Os Novos Jogos

16 Capítulo 15


Notas iniciais
Música do capítulo: All You Wanted - Sounds Under Radio https://www.youtube.com/watch?v=SW0bFjj7pgs deixem repetindo enquanto lêem.
-
Obrigada mesmo a quem comentou e espero que gostem!

Diana's POV

Acordamos com um tiro de canhão. Ninguém se importou em ficar de vigia essa noite. Os poucos raios de sol que entravam na caverna indicavam que já era mais de meio-dia.

Nos levantamos em silêncio. Claire estava com os olhos inchados e vermelhos, descabelada, diferente do usual. Eu sabia que minha aparência não era muito melhor. Nós três tínhamos machucados e algumas queimaduras leves, mas nada muito sério ou comprometedor.

- Precisamos procurar água de novo – Chace disse.

Claire e eu assentimos.

- Nós podemos fazer isso – eu respondi. — É melhor você pegar comida – o final saiu mais rude do que eu planejara, mas não tive tempo de consertar. Ele foi na mesma hora para o mar.

Nós duas buscamos mais folhas e palha na praia para fazer as vasilhas e nos sentamos na entrada da caverna em uma rocha. Fizemos nosso trabalho quietas. Às vezes eu observava Chace nadando, admirando-o. Vê-lo daquele jeito me acalmava; me deixava feliz. Pelo menos por um tempo.

Eu nunca seria capaz de matá-lo.

- Acho que só agora percebi que você estava realmente certa – a voz falhada de Claire me tirou de meus devaneios de repente. Eu não teria acreditado que fora ela que falara se não tivesse visto sua boca se mexer.

- Sobre o quê? — eu perguntei, franzindo as sobrancelhas.

Claire continuava focada no pote, a cabeça baixa.

- O que me disse lá na Capital. — Ela parou para fungar e colocar o cabelo atrás da orelha. — De ninguém ligar para o que acontece aqui.

No fundo, eu sabia que não era seguro falar sobre isso assim, onde as câmeras podiam transmitir tudo ao vivo. Porém, não a impedi.

- Uma parte de mim ainda achava que as coisas talvez mudassem. Essa parte estava errada. — Claire virou os olhos para mim. — Espero que você ganhe.

- O quê?! — ergui a voz algumas oitavas. — Você ainda está no jogo, Claire. Não pode falar assim.

- Qual é, Diana – a menina a minha frente revirou os olhos, dando um sorriso trêmulo demais para se levar a sério. — Nós duas sabemos que eu não tenho chance alguma. Não contra quem ainda resta.

- Você tem, sim – eu repeti. — De quarenta e oito pessoas, você está aqui, entre os doze. — Talvez seja diferente dessa vez, terminei pensando, mesmo alguém muito gentil pode passar por isso.

Claire deu de ombros, desistindo de contestar.

Depois de mais alguns minutos, Chace voltou. A água fez mesmo uma completa transformação nele: sem machucados ou sinais de cansaço e limpo. Carregava vários peixes nas mãos e sorriu animado.

- Olhem só – levantou alguns. — Estava cheio hoje.

Não pude deixar de sorrir também.

- Ótimo. Agora vamos atrás de água.

- Certo. — Claire se levantou com as vasilhas que fizemos.

Chace deixou os peixes na caverna e nós três nos embrenhamos na selva. Parecia que cada passo era um tiro, tão calmo e abafado que ali estava. O solo preto e úmido não escondia as pegadas.

Mais de uma hora se passou até acharmos um raso riacho. Nos lavamos e refrescamos de novo antes de enchermos as vasilhas. Em seguida, nos pusemos em pé para retornar à caverna.

Dois sons nos pararam.

Primeiro, um rosnado baixo e ameaçador, seguido de um canhão. Ficamos imóveis, apurando os ouvidos para qualquer coisa mais. Então, uma movimentação nas folhas e mais rosnados.

Olhamos para o lado lentamente, sem fazer movimentos bruscos. Dezenas de raposas nos encaravam, arreganhando os dentes. Raposas bestantes, pois tinham o tamanho de lobos, mas ainda eram visivelmente raposas pelo formato do corpo e focinho. E ilhas obviamente não são seu habitat natural.

Ninguém falou nada, nenhum aviso era necessário para não se mover. Mas isso não se aplicava a elas.

O bando pulou sobre nós gritando e começamos a correr. Minha visão encheu-se de pelos e dentes, e eu mal conseguia me defender só com uma adaga. Ouvia ganidos perto e algumas raposas caídas, mas não o suficiente.

Mandíbulas se fechavam em minhas pernas e braços e eu me esforçava para não gritar. Senti um puxão no braço e então estava descendo uma colina. A maior parte das raposas não nos seguiu por um tempo e foi para outra direção, mas as que continuavam eram piores. Um grito horripilante soou do meu lado e outro canhão.

Eu congelei, o que foi errado. Três dos bestantes caíram em cima de mim me jogando ao chão e eu gritei quando senti o sangue escorrer. Enfiei a adaga contra o peito de um e o empurrei para o lado. Chutei o focinho de outro e este deve ter quebrado o pescoço.

Esqueci do último quando olhei na direção de Claire. Montes de bestantes agora estavam em cima dela, que gritava. Forcei a adaga contra as costas do último que me atacava e corri até ela. Mas era tarde demais.

- Claire! — berrei.

Só consegui captar outro grito agudo pouco antes do outro canhão atirar e o mundo parecer rodar.

- Não! Não!

Ela também não. O resto das raposas não parou. Saíram de cima do corpo de Claire, arruinado, em pedaços, e vieram na minha direção. Eu estava em choque. Não teria me mexido se outro puxão não tivesse me trazido de volta à realidade.

- Vai, corre!

Chace me empurrou para frente, enquanto o resto das raposas bestantes nos perseguia. Minhas pernas fraquejaram por causa da dor e eu quase caí. Àquela altura, a água há muito já havia sido deixada para trás.

Saímos na praia. No limite da selva, as raposas pararam, nos fitando com seus olhos cor de âmbar.

Eu arfava, com dor e cansaço. Minha cabeça parecia flutuar. As lágrimas ficaram presas no meio do caminho. Claire estava morta. Morta na minha frente. E eu não fiz nada. E ainda por cima a deixara lá.

- Por que eu a deixei? — o pensamento saiu alto e Chace olhou para mim. Também ofegava pela corrida e estava cheio de sangue.

- O canhão já tinha atirado – ele respondeu. — Nós não a deixamos.

Eu assenti, porque era verdade. Mas não mudava o fato de dois dos meus amigos estarem mortos. Não mudava nada. Eu só tinha Chace agora. “Só” não. Eu sentia que ele era muito mais do que eu precisava – ou do que eu merecia.

Fui até ele e o abracei forte. Ele retribuiu com a mesma intensidade e ficamos assim por um tempo.

- Obrigada por estar aqui.

Notas finais
O que acharam? Deixe um review falando se gostou ou não!