Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
6 Arco II - 1. Congregação.
Notas iniciais
"Uma reunião em que todos os presentes estão absolutamente de acordo, é uma reunião perdida".

Na tarde anterior, Chumbinho recebera autorização dos pais para faltar e ir ver seus bons e velhos amigos. Não foi difícil convencer os pais depois que eles já sabiam que Magri, medalhista de ouro e Calú um dos mais famosos atores do momento estariam com o filho. Na mochila, Chumbinho levava um pequeno bloco de notas (Não amarelo, como era o seu) para pegar autógrafos dos dois amigos. Foi dormir cedo para acordar cedo.
Foi até a padaria, a banca de jornal, e estava pronto para rever os amigos. Entretanto, conforme as horas passavam as expectativas e preocupações de Chumbinho eram uma vez mais preenchidas. As perguntas que ainda habitavam a sua cabeça não pararam de vir mesmo depois de conversar com Miguel. O Bloco de notas amarelo do garoto não saia do seu lado desde então. Naquele momento, Chumbinho ouviu o chamado da Mãe. O tirando do mundo das hipóteses Seus amigos haviam chegado.
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Crânio literalmente pesquisou tudo o que pode sobre Andrade nos dias que sucederam a ligação de Miguel. Quase três dias depois, ele já podia se considerar um especialista sobre a fama e Andrade. O mais cômico, era o fato da mídia idolatrar Andrade por feitos onde os Karas estavam tão envolvidos quanto e eles nunca terem sido citados uma única vez. Crânio refletiu sobre isso diversas vezes e hoje, entendeu o porquê de Andrade sempre insistir em deixar tudo isso longe dos Karas. A Fama de Andrade em casos como a Droga da Obediência, A Máfia do pantanal, O Caso dos Neonazistas, a Droga do Amor e o sequestro de Peggy gerou consequências.
— “A nossa própria força incita desafio. Desafio incita conflito. E conflito... gera catástrofe”. –Crânio enfim começara a compreender.
Havia sim, a possibilidade de Andrade ter morrido em missão como pode acontecer com qualquer pessoa que veste uma farda e, lutando contra a corrupção que evidentemente existe no ramo policial, se sacrifica para defender os cidadãos. Porem, a fama internacional de Andrade poderia, muito bem, ter torna-lo um alvo de algo muito maior.
— Se uma nova força criminal quisesse se infiltrar no Brasil, eles deveriam primeiro se livrar da maior ameaça, o Grande detetive que “sozinho” resolveu os casos mais marcantes dos últimos anos…
Crânio olhou para o relógio e partiu para o banho. Pensou em Magri e como ela estaria linda. Enquanto dava o nó na gravata pode ouvir o chamado do carro de Miguel. Pegou a bolsa e saiu de casa. Magri já não ocupava o seus pensamentos.
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Peggy estava em uma sessão privada no aeroporto de Cumbica. Irou o cabelo da frente o rosto e observou os olhares daqueles que a tratavam como uma rainha. De alguma forma misteriosa a mídia local soube de ultima hora que o casal predileto dos tabloides americanos estava vindo para São Paulo às escondidas. Passado todo o tumulto da mídia, Peggy esperava Calu que estava lá fora. Um carro da família de Calu esperava-os do lado de fora do aeroporto.
A Linda garota levava consigo algumas medalhas de congratulação e de honra. Algo que se colocava nos túmulos de militares que cumpriram com seu dever e se provaram grandes patriotas. A Garota não conhecera Andrade tão bem quanto os outros Karas, mas qualquer pessoa que arriscaria a sua vida por uma total estranha como Peggy merecia o devido respeito.
Peggy pediu com uma educação nada esperada para um dos funcionários que lhe informassem as horas ao se lembrar de que não estava mais com seu relógio. Os seus pertences metálicos ficaram dentro da bolsa depois de passarem no detector, ainda nos Estados Unidos. O Funcionário logo lhe informou. 10h47. A Cerimonia se iniciaria às 14h daquela quinta-feira ensolarada. Peggy sabia que mesmo assim, era provável que se atrasassem.
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Magri foi a primeira a chegar ao local escolhido. A Igreja estava de portas fechadas. O Jardim dela, repleto de flores diversificadas. Observando tudo suspirou entediada. Pensou em seguir logo para dentro, mas foi impedida por um estranho zelador do sagrado local.
— Ainda não!
Magri suspirou e foi dar uma volta no belo jardim da catedral. Estava triste por Andrade, mas ao mesmo tempo, estava feliz por ter a oportunidade de rever seus amigos, em especial um deles que há dias não saia de seus pensamentos. Mordeu o lábio inferior sem perceber.
A temperatura estava agradável, Magri atravessou a rua e comprou em um posto de gasolina uma garrafa de agua mineral. Foi reconhecida no posto e atendeu ao pedido para bater fotos com o dono e com outro funcionário mais impressionável. Rotina típica.
Logo voltou para frente da catedral. Enquanto caminhava pode ver um carro prata estacionando perto da entrada da igreja. Levantou o olhar sem esperança e sorriu ao reconhecer três pessoas que amava.
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Miguel fora o primeiro a sair de casa. Reabasteceu o carro e foi buscar cada um dos Karas ao qual prometeu uma carona. Sem musica no carro pois no caminho, não pode deixar de pensar nos detalhes da cerimônia. Apenas os seis filhos de Andrade e mais um grupo de quatro pessoas relacionadas à cerimônia estariam presentes no local. Começaria às 14h. Havia decorado o horário. O Caixão estaria fechado devido o corpo já ter começado a entrarem um estado deplorável. A Autópsia de Andrade já havia sido feita por volta de uma semana atrás. Miguel não entendia o motivo de já não terem enterrado o corpo de Andrade. Suspirou. Era melhor parar de pensar naquilo.
A Primeira casa em que Miguel parou foi a de Crânio. Os amigos se abraçaram em um gesto de amizade. Sorrisos não podem ser escondidos.
— Como está Senhor Gênio?
— Vou levando, Senhor Responsabilidades.
Os dois conversaram outros assuntos diferentes de aventuras Nostálgicas ou o motivo de se reunirem antes de entrarem no carro. Meio minuto depois de Miguel dar a partida, o assunto principal tornou-se as suspeitas de Crânio.
— Poderia ser isso, entende? —Ele dissertava sobre sua teoria - A Fama que Andrade construiu é um convite ao desafio para qualquer bandido mais esperto que a maioria.
— Compreendo. Mas não acredito nisso.
— Você não acredita ou está se forçando a não acreditar?
Miguel batucou com os polegares no volante. Em duvidas do que responder.
— Estou mantendo o pé na minha realidade.
Com o canto do olho, ele pode ver como Crânio exibia o seu semblante.
—… Francamente Miguel. Você mudou.
— Espere a autópsia. –Miguel disse com uma convicção recuperada as pressas - Depois que colocarmos as mãos nela, eu volto a discutir isso com você, Crânio. Eu prometo, agora, não fale isso perto do Chumbinho, ok?
— Voltamos pra época em que você subestimava o nosso pequeno-maravilha?
— Eu só não quero envolver um garoto nesse tipo de assunto. – Suspirou cansado, observou Crânio que sorria.
— Já estamos falando como ele.
Miguel e Crânio se entreolharam e sorriram. Um pouco de Andrade naqueles dois acabara de se mostrar.
Chumbinho não demorou a entrar no carro. Abraçou Crânio que a tempo não via e logo começou a conversar com os irmãos.
— Karas, Eu tenho tantas teorias sobre esse caso que quero dividir com vocês…
Crânio não pode evitar o riso. Miguel suspirou.
— Ele é um Kara, Miguel… Não tem o que fazer.
Ainda sim, Miguel reprovou.
— Chumbinho, nós já não conversamos sobre isso?
— Sim Miguel, eu sei. Autopsia e tudo mais. Mas não me leve a mal, você está cansado.
Crânio riu mais uma vez.
—Ei, não estou cansado. Quando fizer faculdade você vai entender.
O rosto de Chumbinho exibia um ar de vitória.
— Sim, está sim. Eu acredito que sua rotina te tornou um careta de primeira categoria então… Eu que ainda tenho o sangue quente vou desvendar essa, Nada pessoal. E você Crânio? Se tornou mais careta também?
Crânio que tinha um sorriso cômico fez que “não” com a cabeça.
— Meu campo é o cientifico Chumbinho. Nunca me cansei de responder perguntas. Estou com você nessa.
— Meu senhor… vocês só podem estar loucos. – Miguel disse com as mãos no volante -
— Miguel, Miguel… O que o seu eu de cinco anos atrás diria ao te ver desse jeito? – Chumbinho perguntou do banco de trás -
Miguel suspirou e seguiu rumo a catedral.
Dez minutos se passaram e logo eles estavam lá. Magri se levantou e deu um sorriso encantador. Os Karas saltaram do carro e foram ao encontro da primeira dama.
— Magri!— Chumbinho foi o primeiro a cumprimentar a amiga –
— Chumbinho! Que saudades de você, baixinho!— Magri deu um beijo na testa do amigo. Ficaram um tempo considerável abraçado –
—Nossa medalhista de ouro. Você não sabe o quanto estamos orgulhosos.
Magri sorriu e encarou os outros dois Karas. Miguel deu um passo à frente e a envolveu em seus braços em um abraço recheado de sentimentos.
Magri fechou os olhos e pode sentir o aroma de Miguel. Há Anos não sentia mais aquele cheiro.
Afastaram-se e Miguel cedeu espaço para Crânio cumprimentar a velha amiga.
Um abraço de certa forma... Um pouco constrangedor. Crânio demorou um pouco mais para soltar ela. Nenhuma palavra entre os dois foi trocada durante o ato.
— Faltam só Calu e Peggy…- Disse Miguel -
—Como eu suspeitei que acontecesse.— Magri disse suspirando –
— Vi hoje de manhã que eles estão em São Paulo, temos um tempo. Vamos almoçar por aqui nos arredores e esperarmos por eles. — Crânio sentou-se no banco -
Quatro dos seis Karas caminharam pela calçada em uma nostálgica, porem diferente imagem.
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Calú finalmente entrou na sala restrita do aeroporto. Vestia uma jaqueta Jeans e botas negras de couro. O famigerado visual rockstar que adotara para sí.
—Peggy, esse é o Ricardo.— Calú apontou para um garoto que o acompanhava – Ele trabalha para os meus pais. Deixe suas malas com ele. Elas estarão no hotel quando chegarmos lá.
— Não vamos ficar na casa de seus pais? -
Peggy dizia enquanto apertava a mão de Ricardo.
— Não, vamos visita-los hoje depois da cerimonia e após isso, curtiremos um pouco aqui.
—Então… como vamos para a cerimônia?
— Eu estava resolvendo isso agora mesmo.
Calú e Peggy atravessaram o aeroporto escoltado por funcionários e seguranças. No estacionamento um homem os aguardava atrás de uma bela moto. Harley Davidson. 1989.
— Senhor aqui está a que pediu.
— Muito obrigado.
— Uma moto?— Peggy sorriu –Lembra-se da ultima vez que resolveu me levar pra andar de moto? Sem gasolina no meio do deserto.
— Não vamos ficar sem posto pra reabastecer no meio das ruas de São Paulo, Relaxa. — E ele sorriu maliciosamente – Lembra o que fizemos no meio do deserto?
— Bem, vamos é chegar atrasados, isso sim. Vamos seguir, por favor?
Calú e peggy subiram na Harley e seguiram rumo ao endereço dito por Miguel.
A Cerimônia começaria em alguns minutos. Acabava ali os últimos instantes de paz daquelas seis pessoas que a tempos não se reuniam.
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