Notas iniciais
Idade de Tessa Jackson (Chase): 17

Para Tessa, Nova Roma — além de, claro, o Acampamento Meio-Sangue -
sempre foi seu refúgio, o lugar que a fazia se sentir segura e acolhida.
Mas na noite em questão, parecia que todas as barreiras mágicas que a
protegiam dos monstros à espreita tinham sido desfeitas em poeira. Se
sentia a mercê de um monstro invisível e imprevisível, ela estava
navegando no mundo dos pesadelos, onde não podemos fazer nada, apenas nos afogar, mais e mais.

Tessa se sentiu sufocada ao perceber que estava debaixo da terra, em
uma caverna. A atmosfera cheirava a terra úmida, não do jeito gostoso de sentir. Era sufocante, apavorante, como gás do medo.

Ao constatar que não era capaz de enxergar nem um palmo à sua
frente, Tessa caça seu colar no pescoço e aperta a superfície
redonda e texturizada que lhe servia de pingente. Ao tirar o colar, a morena segura a corrente de prata e joga o pingente para cima, girando-o duas vezes. Logo o colar se transforma em uma espada com punho de bronze celestial. Quebra-mar emitia seu brilho, iluminando a caverna.

A caverna era bem parecida com um covil de vilão de algum desenho
animado que a menina já tinha visto com seu irmão mais novo. No teto, raízes de arvores faziam uma cortina que caía a 20 centímetros de sua
cabeça.

Estava no meio de um cruzamento onde duas bifurcações se
encontravam. "Tudo bem, são só dois corredores sinistros que podem
esconder todo o tipo de monstro, e eu tenho que escolher um, de boa", pensou.

Depois de um pequeno "uni-duni-te", o corredor sinistro número 2 foi o
escolhido. Ao dobrar a primeira curva, o arrependimento cai sobre
Tessa, ao ver que ao lado direito se erguiam várias grades e correntes no
chão e no teto. As correntes emitiam um certo brilho perolado e místico, e, ao se aproximar delas, uma sensação de fraqueza a dominou e seu corpo
começou a suar frio.

Na tentativa de se afastar antes de seus olhos se fecharem, a garota
cai no meio do corredor e se arrasta pelo chão sujo, para longe
das "correntes Boa Noite, Cinderela". Ao mesmo tempo em que se afastava das
correntes sua força voltava e a sensação de fraqueza diminuía
gradativamente.

— Tomara que seja um circo subterrâneo e ilegal e Artemis tenha me
mandado pra salvar eles — Implora pra si mesma.

Ao entrar mais a fundo do corredor uma voz áspera a faz diminuir o
passo.

"Por favor seja um dono de circo, por favor", implorou.

— Minha senhora, os semideuses estão ociosos, inquietos demais — a
voz masculina fala.

Tessa se encosta na parede e segue lentamente pelo corredor com a
espada em punho, alerta a qualquer som de movimento no fim do
corredor. Uma sombra magricela e tremulenta se ergue na escuridão.
Parecia inquieto e nervoso.

— Eles sabem que a hora se aproxima — um arrepio lhe sobe a espinha
ao ouvir um sibilo deleitoso de uma mulher — Muito em breve, Nova
Roma estará banhada com o sangue de cada um deles, — seu tom de
voz denunciava que estava sorrindo — a começar pelas crias da filha de
Atena — a espiã engole o seco, ela se sentia exposta, como se a criatura
pudesse a ver através da parede de rocha.

Os olhos verdes de Tessa se abrem de supetão, sua boca estava seca, e
uma fina camada de suor cobria seu rosto. As mãos tremiam levemente
e a cabeça dava indícios de que uma dor de cabeça logo a iria incomodar.

Seus olhos buscam nervosamente qualquer indicio que o quarto em
que estava era mesmo seu, e não um zoológico subterrâneo com
'correntes Boa Noite, Cinderela' e dois vilões conversando sobre
destruição e morte em massa. A mesa estava lá, com todos os papeis de
espalhados. Seus livros e quadrinhos, todos em ordem alfabética, estavam em seu devido lugar, na prateleira acima da mesa. A prancha de
surf estava posta na parede direita do lado das portas de vidro cobertas
pelas cortinas que davam para a sacada. A garrafa que sempre ficava na
mesinha ao lado da cama também estava lá.

Tessa estende a mão e pega a garrafa dando um longo gole sem nem
mesmo puxar o ar. A água sempre lhe serviu de remédio quando
doente, e calmante quando estressada ou assustada. Conforme a água
fazia seu caminho pela garganta, o corpo da neta de Poseidon começou a
relaxar e a tremedeira desapareceu.

Se o sonho que acabara de ter fosse "uma coisa de semideus", o que
parecia muito, a onda de paz não duraria muito. Ambos os
acampamentos estavam envolvidos. Se fosse como a última grande
guerra e a ameaça fosse tão perigosa quanto, ninguém de qualquer
acampamento estava seguro. E ainda tinha seus pais, dois heróis das
duas grandes guerras e de duas grandes profecias que salvaram o
mundo. O que impediria ambos de estarem envolvidos em outra missão
para salvar o mundo novamente?

"De novo não", pensou aflita.

Tessa chegou à breve conclusão de que precisava de alguém pra
descarregar todas as paranoias e teorias que invadiram sua mente em
poucos segundos de reflexão, das quais nenhuma era boa. Iam de uma
possível briga entre os deuses até o Tártaro criando pernas e saindo
andando por aí — mesmo duvidando se isso era possível.

"Emily com certeza vai saber o que fazer", pensou com uma gota de
esperança.

A garota se levanta da cama em um pulo com a garrafa na mão, seguindo até a mesa onde pegou um dracma de ouro. Afastou as cortinas deixando a luz da manhã entrar no quarto. Com um movimento de mão a água da garrafa subiu alguns centímetros até ter contato a luz do sol, formando um arco-íris.

— Oh Íris, deusa do arco-íris por favor aceite minha oferta. Me mostre
Emily Zhang, em Nova Roma — pediu jogando o dracma.

A imagem de uma garota asiática, sentada numa espécie de baú
enquanto encaixava uma ponta numa flecha com penas roxas apareceu.

— Emily! — A garota armou o arco e apontou na direção da amiga em posição de
ataque. — Hey, Legolas, vai com calma com isso aí — levanta as mãos em
sinal de rendição.

— Tessa! — a garota abaixa o arco — Quantas vezes eu tenho que te
dizer pra não aparecer de repente quando eu estou com o arco na mão, e
não me chamar de "Legolas"? E outra, o que está fazendo acordada a
essa hora? Não me diz que você nem dormiu — Emily aperta as
têmporas com força — A gente vai chegar lá tarde de novo -
resmungou.

Se tinha uma coisa que irritava Emily, era chegar depois do horário marcado.
Ela era muito romana pra isso

— A gente vai sair na hora desta vez, juro.

A mais nova levanta uma das sobrancelhas. — Acredito — revira os olhos e arregaçando as mangas do moletom preto, voltando a arrumar as flechas.

A tatuagem romana era visível em seu antebraço, SPQR com três riscos
embaixo e logo a cima o símbolo de Marte e o de Plutão. Emily entrou na
Legião um ano mais nova que todos os outros, que entram aos 12, mesmo que
tenham treinado quase a vida inteira.

— Emily, — a chama em um tom mais baixou e sério — Eu tive um
sonho... um sonho não, um pesadelo.

Emily volta seu olhar para a mais velha alarmada. Seus olhos negros
examinaram seu rosto atentamente, procurando qualquer sinal de
mentira ou brincadeira, não encontrando.

— Me conte, — solta as flechas e volta toda a atenção para Tessa, que
apertava a concha em seu colar — me conte seu sonho.

— Eu não sei direito... — suspirou ante de continuar — Eu estava em um
tipo de caverna feita de pedras embaixo da terra, tinham grades e
correntes por toda a parte, no teto no chão e na parede. As correntes
eram estranhas... — aperta os olhos tentando lembrar dos detalhes -
era como se elas sugassem minha força — a mais nova continuava em
silêncio — Quando eu cheguei no fim do corredor eu ouvi vozes, um
homem e uma mulher, eles estavam conversando.

— O que eles conversavam?

— Eles conversavam sobre os acampamentos, que eles estavam ociosos
e agitados — o rosto de Emily se contorceu em confusão — Que eles
sabiam que "a hora está chegando".

— Eu ando percebendo algumas coisas estranhas aqui em casa, meus
pais andam estranhos. Sempre que eu ou Sammy entramos no mesmo
cômodo que eles, eles param de falar ou diminuem o tom. Até alguns
membros da Legião estão estranhos, como se soubessem alguma coisa
que nós não sabemos.

— Essa noite aconteceu algo parecido comigo quando eu fui pegar água
na cozinha. Meus pais estavam conversando e quando eu cheguei meu
pai, todo mundo sabe que ele não sabe disfarçar, fez uma careta
quando me viu, parecia que estava tendo um AVC.

— Você... — a mais baixa parecia hesitante em terminar a pergunta -
acha que pode ser uma nova profecia envolvendo nossos pais?

— Eu não sei — o silêncio cai sobre a duas, cada uma em seu próprio
pensamento angustiante — Isso não é justo.

Tessa estava possessa, onde já se viu? Seus pais já tinham sofrido tanto, perdido tantos porque os deuses não sabiam resolver seus próprios
problemas e sempre os enterravam debaixo do tapete, até que o tapete
desse uma rasteira neles e seus filhos tivessem que consertar. Seus pais
mereciam mais, seus tios mereciam mais. Mereciam paz em um começo
de vida tão cruel, mereciam paz em uma vida de guerra.

Apertou os olhos tentando afastar as lágrimas ao ouvir uma batida na
porta do quarto de Emily.

— Emi, mamãe está te chamando. Algo sobre
pelo de gato no sofá... de novo — avisa a irmã, logo percebendo Tessa — Ahh... Oi
Tess — sorriu meigo.

— Hey, Sammy — força um sorriso em resposta.

— Eu tenho que ir. Até daqui a pouco — seu olhar dizia que a conversa
ainda não tinha acabado — Não se atrase, até tio Leo chega antes de
vocês.

— Prometo não me atrasar dessa vez — força mais um sorriso.

— Tchau Tess — brilhou seus olhos dourados.

— Tchau Sammy.

Tessa passa a mão na imagem de Sammy sorrindo e a imagem se
transforma em névoa. A imagem muda pra um fundo de arco-íris com os
dizeres: "P.E.V.O.A.I." em letras gritantes — Olá, querida semideusa... -
fala uma voz já conhecida pela garota.

— Ah não, de novo não — passa a mão desesperadamente na névoa, tentando fazer a imagem desaparecer, o que não funcionou já que a imagem sempre voltava ao arco-íris.

— Não estaria interessada em ser uma revendedora dos produtos
P.E.V.O.A.I. ? Entre os benefícios de ser um de nós está incluso: desconto
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de graça graças da nossa patrocinadora, a deusa Deméter....

— Eu já disse pra vocês que eu não estou interessada!

— Muito rude da sua parte — a voz acusou transtornada — Ora essa, os
semideuses de hoje em dia não pensam no bem estar dos animais. A
partir de hoje suas mensagens de Íris serão mais caras pela má
educação.

— O que? Isso não é justo!

— A vida não é justa — a imagem desaparece.

— Inacreditável.

Quando a névoa se dissipa por completo, a paisagem de Nova Roma e
do Acampamento Júpiter são reveladas. Pela varanda, Tessa tinha a
visão do Campo de Marte, parte da Montanhas de Berkeley, do Fórum, e
os telhados da Casa Do Senado. A vista era imponente e bela.

O Acampamento já havia acordado e os campistas já estavam dispersos
pelo terreno do Campo de Marte, conversando e apontando para vários
lados, analisando o terreno. Estavam planejando uma estratégia para os
Jogos de Guerra, que aconteceriam à noite.

Já eram quase sete horas quando Tessa resolveu se arrumar para a
viagem até Long Island, seu outro lar. As malas para a viagem já haviam
sido colocadas no carro na noite passada para evitar atrasos, e as
roupas que Tessa usava em seu dia-a-dia estavam penduradas na porta do
guarda roupas.

Ao sair de seu quarto — o último do corredor, de frente com o de seu irmão, Dylan- Tessa passa pelo de seus pais. É possível ouvir os roncos suaves
de seu pai, e o som do chuveiro ligado, indicando que sua mãe já tinha
levantado. Passa também pelo quarto de Peter, seu irmão mais novo, chegando finalmente
ao banheiro.

Ao entrar no chuveiro a água cumpre seu propósito e a abraça em
consolação, diminuindo a sensação ruim em seu peito.

Suspirou. "Vai dar tudo certo", pensou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. tt: corvinal_rainha
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.