Os Oito e o Mundo
4 Haetsu Caeli, Uagadou
Notas iniciais
Haetsu sorriu ao encontrar seu quarto em Uagadou exatamente como o deixará. A maioria de seus colegas adorava as férias de Julho, mas ele não. Preferia mil vezes as aulas de Astronomia, Alquimia e Transfiguração, a comida abundante nos banquetes mágicos do salão principal e a companhia de seus colegas em Uagadou ao caos familiar que vivia em sua casa na Angola. Sem falar na viagem sem fim! A Escola de Magia Uagadou é localizada no topo das Montanhas da Lua a oeste de Uganda, onde todos que um dia foram até lá concordam não ser o lugar mais fácil de chegar no mundo. Além do mais, Angola fica a mais de 2 mil quilômetros de distância de Uganda e, como não é permitido aparatar dentro de nenhuma escola de magia e menores de idade são proibidos de fazer magia sem supervisão, a viagem de volta para a casa de seu país passou a ser infinitamente mais demorada do que realmente era.
Uma coisa é fazer uma viagem sabendo que você não tem o poder de se teletransportar para a lareira de sua casa de forma instantânea. No entanto, quando você tem a plena ciência de que poderia economizar mais de 20 horas de viagem de carro com apenas uma pitada de pó de Flu e é impedido de fazer isso por meras burocracias, o tempo passa muito mais de devagar. E aviões nem pensar! Além de ser muito caro, uma lata com asas a milhares de pés de altura não parece um meio de transporte convidativo. Parado a beira da porta de seu dormitório, Haetsu chacoalhou a cabeça para afastar a memória da cansativa viagem. Deitou-se em sua cama devaneando e se perdendo cada vez mais em seus pensamentos. A passagem pela casa de seus pais havia sido pior do que de costume. O garoto sentia que, quanto mais velho ficava, mais despertava o rancor do pai e a inveja de sua mãe.
O drama familiar havia começado no momento de seu nascimento. Haetsu tinha uma família diferente de qualquer um de seus colegas em Uagadou, disso ele tinha certeza e estava determinado a esconder o segredo de sua história a sete chaves. Jamila, sua mãe, e Malik, seu pai, eram ambos abortos, assim como seu irmão, Ngozi. Apesar do histórico familiar, ao nascer Haetsu já emanava uma forte magia, fato que não ocorreu por acaso. Meses antes do nascimento de Haetsu, uma trupe itinerante de meios-gigantes havia visitado a pequena aldeia bruxa em que vivia Jamila, a mulher que — apesar de aborto — era a mais bela do condado.
Um meio gigante de nome desconhecido, encantado pela beleza de Jamila, insistiu em conquista-la com todo tipo de cantada, não demonstrando nenhuma preocupação em esconder suas investidas de Malik. Afinal, o meio-gigante era maior, mais forte e mais mágico, e assim não tinha com o que se preocupar. Jamila cedeu as tentativas do meio gigante e engravidou pouco tempo depois. Todos na aldeia sabiam do romance proibido, incluindo Malik, que sentia-se irado e impotente perante a situação. Ainda no meio da gravidez de Jamila, a trupe deixou o vilarejo de forma sorrateira sem dar explicações.
Ao nascer, além de bastardo era evidente de que aquela criança possuía magia no sangue que corria em suas veias. Recebeu o nome de Haetsu, que significa "Isso não é nosso, não pertence a nossa família". Nunca foi bem vindo, nem nunca será. Ainda deitado em sua cama, que era pequena demais para o seu corpo, o bruxo suspirou. Ainda era início de agosto e seu aniversário estava chegando. Seria maior de idade e não precisaria mais voltar a casa dos pais. Nunca mais.
— Hae! — Sorriu Talib ao entrar no quarto — Como é bom te ver de novo meu chapa!
Esquecendo tudo que o incomodava, Haetsu levantou-se da cama e deu um grande abraço no amigo. Não tinha uma pessoa que Hae gostava mais no continente africano que Talib.
— Cara — Riu Talib ao sair do abraço. O garoto era mais baixo que o meio gigante, batendo um pouco abaixo de seu queixo — Se você fosse trouxa que nem eu, com certeza teria sido jogador de basquete antes de virar bruxo. Serio!
Talib dizia aquilo toda vez que os dois se encontravam. Haetsu considerou jogar basquete diversas vezes por isso, mesmo sem saber ao certo o objetivo do esporte. Toda vez que Talib tentava explicar a lógica do basquete, tudo que Haetsu conseguia imaginar eram homens grandes se trombando com uma grande bola laranja na mão. Mas foi o amigo que, de tanto tentar incentiva-lo a jogar o esporte trouxa, o deu coragem para jogar Quadribol.
— Vamos que o banquete de boas vindas começa logo mais! — Disse Talib saindo do dormitório. Antes de deixar seu campo de visão, o amigo voltou-se para Haetsu — Não acredito que esse é o último ano que iremos nos ver por aqui.
Haetsu sorriu, melancólico. Ainda não havia pensado sobre o que iria fazer depois de finalizar seus estudos. Onde iria morar? Qual carreira iria seguir? Como faria para ver Talib? Em Uagadou, as aulas iniciavam em fevereiro e metade do seu 7º ano já havia passado, restando apenas mais um semestre para sua formatura. O garoto continuou tecendo questionamentos e, quando percebeu, já estava sentado na mesa do salão principal, preparando-se para comer e escutando os avisos de boas vindas.
O primeiro mês do segundo semestre foi tranquilo. Haetsu voltou a treinar com o time de Quadribol na posição de batedor e foi notoriamente elogiado pelo seu desempenho escolar, principalmente na aula de transfiguração. No começo daquele ano, Haetsu foi o primeiro de sua turma a se tornar um animago com apoio dos professores e do Ministério da Magia. O garoto sentia-se acolhido na escola, onde tinha uma boa reputação. Ao passar pelos corredores, sempre era cumprimentado por pessoas dos anos mais novos e podia jurar que alguns grupos de meninas riam nervosamente ao acenar para ele. Estava tudo indo bem. Pelo menos até o dia 3 de setembro.
Naquela manhã, os alunos do sétimo ano foram dispensados de suas obrigações e convocados a comparecerem, junto ao corpo docente da escola Uagadou, a uma conferência de última hora decretada pela Confederação Internacional dos Bruxos. Poucas palavras foram ditas e ele, Talib e outros alunos e alunas do sétimo ano haviam descido a montanha para aparatar até o Brasil. A mente de Haetsu não conseguia acompanhar muito bem a quantidade exacerbada de informações que receberá desde o momento em que acordou naquela manhã. Brasil! Haetsu deu graças a Merlim que, aquela altura, seu aniversário já havia passado e não precisaria da autorização dos pais para deixar a Escola de Magia. Sua primeira atitude como um bruxo maior de idade seria ir ao Brasil. "Que loucura!", pensou Hae.
—Estão prontos? — Disse a diretora. Haetsu assentiu com a cabeça, assim como Talib. Todos tiveram de descer a montanha para poderem aparatar fora da escola. Hae lançou um olhar para a escola de magia, que parecia pequena no topo da montanha da lua. Sentiu o coração aquecer pensando nos momentos que passou naquela lugar. A escola tinha um design rústico, os salões comunais e os dormitórios eram talhados em madeira, algo que não dá pra imaginar olhando a escola de fora: Um impiedoso castelo de pedra. Haetsu deu uma última olhadela para Uagadou, sem saber que não voltaria mais para o castelo naquele ano.
Aparatar nunca foi uma experiência confortável. Ao chegar, Haetsu vomitou em uma moita antes mesmo de saber onde estava. Via filas de bruxos de diversas etnias entrando em uma espécie de Auditório, um prédio branco de formato triangular com um incisivo detalhe em vermelho. Em volta, um belo e grande parque parecia acolher trouxas que buscavam um pouco de paz. De repente, uma voz soou na mente de Haetsu e de todos os recém chegados de Uganda.
—Uagadou. Bem vindos a primeira Conferência Internacional entre Escolas de Magia e Bruxaria. Vocês estão no Parque Ibirapuera, São Paulo capital, Brasil. Para que todos possam entender todas as línguas faladas durante a conferência, os convocados estarão sobre o feitiço "Antebabel" pelas próximas 24h, a partir do momento em que adentraram o parque. Por favor, dirijam-se ao interior do Auditório Ibirapuera para que possamos esclarecer o motivo da reunião. Qualquer dúvida sobre a conferência pode ser retirada no balcão de informações, no foyer do Auditório.
Engolindo em seco, Hae adentrou o auditório para participar da reunião que mudaria o rumo de sua existência.
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