indo pegar mais café —A mãe te ama, e, qualquer coisa, vocês podem adotar uma criança mais crescida. Não tem de começar do zero.

Hactor balançou a cabeça.

—Não, filho —Respondeu Ectório —Eu também pensei nisso, mas a verdade é que acho que já estou velho demais para ser cuidador de crianças novamente. Brân, Balan e Balin são meus últimos filhos. De agora em diante, só eles, meus netos e meus futuros bisnetos me importam.

Aenor deu de ombros e pegou a jarra com café.

—Bem, você e a mãe é que sabem —Ele terminou de encher o copo e encaixou a jarra de vidro novamente na cafeteira. —Eu também iria querer ter mais filhos, se Dalila estivesse viva.

Hector acenou com a cabeça, mostrando que entendia. Aenor se sentou no banco novamente.

—Entendo, filho —Disse Hector —Deve ser difícil não ter Dalila novamente com você. Ficar sem a pessoa que ama é difícil; eu mesmo acho que morreria se perdesse sua mãe.

Aenor sorriu.

—Oh, sim, pai —Ele assoprou o vapor do café—, mas eu dou meu jeito.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

— Aenor a tem paparicado, pelo que vejo, irmã — Disse Alienor, mostrando a tábua com morangos azuis e vermelhos.

Igraine enrubesceu. Quando sua irmã entrou no quarto há apenas alguns instantes atrás, ela virou-se sorrindo, achando que era Aenor; quando percebeu que era Alienor, seu sorriso morreu e ela se cobriu rapidamente.

— Oh, sim. — respondeu Igraine, pegando um morango para si. — Ando muito, muito cansada por ter planejado o casamento, sabe? — afundou o morango vermelho no mel e o comeu.

— Pensei que Aenor tivesse cuidado disso. — Respondeu Alienor, mordendo um morango azul e sentindo o açúcar fazer sua língua saltitar.

— Ah… — Deu um sorriso sem graça. — É que homens não podem cuidar desses festejos, sabe? É algo muito… feito para mulheres planejarem!

— E Elaine? — indagou Alienor, de forma despreocupada, terminando de comer o morango.

Vendo que estava se perdendo, Igraine afundou a cabeça loura no travesseiro.

— Ela é muito velha — Disse, um tanto seca. — Não sabe nada dos casamentos atuais! Helena é uma moça jovem, enquanto a sogra é alguém mais… Antiquada.

Alienor assentiu. Enquanto pegava um dos guardanapos no prato e tirava o mel dos lábios rosados.

Como ela é dissimulada, pensou. A irmã parecia um tanto nervosa, mas nem de longe estava tão nervosa ou envergonhada quanto deveria. Aquela mulher tinha dormido com o próprio sobrinho bem debaixo do nariz da própria irmã e nem sequer parecia se importar!

— Certo, certo… — Ela concordou com a irmã mais nova, colocando o guardanapo de lado. — Ouvi que a enteada de Pellinore vai passar um tempo na mansão de Gareth.

A irmã a olhou surpresa.

— Ah, vai? — indagou. — hmm… Sim, acho que Pellinore pediu para Aenor, ou algo assim… Nem prestei atenção.

Alienor arqueou uma sobrancelha.

— Você nunca foi de prestar muita atenção nas coisas mesmo.

A mulher nua franziu o cenho, juntando as sobrancelhas pálidas e finas, quase invisíveis.

— Você fala como nossa mãe. — Reclamou.

A irmã mais velha fez um “humpf!” e disse:

— E você me dá razão para tal, Igraine; devia ser mais cuidadosa com as coisas, não deveria ser tão desleixada, tão…

— Ora, por Deus, que deu em você? — Perguntou Igraine, irritada com o sermão da irmã. — Mal é de manhã e já está a reclamar como se fosse a velhata da nossa mãe! — Deu uma risadinha amarga com a irritação no rosto de Alienor. — Seu marido não tem te comido ou só está “naqueles dias”, irmã?

Alienor abriu um pouco a boca, ofendida com o linguajar da irmã.

— Sinceramente, Igraine — reclamou. —, eu esperava um comentário tão esdrúxulo desses vindo de algum homem, mas não da boca de minha própria irmã!

Igraine deu uma leve risada, pegando outro morango. Mordeu a ponta do fruto vermelho, saboreando o sabor doce.

— Ah, como você é chata irmã! — Disse, divertida. — Fica com esses comentários difíceis e agindo como se fosse a rainha da bretanha!

Alienor respirou fundo. Não ia se deixar levar pela irmã; ela sempre fora mimada pelo pai, enquanto Alienor sempre tinha que cuidar dela e ser a menina educada.

— Sinceramente, Igraine — Disse Alienor —, eu vejo bem o porquê de Ambrosius ser um jovem tão aviltante.

A moça de cabelo de prata não sabia o significado da palavra, entretanto, não precisava conhecê-lo para entender o que a irmã mais velha queria dizer.

— Não quero ouvir você falando do meu filho. — sibilou, irritada. — Eu cuido dele, não você.

— E que belo trabalho tem feito…

— Alienor — cortou-a —, estou lhe avisando…

— Só faltou Ambrosius agredir Gareth ontem! Que tipo de filho tem criado?

A moça nua se permitiu corar e abaixou os olhos.

— Ele tem um amor pela prima, só isso.

A mulher mais velha revirou os olhos cor-de-rosa.

— Ele já é crescido, por Deus… — Rebateu Alienor. Você e Aenor deveriam cuidar melhor do temperamento daquele rapaz mal educado!

— Meu filho não é mal educado! — respondeu, ofendida com as palavras da irmã.

— Só é bruto e não tem modos. — A irmã mais velha zombou, secamente.

Igraine bufou, franzindo o cenho novamente.

— Você não é ninguém para me criticar! — Gritou. — Não sei o que deu em você, Alienor, mas…

— Ah, por favor, Igraine, não se faça. — a irmã mais velha a interrompeu, deixando-se levar pela raiva. — Você sempre foi uma moça relaxada, garanto que Aenor tem que cuidar de você tanto quanto cuidar dos próprios filhos!

Igraine fez um som irritado e bateu na tábua com comida em seu colo, derrubando o prato e o pote de mel na cama e no colo da irmã mais velha, fazendo morango, mel e açúcar voarem.

Alienor logo viu seu roupão azul celeste ficar manchado e grudento. Sua mão direita ficou suja de mel e o pote caiu no chão, se espatifando.

— Olha o que você fez! — Berrou ela, furiosa, enquanto se levantava e tentava limpar a mão com o guardanapo. — Como pode ser sempre tão infantil? — indagou, sem fôlego, enquanto sua face clara ficava vermelha.

A irmã mais nova se encolheu perante o olhar furioso da irmã mais velha, como se fosse uma criança assustada. Logo, ela tinha lágrimas nos olhos, fazendo eles ficarem mais brilhantes.

— Não queria… — Ela disse, com a voz fraca e fina, enquanto a irmã se limpava. — Oh, mas você ficou falando de meus filhos! Não pude aguentar!

Alienor a olhou, se encolhendo como um rato assustado entre as cobertas e chorando. Suspirando, percebeu que aquilo não a levaria a lugar algum. Sua irmã sempre foi assim; mimada, irritava-se quando algo não ia como queria e chorava quando lhe falavam algo desagradável.

Entretanto, ela não pode deixar de notar o uso de “filhos” na frase… Era isso. Já não sentia que podia sequer olhar para ela.

Respirando fundo, a mulher se acalmou.

— Eu vou para o meu banheiro, me limpar. — anunciou. — E me trocar, logo estou indo para a casa.

A irmã lhe deu um olhar triste e anuiu.

— Você não vai falar para Aenor sobre isso, não é? — indagou, trêmula. — Ele ficaria bravo...

Foi difícil esconder o nojo que sentiu ao ouvir aquilo. Sentia vontade de bater na irmã. Na verdade, se tivesse mais pulso, estrangularia ela com as próprias mãos.

— Não, fique tranquila. — Respondeu. — Eu também me excedi. — Virou-se, indo até a porta do quarto.

— Não zangou-se comigo, não é, irmã? — Igraine perguntou, como se fosse uma criança que fez algo errado.

Alienor se virou, com um rosto de pedra, tentando esconder o desgosto.

— Estou farta de você, Igraine. — Respondeu de forma seca. — Simplesmente não tenho mais tempo para você e suas lamúrias.

Alienor deixou o quarto.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Cai desceu as escadas e viu seu irmão mais velho e o pai deles na mesa tomando café.

— Bom dia, filho — Disse Hector, enquanto o filho se aproximava. — Dormiu bem.

O rapaz deu um dar de ombros e se sentou na cadeira ao lado, parecendo carrancudo.

— Não quer café? — Ele indagou, vendo que seu filho estava de cara fechada. Cai apenas fez não com a cabeça.

Aenor franxiu o cenho ao observar a falta de educação do irmão mais novo com o pai deles.

— Devia pedir benção ao pai — ralhou o irmão mais velho.

Hector meneou a cabeça e gestículou com a mãe, mostrando que aquilo não importava.

O rapaz se virou para Aenor.

— Eu tenho um tempo até a faculdade voltar — Ele disse, enquanto o homem tomava mais um gole de café preto —; posso ir para a mansão de Gareth com você e os outros?

Aenor o olhou, surpreso com a pergunta. Deixou a caneca de lado. Não gostava daquilo, ele queria ficar naquela maldita mansão do genro para se livrar daquela velhota decadente da mãe dele; ter um bando de gente por perto só iria atrapalhar ele!

Todavia, Aenor sabia que não podia apenas ser grosseiro e negar a ida deles; caso Elaine aparecesse morta, poderiam estranhar o fato, e não iriam tardar em lembrar que ele negara os familiares de irem até a mansão com ele e a sogra.

— Hã… Acho que sim. Não vejo problemas.

Ectório franziu o cenho e olhou para o filho mais novo.

— Aconteceu algum problema entre você e seu namorado?

Cai balançou a cabeça.

— Não quero falar de Vortigern — Respondeu, emburrado.

Hector assentiu. Ele teria de falar com o filho depois, mas torcia para que aquele relacionamento rídiculo tivesse chegado ao fim. Seu filho era ótimo em várias coisas, merecia mais do que um vagabundo loiro como Vortigern. Voltou-se para Aenor.

— Bem, acho que Brân poderia passar um tempo com vocês? — indagou, querendo aproveitar a oportunidade. — Ele já ficou triste por ter perdido o casamento da sobrinha…

Aenor escondeu a irritação e sorriu. Estava acostumado a ter de mentir para o seu pai, por mais que não gostasse daquilo.

— Claro! — Ele respondeu, com uma voz alegre e falsa. — Quanto mais, melhor!

Aenor não conhecia muito Brân, pois o irmão ainda era muito novo quando ele deixou Bretanha Maior e foi para Cornucópia, no continente de Gália. Ele só sabia que ele estava cursando uma faculdade de tecnologia, ou coisa assim…

— Edmund e Uther também vão? — indagou Hector. Aenor aquiesceu.

— Sim, sim, eles me pediram ontem. — Explicou. — Não sabia que Uther tinha alguma coisa com Edmund.

Seu pai riu, tomando o último gole da caneca.

— Bem, eles conversavam um pouco online... Como a maioria dos jovens fazem hoje em dia... E Edmund sempre vinha para cá quando podia, pois adorava falar com Uther e sua irmã. Me surpreende eles só estarem juntos agora.

Deixando a caneca de lado, Ectório pensou em como aquilo daria um bom livro. Ele escrevia muitos romances de casais heterossexuais, podia escrever um romance sobre dois homens. Seus filhos talvez gostassem…

Enquanto estava em seu devaneio, Cai se levantou e saiu da cozinha.

— Cai, tudo bem? — Hector o chamou. — Filho?

— Tudo bem, pai. — Ele disse, indo até a porta da sala e saindo.

Hector suspirou, balançando a cabeça. Seu primogenito franziu o cenho ao ver a cena.

— Tudo bem com ele? — perguntou Aenor, estranhando o comportamento de seu irmão.

— Acho que seu irmão também está bravo comigo — confidenciou. — Creio ter sido muito rude sobre o relacionamento dele com um tal de Vortigern.

Aenor fez um gesto com a mão, indicando que ele não deveria se importar com aquilo.

— Ora, garanto que Cai sabe que você não liga dele ser uma bicha básica.

Hector franziu o cenho. Seus dois filhos já tinham ouvido zombarias assim de alguns colegas, quando ainda estavam na escola. Seu filho Brân antes de se descobrir e aceitar como garoto sempre ouviu falas como aquela.

— Por Deus — reclamou—, Aenor, precisa falar assim?

Aenor piscou, não entendo a reação de seu pai.

— O quê? “Bicha”? — Ele riu. — Mas ele é uma bicha, não tem nada demais nisso.

— Então custa dizer, sei lá, “gay”? — questionou. — Você devia ter mais cuidado com as palavras. Não fale mais nesse tom.

Aenor riu

— Certo, certo… — Ele respondeu, não se importando com as reclamações de seu pai. — Bem, e quanto a Cai?

Hector grunhiu ao lembrar do relacionamento do filho.

— O rapaz que ele conheceu na faculdade é um vagabundo; largou a faculdade, não trabalha… E, pelo que soube, Cai andou emprestando dinheiro para ele.

Aenor balançou a cabeça.

— Nossa família tem problemas com amor — Comentou.

— Eu realmente espero que ele largue aquele traste. Não o criei para ficar chorando por aí por incompetente qualquer.

Aenor deu um risinho.

— Talvez ele tenha consumido muito seus romances, pai. — Brincou.

Hector torceu a boca, não vendo graça no comentário do filho.

— Meus personagens não são tão dramáticos.

— Não são? — Questionou-o, com um brilho divertido nos olhos cor-de-rosa. — Um deles não se mata ao não ter o amor correspondido?

— Foi porquê ele percebeu que seu amor destruiu a vida dos que ama!

Seu filho deu uma sonora gargalhada.

— Seus livros são muito dramáticos, pai. — Comentou Aenor.

— Bem, meus fãs gostam. E os críticos também.

— Críticos? Há! Eles podem beijar o meu rabo, só sabem ver problemas e mais problemas.

— Sobre isso, eu…

— Senhor Ectório! — A senhora Elaine o chamou, descendo da escada. — Eu posso falar com você?

O homem assentiu, enquanto seu filho se levantava da cadeira.

— Vou ver a tia e a mãe — Disse e seu pai anuiu.

Aenor passou pela sogra de sua filha, preferindo nem olhar para ela. A mulher percebeu tal atitude, mas nada disse, pois já estava acostumada com a frieza do homem.

— Eu queria me desculpar pelo meu comentário após o casamento. — Ela disse, ao chegar perto de Ectório. Tentando ignorar o roupão aberto dele, mostrando o peitoral peludo do homem. — Fui muito intrometida ao comentar sobre seu casamento, não tive a intenção de falar mal de sua família.

Hector anuiu, sem se importar muito com as palavras daquela mulher; afinal, ele sabia que ela apenas estava fazendo aquilo a pedido do filho. Começava a entender o porquê de seu filho parecer detestá-la.

— Eu também fui grosseiro, creio. — Disse. — Eu espero que possamos virar a página e seguir em frente deste capítulo.

A mulher sorriu e aquiesceu. Feliz em terminar aquela conversa.

— Sim, eu também senhor.

Ele sorriu.

— Sabe, acho que você logo conhecerá mais a minha família.

Elaine ficou confusa, não entendo o que ele quis dizer.

— Desculpe? — indagou.

Hector riu, ia deixar aquele problema para seu filho Aenor resolver.

— Ah, meu filho não lhe disse? — deu de ombros. — Esses jovens são muitos desatentos… Bem, logo ele irá lhe avisar tudo. — Disse e passou por ela, querendo sair logo dali.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Quando subiu as escadas, foi até o seu quarto. Sua esposa estava colocando uma camisa branca simples, de frente a penteadeira do quarto. Ela deixou de olhar-se no espelho e olhou para ele.

— Quero sair daqui, hoje mesmo. — Ela comentou, pegando dois pequenos brincos de ouro e jade.

Hector foi até a esposa e a ajudou a colocar os brincos.

— Tão cedo? — Ele indagou, olhando para o reflexo da esposa, enquanto colocava os brincos nas pontas da orelha dela. Eram bem caros, vindos direto da ilha de Atlas, um presente dele, dado em um aniversário de casamento.

— Não é possível ir agora? — questionou ela, abrindo uma caixa dourada e pegando um colar de gordas pérolas douradas. Eram bem raras e caras, também eram advindas de Atlas.

Ele terminou de botar um dos brincos dela e depois andou até o outro lado e se agachou a direita da esposa, e afastou o cabelo loiro dela para colocar o outro brinco.

— Claro que podemos — Hector respondeu, teimando de botar o brinco na orelha. Olhou para ela, através do reflexo. — Quer que eu ajude com o colar?

Alienor aquiesceu e entregou as bordas do colar.

— É que achei que ia querer passar mais tempo com Aenor e com a sua irmã também. — Explicou Ectório, enquanto a esposa afastava o cabelo e mostrava o belo pescoço branco.

— Já tive o bastante de Igraine. — Respondeu de forma enfatica. — Quero ir pra casa.

Ele encaixou as peças e soltou os dedos do colar, que deslizou um pouco pela pele pálida de sua esposa, até se fixar e permanecer firme.

— Prontinho.

Alienor soltou as mechas e cobriu a nuca novamente. Seu marido lhe deu um beijo na bochecha rosada.

— Está bem, Alienor — Ele disse, se levantando. — Vou me arrumar e logo vamos. — Ele lhe deu as costas, mas logo se virou para encarar ela novamente. — Ah, Cai não vai conosco. — Avisou, e sua esposa o encarou através do espelho.

— E por qual motivo? Posso saber?

Hector deu de ombros.

— Ele parece meio... Triste. Acho que a vida amorosa não está indo bem.

Alienor balançou a cabeça, fazendo os caracóis dourados dançarem. Pegou uma escova de cabelos com cabo de marfim e fios branco-prateados.

— Cai andava realmente arredio durante a festa. — Ela comentou, se olhando no espelho e escovando o cabelo dourado e prata. — Acho que Vortigern não foi um bom par para ele.

— Que surpresa. — Disse Hector, deixando o roupão cair no chão e ficando nu. — Aquele rapaz não tem futuro. Nosso filho merecia algo melhor. — Andou até o armário. — Espero que umas férias aqui o ajudem. Ele pode conhecer um rapaz melhor, de boa índole, quem sabe?

Alienor deu de ombros.

— Nosso filho sempre foi muito apegado as pessoas, muito solitário — Ela disse, escovando o outro lado do cabelo. — Lembra como ele sempre foi o que mais chorava quando você tinha que sair?

Hector assentiu, botando uma camisa branca e a abotoando. Era sempre uma agonia quando seu filho se agarrava a sua perna e chorava, dizendo: "Não vá, papa! Não vá!".

— Tem razão. — Ele concordou. — Cai tem que tomar cuidado, corações assim são facilmente partidos. — terminou de abotoar a roupa. — Tinha uma personagem assim... Foi em um dos meus primeiros romances... — Franzou o cenho e passou os dedos pelo grosso cavanhaque. — Qual era mesmo? Foi "A Morte rubra e Vida Azul" ou "Seda Amarela", você lembra amor? Acho que era da minha trilogia, "Vidas de Topázio".

— "Linha de seda: uma história de Elizabeth Rorsar". — Ela o corrigiu. — Seu quarto livro, onde a personagem só vive em desgraça. Livro único.

Hector anuiu, finalmente se lembrando.

— Esse mesmo. Foi um grande sucesso, mas até hoje eu acho este um de meus livros mais fracos.

Alienor riu.

— Bem, você adorou "Charlotte: A Traição Suprema", e este acabou por ser um fracasso de público e critica.

Ele pegou uma cueca e passou por uma perna.

— Bem, alguns públicos gostaram. — Se defendeu, passando a cueca pela outra perna, subindo-a com os dois dedos indicadores e cobrindos as nádegas cheias de estrias. Odiava lembrar daqueles dias horríveis em que seu romance era alvo de rejeição. Ficou simplesmente chocado e desgostoso com tudo. Ficara chocado com o quanto o povo reclamara das cenas de sexo e do incesto; ele tentara algo mais diferente e sombrio, mas, para a sua infelicidade, acabou que o público não abraçara a sua ideia.

— Lembro que você quase desistiu de continuar como autor após isso. — Ela deixou a escova de cabelo de lado. — Ah, como é que você disse? "O mundo não entende mais nada de literatura"? — riu.

Seu marido fingiu não ouvir, pegando calça azul e a colocando.

— E você falou para eu continuar tentando. — Lembrou-a, enquanto passava a calça por uma das pernas peludas, dando um leve sorriso com a lembrança.

Ela sorriu e corou, parecendo voltar a ter vinte anos.

— Oh, eu nunca poderia deixar você ficar se lamuriando. — Respondeu, colocando um anél de rubi.

Hector afivelou o cinto e foi até a esposa, se ajoelhando ao lado dela. Pegou uma das mãos dela, botando entre as suas.

— Sabe que eu nunca faria nada para te magoar, não é? — Ele questionou, não conseguindo olhar nos olhos dela; só de lembrar da conversa da noite passada, fazia seu coração ter um aperto.

Alienor passou a outra mão pelos cabelos pretos do marido, agora cinzentos e prateados.

— Eu sei. — Ela respondeu, sorrindo, e ele deu um bejo na costas da mão dela.

Se levantando, ele tentou limpar a cabeça.

— Bem, vamos voltar logo para nossa casa. — Disse e deu um beijo na testa dela.

Alienor sorriu.

— Ah... Não sabe como me sinto aliviada por isso. — Disse, sentindo um peso sair das costas. — Juro, Ectório, quero voltar para nossos filhos e esquecer Gália. — virou-se para encarar o próprio reflexo. — Sinto saudades dos gêmeos... Ah, e de Brân também.

Ao ouvir o nome de seu quinto filho, Ectório lembrou que ainda não tinha avisado a esposa.

— Sobre isso, eu perguntei a Aenor se ele poderia ficar e...

Antes que ele pudesse terminar de falar, Alienor se virou e disse:

— Você fez o quê? — Ela perguntou, com os olhos cor-de-rosa brilhantes de fúria.

Hector a olhou, surpreso pela reação dela.

— Eu achei que ele iria gostar de passar um tempo com os sobrinhos e a enteada de nosso filho,só isso. — Se defendeu. — Se você não gostou, eu posso...

Ela fez um som irritado em resposta.

— É claro que não gostei! E por que não me perguntou antes?

O marido abriu a boca, mas logo a fechou, sem resposta. Sua esposa nunca foi de se importar com os filhos passando um tempo com o irmão mais velho.

— Eu pensei — finalmente conseguiu falar — que não iria se importar amor.

Alienor balançou a cabeça.

— Eu não gosto disso. Não quero Brân com Aenor e aqueles rapazes!

Hector a olhou supreso com a escolha de palavras da esposa.

— Minha nossa, Alienor, aqueles rapazes são nossos netos, e Aenor é nosso filho. Sei que podem ser um tanto brutos, mas que mal podem fazer?

Alienor estava preste a responder, mas não conseguiu. Não conseguiu formar as palavras; como poderia dizer a Hector a verdade? Que o filho deles andava fodendo a própria tia? Não. Ela nunca conseguiria verbalizar aquilo. Talvez, no fundo, ela só não quisesse admitir que era verdade, nem para si mesma.

— Eu... Eu... — Tentou pensar em algo, sentindo as lágrimas vindo, sem serem convidadas. Não conseguia dizer nada, só pensar na visão de seu filho com a tia.

Hector foi até ela, se ajoelhando pela terceira vez.

— Oh, minha querida — Ele afastou uma mecha do cabelo com a mãe e beijou as lágrimas dela, como fizera noite passada —, não, não chore. Desculpe, tem razão, eu devia ter perguntado antes, sinto muito.

Alienor viu a dor nos olhos azuis dele e, por algum motivo, isso a fez quebrar e chorar.

— Eu sou uma péssima mãe... — Ela disse, abaixando a cabeça. Seu marido a tomou nos braço e passou uma mão calmante nas costas.

— Oh, não diga isso. — Ele disse. — Lamento, lamento... Ah, culpa foi minha, eu não tenho pensado muito em você, e isso só tem lhe magoado mais e mais...

Ver a esposa assim, chorando, destruia totalmente Ectório, que nunca a vira tão fragilizada, nem quando algum dis filhos deles, quando ainda bebês, ficava doente. Doía pensar que ele se tornara um marido tão insensível assim; quando foi que ele simplesmente estragou tudo entre eles?

— Eu não mereço o amor que você tem por mim. — Ele disse, a abraçando mais forte quando a sentiu tremer. — Eu só faço você chorar e, mesmo assim, você continua comigo...

Quando ele falou aquilo, ela sentiu uma dor atingir seu peito e o nó em sua garganta apertou mais, fazendo-a soltar um soluço.

Sua irmã, aquela duas caras, era a culpada por aquela situação. Igraine. Fora ela quem fizera quilo com eles.

E ela iria responder por aquilo. Ah, ela iria.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

— Eu não sei ler nada aqui — reclamou Gwen, enquanto estava olhando as placas de algumas lojas. — Não sei ler cornês.

— Eu leio para você — disse Ambrosius de forma prestativa. Ele passou os olhos côr-de-Rosa numa vitrine onde tinha um manequim com maiô verde posando. — Aqui.

— Bom, era o meu palpite — brincou Gwen.

O rapaz de cabelos loiro-pálidos empurrou a porta e fez um sino tocar. Ao adentrar no local, ele ainda segurou a porta, oara dar passagem para a nova amiga.

— Obrigada — Gwenhwyfach agradeceu,olhando para as roupas da loja. Seus castanhos olhos pararam em um belo biquini azul, e ela pensou, um tanto irritada, que combinariam muito com a sua irmã mais velha. — Este é lindo... — Ela comentou, apontando para ele.

— Ficará lindo em você — comentou o rapaz.

A jovem pegou o biquini e sentiu a maciez do tecido.

— Você acha? — Ela indagou, duvidosa queuma cor tão linda fosse combinar com ela.

Ambrosius respondeu que sim com a cabeça.

— Uhum. Se não gostou, tem o maiô verde que eu vi, acho que combina com seu tom de pele.

Gwen deu um sorriso sem graça e abanou a cabeça.

— Nah, aquele é lindo, mas não sei se faz o meu estilo — respondeu.

Uma mulher que trabalhava no local se aproximou deles e falou algo que Gwen não compreendeu.

— Minha colega quer experimentar o biquini azul e o maiô verde — respondeu Ambrosius, falando a língua nativa da Cornualha. A mulher assentiu, sorrindo e apontou para um simples vestuário, falando para a moça esperar ali, e foi pegar o maiô.

— Ela falou que você pode experimentá-los, Gwen — o jovem traduziu. — Logo ela te entrega o maiô.

A jovem assentiu, pegando o conjunto azul de bíquini e foi se trocar.

Gwenhwyfach usou tanto o bíquini azul quanto o maiô verde. Ao se olhar no espelho, achou que seu corpo era muito gordo na cintura e magro no peito. Não teve certeza de qual levar.... Na verdade, nem sabia se ainda queria levar algum.

— Anda logo, Gwen — Ambrosius disse, irritado com a espera. — Sai logo daí, caramba!

A jovem empurrou a cortina da pequena cabine de madeira, usando o maiô verde-escuro.

— Não sei, não... — Ela disse, incerta de usar aquela roupa. — Pareço rídicula?

O rapaz lhe deu um sirriso lascivo.

— Deixa de ser boba, está uma... — ele parou, lembrando que sua mãe sempre lhe disse para tratar bem as moças que conhecesse. Seu tio também dizia isso; e ele só parecia tratar com deferência a mãe, a tia e a nora. Tirou o sorriso do rosto. — Está bonita, acredite.

— Se você diz... — A jovem respondeu, virou-se para encarar o reflexo.

— Tem um amarelo também. — Ambrosius sugeriu.

Gwen virou para encará-lo e negou a sugestão com a cabeça.

—Não precisa.

Ele assentiu e foi até o caixa para pagar pela roupa.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Os dois jovens, antes de voltarem para a casa, pararam perto de um vendedor ambulante e pediram picolés. Ambrosius pegou um de morango azul e Gwen pediu um de ameixa.

— Como é a sua casa? — indagou Ambrosius, lambendo o picolé azul escuro, quase roxo. — É grande?

Ela fez que não com a cabeça.

— Nem de longe — Respondeu. — Tem um só andar, e eu tenho de divídir o quarto com a minha irmã. — Deu uma lambida no próprio picolé, sentindo o sabor doce de ameixa gelada na língua. — E a sua?

O rapaz assentiu e deu uma mirdida no próprio picolé, arrancando um bom naco dele. Sumo desceu pelo canto da boca, enquanto os seis dedos da mão que segurava o alimento ficaram grudentos pelo líquido derretido. Era um rapaz sem modos.

— Minha mãe tem uma casa enorme, com dois andares e uns seis cômodos — respondeu. — Meu tio Aenor falou que eu e minha mãe podemos morar com ele depois que o casamento acontecesse.

— Ah, é? — Gwen ficou surpresa. — Vocês, o filho dele, e a nora? Por Deus, ele deve anar ter a casa cheia. Eu mal aguento dividir o meu quarto!

O jovem riu, dando outra mordida no sorvete e se sujando mais. Engoliu o pedaço, fazendo o enorme gogó descer e depois subir, e disse:

— Sempre fui para lá — revelou. — Eu fico mais na casa dele que a minha; dormi mais na cama que eu tenho lá, do que na minha própria cama. Tio Aenor é como um pai que nunca tive, acho que me dá até mais atenção do que dá para Agravaine.

— Ah — foi tudo que Gwenhwyfach disse. Não queria saber das felicidades de Ambrosius com Aenor, não quando ela mesma não tinha aquilo com o próprio pai.

Claro, Pellinore era um homem gentil, claramente amava a mãe dela; sempre apoiando as enteadas... Entretanto, ele não era o pai dela. Era apenas seu padrasto, o qual entrara na vida dela e parecia tomar o lugar de seu pai.

Gwen viu uma garotinha nos ombros de um homem enquanto ela e Ambrosius passeavam. A garota ria, balançando um balão vermelho com uma mão, e puxando os cabelos do pai — que sorria, parecendo não ligar, apesar de claramente dor. Ao lado deles, estava uma bela moça de cabelos azuis, provavelmente esposa do homem e mãe da garotinha. Ver aquilo a deixou triste.

— Será que podemos voltar? — Ela indagou, sentindo o picolé descer entre seus dedos, derretendo.

Ambrosius franziu o cenho loiro.

— Mas, por quê...?

Gwen forçou um sorriso, fingindo estar bem.

— Vamo logo,seu lerdo! — Ela o interrompeu, acelerando os passos em direção da casa de praia. — O último a chegar é Lesma brilhante!

Ambrosius riu e começou a correr, largando o picolé de lado.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

As ondas da praia se chocavam com as pedra na costa. Isolde gostava daquele som, ouvindo o mar e os passáros cantando. Gaivotas brancas pareciam gritar, enquanto charmosos cisnes-de-sangue voavam, formando um triângulo, no céu azul. Suas penas eram vermelhas como sangue, brilhando com as batidas da luz do sol. Suas imensas asas tinham algumas penas azul-escuras, fazendo uma linha torta entre as asas vermelhas. Seus bicos eram largos e finos, de um tom de rosa-escuro, quase vermelho. Suas pernas largas e finas tinham aquela mesmo cor dos bicos.

Agravaine beijava a sua clávicula. O braço dele estava segunrando a cintura dela. Isolde afastou uma mecha roxa dos olhos, sentindo o dourado do sol tocar seu corpo voluptuoso. Seus rins doíam um pouco, e ela sentia o esperma de seu marido dentro dela. Ambos estavam nus, por cima de um tapete roxo-escuro — um tanto velho e desbotado, pois era de seus pais, quando eles ainda eram jovens, usado para eles fazerem amor, em uma adoração a Deusa do Amor, Lyu'bov. Ao lado deles, um prisma em formato de pirâmida rosa emitia um arco-íris. Sua luz enchia os corpos de vida, diziam os seguidores da divindade.

Eles haviam acordado bem cedo, após terem bebido o tônico roxo matinal, e ido para uma parte da região que era uma praia de nudismo — ela descobrira rápido que pessoas de classe alta gostavam de se mostrar sem pudor; não que fizesse muita diferença para ela, pois o retiro do culto espiritual que ela fez era comum ver pessoas mostrando seus belos corpos em algumas ocasiões, como em saunas, andando como vieram ao mundo.

A areia da praia naquele local era rosa, graças a uma coral que havia na água. Lyu'bov gostava de sexo matinal, ao ar livre, principalmente perto de onde tivesse água, pois era um símbolo de fertilidade. Tal como o útero e o semen, a água servia para trazer vida.

O som das ondas se locomovendo e batendo nas pedras fazia Isolde lembrar-se de sua infância, antes de sua família se mudar para Gália. Lembrava-se de seus tempos em Hibéria, onde era uma criança despreocupada, correndo pelas ruas e escadas sinuosas. Ela batia os pés descalços com velocidade, tocando a murada que havia na beirada das ruas, e vielas, e escadas, impedindo as pessoas de caírem morro abaixo. Sua casa, assim como as outras, ficavam no topo de um morro, acima do mar, que batia com força nas beiradas da terra. Quando era pequena, brincava nas areias da praia, procurando conchas trazidas pelo mar. Seu pai, junto de outros pescadores, jogavam redes no mar, procurando peixes para vender ou comer.

Haviam se passado anos desde que viveram naquelas terras distantes, com uma vida simples, muito antes de sequer conhecer o marido, mas ainda estavam em sua mente. Desbotadas, mas marcadas em sua mente. Os muros, as escadas, os pés correndo e as mãos tocando os muros, o som das batendo e do mar nas conhechas qur achava na praia.

A praia começava a se encher. Algumas pessoas traziam cadeiras, toalhas e guarda-sóis consigo. Viu dois homens correndo lado a lado, com seus falos batendo contra as coxas; três mulheres nuas exibiam os seios caídos e entravam na água. Isolde olhava para eles, mas seu marido só tinha olhos para ela.

— Tudo isto me lembra de nosso casamento. — Falou Agravaine, percorrendo os dedos no braço da esposa. — Lembro-me de como estava em puro extâse...

Isolde sorriu, lembrando-se de como seu marido a tomou na frente de algumas pessoas e famíliares por cima de uma bela mesa de madrepérola. Eles nem se importavam, tamanho a excitação que sentiam ao tomar o elixir do amor. Alguns noviços andavam em volta de todos, balançando turíbulos de prata, expelindo fumaça azul-escura, com sementes e ervas aromáticas enchendo o ar e enchendo o coração de todos no local baterem erráticos e um calor subir pelos corpos deles.

Após a consumação, eles foram levado, ainda nus, para um imenso lago, que mais parecia um imenso espelho de prata, e nadaram pelas águas frias, sentindo o toque da deusa.

— Deveríamos voltar lá um dia. — Ela disse, com saldades do local. — Seu tio poderia gostar, talvez? — Sugeriu, sentindo ele passar uma perna por cima da cintura dela.

— Amor, por mim, nós poderíamos voltar para lá e não voltaríamos nunca. — Ele lhe respondeu. — Vamos apenas esperar um pouco na mansão de Gareth e depois voltamos para lá, está bem?

Ela assentiu. Não se importaria com uma estádia permanente no local, apesar de que ela sentiria saudades dos pais e do irmão.

Agravaine deu um beijo em sua bochecha e entrelaçou passou uma mão por cima da dela, entrelaçando seus dedos.

— Vou lhe dar uma vida digna. — Ele prometeu. — Vou te dar a vida que você deseja.

Isolde se virou e o encarou os olhos verde-claros do marido com os seus olhos roxo-escuros. Seus seios se apertaram contra o peito estufado dele. Ela grudou a sua testa na dele, fazendo o piercing em forma de lua minguante no piercing em formato de sol dele. O membro de Agravaine começou a ficar de novo, graças a proximidade do corpo da esposa.

— Você já dá — Respondeu.

Seu marido lhe deu um beijo e se sentou no tapete roxo.

— Bem, eu vou dar-lhe uma vida que você merece mas que não sabe então. — Disse e esticou os braços, se espreguiçando. Após ouvir um estalo, ele virou um pouco o tórax para um lado e depois o outro, até ouvir outro estalo. Virou-se para ancarar a esposa deitada — Tem fome, amor?

Isolde fez que não com a cabeça, ainda deitada e sonolenta.

— Quer nadar? — Ele perguntou, passando a mão por uma fina estria na nádega dela, tentando ignorar a ereção que estava tendo, sabendo que ela não estava com vontade. — Ou quer voltar e dormir?

Isolde deu um gemido e se sentou ao lado dele. Agravaine olhou para os seios da esposa, mas logo se forçou a tirar os olhos dos mamilos escuros e olhar para os olhos da esposa.

— Vamos nadar um pouco. — Ela disse, preguiçosamente, se lembrando das vezes que nadaram no rio prateado do santuário.

Seu marido assentiu e levantou, expondo as nádegas e extendendo a mão para ela, que a segurou se ergueu.

Aos risos, eles foram correndo até a água, sentindo o frio e o sal do mar, chocando-se contra eles.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

A ilha de Atlas ficava a um dia de viagem de Gália. A ilha era chamada de "País do Verão", pois raramente tinha temperaturas baixas, e pelas suas famosas águas termais. Também havia uma espécie de árvore — agora quase extinta — que era famosa pelo seu brilho dourado nas noites de verão.

A família paterna de Helena tinha descendência de pessoas vindas da daquela belha ilha, que, no passado, há bons séculos, sempre era atacada pela coroa bretanha, que insistia em tomar o local como seu, e extirpar os povos pagãos que ali viviam; todavia, apenas a parte Norte da Ilha, a menor parte de todas, fora conquistada, e era onde ficava o Príncipado Bretão.

As pessoas que naquela ilha viviam eram belas, com peles claras e escuras, variando em tons únicos. Era ali que eram feitas cores que nenhum humano poderiam ver normalmente, e a seda era uma das melhores. Gareth às vezes brincava que Helena era uma fada, feita pelos deuses, pois tinha uma beleza arrebatadora.

Os recém-casados tinham marcado uma estádia de até dois meses em um resort; onde tinham muitas piscinas termais relaxantes, aquecidas naturalmente. O quarto deles era dourado, com uma imensa clarbóia no teto. Uma porta de cristal dava para a varanda, por onde um intenso raio de sol passava, enchendo o casal de luz dourada e calor.

Helena estava a dormir, com apenas um colar de miçangas de ambar em volta de sua fina cintura, quando sentiu os lábios finos de Gareth beijando-lhe. Ela deu um gemido, ainda sonolenta, enquanto ele subia os lábios pelas suas costelas. Gareth deu um aperto no seu seio esquerdo, sentindo-o arrepiar em sua mão. Sentia o calor do corpo dela, enquanto Helena voltava a soltar um gemido. Seu marido deu-lhe um beijo em sua clavícula, sentindo o aroma de seu cabelo rosa e dourado. Cheirava a rosas.

— Que horas são? — Ela perguntou, preguiçosamente, de olhos fechados, enquando seu companheiro a enchia de beijos.

— Ainda é cedo. — Ele respondeu, ainda a beijando. — Vou te ajudar a relaxar e voltar a dormir.

Helena riu e se virou, ficando de costas no colchão de água, que ondulava conforme ela se mexia nele. Era como estar flutuando em um sonho. Gareth afundou a cabeça em seus seios, lambendo o bico rosado de um deles. Ele sugou, fazendo a esposa gemer novamente, de forma mais longa, enquanto passa os dedos pelo cabelo castanho avermelhado dele. Enquanto ele sugava em um seio com uma boca, massageava o outro com a mão, sentindo o calor morno dele.

Quando Gareth deixou o pequeno seio da esposa de lado, ele se mexeu, fazendo o colchão se remexer por baixo de seus corpos. Ele tomou a esposa pelos braços, passando as mãos por debaixo de suas costas e a abraçando com força. Helena o guiou para dentro dela, enquanto abria suas pernas para ele, sentindo o calor de seu falo adentrando na fenda de seu corpo.

Gareth se empurrou para dentro dela, e Helena soltou um grito. Quando ela passou uma mão pelo cabelo do marido, este a retirou, segurando-a com a própria mão e entrelaçando os dedos nos dela. Ele mordeu um pouco o ombro dela, enquanto ela movia a cintura. Gareth logo sentiu a esposa ficar úmida por dentro.

Quando ele deu um gemido, estocando com mais força e velocidade dentro dela, fazendo a esposa gemer mais. Helena logo sentiu o esperma morno dentro dela e deu um último grito de prazer, enquanto o marido parou de estocar seu membro dentro dela.

Gareth retirou seu membro viril de dentro dela, enquanto Helena afastava uma mecha loira suada da vista. Ele rolou para o lado, ofegante, ficando ao lado dela. Estava tão ofegante quanto a esposa.

— E agora? — Ela perguntou, rindo, apoiando a cabeça em um braço e olhando para os olhos escuros do marido. — Voltamos a dormir ou quer fazer algo?

Gareth sorriu, passando um dedo pelo queixo fino da esposa. Estava feliz de finalmente estar com ela; sem sua mãe para se intrometer, nem seu sogro ou o irmão e primo de Helena. Eram só eles agora.

— Quer comer algo? — Ele indagou.

A jovem aquiesceu e deitou a cabeça no travesseiro. Suas bochechas altas estavam avermelhadas e ela estava ofegante; seu corpo fino estava lustrado de suor; quando seu marido a olhou, ele logo sentiu seu membro endurecer novamente, quase como se estivesse pronto para outra transa.

Ele reprimiu um gemido e ignorou o calor no corpo e respondeu:

— Certo.

Segurando seus impulsos, Gareth se levantou, nu, e foi até o guarda-roupa. Abriu a porta e pegou um roupão prateado, cobrindo o corpo jovem e pouco musculoso com ele. Amarrou o cordão na cintura, embora ainda fosse possível ver seu falo empinado.

— O que vai querer, esposa? — Ele indagou, gostando de usar a palavra "esposa", indo até um interfone.

— Ah, eu não sei... — Ela disse, ainda leve de sono e prazer, sentindo o esperma morno dele entre as pernas.

Gareth tocou o botão do interfone. Um estalo estático foi ouvido.

— Pode pedir. — Disse uma voz robótica, com leve chiado.

— Quero maçãs douradas com caramelo, morangos vermelhos e bagas púrpuras. — Disse. — É pra minha esposa, então capriche. Ah, e um copo de ambrosia. — Soltou o botão.

— Certo, sire. — Respondeu a voz, chamando-o pelo título que Gareth tinha ao herdar as terras de seu pai.

Helena riu.

— Puxa, vou ficar gorda se continuar me mimando assim. — Ela brincou, brincando com um dos mamilos com as pontas dos dedos.

Gareth sorriu e desamarrou o roupão e o deixou cair no chão de ardósia dourada, mostrando o seu falo empinado, ainda lustroso de esperma. Subiu na cama, caminha com os pés e mãos, como um animal. Sua esposa se cobriu com um lençol, rindo, mas ele o puxou para longe, deixando o corpo pálido e nu dela totalmente exposto. Puxou-a para si, enquanto ambos riam.

— Oh, e daí? — Ele indagou, enquanto a tomava para si. — Eu ainda vou te amar e paparicar. — Beijou-a, empurrando a língua para dentro da boca de sua esposa, que a abriu de forma obediente, e lambendo-a com a dela.

Gareth trilhou um caminho de beijos, passando pelo corpo da esposa; passando pelo pescoço, seios, barriga e inda até entre as suas pernas. Ele as afastou, até ver a fenda rosa do corpo da esposa, e abaixou a cabeça, beijando a regiam, que ainda estava quente e úmida pela transa anterior. Ele empurrou a língua para dentro, enquanto sentia a sua esposa se remexer e arfar, agarrando a sua nuca rubra com o finos dedos e o empurrando com mais força contra a sua vagina. Helena fechou as pernas, passando-as por cima das costas de seu marido, enquanto sentia a língua dele dançando dentro dela, dando-lhe prazer.

Helena pareceu empurrar a cabeça do marido com as duas mãos, mas ele ignorou e continuou empurrando a cabeça contra as partes íntimas dela. Ele esticou os braços e segurou os mãos da esposa nas suas, as afastando, e entrelaçando em seus dedos, enquanto Helena soltava alguns sons lamuriosos.

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Gareth gostava disso, gostava não só de ter prazer com a esposa, mas de saber que estava dando prazer a ela. Gostava de saber que consguia ser provedor de tal coisa para sua amada esposa.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Quando a aula finalmente acabou, Brân pegou sua bolsa e passou a alça pelo braço e deixando-o descansar no ombro, levantando-se da cadeira forrada com couro azul. A sala estava com poucos alunos, pois a maioria havia decidido não ir mais, visto que as últimas duas provas foram anteontem.

— Tchau, professora! — Disse Brân, indo até a porta, enquanto acenava para a sua tutora, Mirna. Esta acenou de volta, enquanto guardava uma pasta na bolsa.

Brân saiu pelo umbral da porta e andou pelo corredor, em direção ao pátio, onde seu namorado devia estar esperando — Ele não veio para a aula, apenas para buscá-lo.

Brân era bem alto, graças aos seus genes, que alargavam seus braços e pernas, embora não tanto quanto todos os outros irmãos — apesar disso, continuava preferindo usar saltos altos ou botas de cano alto em festas, ou então, no caso faculdade, um simples par de mocassins engraxados, mas, como naquele dia estava quente, ele usava um simples chinelo branco, estava tão velho e desgastado que parecia cinza. Soltou o elástico do cabelo e soltou seus cachos pretos, como os de seu pai — Com exceção da mecha dourada que tinha na testa, que ele trançou usando um fio dourado e algumas pérolas falsas. Desde um tempo no santuário do amor com a esposa de seu sobrinho — que bizarramente era mais velho que ele, o que era estranho, tinha de admitir —, passara a praticar umectação, deixando o cabelo lustrado e cheiroso com óleos naturais. Seu namorado, Cormac, também praticava aquilo.

Brân tinha uma aparência diferente do resto de sua família: além do cabelo preto como tinta e da estatura um tanto baixa, tinha mãos baturalmente coloridas, como sua mãe, com o diferencial de que elas não era coloridas e claras, e sim escuras, variando entre unhas pretas e cinza-escuras; e seus olhos não eram escuros, azuis ou côr-de-rosa, mas totalmente prateados e brilhantes, como prata batida; e suas sobrancelhas eram branco-prateadas, parecendo sumir em sua pele pálida. Tinha a testa saliente de seu pai, e as bochechas com as maçãs do rosto cheias e rosadas como as da mão.

Como estava muito quente, Brân preferiu usar uma saia cinza e plissada, que mostrava suas coxas e suas pernas largas. Ele não tinha problemas em usar roupas mais femininas, pois seus pais o ensinaram desde cedo a deixar aquelas distinções de lado. O outro motivo era que ele não tinha os mesmo órgãos genitais que a maioria dos homens cisnormativos, então poderia usar uma saia e uma calcinha sem qualquer problema; seu pênis era minúsculo, com a glande sendo uma pequena protuberância rosada — na qual ele tinha colocado um piercing — que empinava sua vulva, que era mais desenvolvida, embora oca, não tendo nada dentro que lhe fizesse sentir prazer com o ato; e seus testículos outrora estavam escondidos dentro de seu corpo, dentro de sua larga cintura, mas ele os retirara numa cirurgia, e não havia nenhum saco escrotal — o que facilitava o uso de uma calcinha. Não tinha quase nenhum pelo pubiano, assim como quase não tinha pelos no queixo. Seus cotovelos e seu abdomen, porém, não continham qualquer sinal de pelo.

Seu peito magro e um pouco musculoso tinha um belo par seios — que ainda eram bem farto, mas pareceram ficar um menores quando ele passou a se exercitar, fazendo academia junto de seu companheiro, e ganhar um bom peitoral; embora todos insistissem que era só "coisa da sua cabeça" e que o tamanho ainda era o mesmo — que estavam cobertos por uma camisa cinza. Havia um pequeno piercing entre eles, como um pequeno ponto cinza-prateado. Cada bico também tinha um piercingo os perpessando, com duas orbes.

Quando era criança, era perceptível que seus pais sempre se preocupavam com ele e com seu desenvolvimento corporal; Brân sempre percebeu que eles pareciam ter receio de como ele se sentiria sobre seu próprio corpo, talvez acreditassem que ele tivesse alguma vergonha ou confusão sobre si mesmo. Todavia, ele sempre foi um jovem precoce, e foi rápido em entender que aquele era seu corpo e ele o aceitava como era — não que tudo sempre tenha sido um mar de rosas, mas ele sempre teve apoio para o que precisava. Brân aprendera bem cedo na vida que existiam pessoas que valiam ouvir a opinião, e outras não. Tentava se concentrar em quem o queria bem, e era isso.

Ironicamente, sempre sentiu que seu irmão mais velho, Cai, era quem mais precisava de apoio do que ele em alguns momentos.

O pátio da faculdade era aberto ao céu, com a maior parte do chão do local tendo gramas bem frescas, árvores altas — que variavam entre ter folhas amarelas, laranjas, vermelhas e verdes, e seus troncos variavam entre marrons, vermelhos, dourados e cinzas—, e flores, que enchiam o ar com frescor límpido e perfumes doces. Haviam algumas pequenas linhas de pedras, feitas de tijolos amarelos, usadas para guiar as pessoas. Em algumas partes havia locais para lanche, caso alguém não quisesse comer dentro da cantina da faculdade.

O local estava bem limpo, embora uma parte dele ainda tivesse algumas cinzas e um pequeno monte de madeira enegrecida, vestígios das fogueiras da virada do ano. Todo os 12 últimos dias do ano era de grande festa em família e troca de presentes; quando o última noite chegava, e o ano terminava, dando lugar a outro, as fogueiras eram acesas em todo o canto, bebida era distribuída gratuitamente e as pessoas dançavam, embriagavam e faziam bacanais; isto durava toda a primeira semana do novo ano. Era assim nas duas Bretanhas, na Ilha de Atlas, e em toda a Hibéria e Gália, mesmo que em alguns lugares houvessem mudanças: diversos lugares na Hibéria queimavam falsas bruxas; nas duas Bretanhas alguns cortavam a garganta de bois e os homens colocavam cornos na cabeça e mulheres grinaldas; Bretanha do Norte havia caça e lutas corporais — também praticadas na Bretanha Maior, embora em menor grau; em Gália, alguns retiravam as máscaras; no País do Verão, todos se reuniam em uma orgia maior do que qualquer bacanal dos outros reinos, jogavam objetos no vulcão da ilha — como oferenda para ter um bom ano — e, por fim, banhavam-se no mar, renascendo.

Brân havia passado a virada de ano na faculdade, com os colegas, bebendo, dançando e fumando fortes ervas, e, depois, sentiu a volúpia tomar conta de seu corpo e deu vazão aos seus desejos junto deles, que praticavam amor ao seu lado. Mas, antes de ir se encontrar com eles, viu seu pai cortar a garganta de um belo e enorme auroque pálido, híbrido de boi e búfalo, com uma faca de damasco, enchendo as mãos de sangue. Cada um comeu uma parte do animal: sua mãe Alienor ficou com o grosso coração e dividiu o cérebro com o marido; seus irmãos gêmeos o figado; e Brân havia comido um pouco do intestino e do lígua — estava faminto, pois estava em extremo jejum, em nome da Deusa Lyu'bov, e só poderia comer algo em ocasiões especiais e após a virada.

Era por isso que o feriado favorito de Brân era a comemoração do fim e do início do ano, onde todos deixavam a máscara social de lado e ficavam livres para fazer o que quisessem — mesmo sua mãe era mais eufórica nesta época, ficando agraciada com o marido nu cortando a garganta de um pobre animal e se empapando de sangue, e, de joelhos, após a sanguinolencia sequência de abate do animal, se ajoelhava para ela, e erguia o coração do animal para ela em uma bandeja de ouro (provavelmente isto derivava de antigas culturas Nátturi, em que homens pediam a mulher em casamento dando um coração de animal para ela).

— Brân! — Cormac acenou, estava sentado na relva, ao lado de uma fonte que ali ficava, aproveitando o sol dourado bater na sua pele escura. Mais escura que a da esposa de Agravaine, Isolde, em um tom de quase preto, e com alguns brilhos azuis na pele, quando se movia. Seu peitoral estava nu, brilhando ao sol, o toráx e a barriga estavam expostos, bem musculosos e definidos. Suas pernas musculosas estavam cobertas por uma saia preta, que descia até quase os calcanhares. O mamilo direito tinha um sol dourado tatuado nele.

Seus olhos eram dourados, como âmbar, ou ouro derretido. Cobrindo o olho direito e uma parte do rosto, havia uma tatuagem dourada do sol, que brilhava conforme ele movia sua cabeça — Era comum homens que adoravam a Deusa usassem também símbolos dourados e que envolviam o sol; pois este nada mais era do que o consorte da Lua. Cormac um sorriso largo e os dentes eram brancos e bem alinhados. Seu cabelo estava brilhante pelos óleos que ele passou nele, e tinha uma pequena trança atrás.

Brân sorriu e saiu da pequena trilha amarela, andando pela grama e terra fresca, enquanto Cormac se levantava e estendia os braços para ele. Quando ele se aproximou, seu namorado o ergueu pela cintura, fazendo-o rir e sentir a brisa fresca enquanto rodopiava.

Além de mais alto, Cormac também era mais velho, tendo seus vinte e nove anos, ao passo que Brân ainda faria vinte. Eles já se relacionaram quando este ainda tinha dezoito anos, entretanto. As primeiras vezes que fizeram amor foram um tanto doloridas para Brân, agitadas e precoces, mas Cormac sempre foi gentil e amoroso com ele, apesar disso, dando-lhe todo o prazer que queria, tocando-o onde precisava para que ele tivesse prazer.

Na virada do ano, quando as altas fogueiras do pátio estavam acesas no pátio, com um cheiro de fumaça acre e densa que fazia olhos arderem, e todos estavam embriagados de amor e excitação, Cormac havia pousado Brân na grama, e feito amor com ele, o penetrando com seu falo grosso e escuro, com um piercing na ponta. Ambos estavam com chifres grudados nas laterais da cabeça— Brân também usava grinaldas com flores e amoras e usava asas de fada, em contraste com as asas de anjo dos companheiros. Havia outras pessoas no chão também, praticando a arte de amar assim como eles, sob o olhar da luar da amarelada, que os observava dançar e transar, com seus corpos lustrosos de suor e olhares febris. Os gemidos, gritos e canções eram como uma canção para a deusa-lua. Brân lembrava-se de ter gritado muito naquela noite, mas os outros gritos abafavam o dele e o de seu namorado, que sentia suas unhas o arranhando.

No pátio da faculdade, assim como em todo o resto do mundo, o ar do novo ano era sempre fumaça, alcóol e sexo.

Quando Cormac o pousou no chão, puxando-o para perto de si, envolvendo-o entre seus braços bem fortes. Ao contrário dele, seu namorado era enorme, com quase dois metros de altura, fazendo com que seu namorado se sentisse quase uma criança perto dele. Em seus braços, Brân ainda podia sentir-se na virada do ano, onde ele Cormac o iria deitar na relva e enchê-lo com o seu amor, beijos e esperma. Ficou até bambo com a lembrança cheia de despudor, quase se desequilibrando, fazendo com que agarrasse com um pouco mais de força os braços do companheiro.

Cormac abaixou a cabeça e se curvou um pouco, erguendo a cabeça do namorado colocando uma mão sob seu queixo e a levantando. Abriu os lábios e Brân o recebeu com a boca aberta, deixando-o empurrar a grossa e morna língua para dentro dele, que a lambeu com a sua, enquanto sentia o namorado sugar seu ar. Sentiu as mãos bobas de seu namorado apalparem suas nádegas e depois um apertão em ambas, seus dedos eram duros, mas excitantes.

Quando os lábios dos dois rapazes se separaram, eles sorriram um para o outro e Cormac, olhando para os olhos de prata do companheiro com os seus olhos dourados, tomou o rosto do namorado entre as suas mãos, beijando-o na pedra da lua do piercing dele. Brân viu que o topo da bochecha do namorado estava um pouco inchada e roxa, por causa de uma das lutas corporais queaconteceram na vitada do ano; tais lutas eram feitas com os homens apenas de tanga ou nus — embora, nos últimos tempos, algumas mulheres também praticassem, sem nenhuma arma, e eram mais comums na Bretanha do Norte, onde os povos antigos eram muito mais guerreiros por causa do ambiente hostíl. Apesar de não parecer, as brigas não eram sinal de nenhuma querela entre os lutadores — o próprio pai de Brân, certa vez, lutara contra os dois irmãos; e um deles o havia chutado no rosto e ele revidou dando um soco tão potente que lascara o dente do oponente. Após a briga, os três tomaram um bom vinho, como se nada tivesse acontecido.

— Ainda dói? — indagou Bran, tocando o hematoma com a ponta dos dois dedos. Cormac fez uma careta de dore afastou rapidamente a cabeça da mão do namorado, por causa da onda de dor causada causada pelo toque. Os metacarpos da mão dele também estavam um pouco inchados.

— Vou sobreviver — ele brinca e sorri, com o velho sorriso largo que Brân amava. Pegou a mão do namorado pelo pulso e beijou a ponta dos dedos. — Eu ganhei, afinal, lembra?

Brân menea a cabeça, mas sorri.

— Acho tão besta como você e os outros homens brincam de ser machões — ralhou.

Cormac gargalha.

— Como se não tivesse adorado me ver lutando — falou, sabendo que o namorado gostava mesmo da visão. Beijou as pontas do dedo dele de novo. — E eu ganhei uma boa jarra de Ambrosia para nós.

Ambrosia era o dito "elixir dos deuses" da ilha de Atlas. Parecia mel dourado, só que mais grosso, e gosto nunca era o mesmo. Era ótimo para saúde.

— É — Concordou Brân, lembrando do sabor único da bebida e do corpo escuro de seu namorado derrubando um homem na mesma grama que eles fizeram amor. Pegou a mão do namorado e beijou os hematomas. — Tem razão.

Cormac deu mais um beijo nos lábios rosados do namorado e eles deram as mãos, indo em direção a uma pequena lanchonete aí perto, com mesas e cadeiras de metal. Um guarda-sol bem largo se encontrava ao lado de cada uma das mesas, cobrindo-as com uma enorme sombra, causadas pelas largas abas.

Cormac puxou uma cadeira para Brân — Ele achava isso terrivelmente brega, mas era melhor um companheiro brega do que nada — e este sorriu para ele em agradecimento pelo gesto que achava desnecessário, enquanto se sentava.

— O mesmo de sempre? — Indagou Cormac, e seu namorado assentiu.

Enquanto o namorado foi fazer o pedido, ele pegou o celular e voltou a ver algumas fotos do casamento. Todos estavam tão bonitos! Era uma pena não poder ter ido, teria tirado boas fotos com a sua polaroid — que estava com ele agora, pendendo em uma fina corda azul. Fora um presente de seu pai no seu aniversário de 17 anos.

Seu namorado colocou uma lata de energético sem álcool a sua frente, encimada por um copo de plástico, junto de duas pequenas tigela de isopor, uma contendo maçãs cozidas, e a outra, sal. Tirou o copo de cima da garrafa e a abriu.

— Obrigado. — Brân disse, pegando a lata e vertendo o líquido azul no copo de plástico, ouvindo o borbulhar do gás.

Cormac acenou, abrindo uma coca-cola e bebendo direto da garrafa.

— Então — Ele disse, após beber um gole —, como foi a aula?

— Senhora Mirna só repassou tudo que falou ao longo do semestre sobre a propagação som dos filmes no cinema. — Respondeu. — Você sabe, como é transmitido com clareza e sem ruídos, como são emitidos os barulhos de explosões, musicais, ambientes, etc… E como são processados, blá-blá-blá…

Cormac assentiu, sem realmente se importar.

— Bom, você vai querer ir direto para minha casa ou quer dar uma volta?

Brân deu um dar de ombros.

— Bem, não tem ninguém na minha casa, com exceção dos gêmeos — Ele disse. — Eles só devem chegar amanhã, então acho que posso passar a noite com você. Podíamos ir para alguma balada, acho melhor do que ficar em casa ou em um bar qualquer. Quero alguma animação depois de tanto estudar.

Cormac sorriu, animado com a ideia. A faculdade já tinha tirado muito tempo dos dois e ele sentia falta de passar mais tempo com o namorado. Na verdade, se dependesse dele, Brân e ele já estariam morando juntos; entretanto, seu namorado parecia querer ir com as coisas que envolviam o relacionamento deles de um modo muito devagar.

— Nilza está com você? — Ele indagou. — Ou ela ainda está com a mãe?

Seu companheiro tinha uma filha de seis anos, fruto de um relacionamento passado, com uma moça com ele se relacionara, embora não tivesse passado de um mero caso em algumas noites no santuário de adoração a Deusa Lyu'bov. A garota estava passando um tempo com a mãe, mas logo deveria vir ver seu pai. A jovem era bem bonita, com os olhos amarelos do pai, e o cabelo variando entre mechas acobreadas e douradas da mãe.

Cormac respondeu que não com a cabeça.

— Ela chega amanhã. — Ele disse e deu uma leve risada. — Ela perguntou para mim se “meu namorado fotógrafo” ia estar comigo quando ela chegasse.

Brân deu um sorriso sem graça, afastando uma mecha negra do olho, ruborescido. Suas bochechas eram altas e rosadas, agora estavam ficando vermelhas.

— Ah, para… — Ele disse, sentindo a ardência crescer no rosto.

— É sério! — Garantiu Cormac, rindo da reação do seu namorado de olhos prateados. — Ela adora você! Diz que quer crescer logo para poder ver alguns dos filmes que você fica falando.

— Ah, que bom. — Respondeu Brân, ainda meio sem graça com o que ouvira. Gostava da pequena Nilza, mas sempre achou que era estranho se envolver na relação dela com o pai dela. Talvez seu irmão mais velho, Pellinore, entendesse o que ele sentia, mas acreditava que ele se sentia mais motivado a ser um tipo de padrasto do que Brân — Talvez Cormac só ainda estivesse com dificuldade de entender a diferença que havia entre os estilo de vida deles; Brân poderia estar cursando a mesma área que ele, ter mais dinheiro, e ser bem maduro para a idade… Entretanto, ele ainda tinha dez anos de diferença de seu companheiro.

— Bem, você irá querer sair com a gente qualquer dia? — Indagou o homem com um sol no rosto. — Pensei em irmos ao parque de diversão juntos.

Brân pegou um pedaço da maçã cozida e comeu.

— Pode ser, eu… — Ele parou de falar ao receber a ligação do pai. — Só um momento. É importante.

Cormac assentiu e Brân se levantou da cadeira.

— Alô, pai? — Brân indagou, ao atender a chamada.

— Oi, filho, tudo bem? — Hector perguntou.

— Hã… Sim, sim, tudo. — Ele respondeu, estranhando a ligação. Geralmente o pai só mandaria mensagens, e esperaria quase uma hora após o horário de saída da faculdade dele para ligar. — E vocês?

— Péssimos, eu temo. — Seu pai respondeu. — Mas não liguei para falar de minhas lamúrias…

— Pera, mas o que…

— Você quer passar um tempo na mansão de Gareth? — Indagou seu pai, não lhe deixando terminar de falar. — Edmund vai estar lá, e Isolde, Aenor e seus filhos… Ah, a enteada de Pellinore também, mas não sei qual delas. A de cabelo escuro. — Continuou: — Enfim, achei que seria bom para você relaxar um pouco da faculdade.

Brân olhou para Cormac. Ele estava terminando de tomar a sua Coca. Claramente queria sair logo dali e levá-lo consigo.

Apesar de amar o namorado, Brân também tinha que admitir: precisava de um tempo para si. Não queria passar muito tempo dando atenção para a filha de seu companheiro — ele sabia que isto acabaria por acontecer, visto que era o tempo dela ficar com o pai e ele nunca desgrudava dela. E ele também sabia que Cormac estava querendo que eles fossem logo para os próximos passos do relacionamento; talvez morar juntos, ir ver os pais dele… Brân queria tudo, menos algo mais sério. Pelo menos não naquele momento.

De repente, sentiu um formigamento estranho nas costas, e imaginou que devia ser seu nervosismo pela situação. Seu corpo estava dizendo que ele deveria tomar um tempo para si, tinha certeza. Seria melhor para ambos dar um tempo, visto que eles precisavam de descanso e dar atenções para a própria vida. Talvez, quando voltasse da viagem, ele pensasse em ir morar com o namorado e tentar ser mais sério no relacionamento.

— Sim, pai — Respondeu. — Eu vou querer.

— Certo. Eu vou desligar, pois eu e sua mãe já vamos sair.

— Está bem, eu também tenho que ir. Te amo.

— Também te amo, filho.

Brân desligou a ligação e voltou ao seu lugar.

— Aconteceu algo? — Indagou Cormac, pegando a mão de seu namorado com a sua. Seus pulsos tinham tatuagens douradas, em formato de labaredas, para representar o sol.

Brân fez que não com a cabeça.

— Relaxa, meu sol. — Ele disse. — Só que vou passar um tempo na mansão do marido da minha sobrinha.

Cormac pareceu não entender aquilo inicialmente, mas logo franziu o cenho e afastou a mão.

— Quanto tempo? — Ele quis saber.

Brân deu de ombros.

— Eu não sei. — Respondeu. — Só um mês ou dois.

— “Um mês ou dois”? — Deu-lhe um olhar desconcertado. — Amor, eu achei que iríamos passar um tempo só nosso!

— Eu sei, eu sei… Lamento, mas…

— Se lamenta tanto, então por que vai? — Questionou, irritado.

Brân franziu o cenho, juntando as sobrancelhas descoloridas.

— Por que eu assim quis, que tal? — Rebateu. — Minha nossa, eu faço o quero! Não lhe devo explicações!

Cormac pareceu magoado com a resposta.

— Poxa, amor, eu só queria passar o tempo com você, só isso — Ele se defendeu, ressentido pelas palavras do namorado. — Faz tempo que não ficamos a sós.

— Eu te vi na virada do ano! — lembrou, irritado.

Cormac franziu o cenho, irritado.

— Nem nos falamos direito, eu quero sair com você, ficar a sós... Quero ficar mais próximo do que num bando de orgias e cheio de gente!

Brân deu um suspiro.

— Eu sei, Cormac, mas eu quero relaxar em Gália — Explicou. — Acredite, eu logo voltarei e poderemos passar um tempo juntos. — Esticou a mão e deu tapinhas nas costas da mão dele. — Prometo.

Cormac deu um sorriso triste e assentiu.

— Tá bom, amor — Ele disse, e depois deu um sorriso malícioso. — Quem sabe, quando minha filha voltar pra mãe, posso tentar ir pra Gália e ficamos um tempo naquele nosso santuário do amor.

Brân sorriu com a ideia. O local era uma enorme floresta, com ar fresco e comida boa. Havia lagos e riachos frescos, saunas, e pessoas agradáveis… Lembrava-se de ter dado a virgindade ao seu namorado no meio da relva, sob o olhar da Deusa do Amor, sob a forma da lua cheia. Lembrava-se da dor nos rins, do semên morno entre as permas, da Euforia, do corpo escuro de Cormac batendo contra o seu... Doeu, mas foi tão bom, que ele se sentiu completo. Livre.

Lembrava-se de como era antes de Cormac lhe penetrar para lhe tirar a virgindade, e eles se davam prazer com as mãos e a boca. Foi naquelas terras em que ele falou com outros interssexuais como ele, onde teve seu primeiro orgasmo com outra pessoa, e onde viu pessoas olharem para ele com desejo, e talvez até admiração. Até teve outros casos, quando se sentiu tomado por desejo, e deixou outras pessoas compartilharem seu prazer com ele, como um nortenho, parente do marido de sua sobrinha Helena — claro, ele ainda não tinha nada sério com Cormac na época, e Ned, como o nortenho se chamava, foi um raoaz doce e gentil — e ele sentiu-se ser amado naquele local. Foi doce, pois ele não sentia a mesma líbido que Cormac e outras pessoas, mas lá era diferente, lá ele sentia prazer.

Era como um mundo mais leve, sem problemas.

— Isto seria ótimo. — Ele disse, corando. E, tomando coragem, acrescentou: — E, quando eu voltar, podemos ver o que faremos em seguida. — Disse, deixando o namorado entender o que queria sobre aquilo.

Cormac deu um sorriso, cheio de alegria, e a raiva e mágoa ficaram para trás. Ele pegou as mãos do namorado e as levou até seus lábios, enchendo-as de beijos.

— Oh, certo, amor. — Ele disse. — Vamos nos divertir hoje, pelo menos?

Brân sorriu, assentindo.

— Certo. — Cormac disse, e logo depois, acrescentou: — Termine de comer suas maçãs, e eu vou levar você para casa, onde farei uma boa massagem. — Um brilho travesso passou pelos seus olhos dourados. — E eu vou fazer a gente compensar o tempo perdido.

O rapaz sorriu com a promessa e pegou uma colherada de milho e levou a boca, saboreando o sabor salgado.

— Ei, rapazes! — Alguém os chamou, quando se viraram, viram que era era Erik, um colega da classe deles, acenando e indo até eles.

— Oi, Erik — saldou Brân, dando um beijo na bochecha dele quando ele se aproximou e se curvou para dar um beijo na sua. — Pode se sentar. Não o vi na classe hoje.

— Eu não fui para a classe mesmo — Respondeu, pegando uma cadeira para si. — Estava vendo uma palestra sobre o diretor Hatchnok, no auditório 306.

Erik era um homem na casa dos trintas e poucos anos. Apesar de novo, todos os cabelos estavam grisalhos, e firmemente amarrados na parte de trás da cabeça. Ele e Brân passavam bons tempos juntos, mas eram mais próximos antes deste começar um namoro com Cormac. Talvez, caso não tivesse ido para o retiro com o atual namorado, as coisas tivessem tomado um rumo diferente com seu colega.

A última vez que Brân havia visto o colega foi no dia da virada, onde havia visto ele matar uma galinha e jogar o sangue do animal abatido numa das fogueiras da comemoração pagã — embora a Igreja Sacromana a tivesse adotado como sua. Ele também havia tocado uma flauta feita de Pau Brazil — uma árvore advinda de uma das três ilhas do País de Verão —, junto de outros flautistas e tocadores de tambor. Eles haviam tomado hidromel e dividido um pouco de erva pouco antes. Até onde sabia, não se lembrava de tê-lo visto fazer amor com ninguém.

Quando o homem se sentou ao lado de Brân, disse:

— Então, vocês querem ir para algum lugar depois daqui? Eu estou com tempo livre...

Brân pegou um pedaço de maçã e comeu.

— Talvez — respondeu, não tendo certeza se o parceiro iria querer participar. Olhou para Cormac.

— Bem, eu e Brân estávamos pensando em passar o dia juntos — disse o homem com um sol na cara. — Ele logo vai ter que viajar para Cornualha, em Gália.

Erik assentiu, um pouco surpreso.

— Ah, que legal! — Ele exclamou, olhando para o jovem ao seu lado. Seus olhos brilharam um pouco ao ver Brân com o cabelo brilhante solto, com as pernas largas bem expostas. — Vai ver seus parentes?

O rapaz anuiu, tomando um gole do refri.

— Ver meus sobrinhos — Explicou. — Minha sobrinha, Helena, se casou ontem, como eu tinha falado, mas acabei por perder o casamento. — pegou um pouco mais de milho com a colher de plático. — Meu pai perguntou pro meu irmão se eu poderia ir passar um tempo lá, e ele conconcordou. — Continouou: — Ficarei na mansã do... — franziu o cenho. — Marido da sobrinha é o que mesmo?

Cormac deu de ombros e Erik balançou a cabeça. Nenhum dos dois sabia.

— Bem, que seja — voltou a explicar —, ele tem uma mansão e eu vou passar um tempo lá; vão estar meus sobrinhos, meu irmão mais velho, Aenor, e acho que uma das enteadas de meu irmão Pellinore. Minha tia deve estar por lá também, Igraine.

Erik acenou com a cabeça. Vendo que ele estava sem nada para comer, Brân empurrou a pequena bandeja de isopor para ele, oferecendo o milho que havia nela.

— Pode comer — disse, oferecendo a colher de plástico branco para ele.

Erik pareceu resistente no começo, mas logo aceitou, pegando a colher. Antes eles dividiam mais a comida, mas pararam de fazer tanto isso, pois Brân achava que Cormac era um tanto ciumento.

— Obrigado — agradeceu Erik, ignorando o olhar de Cormac.

Brân pegou mais um pedaço de maçã e o levou até a boca.

— Não teve um sobrinho seu que também segue a mesma Deusa do amor que você e Cormac, Brân?

O rapaz assentiu, engolindo o pedaço da comida.

— Sim, tem sim. É o Agravaine (se bem que acho que ele mais endeusa a esposa dele do que a Deusa em si).

— Estivemos no casamento dele — lembrou Cormac. — Dava para ver o quanto ele a amava só pelo olhar.

— Foi a esposa dele que me indicou passar as férias no santuário de Lyu'bov — Comentou Brân, pegando a mão do namorado. Deu um sorriso. — Ela e você, amor.

Cormac deu um sorriso meio fraco.

Isolde indicou que Brân fosse passar uma temporada no círculo da deusa — ela indicou principalmente por ser um ótimo lugar para pessoas do movimento LGBT. Cormac também seguia a Deusa, e já havia convidado Brân antes, mas este havia declinado. Como a religião era a mesma, perguntara ao futuro companheiro se ele toparia ir com ele para Gália — não podia mentir, já estava próximo naquela época, e, por mais que não esperasse que ele fosse com ele para outro país, ficou feliz em poder ficar com Cormac.

Antes de convidar Cormac, porém, Brân havia convidado Erik, mas este declinara, preferindo uma viagem para as terras além do mar, fazer um curso de botânica — claro, ele convidou Brân, mas ele já estava preparado para viajar ao santuário de Lyu'bov, e teve de recusar. Talvez, se ele tivesse ido, poderiam ter se tornado algo mais, mas não era para ser.

Os dias no local de adoração passavam como se fosse outro mundo; sem televisão, sem celular, quase sem comunicação com o mundo exterior. Passara ótimos tempos nadando em rios, ficando em saunas, fazendo caminhadas, conhecendo pessoas novas, dançando, comendo frutas frescas e fazendo amor sem pudor. Sair de lá foi quase um desafio. Provara ervas e bebidas que o deixaram fora de si, parecendo cheirar cores e sentir o gosto de música, fazendo um calor subir em seu corpo e deixá-lo em puro êxtase.

— Devíamos voltar para lá — disse Brân para o namorado —, para o santuário.

Cormac aquiesceu.

— Eu devia ir uma dia — comentou Erik. — Arrependo-me de não ter ido quando me convidou.

Brân deu um sorriso, sem graça.

— Você é um querido, Erik — disse. — Mas se eu e Cormac voltarmos para lá, seria apenas para passarmos um tempo juntos.

O homem deu um sorriso sem graça também.

— Tem razão. Não quis ser intrometido.

— Algumas pessoas tem apenas uma chance, Erik. — Comentou Cormac, com um sorriso cínico. — Tente não desperdiçar as oportunidades que a Deusa lhe oferece.

— De fato. — Erik se levantou e deu um beijo na bochecha de Brân. — Devo ir agora. Mas divirta-se em Gália. E me mande fotos do local.

Brân assentiu. Pegou a polaroid que tinha.

— Quer tirar uma foto agora? — indagou. — como recordação.

Erik olhou para os olhos de ouro derretido de Cormac e depois para os prateados de Brân.

— Deixe para outro dia.