Os Guardiões
1 A Fugitiva - 1ª Parte
Notas iniciais
Nikaya’s Version
O dia está claro e os pássaros cantam enquanto caminho sozinha pelo enorme campo aberto. Existem árvores aqui e ali e um enorme penhasco bem a minha frente. Meus pés descalços dão passos calmos, um de cada vez, sobre a relva verde e macia.
Não demora muito até que eu chegue na beira do penhasco. Lá embaixo há um rio de águas correntes e cristalinas. Em sua volta existem árvores de todos os tamanhos, com folhas em diferentes tons de laranja, vermelho e amarelo. O ar está fresco e o vento corre levemente e brinca com o meu cabelo. Olho para baixo e enxergo meus pés no limite do penhasco.
— Agora sim posso dizer que estou à beira de um abismo. – Digo em voz baixa e dou um pequeno sorriso.
Fecho os olhos e sinto o vento soprar um pouco mais forte. É como se ele estivesse tentando me impedir. Posso senti-lo sussurrar no meu ouvido enquanto dou uma volta e fico de costas para o penhasco. Abro os braços e escuto o barulho das águas do rio lá embaixo. Elas ficam mais agitadas e o vento mais forte.
— Não se preocupem, eu consigo. – Essas foram minhas últimas palavras antes de forçar levemente o meu corpo para trás e começar a sentir a sensação intrigante, porém gostosa da queda livre.
O topo do penhasco fica cada vez mais distante e o barulho das águas fica ainda mais forte. E agora que sinto que estou prestes a chegar ao fim e atingir as águas nervosas do rio, decido interromper minha queda virando meu corpo e ficando de frente para a água. Abro novamente os braços e manipulo uma corrente de ar para que se junte ao meu corpo e me permita planar entre as árvores.
Essa sensação de liberdade é incrível.
Enquanto eu brinco com o ar, posso sentir as árvores. É como se elas estivessem com medo de que eu me chocasse com alguma delas e pudesse me machucar.
De repente, ouço o barulho de alguém pisando em galhos e resolvo aterrissar. Parada, olho em volta e tento encontrar o responsável pelo barulho, mas não vejo ninguém. Fecho os olhos e tento sentir o ambiente a minha volta. As árvores falam. O vento e as águas do rio também. A natureza sempre fala e nunca mente.
— Eu sei que está aí. – Digo em direção a uma enorme árvore logo a frente. – Você pode sair. – Minha voz ecoa entre as árvores e uma majestosa criatura sai de onde estava escondida.
Era uma mulher de vestido branco e bordas douradas. Saindo de debaixo do capuz, seu cabelo vermelho acobreado cai pelo corpo e vai até a cintura. Ela segura um enorme cetro e possui uma pele pálida. Seus olhos azuis me fitam e parecem preocupados.
— Seus sentidos estão cada vez melhores. E quanto ao que fez, bem... aquilo foi perigoso e... — diz, mas a interrompo.
— Não se preocupe. Minhas habilidades com o ar são incríveis. Você até ficaria chocada, mas acontece que foi você quem me treinou. Não devia me subestimar.
— Eu sei. – Ela revida com um sorriso orgulhoso. Mas logo sua expressão de felicidade desaparece.
— Aconteceu alguma coisa? – Pergunto curiosa e ela responde:
— Você precisa voltar... não pode estar aqui. – De repente sua voz parece fraca e ela começa a tossir.
— Você está bem? – Pergunto preocupada enquanto corro para ajudar a mulher que cai de joelhos. – O que houve? – Indago e logo tudo a minha volta parece mudar. As árvores dão lugar a uma enorme cela escura.
— Eles estão vindo... por favor, saia daqui! – Ela diz enquanto parece cada vez mais fraca.
Logo, percebo que existem correntes que prendem seus pés e o seu majestoso vestido branco está sujo do que parece ser cinzas. Também surgem correntes prendendo seus braços. Tudo fica mais escuros e percebo que estou em uma espécie de calabouço.
— Não consigo mais continuar mantendo essa ilusão... eu... – ela parece fraca.
— Que ilusão? Do que está falando? E por que você está presa? Quem fez isso com você?
— São muitas perguntas que não posso responder agora. Não há tempo.
— Eu vou te soltar. Eu só preciso de um segundo.
— Não...
— Emitte!!! – Digo enquanto me concentro nos cadeados das correntes. Mas eles não abrem. – Aperta et seras!!! – Tento mais uma vez em vão. – Não, não. Não posso te deixar aqui.
— Não há tempo!!! – Ela responde sem paciência. – Seruare periculo, liberare a malo. Você precisa sair daqui.
De repente, sons de passos se aproximam e ela faz sinal para que eu saia da cela e fuja.
— Eu volto. Eu juro que volto pra te tirar daqui. Não vou deixar que te machuquem. – Ela sorri e assente com a cabeça.
Fecho os olhos e estalo os dedos para me transportar para foram da cela. Olho para o lado e vejo a sombra de alguma criatura que se aproxima com alguma tocha na mão. Então, resolvo correr na direção oposta, pelo corredor.
No entanto, me deparo com algumas criaturas. São centauros. Alguns são bonitinhos. Outros nem tanto. Engulo seco ao perceber que são aproximadamente seis e que, provavelmente, são os guardas daquela prisão.
Um deles faz sinal com a cabeça e os outros começam a vir atrás de mim. Então, volto a correr na direção da pessoa com a tocha.
Era uma criatura de aproximadamente dois metros e meio de altura, pele avermelhada e suja. O grandalhão me olha confuso enquanto os outros vinham atrás de mim.
— SAI DA FRENTE!!!!! – Grito enquanto corro na direção da criatura, na falsa esperança de que ela fosse me deixar passar. Mas, no primeiro sinal de negação, recolhi energia nas minhas mãos e soltei uma enorme bola de fogo na direção do grandalhão. O qual, com medo de se queimar, se recuou em um canto da parede, me dando passagem.
Quanto mais medo eu sentia, mais forças minhas pernas encontram para correr. No final do corredor havia um enorme portão. Antes que eu pudesse alcançá-la, fechei os olhos e me transportei para fora. Ainda ouvindo o barulho das criaturas atrás do portão, comecei a correr novamente e, quando dei fé, estava cercada por enormes muros guardados por várias criaturas grandes e centauros. Haviam guardas em todos os lugares e eu não tinha ideia do que fazer naquele momento.
Meu coração parecia que ia saltar da boca de tanto que corri. Todos me olhavam com desconfiança e, ao mesmo tempo, confusos. Nunca haviam me visto, nem eu a eles.
“Eu posso lutar. Coloco todos no chão em um segundo”. Penso comigo mesma enquanto olho em volta. “Mas são muitos. Não posso com todos eles”. Em segundos me vejo circundada por guardas centauros que seguram lanças e tridentes.
— Vejam só quem voltou. – Uma voz masculina e charmosa ecoa por detrás de algum dos guardas. – Fugiu da nossa prisão há alguns dias e nem aguentou a saudade? Achei que tivesse se escondido entre os humanos. – Ele diz e sai de algum ugar qualquer e todos os guardas fazem reverência.
Olho para trás e vejo um homem nos seus 1,80 de altura. Sua pele pálida contrastava com seus olhos acobreados e cabelos loiros. Ele era irritantemente atraente e elegante.
— Espere um minuto. – Ele diz intrigado enquanto seus olhos estão fixos em mim. – Você não é Calisto.
— Calisto? Quem é Calisto? – Indago confusa.
— A questão, minha querida, – ele fala enquanto se aproxima, me deixando um pouco nervosa – quem é “você”? E... o que está fazendo perdida por aqui? – Ele pergunta aparentemente simpático, com um sorriso traiçoeiro no rosto.
— Eu... eu não...
— Senhor, ela estava no corredor dos guardiões. – Um dos guardas resolve abrir a boca. – Receamos que ela estivesse com Guardiã Suprema.
Logo o sorriso dele se apaga e rapidamente sua face é tomada por uma expressão de desconfiança.
— Quem é você? – Ele vem até mim numa velocidade incrível e suas mãos brancas e completamente gélidas tocam meu rosto.
“Não acredito! Um vampiro bem diante dos meus olhos!” Fico impressionada com tamanha beleza na minha frente. No entanto, fico assustada com a situação. Nunca tinha visto uma criatura sobrenatural na minha frente. E agora que estou com uma, ela não me parece amigável.
Suas presas começam a aparecer lentamente e seus olhos brilham. Ele quer uma resposta. Do contrário, vai acabar comigo aqui mesmo.
— Vai pro inferno! – Sussurro olhando nos seus olhos e deixando meu próprio corpo em chamas. Ele grita de dor e recua rapidamente enquanto decido correr em qualquer direção, na esperança de que algum guarda rompa o círculo com medo do fogo e me deixe passar.
Com sucesso, saio dali correndo e as chamas do meu corpo de apagam. Enquanto corria, avistei o que parecia ser o portão principal. Parei e criei um círculo de fogo a minha volta. Percebi que aqueles centauros tinham muito medo de se queimar. Juntei toda a força que ainda me restava, respirei fundo e senti os raios do sol tocando a minha pele. E quando vi que estava pronta, criei uma enorme bola de fogo com as mãos e direcionei para o grande portão de ferro, que derreteu absurdamente rápido com o calor excessivo do fogo místico.
Corri rapidamente na direção da saída, mas quando ultrapasso a passagem, o chão desmorona e mais uma vez me vejo caindo do mesmo penhasco de antes. Mas agora não é a mesma coisa. Eu não consigo mais controlar o ar. As águas do rio lá embaixo estão muito agitadas.
Caio dentro do rio e fico me debatendo lá dentro sem conseguir subir para a superfície. Tento acalmar as águas, mas não obtive êxito. E quando não consigo me debater mais, sinto a água tentando invadir meu corpo e então o desespero volta.
Vejo a imagem da mulher do vestido branco na minha frente e tudo se apaga. Sinto ela segurar a minha mão e, de repente, abro os olhos e me sento rapidamente na bicama. Respiro freneticamente como se tudo aquilo realmente tivesse acontecido.
— Não acredito. Outro pesadelo? – Camila, que estava deitada no colchão mais próximo ao chão, se levanta lentamente, esfregando os olhos.
Ela é jovem mulher de longos cabelos escuros e cacheados. sua pele negra é perfeita e tem um corpo esbelto. Ela tem olhos profundos e desafiadores e possui uma personalidade forte e divertida. E claro, não vou deixar de mencionar que é a minha melhor amiga.
Eu confirmo sua pergunta com a cabeça e ela parece preocupada. – E a mulher misteriosa? Ela estava lá novamente?
— Sim. E... haviam centauros... e guardas... e... – Digo enquanto tento lembrar de tudo o que houve.
— E o que?
— Um vampiro.
— Um vampiro? – Ela fala debochada. – Tipo Stefan e Damon ou um Edward Cullen? – Ela fala com uma risadinha.
— Tá mais para o pai do Edward, — Entro na brincadeira.
— Carlile? Ai meu Deus, ele era gato assim?
— Engraçadinha. Acontece que eu acho que tem alguma coisa acontecendo, dessa vez, falaram de uma tal de Calisto. E se...
— Ah não começa. Foi só um sonho tá?
— Mas pareceu tão real.
— Centauros não existem. Vampiros também não. Não sei porque está tão preocupada. Além do mais, você já disse que nunca viu aquela mulher em nenhum outro lugar a não ser em sonhos. Então, pode até ser que ela também nem exista.
— Assim como também não existem pessoas que possam fazer o que eu faço.
— Tá... você me pegou. Tudo bem que você é uma esquisitona com poderes mágicos, mas é só você mesmo tá? Relaxa. Nenhum centauro ou vampiro vai sair do armário pra te pegar. – Ela diz e depois solta uma risadinha debochada.
— Por que somos amigas mesmo, hein?
— Porque você me ama, eu te amo... essas coisas. Agora volta a dormir porque amanhã... digo hoje, — ela se corrige ao ver a hora no relógio da parede – temos um encontro duplo com nossas almas gêmeas.
— E com almas gêmeas você quer dizer duas pessoas aleatórias e estranhas que conheceu pelo Tinder. Fala sério, quem usa isso?
— Ai não reclama, eu escolhi um cara bem bonitinho pra você.
— Dispenso. – Digo enquanto me deito novamente e viro para o outro lado.
— Dispensa nada. Eu já passei teu endereço e seu número do Whatsapp.
— Você o que? – Indago levantando rapidamente e encarando a garota no colchão secundário.
— De nada.
— Ah não. – Resmungo enquanto me deixo cair na cama novamente. – E a garota que vai te acompanhar?
— Ah ela é muito linda! Passamos horas conversando. – Ela diz empolgada. – Ah e ela vai passar aqui um pouco mais cedo pra irmos todos juntos. Agora vai dormir. Não quero que eles cheguem aqui e nos vejam inchadas de sono e com olheiras.
— Ai meu pai! – Suspiro e me recolho na cama, aconchegada pelo cobertor.
Fico encarando o teto do quarto enquanto todas aquelas imagens do sonho voltam a minha mente. O que aconteceu? E quem raios é Calisto?
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