Os Lordes de Ferro
9 Capítulo 9 – O vento soprando nos salgueiros
— E ae? Conseguiu alguma coisa? – perguntou Thaynara, levantando-se da rocha onde estava encostada, perto da fogueira. As ruínas antigas faziam parecer que ela estava em algum lugar da Grécia e poderiam até ser pitorescas, mas a fome deixava pouco espaço para isso.
— Consegui algumas aves. Não sei o que são. Parecem uma mistura de galinhas com pombos. Sei lá. Parecem comestíveis e têm bastante carne. Pelo menos as três que eu peguei são pesadas – respondeu Elfo erguendo as aves abatidas como se fosse um pequeno troféu. Atrás dele a floresta se ergia inexorável, com uma profusão de pinheiros, salgueiros e outras árvores.
— Pois pode passar para cá meu parceiro, que depenar penosas é comigo mesmo. – disse Eliabe puxando as aves da mão do Elfo e levando-as para uma bacia de ferro que estava cheia de água.
— Será que o Espartacus sabe o que está fazendo? – perguntou o rapaz, sentando-se de frente para Thaynara, a fogueira crepitando entre os dois.
— Ela sabe sim. Eu já vi ele transformar uma galinha da feira num galeto assado. Se precisar ele mesmo quebra o pescoço – disse a menina fazendo uma careta, enquanto tratava de alimentar o fogo. – Cara, eu deveria ter prestado mais atenção naqueles programas de sobrevivência do Discovery. Bear Grylls seria muito bem vindo agora... Mas por que você o chamou de “Espartacus”?
— Uai... não é o nome de guerra dele? Quer dizer, estamos num mundo estilo fantasia medieval. Acho bastante justo chamar por um nickname mais épico do que “Eliabe”. – respondeu o rapaz, tirando as botas e apoiando os pés na direção fogo.
— Faz sentido. – ponderou a menina. – Só não esquece de me chamar de Artêmis, ok?
Os dois ficaram em silêncio por uns minutos, como se não houvesse necessidade de palavras ente eles. Artêmis mantinha o fogo vivo, esperando Espartacus chegar com o almoço. Seria a primeira refeição de verdade em uma semana. Uma semana que estavam naquele sonho infernal. Depois da luta com os bandidos na floresta o grupo achou roupas e pertences que pareciam ter sido feitos especialmente para eles. Artêmis achou um pacote com escudo, lança média e espada curta, além de um peitoral de couro e luvas; já Espartacus encontrou manoplas de metal e uma espada enorme, identificada por Elfo como sendo uma claymore. Haviam vários tipos de suprimentos, mas nenhuma comida. Nos últimos dois dias, perdidos na floresta, tinham se alimentado apenas de amoras e goiabas. A água vinha do córrego, mas só no terceiro dia passaram a se aventurar mais por aí. Acharam as ruínas do que parecia ser um templo antigo. Colunas gregas ou romanas, tanto faz, com teto pela metade. O piso era de mármore velho e era bem melhor do que dormir na grama e no mato que abundava em volta. Uma das paredes tinha umas inscrições que apreciam em grego, mas nenhum dos três sobre traduzir.
Pouco tempo depois Espartacus trouxe as aves de volta, espetadas em espetos de bambu. Ele as dispôs em cima de dois galhos bifurcados por cima de fogo e poucos minutos depois o cheiro de churrasco começou a encher o ar.
— Aí meus consagrados... não tem essa de comer mal passado não. Frango e derivados tem que ser de bem passado para cima. Cortei tudo pequeno para fazer uns espetinhos da hora... mas como não tinha sal temperei com aquele pó apimentado que achamos nas mochilas. – ele disse ao perceber a cara de fome dos dois colegas.
Não demorou muito e os primeiros pedaços de frango já estavam comestíveis.
— Olha Espartacus, não sei se é a fome, mas o franguinho aqui está bem da hora. – disse o Elfo enquanto terminava de mastigar o seu pedaço. – Esses frango-pombos são bem gostosos cara, parabéns.
— Não são frango-coisas... são perdizes – disse a voz vinda da parte posterior do acampamento improvisado. Os meninos se viraram e viram um homem baixinho, meio careca, de farta barba cinza e uma cicatriz correndo de um lado a outro do rosto, por cima de um olho esquerdo completamente cego. Com ele, poucos passos atrás, vinha um burrico de carga, bem estofado de mercadorias. Ele ergueu as mãos em sinal de paz e completou – você deve ser um caçador muito habilidoso para caçar perdizes nessa região, meu senhor. Mas perdoem o susto. Meu nome é Sidval. Ou Sid, como os meus amigos me chamam. Sou caixeiro viajante e senti o cheiro das perdizes lá da estrada. Se não for muita empáfia, eu poderia me juntar a vocês no desjejum? Tenho peixe seco, queijo e uma jarra de vinho. Adoraria por os dentes numa perdiz. E essa parece estar tão macia...
— Claro, pode se juntar a nós – disse o Elfo, sentando-se mais afastado do grupo, dando a Sid um bom espaço em volta da fogueira. A cutucada de Espartacus foi bem discreta, mas vinha com a indelével indagação sem palavras: mas como é que é? Com os olhos o Elfo apontou para a sua espada, que estava ainda mais próxima do rapaz. Se Sid se revelasse uma ameaça ele seria o primeiro a tombar.
Sid abriu a mochila que parecia bastante pesada e de lá sacou dois pacotes embrulhados em pano, amarradas com um cordame de couro. Também sacou um odre de vinho e tomou um gole generoso antes de passar adiante. No primeiro pacote, um tijolinho de queijo de gosto forte e no segundo lascas de peixe assado e defumado. Em troca recebeu um espeto com diversos pedaços de carne ao qual mordeu sem cerimônia.
— Hmmm... mas que delícia esse queijo, senhor Sid! – comentou Artêmis antes de receber a odre de vinho em suas mãos. – Ah, o vinho também é muito bom. Parece muito com o “cantina da serra”...
— Ah, não sabia que a Amazona era apreciadora de bons vinhos. Esse não parece um “cantina da serra”, ele é um cantina legítimo. Comprei diretamente do vendedor, saído da pipa, no começo do ano.
— Mas o senhor disse que deu para sentir o cheiro das perdizes da estrada... não sabia que tinha uma estrada aqui perto... – comentou o Elfo, provando do peixe defumado. Achou salgado demais.
— Ah, mas se serve de consolo mestre cavaleiro eu também não conhecia essa ruína. E olhe que passo aqui por esta estrada muitas vezes por ano! A estrada começa em Ponte Alta, passa por Amag e vai até Santa Ajora. Um cavaleiro com pressa pode fazer tudo em pouco mais de dez dias. Eu e meu burrico levamos bem mais tempo!
— Aê, podepá, Sid... E o que é que você vende? – perguntou Espartano, sem qualquer cerimônia.
— Ah mestre... eu vendo de tudo um pouco. Peles, armas, equipamentos, roupas, artesanato comida... sabe como dizem: o lixo de alguém pode ser o tesouro de outro. Vendo até livros, embora esteja meio sem sorte com este último item. Mas não importa. Se eu não conseguir vender, pelo menos eu já o li. N]ao existe muita procura por livros de heráldica esses dias.
— Heráldica? – perguntou Artêmis.
— Sim madame. Heráldica é arte de entender a origem, evolução e significado dos emblemas e brasões das diversas famílias nobres de todo o Planalto Dracônico. – Disse Sid com certo orgulho. – Deixe me mostrar... Ele está aqui em algum lugar... Ah, aqui está... – disse ele puxando o livro, grosso como um dicionário, com uma capa grossa de couro endurecido. – este em especial tem todos os brasões desde a grande conjuração que criou a cidade de marfim.
O caixeiro viajante virou o livro na direção dos jovens. Numa página estava o desenho do brasão, ocupando uma página inteira, e nas outras a história envolvendo os brasões, domínios, terras, feitos famosos, entre outras curiosidades. Elfo recebeu o livro em mão e começou a folhear. A medida que passava os olhos pelas páginas parecia que as letras mudavam de forma e de lugar. Quando menos esperou estava lendo com certa dificuldade a história de uma família que dominava uma área chamada Terras das Pontes Altas.
— Mas pelo visto esta minha obra já está obsoleta. Neste mesma viajem eu já vi dois brasões que não constam no livro. E que coincidência – disse ele erguendo um drumete de perdiz no ar – Todos falam de aves... Aves de rapina... Corvos para ser mais exato.
— Corvos? – perguntou Artêmis, subitamente tomada por muito interesse.
— Sim madame. Um deles é do bando do corvo. Um odioso grupo mercenário que trabalha para quem estiver disposto a pagar mais. Era um corvo branco sobre um fundo escuro.
— E o outro? – perguntou Espartano.
— Ah, era uma variação. Um guerreiro solitário. Ou talvez só mais um vagabundo. Eu o vi faz algum tempo. Era um corvo escuro sobre um fundo branco.
— Era como esse aqui? – perguntou Artêmis, mostrando o seu escudo onde lia-se com tranquilidade o corvo escuro sobre o fundo branco.
Sid estava na segunda dose de vinho quando o escudo lhe foi mostrado. Ele engasgou e tossiu cuspindo uma mistura de vinho, frango mastigado e saliva em direção ao fogo. Logo ele olhou em volta e sentiu-se como uma ovelha cercada por uma matilha de lobos famintos. Ele jogou-se para frente, se prostrando na frente dos guerreiros implorando por sua vida.
— Por favor meus lordes... não me matem. Perdoem a minha insolência. Eu tenho esposa e filhos... Eu vos suplico!
— Calmaê tiozinho Sid... a gente não tá bravo com você não. – tentou acalmar Espartano.
— Verdade. A bem dos fatos, temos mais é que agradecer a você. É a primeira pista sólida que temos. O guerreiro solitário, onde você o viu?
— Santa Ajora. Depois de Amag. Mas tem mais de um mês... talvez dois.
— E o outro, o do bando?
— Ah madame, esse não faz muito tempo. Três dias, nas terras da Ponte Alta.
— Muito bem Sid – disse o Elfo juntando suas coisas – para que lado fica essa Ponte Alta e quanto tempo para chegamos até lá?
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