Após o confronto com os policiais, Renata saiu do meio das árvores e encontrou uma trilha de terra.

— Eu tenho que chegar em algum lugar...

Renata seguiu a trilha por vários minutos até que algo surgiu em sua frente. Uma casa construída na beira de um penhasco, onde era possível ter uma incrível visão do mar.

— Essa casa... Eu preciso de ajuda...

Renata correu até a porta. Sem pensar duas vezes, bateu na esperança de alguém atender.

— Por favor... — Disse Renata em voz baixa.

De repente, a porta se abriu. Um homem apareceu.

— O... Olá... O que aconteceu com você? — Disse ele espantado.

Renata juntou as mãos.

— Por favor... Eu preciso de ajuda... Estão me perseguindo... Mas eu não fiz nada.

O homem percebeu que Renata falava sério.

— Por favor, entre! — Disse ele.

Renata entrou. Três jovens que estavam na sala ouviram a conversa e se aproximaram de Renata. Um rapaz, uma moça de cabelos loiros que aparentava ser corcunda, e outra jovem que tinha cabelos curtos.

— O meu nome é Guiga. Esses são meus filhos, Eugênio, Clara e Ângela.

O rapaz foi o primeiro a falar.

— Você parece assustada! O que aconteceu?

— Espera, Eugênio. Deixa ela se acalmar um pouco. — Disse Guiga.

A garota loira se aproximou e segurou as mãos de Renata.

— Tudo bem... Você pode se acalmar aqui com a gente... Nós podemos te ajudar.

A outra garota, Clara, se aproximou também.

— Pode confiar em nós.

Renata respirou fundo.

— O... O meu nome é Renata. Eu sou uma mutante... Posso controlar o fogo...

Guiga se espantou.

— Ah, você também é mutante? Meus filhos também são.

Eugênio arrumou seus óculos.

— Sim. Eu tenho o dom da super inteligência.

— E eu posso curar qualquer ferimento apenas com o toque das minhas mãos. — Disse Clara.

Renata ficou um pouco mais aliviada de saber que estava entre outros mutantes. Em seguida, se virou para Ângela.

— E... Você também é mutante?

Ângela desabotoou sua blusa pelas costas. Um grande par de asas brancas surgiu em suas costas.

— Isso... Isso é lindo... — Disse Renata, sentindo paz em seu coração.

Ângela fechou sua blusa novamente.

— Obrigada... Sente-se mais calma agora?

— Eu acho que sim...

— Em todo caso eu vou buscar um copo de água pra você. — Disse Guiga.

— Obrigada...

Guiga foi até a cozinha e rapidamente trouxe um copo de água para Renata.

— Aqui está.

Renata pegou o copo.

— Já se sente melhor pra contar o que aconteceu? — Perguntou Eugênio.

Renata tomou um pouco da água.

— Essa noite eu voltei pra casa depois de um dia normal... Eu fui pra cama dormir, e... Depois de algumas horas eu acordei com meu apartamento pegando fogo. E meus pais morreram no incêndio...

Essa frase assustou todos. Renata continuou.

— E... Os bombeiros chegaram dizendo que fui eu quem causei o fogo... Eu escapei deles e tive que correr da polícia pra chegar até aqui... Mas... Eu tenho certeza que não fui eu!

Renata cobriu o rosto com suas mãos. Ângela e Clara se aproximaram.

— Renata... Eu sinto que você está falando a verdade. — Disse Ângela.

Renata respirou um pouco mais aliviada.

— Nós sabemos que os mutantes muitas vezes são injustiçados. — Disse Clara.

Eugênio se sentou no sofá.

— Mas nesse caso temos que ficar espertos. É muito provável que alguém tentou te incriminar, Renata.

Renata se espantou. Até agora ela não teve muito tempo pra tentar decifrar o que aconteceu em sua casa.

— Me incriminar?!

Guiga cruzou os braços.

— Infelizmente ainda tem muito preconceito em relação aos mutantes. Algumas pessoas são capazes de qualquer coisa só para se livrar de um deles.

— Mas... Eu pensei que depois da guerra cinco anos atrás, os mutantes tiveram bem mais aceitação na sociedade. — Disse Renata.

— Sim, a coisa melhorou bastante... Mas sempre haverão humanos que por algum motivo se sentem incomodados com a gente. — Disse Eugênio.

Renata baixou a cabeça. Clara colocou a mão em seu ombro.

— Renata, se você quiser pode ficar aqui com a gente.

Guiga pareceu incomodado.

— O que foi pai? — Perguntou Ângela.

— Pessoal, vamos com calma... Eu sei que vocês querem protegê-la, e eu também quero... Mas eu não posso também colocar minha família em risco.

Clara se assustou.

— Como assim, pai?! Você vai deixar que peguem ela?!

— Claro que não! Mas vocês entendem que eu não quero que o que aconteceu com a gente durante a guerra se repita!

Renata interrompeu.

— Tudo bem, eu entendo... Você é um pai e quer proteger seus filhos... Eu não quero que vocês entrem em perigo por minha causa também.

Eugênio se levantou.

— Nada disso, Renata! Você vai ficar aqui com a gente.

— Eugênio... — Disse Guiga.

— Tudo bem, pai! Se alguma coisa acontecer, nós estamos todos juntos. E não vamos nos separar, certo?

Guiga notou que não podia fazer outra coisa a não ser concordar.

— ...Tudo bem. Mas tomem cuidado, eu não quero que ninguém se machuque.

Renata parecia confusa.

— Eu... Não sei se é isso que eu quero...

Ângela deu um leve sorriso.

— Você é inocente. Eles não vão conseguir provar que você é culpada de alguma coisa.

— Sim, mas lembrem-se que pra muita gente o fato de ser culpado ou inocente não interessa. Ainda mais quando falamos de mutantes. — Lembrou Guiga.

Eugênio arrumou seus óculos.

— Acho que podemos ir dormir pelo resto da noite. Amanhã pensamos melhor.

— Certo! Vamos, Renata, eu vou mostrar seu quarto. — Disse Guiga.

Guiga levou Renata até o andar de cima.

Renata foi levada até um quarto.

— Você pode ficar no quarto de hóspedes.

Renata parou no meio do quarto e se virou para Guiga.

— Olha... Eu não quero colocar sua família em perigo, Guiga...

Guiga respirou fundo e cruzou os braços.

— Me desculpe por aquilo, Renata... Eu sempre fui um pai super protetor, e isso às vezes me faz dizer coisas não muito agradáveis.

Renata olhou fixamente para ele.

— Super protetor?

— É... Durante muito tempo eu cortei as asas da minha filha pra impedir que ela voasse pra longe ou fosse descoberta. E eu sempre evitei que elas tivessem muito contato com o público.

Renata cruzou os braços.

— Isso é compreensível... Quando ainda estavam meio ocultos, os mutantes eram motivo para pânico na população.

— Eu sei...

Guiga segurou a porta.

— Eu vou pro meu quarto. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar.

— Certo... Obrigada.

Guiga fechou a porta. Renata se deitou na cama e olhou para o teto.

— Alguém queria me incriminar...? Mas quem faria isso...? Eu não tenho inimigos...

Renata resolveu tirar esses pensamentos da cabeça e tentar dormir.