Notas iniciais
O fim. Foi muito divertido e agradeço a cada um que parou o mínimo que seja para essa história. Tenho mais algumas coisas a dizer, mas não será por aqui. Enfim, uma última vez... ...Boa leitura. =)

Sr. Morais caminhava sem pressa pelo cemitério. Observando os túmulos ao longo da pequena estradinha de terra, ele constatou que a idade ainda não o impedia de subir o morrinho de terra.

Parou perante aquela lapide e observou o nome de Andrade registrado na pedra. Ficou em silêncio observando aquilo por um bom tempo, até ser desperto do seu transe por uma voz.

—O que você está vendo? – Era a voz do Comissário Nelson –.

Morais não se virou para ele. Apenas continuou a encarar a lapide.

—Um jovem Andrade e tudo o que fizemos juntos... – Ele disse com pesar em sua voz. –

Nelson fechou os seus olhos e se aproximou, parando a esquerda de Morais. Ele se abaixa com certa dificuldade e coloca um ramo de flores sobre lapide de Andrade.

—Entendo... Parece que no fim de tudo, Andrade morreu pela negligência de um filho até então desconhecido... –

—... Acho que ele mereceu ter a felicidade de ter um filho... Mas, não penso que isso seja justo. – Morais disse –

—O que quer dizer?

—Sofia Malpraga... Andrade... Os dois com problemas com o pai. Ou, com a figura paterna que possuíam. Pablo Malpraga herdou deles o ódio.

Nelson abaixou a cabeça.

—Então, é assim que termina. Eu me aposento e curto meus anos livres sem um bom amigo... – Ele então encara Morais – Como você aprendeu a lidar?

—É só manter o orgulho na boca. Não engolir ele. – Ele encara o tumulo de Andrade –

—Se arrepende de manter tanto o orgulho dentro de você?

—... Acredito que... Começo aos poucos a engolir o orgulho.

Nelson sorriu pela primeira vez.

—... Agora que está aposentado, como eu... Vai notar como é revoltante não ter ninguém bom cuidando das coisas.

—Acho que não. – Nelson disse – Nicolas resolveu esse caso. Tenho muita fé nele.

Morais não disse nada. Sorriu ao se lembrar de Nicolas. Talvez, ele ligasse para o jovem detetive para dar um ou outro conselho.

Na companhia de Nelson, ele se afastou do tumulo de Andrade. Anos de rancor deixavam de existir a cada passo para mais longe de Andrade.

•|•

Chumbinho voltou para a escola no dia seguinte. Seus colegas, que já haviam notado que ele estava demasiado quieto, ficaram felizes em notar uma súbita melhora no humor do mais novo dos Karas.

Enquanto caminhava pela escola, ele observou o local que um dia, foi o esconderijo dos Karas. Não sentia mais aquele vazio. Era como se... Como se tudo que vivera até ali o preparasse para aquele momento. Chumbinho sempre admirou Miguel. Agora, ele estava no comando. O espirito do líder dos Karas estava com ele.

Em um determinado momento, Chumbinho pensou em Andrade. Sem entender os motivos, o mais novo dos Karas sorriu. Andrade de fato não fora um dos jovens altruístas como os Karas eram, mas de todos os adultos que conheceu, Andrade era o melhor.

Entrou em sala de aula, notou Bibi se aproximar feliz em velo. O sol lá fora parecia um convite para as férias de verão, mas Chumbinho sabia que férias era algo que um Kara não tirava.

Já não era mais o momento de ser um Kara no quartinho de vassouras, ou resolvendo crimes. Era hora de ser um cara na vida. O futuro havia começado.

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Calú acordou cedo. Na noite anterior, ele se despediu dos pais com um jantar e agora, era o momento de voltar a rotina.

Encontrou Peggy ainda adormecida na cama do quarto deles. Tentaram em vão se adaptar ao fuso horário europeu. Era hora de dar adeus a aquele quarto de hotel. O quarto estava como foi entregue. Já haviam se despedido de seus amigos. O ciclo havia se encerrado.

Calú ficou um bom tempo contemplando-a da porta do luxuoso banheiro antes de sentar ao lado dela na king size para acordá-la. Ela abriu os seus olhos e viu o semblante lindo do homem que ela amava.

—Você pode me explicar, porque você consegue ser perfeita até mesmo dormindo? — Perguntou ele -.

—Oi, Calú. — disse ela -.

—Já me despedi.

Ela fez menção a começar a falar alguma coisa, mas ele se inclinou e a envolveu em um beijo. Ele se afastou e ela, apoiando o rosto na mão, o observou.

—Com você está?

—... Superchateado. — ele disse, com um sorriso infeliz -.

—Eu lamento.

—... Acabou. — ele acaricia a perna de Peggy coberta por uma calça -

Peggy não sorria. Observava o semblante de Calú. Ele estava completamente diferente daquele rapaz de quase dois meses atrás. O caso parecia ter o feito refletir. Ela, já não sentia o cheiro forte de bebida, nem os odores do cigarro. Era ótimo ter ele de volta.

Pegaram o avião na mesma noite. As férias haviam acabado. Tinham trabalhos a serem feitos. O mundo do glamour, da alta moda, do cinema… Porém, em toda a mídia, pode se notar uma nova fase na vida dos dois. Alguns especularam casamento, filhos… Calú sabia que era tudo uma questão de tempo. Contando que Peggy ainda estivesse lá, tudo ficaria bem.

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Crânio se perguntou por que os alto falantes de sua faculdade nunca funcionavam da mesma maneira. O braço estava visivelmente melhor. Caminhou pelo campus a passos largos, acenando e cumprimentando aqueles que faziam o mesmo gesto para ele.

Chegou ao refeitório e avistou a figura de seu orientador.

—É esquisito andar com um braço imobilizado não?

—Cai da bicicleta. Preciso de um carro, urgente. — disse Crânio -

O instrutor sorriu.

—Que tal um café? — Ele sugeriu -

Crânio aceitou. O gênio dos Karas pediu um cappuccino de avelã. Seu professor optou por um expresso duplo com pingos de leite.

—Edição fechada. — ele disse para Crânio — Sua tese está pronta. O livro será lançado daqui a dois meses, uma semana depois da exposição do seu projeto.

Crânio sorriu de forma sincera.

O livro viria a ser um sucesso e movimenta grandes discussões no ramo científico. Durante meses, o telefone de Crânio não pararia de tocar. Aquilo estava virando uma verdadeira festa.

—Contudo… -disse o instrutor — você se esqueceu da dedicatória.

Ele estendeu uma folha e uma formosa caneta rebuscada e possivelmente cara. Era para momentos especiais.

Crânio tinha a caneta em punhos. Não sabia o que faria. A quem dedicar. Seu olhar se cruzou com o de Maria, que os observava com um leve sorriso. Crânio escreveu cheio de certeza, entregou a caneta para o instrutor e caminhou até Maria.

—Qual a sensação? -Ela perguntou a ele-

—Acho que estou feliz. — Ele disse -

Ela riu.

—Sua tese vai causar uma devastação. O pessoal está muito feliz por ter trabalhado nesse projeto. Tem um repórter de uma revista do ramo científico aqui. Quer ser entrevistado?

—Não. — Ele disse -

—Foi o que pensei. — Ela sorriu -

—Falaremos sobre isso por meses. Todos nós. Não a necessidade de pressa agora.

Ela concordou com a cabeça. Seu olhar estava fixo em crânio.

—O que vai fazer agora?

—não sei… Faculdade internacional de ciências… — ele disse -.

Ela mordeu o lábio inferior.

—Maria, eu…

Ela se aproximou de Crânio e sussurrou no seu ouvido.

—Eu já sei. -ela sorriu -.

Crânio não pode disfarçar o seu sorriso involuntário.

—Estou apaixonado.

Ela o observou.

—É sério?

—Muito apaixonado. — ele disse -

Ela sorriu.

—Bem, vou manter distância até saber se é real os seus sentimentos por ela… — ela enlaçou o pescoço dele -... Talvez...

—... Talvez.

O instrutor sorriu vendo o beijo de Crânio e Maria. Observou o que o gênio dos Karas havia escrito para a dedicatória.

Riu, ao notar que crânio escreverá a palavra “caras” de forma errada. Um erro esquisito. Ele mesmo corrigiu riscando o “K” e escrevendo um “C” e seu lugar.

“Aos Caras que me mostraram o benefício de questionar”. — Crânio

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De todos os Karas, Miguel fora o que mais se sentiu a ausência. Isolou-se. Tinha muita matéria da faculdade para recuperar, porém, terminou com folga quando pode finalmente se sentar e focar naquilo. Seus olhos sinceros estavam mais vivos e cativantes do que jamais esteve. O menino líder dos Karas voltou a habitar aquele corpo.

Perguntou-se o que significava aquela sensação. Sem saber o que fazer, viajou rapidamente para o Rio de Janeiro e por lá ficou duas noites. Pegou um pouco de sol, relaxou por fim. Aquelas tão estranhas férias não planejadas… Só retornou a sua casa no dia anterior ao seu regresso à universidade.

Andou devagar, observou o telefone onde recebera a ligação do aviso da morte de Andrade. Finalmente, ele sentiu que aquilo havia terminado.

Eram cinco e trinta da tarde quando Miguel, curioso, ouviu a campainha tocar. Estava no banho. Pensou em quem poderia ser, se vestiu e seguiu para a porta.

—Oi. — Era Magri -

Ele não respondeu.

—... Meu voo foi cancelado.

Miguel a encarou. Sabia que não era verdade. Ela foi quem decidiu não entrar naquele avião. Magri ficou em silêncio por alguns segundos. Os dois se olhavam através da porta. O cheiro de shampoo e sabonete que exalava de Miguel a fazia se sentir tão confortável…

—Estou te incomodando? — Ela o observou -

—Estava no banho, só isso...

—... Eu… Queria me desculpar.

Miguel a observou. Magri corou como uma menina do primário.

—... Eu demorei muito para me dar conta. — Os olhos dos dois se encontraram. Miguel entendeu o porquê Magri estava ali -.

Ele hesitou por alguns segundos. Durante anos, mantiveram-se extremamente próximos, depois, por anos separados um do outro. No entanto, eles pareciam sempre estar pensando um no outro. Na tela de um computador, ou em uma folha escrita, Miguel era elétron. Magri era um código. Tênis polar... Código vermelho...

Porém, na vida real, em frente a uma porta, continuavam sendo eternos apaixonados. Ele então constatou ali, que sentia por Magri, um sentimento tão profundo, que não poderia a deixar escapar.

Ela, por sua vez, havia se decidido. Bobagem era fazer conta que tudo aquilo seria esquecível.


Ele abriu a sua porta. Magri acabava de entrar, finalmente, em sua vida. Desta vez, para nunca mais sair.

Notas finais
Os Karas - Cigarros & Moscow Mule. Fim.