Os Livros Sibilinos
5 Henry V
Henry soubera do novo campista que havia chegado. Era impossível não saber. As meninas do chalé vizinho fofocavam muito sobre coisas banais. Beleza, masculinidade, campistas novos e essas coisas. Até porque elas falavam alto, como se falassem para todos os outros campistas ouvirem. Como elas conseguiam fofocar às sete horas da manhã? Blehhhh.
Mas ele e seus irmãos eram indiferentes. Para eles, o bom era ter festas. Poderiam comemorar a chegada do novo campista pelo simples motivo de ser uma festa. Resumindo o chalé 12: festa, festa, festa.
Seu chalé resumia características do seu pai. Ramos de uvas e de morangos subiam pelas paredes e entravam um pouco pelas janelas, teto cor púrpura e no chão um tapete de leopardo. O chalé era meio desorganizado, mas nem tanto quanto o 11. Só haviam algumas garrafas espalhadas pelo chão, que eram de vinho e champagne porém ambos não continham álcool. Dionísio, como diretor do acampamento e pai "responsável" não deixaria que isso acontecesse, obviamente.
Henry só gostava de festas, mas quando se tratava de atividades no acampamento ou até mesmo missões, ele sentia um pouco de vergonha de si mesmo. O chalé 12 não tinha tanto reconhecimento na Caça, tanto que era difícil os campistas serem escolhidos. Campistas do 10 e 12 eram os menos escolhidos para as Caças e quando eram escolhidos, eram mandados para guardarem a bandeira. As meninas do 10 ficavam fofocando ou cuidando das unhas. Drew Tanaka não entrava nas Caças por medo de quebrar as unhas. O garoto tinha um medo de falhar com os amigos da Caça, por isso preferia ser distração nas disputas.
Henry tinha se levantado mais cedo do que seus irmãos para aproveitar a água quente do chuveiro e ao ir ao banheiro e evitou até de fazer barulho. Entrou no banheiro, despiu–se, ligou o chuveiro e entrou debaixo. Enquanto se molhava, pensou em tudo o que tentaria fazer no dia. Talvez até trazer orgulho para o chalé. Escalar a parede talvez e chegar em primeiro ou então até ser o responsável por capturar a bandeira na disputa. Não, ele estava sonhado. Um filho de Dionísio não era capaz disso. O máximo que ele conseguiria era criar ramos de vinhas do chão e ainda por cima elas não sustentavam. Ele desejava ter o poder de seu pai de enlouquecer qualquer pessoa. Dizem até que o último a ter esse poder viveu durante a guerra civil que teve no Acampamento. Depois ninguém mais ouviu falar desse dom a não ser os filhos do deus.
“Eu gostaria de ter esse poder. Mas se pelo menos ele me ouvisse”
Ao terminar de tomar banho e trocar de roupa, Henry ficou se olhando no espelho e pensando no quanto era inútil. Ele tinha aquele sentimento sempre que lembrava todas as vezes que fracassara. Mas hoje não. Hoje Henry estava determinado a mudar isso, talvez até conseguir algum prêmio. Se tivesse caça, o que teria muito provavelmente já que era sexta, ele tentaria pegar a bandeira e trazer orgulho pro seu chalé.
– Vamos Henry, você tem outros irmãos que também querem usar esse banheiro. Saia logo! – falou Larry
“Droga. E eu achando que eles ainda estavam dormindo” pensara Henry. “Não duvido nada que acordaram com as fofocas do chalé 10”
– Já vou, Larry. Já estou saindo. – respondeu o garoto
– Anda logo, Henry. Eu estou apertado. – falou Matthew, o menorzinho.
Henry abriu a porta e barrou a entrada de Larry. Encarou o garoto mais novo e falou:
– Primeiro o Matthew. Ele é menor.
Enquanto Matthew fechava a porta, Larry ainda encarava Henry e ficava vermelho feito um morango. Um dos motivos de Larry e Henry se estranharem é pelo fato de que este se irritava com os atos de Larry. Apesar de Henry ser dois meses mais novo que Larry, ele não tinha medo de enfrentar o irmão. Henry discordava de muitos atos de Larry, até mesmo da vadiagem dele. Larry não fazia nada para cooperar no chalé, apenas bagunçava. E isso foi criando uma revolta em Henry.
Henry saiu do chalé e admirou estatueta de leopardo na entrada do chalé. Ele chamava a cabeça de Seymour em homenagem à cabeça que havia na sala de Quíron. Diferente daquela, o Seymour do chalé era de pedra e não falava. Henry se sentava com o leopardo às vezes e ficava ali quando se sentia só. Era seu consolo porque Henry achava que seus irmãos o odiavam, exceto o pequeno Matthew.
– Bom dia, Seymour.
Henry virou-se e saiu caminhando. Mas então algo inusitado aconteceu: O leopardo rosnara. Henry virou e achou estranho o que vira. Na verdade, não muito estranho.
O leopardo adquirira um tamanho natural e ao lado dele estava o diretor do acampamento.
– E eu? Não recebo bom dia?
– Ah, bom dia pai. O que o senhor veio fazer aqui?
– Não posso ver meus filhos não? – replicou Dionísio com desdém
– De acordo com as regras feitas por Zeus, não.
– Blah, blah, blah. Regras, regras, regras. Quem se importa? Quem as respeita? Eu não, porque sou um deus.
Um raio retumbou ao longe. Dionísio mudou a expressão para algo como de quem não estava nem aí.
– Está bem, está bem. Blehhh. Quero conversar com você, Harry.
– É Henry. – respondeu o garoto.
– Tanto faz. Quero conversar com você sobre algumas coisas que ouvi. Coisas que não fogem de um deus.
Milhares de coisas passaram na cabeça de Henry, como a vez em que ele tocou tanta flauta que o pé de morango cresceu rapidamente, deu frutos e murchou no mesmo instante.
– Ah, esqueça a história da planta. Aquilo não foi nada demais. Eu ouvi coisas que vieram de você. Venha, vamos conversar em particular.
Fale com o autor