Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
23 3. Retratos de solidão.
Notas iniciais
—Talvez eu nunca tenha sido particularmente ótimo em investigações pessoais, mas sempre consegui acompanhar meus bons amigos e seus raciocínios. - Calú sentou-se no chão.
Miguel o encarou. Ao ver sua expressão percebeu que ele estava de certo modo satisfeito. Parecia divertir-se com a situação. O líder dos Karas não pode evitar um sorriso.
Miguel voltou-se para Peggy.
—Peggy, você esteve presente nas últimas reuniões, mas acredito nunca ter sido introduzida às regras...
—Na verdade, Calú me ensinou elas há anos atrás. - ela disse. - Nada do que conversamos chegará a alguém de fora.
—Talvez para o Nicolas. -Alertou Crânio.
—Certo -Miguel respondeu - Vamos descobrir tudo o que pudermos sobre essa foto.
Magrí levou mais de quarenta minutos contando todos os detalhes sobre a vida de Andrade. Era incrível o que poderia se descobrir sobre uma pessoa ao examinar a casa onde a mesma morou.
Depois, Miguel exibiu em uma folha de caderno a sentença que estava escrita na foto.
—Quem é a mulher da foto? - Chumbinho perguntou -
—Esta é a pergunta de “um milhão de dólares”, acredito.. - Peggy respondeu ao pequeno ás do time -
—Ela só possui uma única foto e curiosamente é a única que estava solta do álbum. - Magrí dizia - Ninguém com características parecidas estão no álbum de fotos.
—Quem mais está no álbum? - Crânio perguntou -
—Colegas de profissão, uma velha servente de algum hospital, acreditamos… E bem, as fotos mais novas são uma da Magrí, Chumbinho, Calú, sua e minha. — Miguel disse -.
Calú se levantou e observou o local, buscando ver o álbum de fotos em meio aos outros objetos nas últimas duas caixas.
Com o livro de capa marrom em mãos, ele fez um sinal para que continuassem falando.
—As fotos estão marcadas e colocadas em posições de acordo com a data. Mas existe algo estranho. Observem.
Miguel pede para Calú uma foto de Andrade ainda muito pequeno. Dois a três anos no máximo. A página possui três fotos. Uma, exibe um pequenino Andrade distraindo-se com brinquedos antigos. A outra mostra uma enfermeira. A terceira uma foto de Andrade no refeitório.
—O que significa isso? — Chumbinho perguntou, mais para si mesmo do que para seus colegas a seu redor -.
—Isso me parece um orfanato. - Crânio disse — Esta é a primeira página deste álbum. Devido a isso, esta deve ser a foto mais antiga de Andrade.
—E como fez a ligação com o orfanato? — Peggy perguntou ao gênio dos Karas Que indicou com o dedo -
—Mais ao fundo é possível ver um garoto com as mesmas roupas que Andrade. Claro, eles estão em ângulos diferentes, mas alguns detalhes conversam entre si.
—Entendo. Então, Andrade cresceu em um… Orfanato? - Chumbinho realizava aos poucos o quão triste e solitária a infância do amigo detetive poderia ter sido.
Crânio assentiu com a cabeça.
—Andrade de fato não possuía família. Muito provavelmente ele foi um filho de mãe solteira… muito pobre... E que por ironia do destino, sobreviveu ao parto.
—Para viver uma infância toda privado de amor… — Calú sentia o peso naquela descoberta.
A descoberta tornou o clima do local pesado. Cinco adultos e um adolescente sentados ao chão pensavam com pena daquele menininho na foto.
—Eu… Eu estou com vontade de chorar. — Confessou Peggy. -
—Sim… mas não vamos nos distrair. O emocional vai mais prejudicar do que nos ajudar agora. —Calú disse -.
—Calú tem razão. Vamos continuar. Vejam. A partir deste ponto algumas fotos de Andrade e depois a sequência escolar.
—Notei uma coisa. - Chumbinho aponta com dedo - Essa senhora. Aparece em mais de uma foto. Acho que ao todo já a vi em três.
—Bem observado. Ela é evidentemente uma das mulheres que trabalhou no orfanato.
—Corretíssimo Crânio. Mas porque ela simplesmente para de aparecer nas fotos? -Miguel o questionou -
—Não temos como saber. Ela pode ter parado de trabalhar lá.
—Andrade parecia gostar da companhia dela. Sempre estava sorrindo junto dessa senhora. - Peggy olhava com pena. -
A sequência a seguir, resumia-se a imagens de Andrade jovem. A sua turma de escola, até que houve um salto de anos, mostrando um Andrade jovem. Era a mesma foto que Magrí exibirá para Miguel.
—Uau. Andrade jovem era um cara boa pinta, não?
—É difícil interpretar essas fotos. Precisamos de alguém que conhecia o Andrade desde essa época.
O silêncio se instalou por um breve momento.
—Não me diga que está pensando em pedir ajuda para o Morais? - Perguntou Magrí
Naquele exato momento, a porta bateu. O silêncio tomou conta, inclusive dos pensamentos dos Karas. Quem poderia ser. Quando uma voz familiar soou do outro lado da porta de carvalho nobre da casa de Andrade, todos suspiraram aliviados.
—Pessoal, sou eu, Nicolas.
Miguel abriu a porta para o novo colega detetive do time. Ele trazia em mãos uma caixa grande com várias pastas amarelas.
—Não, Nicolás… Não traga mais caixas para cá. - Magrí disse de forma cômica -
—Como sabia que estávamos aqui? — Crânio perguntou -
—Notei o carro de Miguel ali fora. Achei que o encontraria e Magrí, possivelmente. Uma surpresa positiva ver vocês todos reunidos. O que estão fazendo?
Perderam mais vinte e cinco minutos explicando para Nicolas o que descobriram.
O mesmo, de pé, observa a foto do jovem Andrade.
—Porém, temos dificuldades de localizar a data dessas fotos. Estabelecer uma possível “linha do tempo” para esses acontecimentos está difícil.
—Espere um pouco. Vejam.
Nicolas abriu uma das últimas pastas da caixa que trouxera. Ela estava no fundo da caixa. Exibiu uma segunda foto do jovem Andrade. O cabelo estava visivelmente mais curto.
—Fiquei o dia todo investigando os casos do Andrade. Não consegui ver todos os arquivos, mas tenho avançado. Aqui, podemos notar que Andrade já tem menos cabelo.
—Certo.
—Esta primeira foto de vocês, é de Andrade no primeiro ano enquanto se formava como um policial. Está do arquivo é de seu segundo ano. Um dos grandes amigos de Andrade, o comissário Nelson, me disse uma vez que Andrade começara a perder o cabelo a partir de seu segundo ano.
—Bravo, Nicolas! Com isso nós temos datas. - Magrí sorriu -
—Andrade alguma vez te contou sobre o que ele fez depois que saiu do orfanato? — Miguel perguntou -
—Pra dizer a verdade, ele nunca me contou que viveu em um orfanato. Eu devia ter minhas suspeitas na época. Ele constantemente falava para eu escutar os meus pais, pois eles me amavam.
O silêncio triste retornou, mas não por muito tempo.
—Nicolas. — Miguel disse sério - vou te pedir um favor. Você disse que o tal comissário Nelson conheceu Andrade quando jovem.
—Sim.
Miguel trazia em mãos a foto da mulher.
—Quero que você pergunte a ele se ele a conhece. O que essa mulher representa para Andrade.
Nicolas observou a foto.
—No que está pensando? — Nicolas o observou -
—Uma intuição. Pode não nos levar a lugar algum, mas se não investigar isso, não ficarei satisfeito.
Nicolas sorriu brilhantemente.
—Todos vocês dariam detetives tão bons ou até melhores do que eu sou.
Miguel sorriu em resposta.
—É o benefício de não ser careta. — Sete sorrisos surgiram naquela sala depois da frase de Miguel -.
Apagaram a luz da casa de Andrade e saíram em pequenos grupos depois de despedirem-se com aperto de mãos e outras formalidades.
•|•
Crânio voltou a ligar o computador depois de semanas. Observou com um olhar de interesse uma sequência de E-mails não lidos de sua universidade. Está, o mantinha informado dos avanços diários do projeto que era encabeçado pelo gênio dos Karas. O último e mais recente, era de Maria.
[Crânio, Estamos avançando no projeto com certa facilidade. Acredito que já estaríamos perto de entrarmos no terceiro e ultimo passo se estivesse aqui. Um cientista procurou por você no laboratório. Explicaram sua situação. Você é famoso. P.S. Se quiser me evitar, tudo bem, acredito ter sido muito direta. Está mesmo zangado comigo?]
Crânio respondeu.
[Maria. Excelentes notícias. Acredito que dentro de um mês estarei recuperado. Voltarei com força total ao laboratório. Você deveria conversar com esse tal cientista. Mostrar o quão inteligente você é. Fique tranquila, não estou zangado. Perdoe-me não ter tido tempo de esclarecer as coisas. Beijos. C]
Crânio enviou um E-mail para Miguel.
[Miguel. Recomendo que peça por um mês de “férias” de sua faculdade. Estou me impondo um desafio final. Cumpriremos este caso até o fim deste mês. C.].
A resposta de Miguel veio seis minutos depois.
[Gosto deste tom. Foi a melhor coisa que ouvi de seu teclado. Não deveríamos nos comunicar com códigos? M.].
Crânio riu.
[Estou com um braço imobilizado. Tenha piedade de minha pessoa. Envie o recado para os outros, principalmente pro Calú, que não responde os e-mails. C.].
O gênio dos Karas se preparava para um exílio.
Nada mais havia para ser feito naquela noite. Com as televisões desligadas, os sete envolvidos no caso sonhavam enquanto dormiam. Sonhavam uma solução. Sonhavam com o futuro, tão incertos quanto certos para alguns. Sonhavam com a vida que Andrade teve quando criança. Sonhavam. Alguns Karas apareciam um no sonho do outro.
•|•
Na manhã seguinte, Nicolas acordou cedo. Iria perguntar para o comissário Nelson quem era a mulher da foto.
Nelson se aposenta no fim deste mês. Estava mais ocupado do que se espera para alguém que está prestes a entrar nos anos dourados da vida. Nicolas sabia que Andrade havia prorrogado a aposentadoria. Teria sido ele, selecionado para ser o comissário? Nelson iria aprovar. Morais teria um ataque. Nicolas fora parceiro de Andrade por menos de três anos, mas sabia bem que o detetive gostava de se sentir útil para sociedade. Ele era do tipo de pessoa que não gostava de sentar e mandar. Ele fazia acontecer.
Estacionou o carro e foi em direção ao prédio. Só havia um único repórter que, surpreso, tentou arrancar alguma informação com o principal nome da história. Em vão. Nicolas foi educado e disse que todos saberiam na hora certa.
Nicolas refletiu sobre se o que fazia era certo. Estava investigando por caminhos que iam longe do que normalmente fariam os outros polícias. Não havia se perguntado como Andrade havia sido envenenado. Se ele havia sido dopado e envenenado inconsistente… Se implantado veneno em uma de suas refeições…
Suspirou e adentrou a sala do comissário Nelson. Foi recebido com um sorriso. Trancou a porta atrás de si.
Fale com o autor