Os Herdeiros da Alvorada
4 Capítulo III - A oráculo de Anep
Já fazia mais de uma hora que o sacerdote supremo estava fazendo o culto. Vez ou outra ele parava para ler alguma passagem do Tamulack sagrado, ou para citar uma carta de um cholder antigo, ou para cantar alguma música relacionada com a morte, que na maioria das vezes também era tirada do livro sagrado. Kouta de vez em quando olhava para trás, passando os olhos por cada pessoa a procura de Gaasp, mas era em vão; provavelmente o cholder não voltaria para terminar de ver a cerimônia. O sacerdote então fez silêncio. Os menores de sua ordem acenderam os incensos e a fumaça rapidamente se espalhou por todo o templo; isso era incrível, pois o lugar era extremamente grande o que levava as pessoas a deduzirem que para fazer algo do tipo precisaria de muito daquela iguaria.
Então o menor de todos começou a cantarolar com uma voz aguda e surpreendente. Depois os outros também o seguiram, só que com vozes mais grossas, e então o alto sacerdote começou a cantar uma das músicas que estava no livro de canções do Tamulack.
Ó chuva que cai sobre o vale
E lava o sangue das rochas
Acalme o fogo de minh'alma
Como o vento que sopra na floresta
A matilha cercou o valente
Suas presas brilharam como o fogo
Sob a lua, a espada de sangue manchada
Caiu em meio às cinzas e o pó
A neve ficou escarlate
E as estrelas continuaram a brilhar
O frio vento balançou com sutileza
As flores que presenciaram a chorar
Novamente o silêncio se fez presente, mas agora era possível ouvir soluços de choro e lamentação. Os olhos de Ganan estavam frios e vazios, e permaneciam sobre o pai que parecia estar apenas dormindo como sempre fazia quando assistia cultos muito longos como aquele. Os sacerdotes terminaram a cerimônia e pediram para que todos se retirassem para que eles pudessem preparar o corpo para ser levado ao cemitério.
Depois de uma hora, a porta do templo se abriu e alguns homens vestidos de preto dos pés à cabeça saíram de dentro carregando uma grande caixa de madeira com desenhos de nuvens e deuses esculpidos nas laterais.
Eles desceram as escadas com cuidado enquanto todos os seguiam. Aqueles que estavam nos cantos abriram passagem para eles e o restante dos familiares permaneciam lá em baixo, perto da carruagem que levaria Colan até seu descaso. O último sacerdote a sair vinha seguindo a procissão enquanto segurava a espada negra embrulhada em um pano feito com linho das fadas.
Quando o corpo foi depositado na carruagem e mais um canto começou, só que agora ele não tinha letra. Naquele momente não só os sacerdotes, mas os que prestavam suas últimas homenagens também cantavam. Quando o veículo saiu e todos, inclusive a família real, começaram a segui-lo a pé, Elora, que estava do outro lado, um pouco longe de Kouta, fez um sinal para que seu aluno parasse de andar. Ela correu em direção a ele para dar um último recado:
— É melhor que vá para a guilda agora, Kouta — ela disse — ví alguns guerreiros indo em direção a ela há pouco tempo. Acredito que eles estão indo mais cedo para evitar fila.
— Então isse é um adeus? — Kouta disse, emocionado.
— Sim, por enquanto é. Você cumpriu minhas expectativas e foi além, muito além — Elora sorriu — vá agora e não se esqueça que o bosque sagrado sempre estará de portas abertas para você.
Kouta segurou para não chorar. A musa sorriu novamente e se afastou enquanto seguia a multidão. Ele permaneceu parado enquanto olhava para ela até que todos se misturaram e não foi mais possível vê-la.
Enquanto andava pelas ruas que agora estavam mais movimentadas, Kouta percebeu que as pessoas temiam o que estava por vim apenas olhando para os seus rostos tristes e amargurados. As crianças por outro lado não tinham noção disso e continuavam a brincar sem se preocupar. Elas sorriam como se nada tivesse acontecido e para muitos era melhor assim, pois manter a pureza no coração de um pequenino era como não deixar uma chama preciosa se apagar em meio a tempestade de neve.
Kouta sorriu enquanto se lembrava de seus tempos em que nadava nos rios da ilha das salamandras com seus amigos de infância na época do verão, quando os ânimos de muitos de seu povo estavam exaltados devido ao calor e a compatibilidade de seus poderes com o fogo. Era muito bom saber que ainda havia coisas assim no mundo.
Sua demora para achar a guilda o deixou desesperado, vez ou outra ele pedia informações a alguém, mas rapidamente se perdia novamente. Dois guerreiros, uma garota baixa de cabelos meio azulados e um rapaz altos de cabelos cinzas passaram por ele enquanto falavam da prova do cholder, assim como aconteceu no templo, só que dessa vez Kouta não teve coragem de perguntar. Aos poucos seguiu o casal enquanto se escondia para não ser notado; quem via a cena acharia que ele era um ladrão ou talvez um perseguidor.
O caminho era longo, o que contrariava o que Raaph havia dito sobre o estabelecimento ser perto do grande templo. Os dois guerreiros caminharam até uma rua que ficava perto de um rio que passava dentro da cidade e ia em direção ao mar, onde desaguava. Eles andaram até certo ponto e depois viraram para a direita em um beco escuro e apertado. Kouta esperou um pouco e também entrou, mas foi logo surpreendido pelo rapaz que pulou em cima dele e o segurou pelo colarinho enquanto apontava uma faca bem polida para o seu pescoço.
— Quem é você e por qual motivo está nos seguindo? — ele perguntou com fúria em seus olhos cinzas e medonhos.
— Eu estava procurando o caminho para a guilda e me perdi, mas encontrei vocês falando sobre ela e decidi os seguir, só que sem chamar a atenção — Kouta falou, gaguejando.
— Me engana que eu gosto — o rapaz falou — diga logo o motivo de estar nos seguindo. — a faca se aproximou mais do pescoço de Kouta que suava frio.
— Pare com isso! — a garota de cabelos azuis falou enquanto saia de trás de seu companheiro — ele está falando a verdade, é obvio, não enxergas?
O rapaz se acalmou e soltou Kouta cambaleou quase caindo no chão.
— Não, eu não vejo. Nem todo mundo nasceu com um dom igual ao seu, Flumi — ele falou seriamente — você deveria ter nos perguntado, garoto idiota! — continuou.
— Sim, mas algo me disse para não o fazer, pois vocês não me diriam — Kouta respondeu com os olhos fixos no céu.
— Algo lhe disse? — Flumi e seu amigo se entreolharam — é, esse algo está certo, nós não diríamos nada a você.
— Por que? — Kouta perguntou, abismado.
— Para evitar concorrência, não é obvio? — o rapaz falou.
— Mas isso é covardia.
— Não, é sobrevivência. Entretanto nós te mostraremos o caminho, pois gostamos de você e de sua ousadia. Venha, siga-nos e lhe mostraremos o lugar.
Os dois deram as costas e voltaram a adentrar o beco sujo com muitos papéis de procurado nas paredes e no chão. Havia também muito lixo espalhado, pois ali era o único local que as pessoas da redondeza tinham para armazena-los.
— Como vocês se chamam? — Kouta perguntou por cortesia mesmo sabendo do nome de um deles.
— Eu sou Lóbin — o rapaz falou — e minha companheira se chama Flumi. Nós viemos de Jahlasuh.
— É um prazer conhecê-los! — Kouta disse.
Nenhum dos dois respondeu, apenas continuaram andando enquanto dobravam uma esquina ou outra. Depois de muito caminhar, eles finalmente chegaram a um estabelecimento velho com muito lixo na entrada e um letreiro meio caído em que estava escrito "Boa pinga". A garota bateu quatro vezes na porta e uma pequena portinhola se abriu. Um homem velho e barbudo apareceu.
— Senha? — o velho perguntou.
— A senha é: deixa me passar ou eu quebro os seus dentes — Lóbin falou.
Ele e o velho ficaram se encarando em silêncio por um tempo. Kouta ficou apreensivo e começou a suar frio, mas quando menos esperava, ambos começaram a gargalhar bem alto.
— Há quanto tempo, meu rapaz! — o velho gritou, ainda rindo.
— Sim, faz muito tempo, pai — Lóbin respondeu. Ele nem parecia ser o mesmo cara que quase matou Kouta há alguns minutos atrás.
Eles continuaram gargalhando e Flumo olhava para os lados, insatisfeita.
— Vamos logo, Lóbin, eles devem estar chegando! — ela cochichou enquanto cutucava com força as costelas do rapaz que se contorcia sentindo cocegas.
— Essa garota e minha nora? Oh, é um prazer conhece-la — o velho disse enquanto abria a porta e se curvava exageradamente.
A garota não respondeu, apenas entrou sem falar nada. O velho riu e deixou que seu filho passasse. Quando finalmente notou Kouta, se assustou.
— E quem é esse que acompanha vocês? — ele perguntou.
— É um perseguidor, meu pai. Ele quer se inscrever para ser um dos auxiliares de Gaasp — Lóbin falou com seriedade.
— Ah, um perseguidor é? Venha, entre, a minha recepcionista irá fazer a inscrição de vocês — o velho falou com um sorriso no rosto.
Kouta entrou e percebeu que o lugar fedia a bebida e era um pouco escuro, pois toda a luminosidade provinha de velas. Nas mesas haviam muitas pessoas estranhas assentadas, a maioria delas estavam encapuzadas. Todos encararam Kouta, pois ele não parecia se encaixar nos padrões do lugar. Até mesmo a garotinha que se parecia uma menina muito jovem não chamou a atenção, talvez pelo fato da aura dela ser extremamente durona, ou pela sua magia passar uma impressão de morte.
Quando chegaram ao balcão, o primeiro a se registrar foi Lóbin e depois sua namorada. Na vez de Kouta a mulher se surpreendeu; ela o encarou por um tempo antes de começar a falar.
— Err... Qual o seu nome? — ela perguntou ainda olhando fixamente para o rapaz que ainda não estava entendendo nada.
— Kouta Leãodourado... — Ele respondeu.
— Certo... Nacionalidade?
— Anepiana — ele respondeu — eu vim da ilha das salamandras, se isso ajudar.
Ela não falou nada, apenas pediu alguns pergaminhos documentos para conferir.
Depois de um tempo, que foi muito mais longo do que o dos outros que se inscreveram, ela pediu para que ele pagasse uma taxa de treze moedas de ouro. Kouta tirou de sua mochila um pequeno saco de ouro e deu o dinheiro para a mulher. Quando pegou nas moedas, ela se surpreendeu tanto que as soltou no susto. Todos entraram em estado de alerta, pois acharam que Kouta fez algo, mas se acalmaram rapidamente quando viram que não era nada demais.
— Essas moedas são da antiga dinastia... — ela falou — onde foi que você as conseguiu?
Todos que ali estavam começaram a se juntar em volta do balcão. O dono da guilda era o mais interessado, ele empurrou várias pessoas para ter um lugar com melhor visão daquela cena.
— Minha mestra, Elora, me deu — Ele respondeu de modo relutante.
— Elora? Ele disse Elora? Aquela fada das lendas? — um dos homens encapuzados perguntou a um amigo.
— Então é por isso que estranhamos a sua magia... Você esteve no bosque da musa... Você morou lá... — um outro homem falou.
Um buchicho tomou conta de todo o lugar. As pessoas rapidamente se afastaram de Kouta, pois viam nele a figura de uma divindade. A mulher se apressou para terminar o registro.
— Esteja no porto superior no dia trinta as sete de manhã, lá você embarcará em um navio que te levará para a ilha onde ocorrerá a prova. Tome essa estatueta, guarde-a consigo e mostre para o capitão no dia em que embarcar — a mulher entregou a estatueta da deusa do mar para o rapaz — você só conseguirá embarcar caso o mostre. Não o perca!
— O que devo levar para a prova? — Kouta perguntou.
— Tudo o que precisa para sobreviver: Armas, poções, grimórios, comida, ou seja, tudo — ela disse — boa sorte!
Kouta saiu, mas preocupado com a forma em que chegaria ao porto superior. Ele teve a ideia de alugar um cavalo, mas depois se lembrou que não conseguiria devolver. Talvez iria em uma carruagem, mas onde encontrar uma? Ele ficou pensando nisso parado do lado de fora da guilda até que a porta se abriu e de la de dentro saiu um homem alto, magro e pálido com longos cabelos negros e uma roupa escura; ele usava uma cartola meio esverdeada na cabeça e andava com uma bengala chique, bem parecida com as que os nobres usavam. No geral, sua aparência era deveras excêntrica.
— O que te preocupas meu jovem? — ele perguntou para Kouta com um sorriso na face. Sua voz era alta, porém delicada.
Kouta se assustou, pois o modo em que ele apareceu foi totalmente repentino.
— Eu estou pensando em uma forma de chegar ao píer superior, sabe? Para fazer a prova do cholder — Kouta respondeu, porém desconfiado.
— Ah, sim, a prova que muitos jovens se dedicam com a esperança de um dia se tornarem alguém com o Gabarito de Gaasp, sim, conheço ela... Eu já participei uma vez há muito tempo... talvez uns três mil anos? Hm... — o homem ficou pensando consigo mesmo em silêncio — Bem, acho que é o seu dia de sorte — ele falou, só que dessa vez desapareceu da frente de Kouta e apareceu do seu lado.
Kouta gritou e cambaleou em direção a saída do beco, mas o homem se teleportou novamente para a sua frente o impedindo de continuar.
— Calma, não tenha medo, estou aqui para lhe ajudar — ele falou enquanto se apoiava com as duas mãos na bengala.
— Por que?
— Ora, porque te achei interessante, sabe? Elora é uma velha amiga e assim que te vi, reconheci o cheiro do bosque vindo de você — ele respondeu.
— E como você pode me ajudar?
— Posso te levar de cavalo.
— E por que você faria isso?
— Ora, eu já disse, te achei interessante. Além do mais, Elora me ajudou há muito tempo, em uma época que nem seu avô sonhava em nascer... Bem, é uma forma de retribuir o que ela fez por mim — ele falou com alegria — vamos? — ele perguntou enquanto andava em direção ao lado oposto da saída do beco.
Kouta relutou um pouco, mas como não tinha escolha achou melhor o seguir. Qualquer coisa usaria da sua espada para se defender, mas torcia que esse momento não chegasse e que o homem estivesse falando a verdade.
— Quem é você? — Kouta perguntou.
— Me chamo Vidovorgo, sou um leprechaun — Vidovorgo falou, empolgado.
— Uau! Eu nunca havia tido contato com um leprechaun de verdade...
— Emocionante, mas venha logo, temos muito caminho pela frente.
Vidovorgo continuou virando um beco, depois virando outro, olhando atentamente cada detalhe da ruas e cheirando o ar na esperança de ver se achava o restaurante onde ele deixou seu cavalo perto. Quando finalmente encontrou, abriu um sorriso tão estranho que foi possível vê-lo pelas costas; Kouta se espantou, pois aquilo foi algo inumano. Ele havia se esquecido que Vidovorgo era de outra espécie.
— O cavalo, meu querido cavalo está por aqui, oh, baby — ele disse correndo enquanto chorava e abraçava uma besta que tinha oito patas e duas cabeças — nunca mais me assuste desse jeito — ele berrou enquanto lágrimas escorriam em suas bochechas — você me custou um rim...
— Então ele foi caro mesmo? Não é de se espantar, pois eu nunca havia visto algo parecido, não nessa vida — Kouta falou enquanto rodava o animal olhando atentamente para suas patas.
— Não... ele literalmente me custou um rim... — Vidovorgo falou — quer ver a cicatriz? — ele insinuou levantar suas vestes, mas o rapaz o impediu enquanto tapava os olhos.
Vidovorgo subiu na montaria em um salto. A criatura emitiu um grunhido estranho não condizente com um cavalo comum, mas isso não era surpresa; se aquilo fazia algum som já era um milagre. Kouta também subiu, mas com dificuldade, pois a besta era maior do que qualquer outro com que ele já teve contato em sua vida. Quando conseguiu, Vidovorgo gritou e o cavalo começou a correr, e Kouta a gritar, e Vidovorgo gargalhar.
Depois de sair do funeral, Gaasp se dirigiu para a torre do conhecimento, que ficava fora das dependências da capital, em um vilarejo composto somente por sacerdotes, sacerdotisas e suas famílias. Ele andava em um cavalo que havia comprado há pouco tempo com um vendedor estranho que usava um chapéu esquisito, mas era simpático, claro que um pouco estranho, pois desaparecia e aparecia em vários lugares enquanto estava conversando, mas isso não mudava nada. O animal era de boa qualidade e não comia muito apesar do tamanho exagerado.
Os aldeões mexiam em suas plantações, conversavam entre si e trabalhavam em outras coisas manuais. Gaasp passou pela rua que atravessava a vila e ia diretamente para a torre quando foi parado por uma mulher velha que começou a balbuciar coisas estranhas a respeito da morte e predestinação, coisa que não era comum na religião de Yashrok, mas muitos aderiam. Seu neto, um rapaz de vinte e poucos anos, correu até ela e a afastou enquanto pedia desculpas ao cholder.
Quando o herói chegou à torre, alguns guardas o pararam pedindo para ver o pergaminho que provava que ele era o grande cholder, mas Gaasp respondeu:
— Vocês são cegos ou coisa parecida? Andem, deixe me falar com a oráculo! — ele gritou.
— Me perdoe senhor, mas depois do que aconteceu, as autoridades estão com tanto medo que agora pedem para verificar tudo, pois alguns nébulos podem se passar por outras pessoas para fazer coisas diabólicas. Por favor, não dificulte as coisas! — o mais novo, porém corajoso dos soldados falou. Os outros ficaram de boca aberta ao ver a forma com que ele tratou o cholder.
— Está tudo bem então. — Gaasp tirou alguns pergaminhos de sua bolsa e mostrou aos homens. Depois de um tempo eles liberaram a passagem e o homem entrou com seu cavalo e o colocou para descansar no pequeno celeiro que havia ali perto. Um pequeno rapaz que cuidava do local se encantou com o animal, pois nunca havia visto um parecido em toda sua vida. O tamanho da criatura era estranhamente anormal.
Então o cholder se dirigiu a torre e entrou nos portões que foram abertos por sacerdotes que foram deixados de vigia. Gaasp subiu as escadas e se deparou com uma porta de madeira com alguns desenhos infantis gravados. Quando bateu, uma garota de cabelos castanhos e olhos cinzas o atendeu. Ela era muito bela e apesar da idade, tinha uma grande sabedoria e entendimento que ultrapassavam as fronteiras do mundo.
— O que o cholder quer comigo? — ela perguntou enquanto sorria com desdém.
— Há quanto tempo, Amélia. Bom, posso entrar? — Gaasp perguntou. Sua feição demonstrava apreensão.
— Por que não? — ela abriu a porta e Gaasp entrou em seu enorme e luxuoso quarto. No centro dele havia uma coluna antiga partida ao meio com uma bolha feita de algum líquido magico que flutuava e brilhava em cima.
— O que o traz aqui depois de ter me rejeitado em seu grupo? — ela perguntou enquanto se assentava em um grande trono repleto de almofadas rosas e roxas que ficava do lado oposto à sua cama.
— Eu quero saber de algo meio... sombrio, eu acho? — Gaasp falou.
— Seja mais específico — Amélia falou.
— Eu bebi algo que não devia e agora tenho pouco tempo de vida... eu... — ele ficou em silêncio, pois viu que a expressão de Amélia ficou séria.
— Você bebeu uma poção feita por um deus? — ela perguntou.
— Como sabe?
— Vejo uma aura de morte em torno de você... é como se um dos cavaleiros do abismo tivesse vindo me visitar de novo... Aqueles patifes.
Ambos ficaram em silêncio. A oráculo continuou a encara o cholder que se sentia fortemente desconfortável com aquela situação. Ela se levantou do trono, se aproximou dele e disse:
— Procure pelo deus... Se você explicar a situação, talvez ele tenha piedade — ela falou.
— E como vou acha-lo? — Gaasp perguntou, desesperado — não posso viajar para o cosmos ainda.
Amélia se dirigiu em direção a janela e ficou parada enquanto olhava para fora. Ela permaneceu em silêncio por um tempo, mas logo após começou a falar:
— É possível contatá-lo através da torre misteriosa, que fica no nordeste da região amarela, mais especificamente depois das montanhas do por do sol... Mas eu aviso que é muito difícil chegar lá, pois você encontra certas coisas que não deveria no caminho. — ela disse — aconselho que espere para saber sobre os quatro que serão seus assistentes, pois assim, pelo menos, você terá suporte nessa jornada.
— Sim, acho que vou fazer isso... Mas é que não fazer nada enquanto eu espero a morte chegar e perturbador, sabe?
— Sim, eu sei perfeitamente... — ela disse com uma voz triste e melancólica — sabe? Tenho apenas vinte e cinco anos e sou mantida nesse lugar dês dos nove... é difícil passar a vida lendo somente livros e olhando para as estrelas na espera de que um dia tudo mude... — ela se virou para o cholder — as vezes eu só queria ser normal, sabe? Me apaixonar, sair em uma aventura...
— É, mas você não pode deixar o cargo que os deuses deram para você. Talvez você nunca saia daqui... — Gaasp falou.
— É, talvez — Amélia se virou novamente para a janela e riu. Ela estava planejando algo — eu soube também que vocês querem matar o boticário que virou nébulo, certo? Bem, perto da torre de Melok há um vale cheio de troncos que antigamente foi palco para uma das batalhas entre as fadas e os dragões. Lá de vez enquanto nasce uma flor negra que pode ser utilizada em um ritual que mata ou desestabiliza qualquer nébulo... talvez tenha alguma lá — ela disse, sorrindo.
— Fico feliz ao ouvir isso, pois posso resolver dois problemas ao mesmo tempo — Gaasp falou depois de dar um suspiro — o que posso fazer por você? Sabe? Você me ajudou bastante. Qualquer coisa que me pedir...
— Me ajude a fugir daqui — ela falou.
— O que? Fugir? Você é uma deusa viva, ou quase uma, não pode fugir de suas responsabilidades.
— Ah, vamos, cholder, você disse que faria qualquer coisa!
— Sim, qualquer coisa que esteja dentro de minhas possibilidades!
— Então eu pularei dessa torre.
— Não faça isso!
— E quem vai impedir uma deusa?
Gaasp ficou em silêncio. Ele parecia estar bastante irritado — já sei, vou fingir que não ouvi o que disse e lhe darei as costas sem denunciar a ninguém o seu pedido — ele se virou e foi em direção a porta — até algum dia.
— Espere! — a garota gritou enquanto lágrimas desciam de seus olhos — já sei o que quero — ela disse — quando encontrar Melok, diga a ele que a oráculo quer uma audiência com os deuses... diga que ela não aguenta mais viver assim...
Gaasp parou, colocou a mão na testa e se virou para a garota. O rosto dela estava vermelho e agora, ao contrário de antes, não parecia ser tão madura.
— Sim, eu falarei isso... — ele disse com um olhar de compaixão.
Amélia abriu um sorriso maquiavélico na face e olhou para Gaasp com expressão de deboche.
— Brincadeira! Hahaha — ela começou a rir sem parar. Gaasp não entendeu e a fitou com olhar de confusão — eu estava vendo se você ainda tinha esse coração mole, haha. Apesar de parecer durão, você esconde muitas coisas, né?
— Você é quem não muda — Gaasp se virou novamente e se dirigiu a porta com passos pesados. Ele havia ficado muito irritado.
— Espere! — Amélia gritou.
— O que é dessa vez?
— Tenha cuidado, pois não é qualquer pessoa que entra na torre da morte, ouviu?
— Sim, eu terei cuidado! — o cholder abriu a porta, saiu e a fechou com grosseria.
Amélia novamente se virou para a janela. Várias coisas passavam em sua cabeça. Ela observava a floresta totalmente amarelada que se estendia até os montes onde várias nuvens carregadas saiam de trás. Um frio vento entrou em seu quarto levando algumas folhas secas que se espalharam pelo chão.
— Fugir é?
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