Os Jogos do Vício
1 Gravações de julho de 98
Notas iniciais
Não fora uma tarefa fácil ter acesso aos antigos arquivos de áudio daquela época. Em partes, por conta da burocracia e da política de sigilo, e em partes por eu não conhecer ninguém do meio policial que seja importante o suficiente para me autorizar para tal. Tive que me desdobrar para encontrar um velho amigo meu que morava na cidade para me conceder esse favor.
Gajeel e seus muitos “meios” — meios que não tenho a mínima vontade de descobrir o que exatamente são, embora eu cogite ingenuamente como propina. — me trouxeram uma caixa relativamente grande com o título “Caso 54: armazém” escrito em caneta esferográfica.
Eram muitos os arquivos — papéis e mais papéis, fotografias da vítima e itens suspeitos embalados. Eu precisava tomar conhecimento de tudo que estava ali rapidamente, e sem correr o risco de que tornasse evidente que alguém de fora mexera ali. Por isso, eu tive o zelo de comprar um par de luvas plásticas para que manuseasse sem deixar impressões no material. A última coisa que eu queria eram problemas por violação e roubo de conteúdo confidencial.
Haviam dois gravadores de voz, modelos antigos da época da fita cassete. Uma caixa plástica retangular continha diversas fitas com áudios do que deveriam ser de inquéritos com suspeitos e conhecidos da pessoa que foi assassinada. Para minha sorte, todos estavam enumerados. Peguei um dos gravadores e coloquei a fita de número um. Folheei a primeira pasta que trazia informações sobre a vítima, enquanto escutava o áudio.
Click.
“Sr. Fullbuster. Posso chama-lo assim? ”
“Gray. Me chame de Gray. É estranho desse jeito. ”
“Certo. Gray, do que você se lembra? ”
“De nada em especial. ”
“Não foi isso que eu quis dizer. Quero saber o que você lembra da última vez que a viu. ”
[Pausa]
“Pronto para falar? ”
“Acho que sim. ”
“No dia 7 de julho, onde você estava? ”
“Em minha casa. ”
“Sozinho? ”
“Não. Com amigos. ”
[Ruídos]
“Certo. Nomes? ”
“ Natsu Dragneel e Erza Scarlet. ”
“Tudo bem. Você sabia onde a vítima estava? ”
[Silêncio]
“Gray, você tinha conhecimento de onde vítima estava naquele momento? ”
“Pare de falar ‘vítima’. Isso é irritante. Ela tem nome, e é Ur. E não, eu não sabia. ”
“Como queira. Quando foi a última vez que a viu? ”
“Pela manhã. ”
“Ela disse alguma coisa para você? ”
[Silêncio. Ruídos]
“Disse que ia fazer um serviço. ”
“Que tipo de serviço? ”
“Eu não sei. Eu não perguntava esse tipo de coisa a ela. ”
“Ela poderia estar em meio a negócios ilícitos. ”
“Não era o jeito dela, se meter nesse tipo de coisa. ”
“Mesmo? Sei que vocês estavam numa situação bastante... complicada. Financeiramente falando. ”
[Ruído de papéis sendo folheados]
“Talvez ela tenha recorrido a métodos mais subversivos e não tenha dito a você. Para pagar o que devia. ”
“Não. Ela nunca faria uma coisa assim. ”
“Tem certeza disso? ”
“Tenho. ”
“Tudo bem. Nesse caso, há algo que eu quero lhe mostrar. ”
[Ruído de porta sendo aberta]
“Quando encontramos o corpo da víti—de Ur, encontramos queimaduras leves e recentes no dedo indicador e no polegar da mão direita. Elas estavam recobertas com cera. Debaixo de suas unhas, havia resquícios de tinta vermelha -- ”
“O que você quer dizer? ”
“Há algumas semanas recebemos uma ocorrência de um furto em uma mercearia. Um balde de tinta e um pacote de velas. ”
“Isso não prova absolutamente nada. ”
“Há filmagens. As imagens não mostram um rosto, mas as roupas são bem visíveis. Coincidentemente, Ur usava vestimentas semelhantes à do meliante em questão quando foi encontrada. ”
“Devem estar tentando culpá-la de alguma coisa. ”
“Não acho que seja isso. ”
“Eu já disse: ela nunca se meteria em coisas desse tipo. ”
“Pessoas desesperadas tomam atitudes desesperadas, Gray. ”
“Pare com isso. Você não a conhecia. Você não sabe de nada. ”
“Há mais evidências, mas acredito que essas sejam o suficiente para você. ”
“Você está mentindo. Você está tentando culpá-la também. ”
“Meu trabalho não é esse. Eu só tenho que descobrir o que houve, e apenas isso. ”
“É mentira. ”
“Mantenha a calma. ”
“É mentira! Ur nunca roubaria, e nem faria qualquer coisa que vocês estão tentando dizer que ela fez! ”
“Fale mais baixo. ”
“Vocês todos são mentirosos! ”
[Ruído de porta se abrindo. Passos. ]
“Tirem-no daqui. Já basta por hoje. ”
Click.
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