Mat não podia acreditar no que havia acontecido. Se antes ele só não se conformava com Luke, agora ele o odiava. Ele deu algumas voltas em seu quarto se sentindo ridiculo. Com tantos pensamentos em como se livrar de Luke ele não conseguiria raciocinar sobre o paradeiro de seu relógio. Do que vale ser tão inteligente se qualquer coisa faz seu sentimentos explodirem e você não consegue se concentrar em mais nada?

Então Mat fez o lógico: confiar em seus sentimentos de antes. Ele podia jurar que era o Luke, mas não tinha evidência nenhuma. Seria mais complicado... E ai surgiu a ideia. "Eu tenho que achar a evidência." Ele saiu do quarto correndo até o corredor onde eles tinha se encontrado a menos de meia hora atrás e olhou em volta. Nenhum sinal do ruivo arrogante. Mat endireitou a postura e ajeitou sua cartola casualmente.

As vozes eram tudo que ele precisava. Nada saía da boca das crianças além de "Luke mudou nossas vidas." ou "Luke é o herói". Ele riu de leve ao ver a roda circulando o menino e esperou escondido atrás da porta que as pessoas se afastassem para planejar seu próximo movimento.

Os olhos cor de tempestade olhavam para todos os lados. As meninas sorrindo e falando e os meninos o encarando com respeito. Não consegui deixar de notar, porém, que Luke parecia passar mal. Franzi a testa. O menino não gostava da atenção? E como resposta ele se esquivou de um tapinha nas costas de um dos meninos mais velhos e correu. Ergui uma sombrancelha e caminhei lentamente para não chamar atenção. As crianças me encaravam como se eu fosse anormal por estar do lado de fora o que não fazia nenhum sentido já que ela só começaram a sair do prédio quando o ruivo chegou. Dei de ombros e o segui com cuidado. Para minha sorte ele parecia tão involvido em chegar no seu destino que nunca parava para olhar para trás. Começei a advinhar onde ele ia com aquela rota, mas ele sempre mudava de direção na hora de chegar nos lugares que eu advinhará. Logo não haviam muitas crianças em volta e seria mais difícil me misturar com a multidão.

Quando eu pensei que meus pés não iriam aguentar mais um passo e já estavamos longe o bastante para que nós dois fossemos os únicos naquela área o menino entrou pela porta detrás do prédio. Ele abriu a porta e eu entrei antes que ela fechasse. Eu nunca ia para a aquela parte do orfanato. As paredes rachadas e precisando de uma nova camada de tinta eram carregadas de quadros de todos os diretores e coordenadores -incluindo alguns da rainha! -, medalhas de campeonatos e algumas estatuas e certificados. Me escondi atrás de um dos vasos e observei o ruivo parar na frente do quadro do coordenador com suas duas filhas e o cão que olhava direto dentro da sua alma. Os quadros eram asusstadores! E eu me peguei tentando pegar meu relógio desaparecido para me acalmar.

O menino retirou o quadro da parede com um pouco de esforço sendo que o quadro era somente um pouco menor que ele. Arregalei os olhos, atrás do quadro do cão do inferno havia uma portinha de madeira acabada e até um pouco mofada com um buraco no lugar da maçaneta. O menino finalmente olhou para os dois lados depois de colocar o quadro do lado da porta e entrou.

Um esconderijo?

Bem pensado.

Nignuém vinha para a galeria.

Eu devia ter pensado nisso.

Sorri e me levantei andando até a porta.

Eu havia vencido.

Pensei em me anunciar no instante que cheguei até a porta e me garanti que Luke estava agachado no corredorzinho entre a galeria de quadros e a sala secreta, mas resolvi esperar. O efeito surpresa era com toda certeza o meu favorito.

Engatinhei até a sala que não me permitia ficar completamente em pé e observei a caixa jogada do lado da abertura. Ou eu era muito silencioso ou Luke estava muito concentrado no teto murmurando qualquer coisa. A sala em si tinha um tamanho razoavel, mas tinha tanta tranqueira -que não precisamos nem pensar duas vezes antes de confirmar que 99% dos objetos daquele quarto eram roubados- Quando finalmente perdi a paciência abri a boca, mas fui surprendido com algo me jogando no chão. "Luke, temos um intruso." Ouvi a voz da pessoa sentada em cima das minhas costas.

Meus olhos levantaram para enxergar a fonte do peso em minhas costas.

O que? Como?

Sentada em cima de mim esta Charlotte.

Uma garota?

Tentei me soltar, mas ela segurou meus braços, mas em momento algum me encarou, preferindo olhar para o menino de olhos azul tempestade que só havia desviado seu olhar do teto quase tocando no seu nariz com sardas para nós naquele instante.

Luke nos olhou sem surpresa. "Charlotte, pode soltar, é o engomadinho". Ele se ajeitou no sofá velho e disse, dessa vez me olhando nos olhos. "Não é nada educado seguir as pessoas." Ri e senti Charlotte soltar minhas mãos e sair de cima de mim. Me sentei no chão e o encarei de volta. "Eu só estava passando pela galeria quando vi um vándalo desclocar os quadros, pensei que ele não havia nada para esconder. Há! como eu adoro estar errado pela primeira vez." Apontei para a pilha de objetos ao seu redor e me levantei para procurar meu relógio. Revirei os olhos com o silêncio instalado no quarto. "Sim, eu te segui, mas em retorno, eu tenho certeza que não é nada educado-" Parei para abrir uma caixa. "roubar os pertençes de outras pessoas." Esvasiei a caixa no chão e olhei para a Charlotte. "Engraçado, eu tinha certeza de que o coordenador tinha te nomeado como representante das meninas. Seria tão triste se ele soubesse com quem você está andando e o que você está fazendo. Eu não sei como a Caroline se sentiria sendo liderada por você."

Charlotte sorriu maliciosamente. "Ah, você não vai conseguir chegar até o coordenador, não antes de eu lhe acertar um soco bem na boca." Revirei os olhos com a ameaça enquanto ela olhava para as unhas compridas.

"E com isso eu tenho certeza que você vai acabar sendo expulsa" Respondi.

Levantei meus olhos desinteressados para outra caixa com objetos brilhantes. Me levantei e peguei a caixa tirando dois relógios de bolso.

Nenhum dos dois eram meus. Suspirei, joguei os relógios de volta na caixa e deixei meu corpo exausto se encontrar com o tapete sujo embaixo dos meus pés. Eu odiava tudo, tudo, tudo naquele instante.

"Sabe que estaria me fazendo um favor né Laynton?" Ela respondeu dando de ombros. Levantei meus olhos, mas mantive minha cabeça em meio ao pó acumulado no tecido do tapete. Minha saúde era fraca e eu com toda certeza me arrependeria de noite "Como se alguém que já foi expluso deste orfanato realmente saiu mundo afora para contar a história." As palavras sairam antes que eu soubesse o que estava falando. "Seria ótimo se fosse explusa. Nunca mais algúem precisará conviver com sua chatice."

Olhei para outro lado entediado e me recômpus.. Luke se levantou e parou de pé na minha frente. "Diga... Aconteceu algo estranho antes de notar a ausência do seu relógio?" Nossos olhares se trancaram e eu aceitei mentalmente sua pequena competição de ver quem olharia para o chão primeiro.

"Agora que você mencionou algo estranho... aconteçeu sim. Entrou um ladrão no orfanato mais rico do país." Respondi me levantando e fazendo menção para a porta fingindo que não tinha percebido a pequena aposta. "Mas como você mesmo falou, foi extremamente indelicado da minha parte te seguir e descobrir seu segredinho. Eu não vou contar para ninguém." fiz uma pequena reverência. Como se eu possuisse alguém para contar -não que eu contaria já que, como minha mãe me ensinou: a coisa mais importante que o homem possui são suas palavras e elas devem sempre ser honradas- "Tenham um bom dia." levantei minha cartola de leve.

"Ah, claro, sou eu quem fica um porre por causa de um-"

"Charlotte, supera" Luke falou em um tom brincalhão para a menina, mas não deixou seus olhos desviarem dos meus.

Antes que eu passasse pela porta Luke se colocou na frente. "vamos lá cara, corta essa, a gente só tem mais..." Ele olhou para o relógio no chão. "3 horas... Dá para deixar o orgulho de lado dessa vez?" Semicerrei os olhos.

"Sem o meu relógio eu decido quanto tempo falta e que horas são." Cruzei os braços. "Eu não quero a sua ajuda. Muito menos a ajuda dessa..." Me interrompi e olhei para cima.

"Então, pode ir", ele abriu a passagem, "mas se passar, não temos mais um acordo, afinal, a caça ao tesouro já acabou" O encarei sério e depois senti um pesar na minha cabeça. Me afastei da porta.

"A caça ao tesouro! É isso, é isso, é isso!" procurei pelos papeis sobre o caso na minha mochila e olhei para minhas respostas. "Você já acabou o caso?"

"Ainda não, só dei uma breve olhada e depois vim pra cá, pra discutir com a charlotte" Ele deu de ombros à mudança de assunto.

"Bom, eu já estou quase certo de onde o objeto está escondido e nós precisamos ir para a caça ao tesouro agora."

Me virei novamente para ele antes de sair pela portinha. "Todos na nossa sala vão estar lá?"

"Não tenho certeza." Ele ergeu uma sombrancelha e eu considerei minhas opções.

Mordi o lábio. "Então é melhor irmos conferir. Você está pronto para ir?"

"Claro." Ele murmurou. "Você vem Charlotte?" Inclinei a cabeça para o lado. Será que eles estavam involvidos em alguma maneira?

"Podem ir na frente" Ela respondeu revirando os olhos com a mudança repentina de clima.

Ergui uma sombrancelha, mas ignorei e corri até o pátio onde as instruções já haviam sido passadas e só havia mais um envelope com a primeira pista na mesa. A professora não pareceu se importar com o fato de estarmos atrasados. Andei casualmente até a mesa e abri o envelope e li a pista. "Brincadeira de jardim de infância." comentei passando o papel para Luke e olhando em volta. "Eu tenho um plano para achar meu relógio, mas preciso de tempo já que minha lista de suspeitos cresceu um pouco... " Olhei sério para Luke. "O relógio tem que ser encontrado ainda nessa hora. Ele vai apareçer de qualquer forma, mas se eu quiser ve-lo de novo nós precisamos estar no lugar certo na hora certa."

"Ok, mas antes vamos até a cozinha, tenho certeza que a segunda pista está lá!" Luke falou e eu o segui. "Conte-me mais sobre os suspeitos" Luke falou tão calmo e tão baixo que eu quase não ouvi.

"Bom os suspeitos estão todos ligados com quem estava no quintal na hora que a bola caiu do outro lado. Eu não tinha pensado o quanto eles respeitavam você ou muito menos se espelhavam em você. Você é -perdão a expressão- uma espécie de Deus para eles. Depois que fui contra vocês as pessoas que antes não notavam minha existência passaram a me odiar." Entramos na cozinha onde alguns grupos ainda procuravam pelo outro envelope. "Uma pequena vingança inspirada no heroí deles. O ladrão do relógio fez tudo por você, para você, é óbvio que ele quer sua atenção, ele quer que você o note e não existiria um jeito melhor de pegar sua atenção e me humiliar ao mesmo tempo se não-" me interrompi quando outro grupo entrou e eu dicidi finalmente tirar o próximo envelope que estava escpondido entre o armário e o fogão e entregar para Luke.

"Agora eu só preciso encontrar o momento perfeito para o ladrãozinho aparecer e se dar de bandeja. Com todo o respeito, ninguém aqui é ladrão de verdade a não ser você então logo vai aparecer e recolher seu mérito." Falei enquanto saímos da cozinha em direção à próxima pista.

"Sabe, isso me faz sentir nauseá ás vezes" O menino ruivo falou. "Ele não tem nada no quê acreditar, nada em quê ter fé, e eu não sou um exemplo de herói, isso é ruim, eu não sou um exemplo a ser seguido"

Ergui uma sombrancelha. "Você deveria se orgulhar de ser diferente dos robozinhos da casa. Eu-" Olhei para cima e falei rapidamente. "É só que... bom, eu nunca tive coragem de fazer as coisas que você fez e quem sabe me livrar destes títulos. Por que treinar para ser um detetive se nenhum de nós vai sair daqui?" Ouvimos sussurros e nos entreolhamos.

"Sala dos professores." Falamos ao mesmo tempo. Eu realmente não entendia por que teriamos o trabalho de abrir o envelope se os nossos colegas corriam para o nosso próximo destino e deixava a resposta claramente no ar.

"Eu me orgulho, me orgulho de ter ajudado o garotinho e de ser chamado de herói, mas não me orgulho do que eu era antes... e ainda sou... Aquelas coisas no esconderijo foram todas roubadas, roubadas em menos de uma semana que estou aqui!"

"Bom, talvez você só goste da aventura. Você não precisa roubar nada aqui, mas você ainda quer sentir o perigo de um ato... ilegal?" Me surpreendi ao notar que eu estava realmente conversando com alguém. Depois de tantos anos. Que não estavamos falando sobre deduções, assassinatos, quem vai ser o melhor detetive ou as respostas para as tarefas. Eu não tinha muita certeza se realmente queria isso. Afinal se abrir com alguém é contar tudo. Suas fraquezas e, mesmo que eu ainda não tenha experiência o suficiente eu tenho certeza que meus pais foram mortos porque conheciam suas fraquezas. Parei com meus devaneios para olhar para o ruivo do meu lado, mas ele estava quieto e eu suspirei. Eu preciso pensar. Eu preciso do meu relógio.