Os Jogos do Vício
7 Capítulo 6 - Perdendo-se
Por mais agradável que fosse a companhia de Charlie, às vezes Cedric o considerava terrivelmente irritante. Todas as ocasiões em que Charlie tentava lhe arrumar um encontro terminavam em um fracasso vergonhoso. Com Brielle não seria diferente.
O fato era que Charlie e Cedric estavam de folga e, como de costume, Charlie escolhia o modo de aproveitar a folga. Mulheres, bebidas e mais mulheres. Aquela era a ideia de diversão do demônio.
— Sabe, Dric, Gabrielle vai dar um jeito em você. Se ela não te fizer gostar da coisa... — Balançava a cabeça negativamente enquanto andava pelas ruas porcamente iluminadas. — Tente não desperdiçar o meu dinheiro dessa vez, cara.
— Sinto muito, Charlie... — Respondeu num murmuro sem emoção. Havia algo o incomodando desde algum tempo, algo que não queria compartilhar com Charlie.
— Olha ela ali! Gabrielle, quanto tempo! — Era uma jovem atraente e parecia a única que não deixava o trabalho acabar com a aparência. Tinha cabelos loiros, não do mesmo tom de Cedric, porém de um tom mais claro... Quase branco. Possuía olhos azuis intensos e uma aparência ligeiramente familiar, mesmo que isso fosse estranho. Cedric ficou surpreso ao ver que ela era humana. A humana, ao que parecia, estava bastante irritada.
— Quantas vezes vou ter que pedir para não me chamar assim? Meu nome aqui é Brielle. O que é que você quer? — A jovem olhava de soslaio para Cedric, talvez ela também notasse que ele não se encaixava ali.
— Quero que dê um jeito nesse meu amigo aqui, eu sei que apenas você é capaz disso. — Charlie deu sua famosa piscadela que sempre fechava algum acordo. Mas não com Brielle, era aquela humana que fazia os acordos.
— Ele já é um contratado. Não tenho interesse nenhum em contratados... — Seus olhos exibiram uma expressão surpresa ao ser arrastada por Charlie para longe de Cedric.
O demônio loiro ficou ali, sabia que Charlie voltaria em breve. Aquele era outro costume irritante do amigo: Deixá-lo sozinho em locais inconvenientes. As mulheres acenavam, todas em busca de dinheiro, contratos... O que quer que fosse. E Cedric era obrigado a ignorá-las, tentando pensar em algo que ocupasse sua mente... No entanto, era como se estivesse se perdendo no vazio que as lembranças deixaram. Inutilmente tentava se afastar daquele grande vazio, buscava preenchê-lo com novas lembranças. Aquele sentimento começava a incomodá-lo a ponto de querer se lembrar. Era aí que o medo chegava. Não, não podia se lembrar. Ele escolhera aquele vazio, ele deveria lidar com ele.
— Ela está te esperando lá dentro, garoto. — Com um susto, Charlie o retirou de suas reflexões. Algo na expressão de Cedric fez com que o demônio risse.
— Eu nunca faria nada com Gabrielle, Dric, eu praticamente vi aquela garota crescer. Agora, anda, não desperdice meu dinheiro. — E lá ia Cedric outra vez. Para mais um encontro frustrado que apenas contribuiria para Charlie se tornar ainda mais irritante.
Quando entrou na casa, o loiro se viu momentaneamente perdido. Onde era lá dentro? O lugar possuía vários quartos e de todos eles saíam barulhos estranhos que Cedric não sabia dizer exatamente o que eram, embora eles lhe lembrassem algo como um animal morrendo.
— Aqui. Dric, não é? — Ela surgiu da escada e sinalizou para que ele subisse, desaparecendo antes mesmo que ele pudesse corrigí-la. Sem muita opção, o demônio subiu e se deparou com um corredor silencioso. Os barulhos lá embaixo pareciam sussurros abafados. Havia uma porta aberta e a humana o esperava sentada em uma cama. — E então? Você é do tipo tímido, Dric?
— Cedric. — Ele corrigiu em tom baixo
— O quê? — A confusão tomou conta da voz de Brielle.
— Meu nome... É Cedric. — Exclareceu. — E não sou timido, acho que não sou do tipo interessado.
— Sei. Bom, então podemos apenas conversar. Sente-se aqui. — A mão direita dela tocou a cama e o demônio com certo receio acatou o que a humana dizia. Era a primeira que não o atacava e se frustrava ao não receber nenhuma reação por parte dele. — Você parece um pouco surpreso. Imagino que outras mulheres não tenham tanto tato e saiam atacando o pobrezinho.
— Algo assim. Quando elas fazem isso eu tento fingir que não estou ali e elas ficam irritadas. Porém Charlie é o que mais se irrita com tudo isso. — Era estranho e bom poder falar coisas assim. Brielle possuía uma aura de confiança e havia um tom divertido em sua voz que o deixava à vontade. — Você é diferente.
— Eu sei. Tenho que ser assim para ganhar a vida. Nesse ramo... Bom, os clientes buscam um diferencial. Mas fale sobre você, aparentemente você nunca desabafou com alguém. Tem alguma mágoa no passado? — Lá estava, aquela escuridão que ia pouco a pouco tomando conta dele.
— Eu não tenho... Um passado, então não creio que eu possua alguma mágoa. — Deixou escapar uma risada seca. Suas mãos tremiam um pouco e ele não sabia a razão. Momentos como aquele faziam com que Cedric desejasse lembrar-se de tudo, porém o medo era maior. O medo sempre era maior.
— O que quer dizer? — Uma leve curiosidade tingia a voz da jovem, aquilo o fez rir outra vez.
— Quer dizer que eu não tenho lembranças. Myra disse que foi meu último desejo: Esquecer-me de tudo. A única coisa que eu me recordo é do meu nome e é a única coisa que quero lembrar.
— Sabe, acho que isso é uma decisão covarde. Uma decisão burra também. Sabe por que o passado é importante? — Brielle deixou-se cair na cama, seus olhos azuis fitavam o teto e um sorriso falso permeava seu rosto. — Eu sei que não sabe. Não poderia saber. O passado nos dá experiência, é para isso que ele serve, mas acima de tudo... A maior importância dele... É nos lembrar do quão forte nos somos.
— Imagino que eu não seja tão forte assim. — Deitou-se ao lado dela enquanto refletia sobre as palavras da humana. Não eram de grande conforto.
— Não. Seu passado mostra que você não confia em si mesmo. Não acreditou que fosse capaz de suportar. Talvez Myra tenha te enganado, ela sempre nos engana de alguma forma, ou talvez ela não saiba a capacidade de um ser humano. — Havia algo no tom dela, algo como o rancor.
— Sente raiva do Vício? — Cedric ouviu-se perguntar. Aquele era um sentimento novo... Curiosidade. Aquilo era bom e estranho. Estava tão acostumado ao vazio... Estaria sua personalidade despertando?
— De Myra? Claro que não, eu a vejo quase como... Uma mãe. Pode parecer estranho para você, contudo é a verdade. Não acho que tenha notado, mas Myra geralmente anda acompanhada de uma ou duas crianças. Isso é porque os humanos, antes que seus recursos de acabem, vendem seus filhos a ela. Só então vendem sua própria alma. — A loira levantou-se e caminhou pelo quarto. Não havia mobília, apenas a cama, no entanto... Era um quarto particularmente grande, de formato retangular. — Myra sempre cuidou de todas essas crianças. Ela cuidou de mim. E assim como todas as mães, ela tem seus defeitos. Deveria conhecer os irmãos dela... Myra é quase um anjo. Ainda assim ninguém consegue entendê-la.
— Os objetivos do Vício são desconhecidos... É o que todos dizem. — Ergueu-se da cama, não havia motivos para ficar deitado. Não havia motivos para continuar naquele quarto. Conversar com Brielle era agradável, no entanto... Ela possuía clientes para atender e ele, bem, ele não era um deles. — Acho que devo partir.
— Talvez. O que vai fazer quanto às suas memórias? — Não sabia responder ao certo aquela pergunta. Foi surpreendido quando Brielle tocou delicadamente seus ombros. — Ainda não quer lembrar, não é? Antes de ir, há algo que eu gostaria de lhe ensinar...
Ela o conduziu quase que carinhosamente até a cama, sem pressa. O coração do demônio batia acelerado. Seria aquilo imaginação? Talvez ele nem possuísse um coração. Estavam deitados lado a lado, os olhos presos um ao outro. Ele não queria fazer aquilo. Algo estava acontecendo... Quando os lábios vermelhos de Brielle foram tocar os dele, não era Brielle que ele via. Os olhos não eram azuis, mas verdes. E aquele loiro pálido... Era na verdade castanho. Quem era aquela? Deixou-se cair da cama, assustado. Sua respiração estava completamente irregular e a humana o encarava, assustada.
— O que houve? — Ela tentou se aproximar dele, porém ele a afastou. Três sentimentos lutavam pelo controle do corpo dele: Amor, tristeza e nojo. Olhou para as próprias mãos e as levou até a cabeça, pressionando-a com força, como se aquilo fosse fazer com que parasse. As lágrimas nublavam sua visão e quase não percebeu quando Charlie chegou.
— Cedric! O que aconteceu? — O moreno o sacudia com veemência e Cedric só conseguia balbuciar palavras que ninguém parecia entender. — O quê?
— A... A... — A mulher e o demônio o encaravam sem entender. O nome estava quase saindo... Não queria lembrar-se daquele nome, não podia lembrar. Todo o seu corpo tremia com violência. Sentia um gosto doce nos lábios e o cheiro de fogo e sangue impregnava suas narinas.
— Cedric! Olhe para mim! Olhe! — Os olhos vermelhos se encontraram. Cedric parecia se acalmar aos poucos e isso deixou Charles aliviado. — Isso é só um pesadelo. Não é real. Fique calmo. Esses sentimentos não são reais.
Brielle os observava soturnamente. Havia alguma coisa de errado com aquele demônio, algo que Charles não contaria. Disso ela tinha certeza. Caminhou até a janela e observou a rua mal iluminada lá fora. Uma sombra alta a observava lá de baixo o que ocasionou o aparecimento de um sorriso no rosto da loira.
Cedric permaneceu em silêncio, tentando se recuperar. O que fora aquilo que acabara de ver? Não, não importava. Só queria esquecer. O vazio era melhor que aquilo. No vazio não havia dor... Não havia nada. Foi levado dali por um preocupado e assustado Charlie. O que faria se aquele rosto aparecesse para atormentá-lo de novo? Talvez o Vício pudesse ajudá-lo... Se Myra era como uma mãe, ela certamente o ajudaria a se esquecer novamente... No entanto, havia uma pergunta que o incomodava mais que tudo: Será que era correto esquecer?
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