Os Lordes de Ferro

22 Capítulo 23 – A proposta


— Como eu disse, estamos ouvindo... – repetiu Artêmis, mantendo o cabo da espada perto de sua mão. Seus sentidos ampliados dançavam pela sala, numa sucessão enlouquecida de aromas em texturização, cores gasosas e sabores luminosos. Ela sentia a pressão crescer na sala, prestes a explodir.

— Minha oferta é simples e sincera... Quero que vocês levem a doce irmã até o templo que ela deseja ir. Mas quando ela entrar em transe para fazer a pergunta, vocês devem matá-la. Ela não deve ter a revelação que busca. Em troca eu lhes direi o caminho de casa. Mas apenas se aceitarem meus termos. – ele disse quase sibilando cada palavra. – É imprescindível que ela morra durante o transe. Caso contrário o nosso acordo fica fragmentado e sem valor. Eu sei que vocês são mercadores da morte – disse ele apontando para o Elfo – especialmente você. Você sabe oque é matar e não tem remorsos de fazer isso. – O Elfo engoliu um seco ao perceber que todos os olhares da sala estavam voltados para ele. É lógico que todos esperavam dele uma resposta, pois ele parecia o líder natural do grupo.

— Olha cara... a sua oferta é tentadora, mas eu assisti episódios demais de caverna do Dragão para aprender duas cosas: sempre tem um caminho para casa e não devemos ffazer acordos com o mal.

— Ô cara, tu tá ligado que eles morreram e estão no inferno, né? Eu li na internet que a uni é o satanás que os impede de voltar para casa, que na verdade é uma metáfora para paraíso. – intrometeu-se Espartacus, com uma segurança invejável na voz.

— Velho... – disse o Elfo ignorando Bernardo e seus asseclas – Tu ganha para falar besteira por hora, né não? Ou pode ser uma habilidade natural: falar merda por segundo. FMS. Putz, era um desenho para criança que passava nos Estados Unidos nos sábados de manhã. Nunca que iam deixar um plot desses rolando.

— Pelo menos era um desenho bom... não era aquela bosta de Death Note que você assiste,Pai nosso... que desenho japonês chato.

— Desenho japonês não... anime. Mas não dá para esperar que uma pessoa que tem uma tatuagem do bob esponja nas nádegas tenha qualquer Inteligência ou bom senso.

— Tá me desmerecendo parceiro? – disse Espartacus aproximando-se do amigo – só porque você é um tiozão com grana tá pensando que é melhor do que a gente, é? Com seu escritório metido no centro do Gama, sua secretária dona Jurema, seu carro de tiozão do ano... Tu é muito do escroto, e é por isso que tu é forever alone e não cata as menininhas. Tem inveja porque a Thay escolheu a mim, um musico fracassado de igreja.

— Mano, tu tá errado em algumas coisas: primeiro o nome dela é Judite... Respeite. Segundo, eu não tenho culpa se a Artêmis resolveu ficar com um pé-rapado como você.

— Já chega! – berrou Bernardo, irritadíssimo. – Essa discussão idiota de vocês não tem sentido. E eu quero uma resposta. Agora.

— Olha tiozinho Bernardo... – disse Espartacus sacando sua espada.

— A nossa resposta... – completou o Elfo sacando a dele.

— É que nós vamos limpar o chão com você e com essas freiras de meia tigela.

Os dois meninos avançaram na direção de Bernardo. As freiras partiram para a defesa de seu senhor revelando que por baixo do hábito traziam armas e pareciam saber usá-las muito bem.

A primeira trazia duas lâminas curvas e retorcidas que pareciam adagas de eskrima indiana. Não mais do que meio metro cada uma. Mas a freira girava as lâminas em volta dela mesma com maestria, fechando e abrindo inúmeras brechas e pontas de ataque. Espartacus a escolheu, apontando a sua espada longa na direção do pescoço da guerreira. A guerreira avançou girando as adagas de eskrima, quando a estocada de Espartacus entrou por uma brecha milimétrica em suas defesas. A lâmina entrou pela barriga, rompendo o estômago sem dificuldade e saindo pelas costas da guerreira.

A segunda trazia uma espada média e um broquel em formato triangular. Um soco com um daqueles deveria doer muito, se não fosse mortal. O Elfo segurou sua espada com ambas as mãos, usando a posta del’implicatto, esperando que a menina avançasse. Não demorou muito e foi o que ela fez. Ela colocou o broquel em posição avançada dentro da posta média e atacou com um golpe descendente, da direita para esquerda, visando as costas do Elfo. O Elfo deu um passo para o lado e girou a espada, da esquerda para a direita, atingindo o pescoço da freira-guerreira. Ela gritou contidamente de espanto antes de cair ao solo, com o sangue de suas carótidas descendo por sua garganta. O Elfo já sabia que antes de tocar o solo ela já estaria morta.

— Parece que você é o próximo tiozinho Bernardo... – disse Espartacus avançando com a espada em riste.

Bernardo não pareceu se importar com duas de suas capangas caídas ao chão, esvaindo-se em sangue. Ele suspirou de tédio e chutou a mesa onde ele estava. A mesa voou na direção de Espartacus como se fosse um míssil, espatifando-se ao atingir o rapaz que foi esmagado contra a parede.

— Vocês mortais não tem ideia de com quem estão lidando, não é mesmo? – disse Bernardo lançando o copo de vinho longe e finamente pondo-se de pé e começando a caminhar na direção do Elfo. O menino não teve dúvidas e investiu contra o oponente com toda a força. Seus golpes partiam a roupa de Bernardo, abrindo verdadeiros talhos de fora a fora em suas vestes sacerdotais, mas a pele do sacerdote não se rompeu nenhuma vez. Por fim o Elfo deu um passo para trás e estocou com toda a sua força. O golpe atingiu o plexo solar de Bernardo, mas a espada não parecia ser capaz de perfurar sua pele ou músculos.

— Ferrou... – comentou o Elfo enquanto procurava atrair Bernardo para fora, para se rmias mobilidade.

A porta abriu de supetão e Artêmis passou por ela. Vazio. Era o terceiro quarto que vasculhava em busca da sacerdotisa. Com um pouco de sorte o teatrinho dos dois amigos deixariam Bernardo e suas capangas ocupadas o bastante para que ela encontrasse Sweldma. A frente dela a última porta. “Só pode ser aqui” – pensou a menina ao abrir a porta. Deitada, desfalecida sobre a cama estava Sweldma. Artêmis concentrou-se em seus sentidos. Haveria alguma armadilha ali? Além do sono solto da sacerdotisa, ela podia farejar a poção que tinha desmaiado a menina. Também sentia a tensão subir no ar quando ouviu, de longe, algo grande de madeira espatifar-se numa parede de pedra.

Ela não tinha tempo para isso. Agarrou a sacerdotisa da melhor forma que pode e a arrastou para fora do quarto. Quanto mais cedo ganhasse as ruas, mais chances tinha de sobreviver.

De volta a sala de jantar Espartacus acordou. Estava todo dolorido e sabia que tinha quebrado mais do que algumas costelas. Respirar doía e seu peito chiava sempre que ele espirava. Era um mal sinal, mesmo. Sinal de que ele tinha pouco tempo e que provavelmente dentro de alguns minutos entraria em choque. Mas o que poderia fazer? Sentou a mão esquerda, que estava livre, formigar. Ele olhou e viu que seus dedos deixavam uma trilha de luz quando ele os movia. Só poderia ser alguma alucinação. Algum efeito colateral de estar as portas da morte. Mas... e se não fosse? Será que ela poderia escrever no ar? Ele rabiscou a primeira letra do seu nome e a lera “e” firmou-se no espaço por dois segundos antes de sumir. Então veio o estalo na sua cabeça: desenhe com kanjis. Quem sabe fosse a forma de fazer magias nesse mundo doido. Por que não?

“Mas, que kanji desenhar?” indagou-se sentindo o tempo esgotar-se. “Naosu” era a palavra em japonês para cura. Ele desenhou o kanji. O ideograma firmou-se no ar e desceu devagar até tocar no braço do menino. O brilho alaranjado do kanji cobriu seu corpo rapidamente e sentiu um calor agradável percorrer seu corpo. Tinha ciência de tudo o que estava acontecendo. As costelas partidas que voltavam para o lugar, intactas, os tecidos rompidos estavam como novos, e o sangue que voltara a seu lugar correto.

— Porra tiozinho... tenho que agradecer demais a Verianne Sensei por me ensinar essas coisas. – disse ele lembrando-se da antiga professora de japonês.

Mais adiante o Elfo estava ficando sem opções. Já tinha sado todos os golpes e floreios que conhecia, mas nenhuma de suas técnicas tinha sequer despenteado o irmão Bernardo. O falso monge não fazia questão alguma de desviar, recebendo a saraivada mortal de golpes por todo corpo, mas apenas suas roupas pareciam sofrer qualquer impacto. E era apenas uma questão de tempo para que as suas mãos indestrutíveis agarrassem o Elfo... E isso marcaria o seu fim.

“Pense”, ordenou o rapaz para si mesmo enquanto buscava algum espaço. “Se eu não posso cortar esse cara com a minha espada, quem sabe eu consiga amarra-lo, detê-lo de alguma forma?” O Elfo lembrou-se do candelabro que ficava no meio do Hall de entrada, com um pouco de sorte conseguiria manobrar o irmão Bernardo até embaixo dele e depois, catapimba! Era um plano tão bom, mas ele não chegou a coloca-lo em prática. Bernardo foi ficando cada vez mais lento, como se estivesse ficando em câmera lenta, até que ele parou completamente, imóvel como uma estátua de cera em tamanho natural.

— Mas que pourra... – questionou o Elfo, acenando a mão na frente do rosto paralisado do irmão Bernardo, sem obter nenhuma reação. Mais ao fundo ele viu Espartacus arquejando, agarrado á parede como se não tivesse forças para se mover. De pronto o Elfo foi até lá e aparou o companheiro. – Foi tu que paralisou esse bicho?

— Foi sim. Arte ninja de Togakure – disse o colega num farrapo de voz – usar esses poderes deixa a gente mais quebrado que arroz de terceira, meu irmão.

— Desde quando tu tem poderes? – perguntou o Elfo, incrédulo.

— Desde uns minutos atrás. Mas deixa que eu explico outra hora. Cadê a Artêmis?

Mal o menino perguntou ouviu um ranger ecoando pelo corredor. Artêmis vinha empurrando um carrinho de mão, com a sacerdotisa apagada em cima.

— Não fiquem aí parados... Me ajudem que temos de sair daqui quanto antes.

— E para onde vamos? – perguntou o Elfo, colocando a mão na cintura.

— Para qualquer lugar que eu não esbarre com estátuas vivas de caras que são imunes a golpes de espada. Vamos embora...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.