Os Mistérios Do Amor
3 Divergências
Notas iniciais
Alex mirava o céu da sacada do hotel. Como aquele garoto era um idiota! Pensava. Sabia que ele era desmiolado, mas não pensava que isso chegasse a tanto, ao ponto de se fazer de vítima para ver do que ela era capaz. Seu sangue fervia... Tinha vontade de esganá-lo, mas não perderia mais tempo em imaginar boas maneiras de acabar com seu estorvo que era o modelo... Tomou uma ducha fria rapidamente, colocando um roupão ao sair, até um “toc toc” discreto soar em sua porta. Ela mirou o relógio que marcavam uma e meia da madrugada.
– Francamente... – Resmungou ao abrir a porta. – O que quer aqui há essa hora? – Perguntara a um Afrodite cabisbaixo, cheio de vermelhidões na pele.
– Posso entrar?
– Já está praticamente aqui dentro... – Ela se afastou, permitindo que ele entrasse. Afrodite parecia mesmo mal ao entrar arrastando os pés, o sempre empinado e metido modelo, estava em frangalhos... – Sente-se, vou pegar uma bebida pra nós... – Disse ela se afastando. Afrodite a observava catar duas garrafas de sprite, e logo retornara sentando-se ao seu lado no sofá de dois lugares que havia no quarto. Ele pegou a garrafa, olhando-a tomar no gargalo sem cerimônia, acabou copiando o gesto.
– Alex... Eu... Eu tenho que lhe pedir desculpas...
– Então peça... – Disse mirando-o.
– Eh... Desculpa... – Falou nitidamente sem graça.
– Acho que foi uma boa lição pra você... – Falou ela, bebendo outro gole.
– Eu duvidei de você e... Ah você entendeu...!
– Entendi o quê? Não vou entender nada enquanto não disser... – Afrodite a mirou, estava em um impasse dentro de si, não queria dar o braço a torcer de que se não fosse por ela poderia ter acontecido algo terrível a si.
– Ah Alex... Já pedi desculpas!
– E...?
– Meu Deus! Você fala que eu tenho a personalidade terrível, mas você é cem vezes pior! – Ela parou de beber o refrigerante, encarando-o dentro dos olhos. O que o constrangeu, e o fez abaixar os olhos automaticamente. Sentiu seu rosto esquentar com seu olhar intimidador.
– Quando eu disse isso?
– Você não precisa dizer...
– Até mesmo você está ciente de que sua personalidade é terrível, fútil, sem noção...
– Tá Alex! Eu admito! Você salvou a minha vida, meu corpo, minha alma de um possível trauma permanente e.. o que quer mais que eu fale? – Ela voltou a entornar a garrafa, terminando de sorver seu conteúdo. Respirou fundo bagunçando os cabelos molhados. Afrodite a olhava fazer tal gesto, não podia negar que ela tinha seu charme, apesar de seu jeito turrão e masculino, chegava a até ser sensual sua mistura feminina e masculina, que assim como ele, também era andrógina, embora uma androginia completamente oposta a sua.
– Está olhando o quê?
– Hã? Nada! – Ela notara a falta de jeito do modelo, e chegava até a ficar curiosa sobre o que passava por sua cabecinha oca, que não fosse maquiagem e roupas de grife. – Eu vou dormir, amanhã tenho um ensaio fotográfico que Rosembell conseguiu pra mim...
– Ok... Boa noite. – Disse ela o mirando.
– Boa... noite. – Respondeu hesitando. Queria conversar mais com Alex, talvez a conhecer melhor, mas a garota não lhe dava nenhuma brecha, e o pior, ela tinha em mente de que ele era um completo idiota, e talvez tenha cavado a própria cova, pois fora ele mesmo que mostrara esse seu lado a ela.
***
A manhã começara um pouco fria em Nova York, e logo cedo foram à sessão de fotos confirmada pela revista de moda em questão. Alex parecia exatamente como sempre fora, mas Afrodite estava diferente e sua guarda-costas não deixara de notar isso. Ele mirava pelo lado de fora da janela do carro em silêncio, enquanto Rosembell dirigia e notava a diferença do sempre tão falante e espalhafatoso Afrodite.
– Você está bem, Afrodite? – Perguntara Rosembell.
– Sim... Só um pouco cansado... – Respondeu sorrindo falsamente.
– Ok... Já estamos chegando.
– Certo... – Alex notara sua mudança e de certa forma entendia o que estava acontecendo com o loiro, que aliás era muito transparente quanto às suas emoções. Eles chegaram enfim. Era um grande estúdio fotográfico, bem equipado.
– Afrodite! – Uma bela mulher viera lhe cumprimentar, era alta como ele, possuía longos cabelos negros. – Está um pouco abatido, querido! Maquiadores! – Chamou ela, estalando os dedos. – Tratem de mudar a carinha desse menino aqui!
– Obrigado, Lenna... – Respondeu ele, que fora levado pelos maquiadores. Alex se sentou em um canto, enquanto Rosembell tratava de algumas coisas. Ela observava Afrodite sendo maquiado, o faziam virar praticamente uma mulher, batons em tons berrantes, rímel, sombra e todas essas porcarias que só prejudicavam a pele, pensava ela. Mas notava o olhar um pouco fundo do modelo, e suas visíveis olheiras sendo facilmente escondidas por grosas camadas de base. Em seguida viera seu cabelo, seus cachinhos sumiam na medida que o ferro quente da chapinha alisava seus longos fios naturalmente dourados. Ele era bonito da forma natural, não precisava de todas aquelas coisas... Alex sentira suas bochechas esquentarem ao perceber no que estava pensando, Afrodite bonito? Realmente admitira isso mentalmente? Alguma coisa estava errada consigo mesma, pois tempos atrás nunca nem pensaria em algo do tipo...
– Prontinho, Afrodite... – Disse um dos maquiadores. Não demorou para que estivesse pronto. Era uma campanha de roupas unissex. Ele trajava uma bela bata branca, que caia graciosamente sobre uma calça folgada em bege, e sapatilhas pretas. Quando saíra de seus últimos retoques em frente ao espelho do banheiro, dera de cara com Alex pelo corredor.
– Melhore essa cara... – Disse ela friamente.
– Estou fazendo o melhor que posso. – Respondeu.
– Você é bonito Daley, mas sua beleza se ofusca quando não sorri. – Disse ela não acreditando que falara mesmo aquilo. Ela o vira arregalar os olhos tamanho era sua surpresa, e em seguida um enorme sorriso brotara naturalmente de seus belos lábios pintados de cor tutti frutti.
– Está falando sério? Alex! Você não está mesmo tão brava assim comigo?!
– O quê? Porque eu estaria brava com você?
– Pelo o que aconteceu ontem... Eu...
– Ah Daley, aquilo já passou... E tenho certeza de que você aprendeu muito bem a liçã... – Ela não pode terminar o que ainda tinha pra dizer, pois sentira os enormes braços do rapaz apertando-a em um forte abraço. Não podia negar, ele tinha muito de uma mulher, mas sua força ainda era de um homem... – Seu doido! Está me apertando!
– Ahhh! Alex estou tão feliz!!!
– Tá Afrodite, agora me solta!
– Não...
– Me solta!!! – Ele não soltou, até levar um chute na canela.
– Poxa Alex! Nem assim você deixa esse seu jeito durão de lado!
– Afrodite! A sessão irá começar! – Rosembell o chamara.
– Já vou, querido!!!!! – Gritara ele ao olheiro, rindo para ela antes de sair do corredor aos pulos. Ela fez uma negativa com a cabeça, não conseguia deixar de sorrir com as atitudes atravessadas daquele modelo fresco e infantil.
Alex o observava tirar as fotos, realmente ele levava jeito com isso, e estava sim, tinha que admitir: bonito. Ele era muito diferente das pessoas comuns, alguns interpretariam como homossexual, outros como bissexual, mas Alex o via simplesmente como uma pessoa intrigante, não por sua aparência, mas por ele mostrar ao mundo que talvez gêneros não importem tanto quanto as pessoas pensam, ela própria se auto forçara a isso, mas ele parecia ser assim por simplesmente ter ganhado esse “detalhe” da natureza... Era engraçado se pensar nisso, pois era um pouco complicado chegar a um conceito. Talvez o simples fato de existir falasse muito mais do que as próprias palavras...
– E então, como fui? – Perguntara Afrodite acordando enfim Alex de suas divagações. Agora é que tinha notado que o ensaio havia terminado.
– Foi... Foi bem! – Disse por fim.
– Nem prestou atenção, não é mesmo? Nossa, minha beleza é tão insignificante assim perante os seus olhos? – Ela o mirou fazendo o seu “pouco caso” habitual.
– Cala a boca, Daley... – Disse milagrosamente sorrindo. Eles voltaram ao hotel, ela mirou o relógio, não acreditando que havia ficado ali por incríveis três horas. Realmente não vira o horário passar. Mais tarde foram a uma entrevista que marcaram a ele para um blog adolescente. E quando a noite finalmente chegara, já estava exausta e faminta.
– Hoje vamos a um restaurante! – Disse Rosembell – Quero que conheça Nova York, Afrodite!
– Como se eu já não conhecesse, querido... Conheço de Paris ao Chimbu! Do Brasil ao Canadá! E por aí vai...
– Então já foi ao Brasil? Aposto que foi para ver o carnaval... – Comentou Alex por alto...
– Não... Mas juro por minha santinha dos bem maquiados que vou e levo você comigo, Alê querida! – Disse ele bagunçando os cabelos curtos de Alex...
– Pelo amor dessa santa... – Disse ela enfim. – Rosembell será que não daria para comermos no restaurante do hotel mesmo?
– Não Alex! Vamos sair um pouco! – Disse o agente. Ela se perguntou onde aqueles dois arrumavam tanto ânimo para se exibirem por aí... Rosembell era alto como Afrodite, devia beirar os trinta e pouco, era muito bem apessoado e diga-se de passagem, era bonito. Levemente moreno, tinha cabelos negros curtos, belos olhos... Sem mencionar sua grande capacidade de convencer as pessoas, porém sempre se sentira frustrado por nunca ter mudado o jeito turrão de Alex. Mas ele sabia dos motivos que ela possuía por ser como era, talvez por isso não a julgasse.
Eles foram ao tal restaurante que Rosembell tanto falara. Afrodite recebera ligações nesse meado, e fora convidado para ir em algumas festas, mas não aceitara, o que surpreendeu Alex. Jantaram em harmonia, Afrodite contando parte de suas viagens, das festas que ia e das marcas para as quais mais gostava de desfilar. Rosembell interagia dando suas opiniões a respeito de moda e de outros modelos que conhecia, e assim fora a noite, para Alex, uma grande perda de tempo...
– Nossa, eu sempre me imaginei morando nessa cidade... – Disse Afrodite à Alex, mirando o mar do alto do restaurante onde estavam depois do jantar.
– Não vejo nada de especial em Nova York... É enorme e fria... – Disse ela.
– Tem birra desse lugar? – Perguntou ele a mirando.
– Não é isso... É que muitos tem o sonho de morar aqui, e eu não vejo nada demais, nem nessa cidade, nem nesse país, pra falar a verdade não vejo nada de especial nesse mundo. – Afrodite a olhava com olhos curiosos, não era possível que Alex seria revoltada com o mundo de graça. Havia acontecido algo em seu passado, e isso martelou em sua mente por uns minutos. – Porque está me olhando assim? – Perguntou ela.
– Nada.. só estava me perguntando: o que aconteceu com você? – Ela estranhou a frase, e franzira o cenho.
– Do que está falando?
– Ora Alex... Estou falando de você, de como você é... Você é uma garota, e devia agir como uma...
– Olha só! Fale por você! Que é um garoto e está bem longe de agir como um!
– Mas o meu caso é diferente!
– Queria saber em que! Só porque você é homem? E eu uma mulher? Está me dizendo que não posso agir como bem entendo porque a sociedade prega que mulheres devem casar, ter filhos, ser uma boa esposa e obedecer o marido?
– Eu não quis diz...
– Pois fique sabendo garoto, que eu estou pouco me lixando pra o que essa merda de mundo pensa sobre mim, estou pouco me importando sobre o que as pessoas acham que as mulheres devem ser, esses padrões ridículos que eu faço questão de quebrar! E me admira muito você, sendo como é, agir como machista!
– ALEX! – Ele dera um grito tão alto que algumas pessoas que conversavam ali perto se distanciaram. Alex se calou, mais pelo susto do que por qualquer outra coisa. – Eu não disse isso! Você está colocando palavras na minha boca! Eu ia dizer..
– NEM VEM!
– ...EU IA DIZER que você é uma bela garota, e que devia tentar ao menos se arrumar mais.. Poxa! Vocês mulheres foram agraciadas pela beleza feminina, por seus gestos delicados e fascinantes, que me frustra ver uma bela mulher jogar isso fora! – Ela o escutou o analisando minimamente.
– “agraciadas pela beleza feminina”...? “gestos delicados e fascinantes” – Repetiu ela o mirando com desdém. – Pois fique sabendo que meus gestos delicados e fascinantes não salvariam minha vida em uma situação de real perigo, na verdade, não salvariam a TUA VIDA! – E ela havia tocado em um assunto que Afrodite estava tentando esquecer nas últimas horas...
– Espera aí, Alex!
– E acho... não, na verdade, tenho certeza de que todas as mulheres TODAS deveriam saber um pouco de defesa pessoal, e se isso te faz pensar que elas deixariam seu lado feminino.. Sinto em dizer mas você é um belo ignorante!
– Não foi isso que eu disse...
– E quer saber, Afrodite? Até mesmo você deveria saber um pouco se auto defender... Não se esqueça que só estou cuidando de você porque está na minha cidade, mas não pense que estarei com você em outros locais também...
– Eu sei... E agora tenho certeza de que deve ter acontecido algo muito grave com você, pra se tornar tão revoltada assim...!
– Ei, ei! O que está acontecendo aqui? – Rosembell chegara após ter pago a conta.
– Nada... – Disse Afrodite desviando seu olhar de Alex. Não estava querendo discutir com ela, até porque sabia que os argumentos dela não eram sem fundamento, e se parasse pra analisar, até daria razão a ela se a mesma não fosse tão grossa... Pensou.
– Bom, então vamos... Estou exausto... – Disse o agente se dirigindo à saída. Os dois se entreolharam estranhando-se, mas em seguida também deixaram o local junto com Rosembell.
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