Os Oito e o Mundo
6 Yumi Mizu, Mahoutokoro
Notas iniciais
Yumi sentiu como se seu coração fosse saltar pela boca. Ao ver o seu professor favorito do colégio Mahoutokoro levantar inesperadamente e interromper o discurso da ministra da magia britânica, teve certeza de que algo estava errado. A garota encarou o palco e, ao notar o olhar distante de seu mestre, sentiu o corpo enrijecer e a respiração ofegar. Yumi já havia visto aquele olhar muitas vezes.
O professor Kenzo Kobayashi realizou inúmeras profecias em sua vida e Yumi, que era uma das alunas mais dedicadas ao estudo de adivinhação de toda a escola de magia e bruxaria japonesa, havia visto seu mestre codificar profecias mais de uma vez. Ele era conhecido por, ao contrário de outros bruxos com o dom da clarividência, lembrar do que proferia ao invés de perder a memória como em um apagão em que outro ser assume o comando de seu corpo. Kobayashi lembrava de todas suas profecias e, na maioria das vezes, sabia o que elas significavam.
Yumi achava que também tinha uma pista sobre o que aquela profecia queria dizer. E era isso que mais a assustava.
“Os elementos estão com eles
(…)
Da água, aventura e vitória”
As palavras ressoavam em sua mente. Elementos… água…
Quando o professor Kobayashi terminou sua profecia, todos no salão o encararam abismados, sucumbindo a atmosfera do Auditório em um súbito silêncio, que para Yumi parecia ensurdecedor. Aos poucos, o som passou a reabitar o local em forma de uma falação geral. Todos queriam entender o que estava acontecendo. De cima do palco, o olhar do professor Kobayashi foi diretamente para Yumi. Ninguém mais percebeu, apenas ela. Ele sabia. Ela também.
—Eu já volto. — Yumi disse levantando-se repentinamente de sua cadeira. Seus amigos estavam sentados ao seu lado, mas conversavam tão entretidamente sobre o que acabara de acontecer, que nem repararam o quão calada estava a menina antes de se levantar. Rapidamente, Yumi começou a andar entre as fileiras de cadeiras em direção à porta do Auditório.
Ela se encontrava novamente no salão branco. Ele parecia bem mais amplo agora que estava vazio, já que todos os bruxos se encontravam na palestra. Yumi foi apressadamente em direção à porta. O ar fresco era o que ela queria naquele momento.
Saíra da prédio esquisito em formato triangular. Estava agora sozinha no tal parque Ibirapuera — no meio de São Paulo, no Brasil, onde ela jamais imaginou pisar.
Apenas alguns trouxas brasileiros podiam ser vistos à distância e nenhum deles prestava atenção em Yumi ou no caos que acontecia dentro dela no momento. Era melhor assim.
Yumi caminhou sem rumo pelo parque, perdida em seus pensamentos. Não conseguia tirar de sua mente o olhar penetrante que seu mestre lhe dera minutos atrás. A garota nunca havia confessado a ninguém suas particularidades em relação à magia, pois não sabia como a comunidade bruxa iria lidar com seu poder. No entanto, não é como se ela tivesse renegado sua natureza: Yumi passou a vida toda questionando de forma sorrateira os professores, tentando colher informações que pudessem ajudá-la a lidar melhor com sua magia oculta. Leu livros e mais livros, alguns muito raros, sobre os elementos. Sobre água.
Bruscamente, a garota parou de andar. Acordou de seus pensamentos e percebeu-se à beira de um lago imenso, com os pés quase imersos na água. Yumi sentia-se atraída pela água como um imã — mas não era só isso. Ela conhecia cada gota de água que percorria seu corpo. Conhecia a água daquele lago da mesma forma que conhecia a água que nadava no Japão, e sabia distinguir suas diferenças, suas características. Sabia que, se chamasse pela água, não importa onde estivesse, ela viria.
No entanto, a garota também sabia que não podia controlar seu poder. Apesar das buscas incessantes por informações que ajudassem-na a esclarecer sua incomum conexão com aquele particular elemento da natureza, percebeu de forma frustrante o quão inédito era aquilo na comunidade bruxa. Claro, existiam feitiços que permitiam a manipulação dos elementos como lumos, incendio, aguamenti… Mas era diferente. Yumi não apenas manipulava os elementos através da magia. Sua conexão com a água era muito mais profunda que os outros feitiços que lançava. Era como se toda água do mundo fosse sua amiga e soubesse seu nome.
Suspirou e sentiu o lago suspirar também.
—Sabia que poderia te encontrar onde houvesse água. — Yumi ouviu uma voz masculina atrás de si. Virou o pescoço para espiar com o canto do olho quem havia a seguido. Estava assustada, mas não queria que ninguém desconfiasse disso.
—Como assim, Hector? — Questionou Yumi, virando o corpo completamente para ele. Hector era um aluno de intercâmbio da escola CasteloBruxo, que veio fazer apenas o sétimo ano do ensino bruxo em Mahoutokoro. Geralmente, Yumi tinha dificuldade de entender o que o garoto falava por conta de seu forte sotaque brasileiro mas, provavelmente devido ao feitiço de conversão de línguas que fora lançado em todos os presentes na conferência, o escutava perfeitamente bem.
—Eu te conheço, Yumi. Sei do que é capaz. — Disse Hector se aproximando da bruxa.
—Que história é essa, garoto! A gente se pegou só umas três vezes — Disse Yumi, franzindo as sobrancelhas com um ar de deboche — E você sabe muito bem que eu já fiquei com metade dos garotos de Mahoutokoro. Não é porque a gente se beijou que você sabe mais de mim do que o resto. — Segundos depois, a garota lançou um sorrisinho sensual para o bruxo, dando um toque suave em seu ombro — Desculpe. Não quis ser grossa.
Sem jeito, Hector enrubesceu. Yumi adorava como conseguia deixar qualquer garoto bobo com apenas alguns gestos. Essa era uma coisa que podia controlar.
—Eu quis dizer, sei sobre sua história com a água. — Hector se recompôs — Já vi como a água que te rodeia responde às suas emoções. Agora mesmo o lago deu uma leve estremecida com sua fala!
—Hector, você tá viajando na maionese, como diriam lá na sua terra. — Disse Yumi, com o coração palpitando. Como ele havia percebido?
—Yumi — O semblante de Hector ficou sério — Quando te beijei, foi como um mergulho. Senti cada gota de água do meu corpo. Fiquei com sede e ao mesmo tempo pensei que iria me afogar. Por um tempo até pensei que você poderia ser uma sereia, mas você é muito menos assustadora. Quer dizer, você não é nada assustadora. — Hector enrubesceu de novo.
— Obrigada por me chamar de não assustadora e me comparar com um dos seres marinhos mais horripilantes do mundo bruxo. — Yumi sorriu, tentando mudar de assunto, mas Hector parecia impassível.
—Yumi o que você é? — Perguntou o garoto em voz baixa.
Naquele momento, o chão de Yumi caiu. Lágrimas brotaram em seus olhos. Será que todos os garotos que ela já beijou se sentiram assim? Será que todo mundo sabia do segredo que ela havia se esforçado tanto para esconder? E afinal, o que ela era?
—Ei — Disse Hector a abraçando — Não chora.
De repente, o lago do parque de Ibirapuera começou a encher mais e mais. Yumi sentiu seus pés molharem e percebeu o que estava acontecendo. Enxugou as lágrimas e se esforçou para conter o choro — não queria que os trouxas brasileiros ficassem encharcados por sua culta.
—Yumi, talvez você devesse falar com o Kobayashi. Ele provavelmente sabe o que significa aquela profecia e vai saber te ajudar se você for a escolhida para a missão. Quem sabe você não possa até mesmo entender mais sobre essa sua conexão com a água? — Disse Hector, ainda abraçado com a garota.
Entender mais sobre si mesma. Era tudo o que ela mais queria.
—Tem razão. — Yumi sorriu — Talvez você me conheça mesmo melhor que as outras pessoas. Vou falar com ele.
Hector corou e Yumi alargou seu sorriso.
—Fico feliz. — Disse o bruxo — Quem sabe, quando você voltar da sua super missão, a gente não possa tomar uma cerveja amanteigada. Conheço ótimos becos por aqui. Afinal, São Paulo é minha casa.
Yumi sorriu.
—Quem sabe? Agora preciso falar com o nosso professor de adivinhação. — Disse Yumi, correndo de volta para o auditório. — Obrigada Hector! — Disse a bruxa, virando para trás, sem parar de correr.
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