Os Herdeiros
2 Dois
Notas iniciais
Abri meus olhos lentamente, ainda desnorteados pela insistência da luz que insistia em adentrar no meu quarto. Despertei ao ouvir o choque dos calçados de minha mãe. Se arrastavam pelo assoalho do corredor fazendo com que as portas rangessem com o impacto.
Ela passava depressa. Parecia estar atrasada para algum compromisso. Me levantei com certa dificuldade e abri a porta lentamente evitando mais alguns rangidos, caminhei até ela.
— Mamãe? — Pisquei forte e vi sua silhueta contra o sol. — O que está fazendo? Vai viajar? — Questionei reparando em dois baús no lado esquerdo do corredor.
Ela voltou o corpo delicadamente até mim e franziu o cenho por conta da grande claridade que vinha da janela.
— Sim querida... — Mamãe pareceu hesitar em me dar alguma informação, e ficamos imóveis por alguns segundos.
— Mendler está com problemas. Precisarei ajudar a família Frost. — Continuou.
Estranhei, normalmente meu pai que resolve os problemas dos nossos reinos vizinhos.
— E o papai? Ele não vai? — Suspirei. Ela balançou a cabeça negativamente.
— Não, querida. Ele irá viajar para Dundeya. Acredita que tentaram matar a frágil Rainha Asden? — Suspirei novamente.
Ah, é claro que eles tentariam atacar Dundeya antes de seguir para cá. Um território pequeno é frágil e o ideal para estabelecer a sua política. Como eu não pude pensar nisso?
— Admirável.
— O que disse querida? — Questionou a minha mãe.
— Os impressos, são inteligentes. — Mordi o lábio imaginando suas demais estratégias.
— Pois bem. Dundeya precisa de Agnarr, e eu irei prestar meus socorros à família de Everyn Frost. — Ela suspirou, cansada.
— A Rainha Everyn é sua amiga de anos não é? Eu gosto bastante dela. É divertida. — Sorri e minha mãe também.
— Sim, eu considero muito a família Frost.
O barulho do relógio estava evidente, e mamãe parecia mais nervosa a cada estalo dele.
— Querida, eu preciso ir. Certo? Diga a Anna que eu a amo.
— Mãe, você nunca nos deixou sozinha. — Resmunguei manhosa.
— Elsa você vai ficar bem. Eu te amo.
Mamãe me deu um beijo na testa e desceu as escadas rapidamente, enquanto uma criada levava seus dois pequenos baús de couro cor de breu.
Eu adentrei em meu quarto e voltei a pensar na estratégia dos impressos.
Eles atacaram Dundeya, e seguindo a lógica de raciocínio teria atacado Corona, um reino pequeno e modesto. Com os avanços tecnológicos que os impressos tem as mãos, seria fácil atacar-los e derrubar sua fortaleça. Logo penso em Rowseland, e por último... Arendelle.
Só não entendi como Mendler está em sua linha de ataques, atrás de Arendelle, é o reino mais preparado para um ataque impresso.
—Princesa Elsa? — Um sibilo soou suave pela porta.
— Entre, está aberta. — Falei firme.
— Desculpe incomodar-la, mas gostaria de perguntar se a princesa irá almoçar, sua irmã Anna está chamando à senhorita.
— Mas... Que hora é essa?
—Meio dia em ponto, princesa Elsa.
— Irei sim. Obrigada por me chamar. — Sorri.
Perdi algumas horas pensando em toda uma estratégia. Desci as escadas e adentrei no cômodo, me assentando no meu habitual lugar. Anna estava lá, me encarando, e pareceu hesitar em quebrar o silêncio que habitava a copa. Andávamos tão distantes, ultimamente.
— Também está preocupada? — Perguntou ela, eu assenti com a cabeça. — Por que não desceu para o café?
Sorri fraquinho.
— Acabei me distraindo e perdendo o horário.
— Ah, sim... Típico. —Ela sorriu e eu retribuo. — Elsa... Porque a mamãe foi para Mendler? Eu sinto que vocês... Mamãe, papai e até mesmo você, me escondem as coisas. — Ela suspirou desanimada, enquanto balançava suas pernas embaixo da mesa.
— Anna, não fale assim. Você sabe que os assuntos do reino não devem... — Calculei minimamente o que falar. — Não dizem respeito a você, que tem apenas 16 anos.
— É você está certa, mas isso não tem nada haver... Aliás, com 16 anos você estava a par de tudo.
— Por favor, Anna. Não vamos discutir.
— Tem razão, me desculpe. Eu só queria... Só queria ser como você. — Esta é a voz de desespero da minha irmã, e ela consegue sempre o que quer com isso.
— Não... Isso não vai funcionar comigo. Anna, se nossos pais não lhe deixaram a par de tudo é por que não é necessário que saiba de tudo. Não irei contra a eles, apenas para te satisfazer. — Fui direto ao ponto. Vi sua expressão chocada e continuei inexpressiva.
—Você está igual ao nosso pai. Bem que todos dizem que você é a grande rainha. — Ela apontou seu indicador para a criada e a chamou. Ambas ficaram frente a frente. — Âmber, irei almoçar no meu quarto, quando estiver tudo pronto leve até mim, por favor.
Eu permaneci calada assistindo sua silhueta diminuir cada vez mais na imensidão do palácio. Âmber me entreolhou.
— Digo o mesmo que minha irmã. — Levantei e subi as escadas, esperando pelo meu almoço, mas na verdade estava sem fome alguma.
Realmente me surpreendi em saber que minha irmã gostaria de estar aqui. Onde eu estou a dois passos de assumir o trono. Quem dera se ela soubesse que eu não quero nada disso.
Não sei o que eu quero, não sei se devo fazer isso. Talvez decepcionar a mim mesma ou decepcionar todos aqueles que depositam sua confiança em mim.
Em um dia eu penso que não irei fraquejar e tudo dará certo, mas eu não sei se ISSO seria o certo. Já se fazem duas semanas que os ataque começaram a se tornar mais recentes e eu não posso carregar isso para mim.
— Aqui está seu almoço. — Minha criada, Lucile me entregou. Ela entrou de forma tão silenciosa que não pude perceber a sua presença, eu assenti com a cabeça fazendo um sinal de agradecimento e então ela saiu.
Levei a comida a minha boca e senti a sua essência, terminei a minha refeição e me deitei. Esperando mais noticias de papai e mamãe.
Despertei com a brisa morna da primavera me aconchegando em seus braços, observei o pôr-do-sol alaranjado.
— Princesa Elsa! — Ouvi uma voz.
— Olá?
— A Rainha Iduna está de volta. E com companhia, sugiro que vista um belo traje.
— Oh, obrigada.
— A senhorita quer ajuda?
— Não, não. Diga a ela que já descerei.
Visitas? Quem poderia vir nos visitar. De primeira pensei em Duque Weselton, de Rowseland, suas visitas com sua esposa se tornaram recentes depois dos ataques passados em seu reino.
Vesti um simples e comportado vestido bege rendando, prendi meus cabelos em um coque e gostei do que vi no espelho. Resolvi descer.
— Veja Oswald, como a princesa Elsa está crescida. Nos a pegamos no colo e a vimos em seu ventre, Iduna. — Errei em meu palpite, os visitantes eram Oswald e Everyn Frost. Ambos o rei e rainha de Mendler. Sorri timidamente.
— Olá, princesa Elsa. Está linda! — Disse Oswald. Sorri agradecida.
— Obrigada rei Oswald. — Fiz uma simples reverencia.
— Linda e educada, Elsa. Mas nós que deveríamos nos curvar diante de você. — Everyn riu. Mas sempre educada, e levemente conservada. Seu rosto aparentava cansaço, e suas roupas estavam enlameadas e ensaguentadas, mas isso não impedia o afloramento de sua elegância. E eu resolvi não fazer questão disso.
— Rainha Everyn. Eu faço questão. —Fiz outra reverência. Ela sorriu e se virou para mamãe.
— Iduna, estou pasma. Garota encantadora. Posso adotar-la? — Ela riu e minha mãe a acompanhou.
— Querida, não vai vir abraçar sua mãe? — Minha mãe sorriu e estendeu seus braços, fui ao seu encontro e a abracei.
— Mamãe, aconteceu alguma coisa? — Sussurrei, ainda em seus braços.
— Mendler, está destruído, Elsa. Iremos falar disso logo.
— E Anna onde está? — Perguntou o rei Oswald.
— Não faço idéia. — Sorri. — Podemos entrar e ir direto para o escritório, o que acham?
Vi o sorriso de Everyn se desfazer lentamente, ela assentiu suspirando enquanto seu queixo começava a enrugar. Todos entraram e nos dirigimos para o escritório oficial.
— Sentem-se. — Disse mamãe. — Elsa, houve uma situação bem delicada em Mendler. E como você assumirá o trono, deve saber de tudo. — Pude ouvir os batimentos cardíacos acelerados de todos naquela pequena sala.
— Mendler está destruído. Os impressos atacaram ferozmente. Começaram as campanhas na praça central, e seguiram para as quatro únicas províncias que temos lá. Disseram que se os camponeses se juntarem a eles conseguiriam novos direitos, e uma nova vida. Logo que o nosso castelo fosse atacado e a nossa coroa... Caísse. — Concluiu Everyn.
Eu continuei em pé, imóvel. — Já que nossos súditos não estavam satisfeitos com as nossas recentes leis. Houve uma rebelião de províncias e impressos. — Finalmente terminou.
— Eu convidei a família Frost para ficar conosco o tempo que precisarem para se restabelecessem. E darei uma boa parte da mão de obra para recuperar o reino de Mendler. — Assenti atentamente, ouvindo detalhadamente cada palavra.
— E papai? E Dundeya?
— Seu pai está parando em reinos próximos para conversar. E sobre Dundeya... — Minha mãe parou e colocou a mão sob seu coração. — A Rainha Asden não resistiu a uma segunda tentativa de ataque contra ela. Quando te falei, pela manhã, ela já estava bem debilitada por conta de sua saúde frágil. E ela acabou falecendo. Dundeya está em condições favoráveis. Será fácil de restabelecer.
— Princesa Elsa, nosso medo é que como a rainha Asden faleceu os plebeus queiram estabelecer uma republica. E tememos pelo ataque aos reis e rainhas. — Oswald falou pousando sua mão no ombro de sua esposa.
—Eu só não entendo. Por que os ataques aos reinos? Será que eles sentem necessidade de expandir sua república? Mas para que... Não consigo entender. — Falei, franzindo os lábios.
Ouvi o som da maçaneta girar e todos nós olhamos para a porta, desconfiados.
— Com licença. A criada me disse que vocês estariam aqui.
— Jackson... — A rainha suspirou aliviada. — Creio que já ouviu falar da princesa Elsa.— Ela sorriu. Eu acenei com a cabeça, o príncipe me olhou dos pés a cabeça e permaneceu parado.
— Sim. Prazer, príncipe Jack Frost, de Mendler. — Ele me reverenciou e eu sorri.
— Prazer em conhecer-lo.
— Temo que ambos tenham que conversar, se nos dão licença. — Mamãe, fez um sinal indicando a porta para o rei e a rainha. Eles a seguiram para fora.
A porta bateu. Eu estremeci.
Ficar sozinha com um príncipe. Me recordo do príncipe que se revelou impresso em uma província do Norte.
Me assustei e recuei um passo para trás, voltando meu corpo para o começo da noite. A lua brilhava bem forte.
—Nós iremos ficar aqui. — Falou ele. Sua voz forte ecoou pelo cômodo silencioso. Permaneci calada.
— Eu sei... — Murmurei.
— Você gosta de admirar a lua.
— O que?
— É que você está olhando para ela faz um bom tempo. — Dessa vez me virei para encará-lo, ele sorria.
— Como foi? Digo a destruição... — Franzi o cenho me assentando.
— Eu não quero falar sobre isso. Desculpe.
—Tudo bem. — Minha voz soou rouca. Ele se assentou próximo a mim.
— Bem, parece que você não está se sentindo bem com a minha presença, se te incomoda eu me retiro. Desejo que tenha uma boa noite, princesa Elsa. — Jackson se levantou e abriu a porta se despedindo com uma reverencia.
Eu não sei o que pensar sobre isso tudo.
Talvez uma boa noite de sono ajude a repensar minhas suposições.
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