“Precisamos conversar em particular, meu jovem. Vamos até minha sala.”

Quando Quíron disse aquilo, John imaginou milhões de modos de tortura. Mas uma chamou a atenção dele.

Será mesmo que ele fará isso comigo? John preferia que não

E se quiserem cortar meu pescoço de orelha a orelha quando descobrir que sou um intruso? Ou pior, arrancar minha língua para não contar o que vi?

Sinceramente, ele sentiu certo alívio por sair de perto da garota, Alex Heights, e do sátiro.

A sala era como qualquer outra de uma família rica. Sofá (muito embora John não tenha entendido para quê já que Quíron tinha a traseira de cavalo), uma escrivaninha, uma cabeça de leopardo. A lareira emanava um calor reconfortante e John poderia jurar que tinha visto dois olhos no fogo. Quando piscou de novo, eles haviam sumido. John estava tentando se acostumar, mas aquele “leopardo” não estava tornando as coisas fáceis. Ele havia se mexido. Era apenas uma cabeça. Poderia causar tanto medo quanto se estivesse com o corpo.

– Não ligue para Seymour. Ele não lhe fará algum mal. – Quíron falou.

– O leopardo tem nome?

– Sim. Ele foi como um, digamos, presente do nosso diretor. Sr. D o encontrou em uma coleção de um caçador. Com pena, ele trouxe o animal de volta a vida. Aliás, o leopardo é um símbolo dele.

Leopardo, Sr. D... John desejava que tivesse se preparado mais.

– Como? Espera. Como se traz algo de volta à vida?

– Ele é um deus. Você deveria saber. Sente-se rapaz, vou lhe fazer algumas perguntas.

Deuses, ele vai saber quem eu sou antes de me torturar.

– Quando você lê, enxerga as letras flutuando pelas páginas?

– Não.

– Quando se diverte, o tempo parece passar muito rápido, mas quando está com tédio o tempo passa devagar demais?

– Às vezes.

– Sente-se sendo observado a todo tempo, mesmo estando sozinho em algum local?

– Sim

– E que vai ser atacado por um monstro a qualquer tempo?

– Obviamente.

– Então você é um semideus, obviamente. Só pelo fato de passar pela barreira mágica te torna um semideus. Apenas semideuses passam por ela.

John sentiu um enjoo forte. Sabia que tinha sangue antigo na família, mas não sabia que chegava a esse ponto.

E a garota? Preciso saber da garota.

– E aquela garota perto do pinheiro?

– Que garota?

– Uma verde. Ela que falou comigo antes de eu chegar.

– Ah sim. Minthê. Uma ninfa da menta

– É, ela me contou. Só não sabia que era uma ninfa.

– Longa história. Muitas vezes o amor exige sacrifícios.

Sim, eu sei. É difícil abandonar quem você ama. Pensou John.

– Diga-me seu nome, criança?

– John Adams. Vim do Brooklyn.

– Brooklyn é? Interessante. Diga-me, como encontrou esse acampamento sem sátiro?

Ah, eu fui mandando em uma missão que detectava magia desconhecida em Long Island e tinha que conhecer o local. Tive que seguir uma fênix em chamas. Mas tudo o que disse foi:

– Segui uma fênix em chamas. Um Benu.

– Benu?

DROGA, DROGA E MAIS DROGA. John teve que mentir. Teve que usar uma desculpa que talvez não convencesse muito.

É como meus tios da Turquia chamam.

– Parentes estrangeiros? Hm, interessante. Diga-me, e esse seu colar de hieróglifo, o que significa?

John olhou para o pingente. Eram três imagens.

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– É um presente. Uma amiga me deu. Ela disse que era de uma deusa gata, acho que é Bastet. Nunca ouvi falar.

Mas é claro que John ouviu. A família de John Adams era da Turquia mas alguns antepassados dizem que fugiram do Egito logo quando o império caiu perante Roma. Algumas pessoas que fugiram tinham o sangue dos faraós ou eram escribas e se casaram com os gregos que residiam lá. Anos se passaram e alguns casos curiosos na família apareceram. Alguns eram magos da Casa da Vida, claro. Mas casos como um garoto que voava, ou causava terremotos, ou ainda tinham plantações viçosas o ano inteiro eram algo estranho. Apenas algumas pessoas sabiam e não compartilhavam. John cresceu e soube de seus poderes como mago. Sua mãe disse que haviam histórias além daquela. Entretanto, como John não sabia de histórias sua mãe falava, ele desejou aprimorar seus poderes. Portanto, só sabia do Vigésimo Primeiro Nomo. Até agora.

– Vi que você tem uma marca na mão. Posso ver o que é?

Quíron observou e viu que era um hieróglifo.

– O que é isso? — perguntou a John

- N'dah. Significa proteção, algo assim.

Quíron demonstrou um pouco de surpresa.

N'dah? Bastet? Hm. E quais são as qualidades dela?

– Guerreira, fiel, protetora, materna.

Ops. John percebeu que Quíron falava na sua língua e ele respondera fluentemente. Eles falaram o Antigo Egípcio.

Caramba, estraguei o disfarce. Entreguei todo o jogo.

Meu jovem – Quíron falou com um tom de espanto. – Coisas assim não acontecem sempre. Acredito que você não deveria estar aqui.

Notas finais
talvez o n'dah não apareça, mas caso queiram ver o hieróglifo, aqui está o link http://epubbud_uploads.s3.amazonaws.com/8416801/4DWSEFM5/00015.gif