Os Golpistas
3 Os dias passam e Melanie retorna
Notas iniciais
POV Jared Howe
—Jared? Você já está acordado?—Eu escutava um eco de voz bem distante, aos poucos fui abrindo os olhos, esfreguei os mesmos com a palma das mãos, voltei a escutar novamente a voz do outro lado da porta.
—Pode entrar Brooke, a porta está aberta—Permiti sua entrada, mas continuei deitado.
—Ainda bem que já acordou—A loira fechou a porta, caminhou até minha cama e se sentou na beirada—Liam e eu vamos começar o nosso plano de seguir todos os passos do Ethan Stryder, iremos segui-lo desde o momento que sair de casa, vamos acompanhar todos os lugares em que ele costuma ir, os horários, compromissos, enfim uma investigação completa.
—Muito bem Brooke!—Minha voz saiu um pouco rouca—Confio em você e no Liam, sei que farão o serviço muito bem feito.
—E você? Como passou a noite? Percebi que as coisas com o Ian não vão nada boas não é?
—Nunca foram boas, só está piorando, apenas isso—Me sentei na cama, Brooke ficou um pouco ruborizada, eu estava sem camisa. Só ai percebi que não era apenas sem camisa que estava, eu estava sem nenhuma roupa.
—As coisas vão melhorar, tudo vai ficar bem, vocês sempre brigam, mas logo voltam a se falar—Falou enquanto desviava os olhos no meu peito despido, ela procurou fixar seus olhos em qualquer outro lugar do quarto.
—O Ian está mudado, parece mais intolerante, como se estivesse me peitando, eu não gosto disso, sou o irmão mais velho, ele me deve respeito.
—Pelo amor de Deus, não tem nada haver isso Jared, o Ian te respeita, e muito viu, apenas deixe o garoto mais livre, você o pressiona demais.
—É, pode ser isso, às vezes penso em aliviar para o lado dele, mas eu não sei, de qualquer forma vou da um tempo das brigas, nem eu estou mais aguentando discutir com Ian quase todos os dias—Reparei que Brooke não estava mais prestando atenção no que eu falava, ela olhava para a escrivaninha, a mesma estava cheia de papeis amassados, também havia alguns no chão.
—O que estava fazendo?—Ela perguntou curiosa.
—Estava pesquisando a planta da casa do milionário, a encontrei em um site de condomínios de luxo, precisei estudar o lugar, e digamos que deu um pouco de trabalho—Olhei para a quantidade de papeis amassados e jogados no chão—Ainda preciso continuar, mas pego nisso depois, ainda tenho tempo.
—Claro, não vamos fazer nada mal feito senhor Jared—Voltou a me olhar sorrindo, e eu a imitei, Brooke tinha esse dom de me fazer sorrir, era uma das poucas que conseguia esse feito meu.
—Acho bom heim!
—Bom, vou indo agora, só vim mesmo avisá-lo, preparei um café da manhã, aproveite e se alimente, faz dias que não o vejo comer direito.
—Obrigada, e me desculpe pela forma como falei contigo ontem na hora do almoço, não queria jogar o meu mau humor em cima de você.
—Eu já estou acostumada com esse seu jeito Jared. Te entendo amigo, não se preocupe. Agora preciso ir, nos vemos à noite—Brooke inclinou seu corpo para frente, me dando um beijo no rosto, ela ficou me olhando parada por alguns segundos, na verdade ela olhava para minha bochecha.
—Eu me cortei com a lâmina de barbear ontem à noite—Falei antes que ela perguntasse, pois sabia que com certeza ela perguntaria.
—Tome mais cuidado, podia te sido mais profundo. Ainda bem que foi de leve—Passou os dedos sobre a região ferida. Quando percebeu que meus olhos estavam sobre ela, a mesma se afastou de uma vez só, ficou um pouco desajeitada com a situação, apenas sorrimos sem graça um para o outro.
—É melhor você ir logo, ou vai se atrasar—Recomendei ainda sorrindo.
—Claro!—Caminhou até a porta e atravessou ela de uma vez só, nem ao menos olhou para mim antes de partir.
Tomei coragem e rolei pela cama, segurei a toalha que ameaçou cair da minha cintura, caminhei até o guarda roupa. Retirei uma camiseta preta de mangas longas, uma calça jeans lavada, e um par de tênis. Depois de me vestir, fui até o banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes.
[...]
Estava sentado no refeitório, tomando o café da manhã sozinho mesmo, como de costume, acho que só almoçava com Brooke e Liam, isso também nem era sempre. Gostava de passar a maior parte do tempo sozinho, não que eu desprezasse a companhia dos meus amigos, não mesmo, apenas me sentia melhor só.
Estava comendo um pão recheado com fatias de queijo, também aproveitei para tomar um copo de suco de laranja, havia outras coisas sobre a mesa, dois tipos de bolos, algumas bolachas e frutas também. Quando terminei de me alimentar, levei tudo para cozinha, guardei e depois voltei para o refeitório, encontrei Connor sentado em uma das cadeiras, ele estava limpando uma de suas armas.
—Muito trabalho?—Perguntei me sentando em sua frente, cruzando os braços sobre a mesa.
—Apenas matando o tempo, sabe que não gosto de ficar parado, não é muito o meu...—Deu uma breve pausa— Estilo de vida—Completou.
—Claro que sei, mas logo, logo teremos um bom trabalho pela frente, vá se preparando.
—Sabe que pode contar comigo inteiramente, não sabe?—O mesmo parou a sua limpeza, e me fitou.
—Sei sim Connor, você é um amigo fiel, sempre parceiro durante todos esses anos, eu sei que posso confiar plenamente em você.
—Fico feliz em ouvir isso—Voltou a limpar sua arma—E o Ian? Não vai participar mesmo dessa vez? Olha que ele já ameaçou outras vezes, mas no final, sempre nos ajudava.
—Acho meio difícil, ontem a noite ele parecia decidido, acho que não vai nos ajudar dessa vez. Mas tudo bem, assim eu não preciso me preocupar que ele faça alguma burrada.
—Burrada?
—Sabe que ele tem o coração mole, poderia nos atrapalhar de alguma forma, além do mais, sequestro é uma coisa bem séria, tenho medo de envolvê-lo.
—Compreendo, o garoto está assustado, por isso reagiu daquele jeito ontem à noite.
—Espero que seja só isso mesmo. Bom, acho que vou precisar da sua ajuda hoje, estou estudando a planta da mansão do Ethan, preciso da sua ajuda também, sua experiência de ex-soldado ajuda muito.
—Não precisa pedir duas vezes. Quando quiser é só me chamar.
—Obrigado Connor.
[...]
O dia passou sem muita presa, Connor e eu trabalhamos na planta da mansão, detalhamos todos os possíveis modos de entrada e saída, devido ao imóvel ser muito grande, não poderíamos correr o risco de nos perder lá dentro, seria muito contratempo.
Brooke e Liam chegaram um pouco depois das dez horas da noite, passaram todos os horários do milionário, informaram tudo que ele havia feito durante o dia, combinaram de fazer a mesma coisa nos próximos dias, tínhamos que ter certeza de todos os seus compromissos e horários, era importante saber se ele morava com mais alguém, isso era de extrema importância.
À medida que os dias foram se passando, Brooke e Liam foram recolhendo mais informações úteis. Liam havia até simulado um esbarrão em Ethan, o mesmo estava saindo do seu banco, quando o nosso hacker propositalmente se jogou em cima dele, sem que Ethan desconfiasse, Liam colocou uma mini câmera escondida em sua gravata. O milionário não desconfiou de nada, mas repreendeu Liam pela forma como havia esbarrado nele, chegou até a xingá-lo, mas o nosso garoto foi bem esperto, e tratou logo de ir embora o mais rápido possível.
A câmera era minúscula, ninguém poderia suspeitar, só assim conseguiríamos acompanhar seus passos por dentro da sua mansão. Já que Brooke e Liam não podiam entrar no condomínio, tiveram que encontrar uma forma de vigiá-lo dentro de sua própria casa, foi assim que surgiu a idéia da câmera.
No final das contas, a câmera ajudou e muito, descobrimos que havia muitos seguranças espalhados pelo condomínio. E que Ethan só tinha a companhia dos empregados, ele não era muito de conversar com eles, a não ser por um que se chamava Shane. Ele era a pessoa com quem Ethan ainda trocava algumas poucas palavras.
Então Ethan Stryder morava sozinho? Isso era muito bom, pensei que ele tivesse uma família. Melhor assim, quanto menos pessoas no local, menos trabalho teríamos. Pena que ele retirou a gravata antes de dormir, depois desse dia, não a colocou mais, então não tivemos mais informações através da câmera.
Mais tudo que tínhamos recolhido até o momento, estava de bom tamanho, já sabíamos exatamente os horários de suas saídas e entradas da mansão, todos os lugares que costumava passar antes de ir para o banco, todos seus compromissos diários. Eu estava satisfeito com a investigação de Brooke e Liam.
A minha parte também estava quase concluída, Connor havia me ajudado muito durante esses dias, já havíamos traçado um plano, já sabíamos por onde entraríamos, e também por onde saíramos. Claro que teríamos que ter cuidado com a segurança do condomínio, provavelmente nos disfarçaríamos de seguranças, e como não seria Ian que levaria a van para o condomínio, tivemos que encarregar essa tarefa para Liam.
Decidimos colocar o plano em ação no dia seguinte, seria uma sexta feira, já estávamos preparados e ansiosos também. Claro que batia um medo de alguma coisa sair errado, mas eu procurava passar energia positiva para meus parceiros, todos eram ótimos ali, tínhamos trabalhado em equipe, e tudo sairia como o combinado.
Ian não deu as caras durante as reuniões que fizemos, ele se trancava no quarto, procurava não saber sobre o sequestro. Falava com todos normalmente, menos comigo. Ainda tentou convencer a todos que aquilo era um erro, sorte a minha que nessa altura do campeonato, ninguém deu ouvidos a ele. Até Brooke que antes receava, mostrava-se confiante e determinada.
Eu estava sentado na varanda do meu quarto, havia uma boa poltrona ali, desde que começara com aquele plano, nunca mais tive tempo para apreciar a vista da minha varanda, sempre estava ocupado demais, mas hoje havia sido o último dia de tarefas, só para acertos de alguns detalhes. Afinal já tínhamos tudo em mente do que faríamos amanhã.
Estava feliz e muito satisfeito, planejamos tudo isso em uma semana praticamente. Estava escrevendo tudo em meu diário, sobre os resultados dessa semana, sobre as informações recolhidas, e por incrível que pareça, não tive nenhuma discussão com Ian, realmente milagres acontecem, mas acho que foi pelo fato dele não está muito presente, eu passei esses dias bem ocupado, por isso não tive muito tempo de dar atenção para ele.
Um misto de dor e tristeza atingiu meu coração, derrubei a caneta sobre a página aberta do diário, eu sentia falta da companhia dele, sentia falta de conversar civilizadamente com meu irmão, de dividir minhas alegrias e tristezas com ele. Porém nesse momento eu não podia pensar nisso, dali pra frente meu foco seria outro. O grande golpe milionário.
Também não tivemos mais notícias da Buscadora, para meu alívio ela havia sumido, era uma preocupação a menos. Mais no fundo eu sabia, sabia que ela ainda não tinha desistido de encontrar meu grupo, provavelmente só havia dado um tempo. Essa mulher só pararia quando acabasse com a nossa raça, enquanto esse dia não chegava, iríamos dar ainda muito trabalho para ela,
Fechei o diário e entrei para meu quarto, guardei o mesmo como de costume, dentro da gaveta do criado mudo. A noite estava quente, eu já havia tomado um banho, mas mesmo assim sentia um calor no meu corpo. Estava usando apenas uma calça de dormir, ela tinha um tecido bem fino, dispensei a camiseta, se eu dormisse com ela, com certeza acordaria no meio da noite molhado de suor, como eu disse, a noite estava escaldante.
Deitei-me ajeitando o travesseiro atrás da minha cabeça, quando encontrei uma posição confortável fechei os olhos, sabia que não iria conseguir dormir direito, estava ansioso para que o dia amanhecesse logo. Mas acabei fazendo uma força, depois de quase meia hora adormeci.
POV MELANIE STRYDER
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Tenho que admiti ‘Odeio despedidas’. Minha avó Grace, era a pessoa mais especial para mim, uma mulher que eu admirava muito, depois da morte da mamãe, ela era minha segunda mãe. Sentia-me bem quando estava com ela, protegida, amparada, amada.
Perdi minha mãe em um acidente de carro, ela voltava de uma festa na casa de uma amiga, já era tarde da noite, meu pai não havia ido com ela, preferiu ficar em casa, deixou mamãe ir sozinha. Era como se eu sentisse algo ruim, não conseguia dormir, sentia fortes vibrações ruins, sabia que algo de ruim estava para acontecer, eu e minha mãe, éramos muito ligadas, dividíamos tudo.
Foi um baque terrível na minha vida, quando recebi a noticia da sua morte, esse foi o pior dia da minha vida, eu estava com 18 anos, planejava os planos da minha vida juntamente com ela, quando a mesma morreu, tudo desabou, foi como uma onda agressiva que veio para derrubar meu castelo de areia.
Então vovó acabou preenchendo esse vazio que ficou em meu coração, admirava-a muito, ela era uma mulher forte, sofreu muito com a morte da filha, mas também me ajudou a superar essa perda. Muito diferente do meu pai, não que ele não tenha sofrido com a morte da minha mãe, muito pelo contrário, papai ficou muito triste, mas em menos de uma semana de luto, ele já estava de volta ao trabalho. Eu achei aquilo tão insensível da parte dele.
Essas férias tinham sido as melhores de toda a minha vida. Sai muito com meus amigos aqui da Virgínia. Passeei com a minha avó, fomos a muitos lugares, como era bom está com ela, se eu pudesse nem voltaria mais para Nova York. Só estou voltando porque estou cursando o segundo ano de psicologia na Cornell University. Adoro essa matéria, me encanto com o estudo da mente do ser humano.
Isso é a única coisa boa da minha vida em Nova York. Mal tenho amigos lá, passo a grande parte do tempo estudando mesmo. Gostaria de morar com a minha avó, mas sei que isso o meu pai não aceitaria, ele não gosta muito da sogra que tem, nem quando a minha mãe era viva, os dois nunca foram um com a cara do outro.
Eu também amava o meu avô Harry, infelizmente ele não se encontrava mais entre nós, morreu a três anos de um derrame cerebral, foi uma tragédia, fiquei um bom tempo em choque, ele era outra pessoa que eu admirava muito, sua perda foi muito dolorosa para mim, e para vovó, ele morreu um ano depois da morte da mamãe, foram anos difíceis esse. O que no final me motivou a escolher a psicologia para cursar.
Mais com o passar do tempo, fui aceitando sua ausência, assim como me acostumei com a da minha mãe. nessa vida temos que nos acostumar com tudo. Perdas são inevitáveis, mas elas também servem para nos fortalecer, para buscar uma força do nosso interior, uma força que nem mesmo sabemos que temos.
Vou sentir saudades desse meu quarto, minha avó sempre o mantinha do mesmo jeito, desde a época em que eu era criança, ela não mudava nada, deixava tudo exatamente em seus lugares.
Era um quarto com paredes lilás, uma cama muito confortável, o meu closet era simplesmente maravilhoso, muitas prateleiras com minhas bonecas e livros favoritos. Sei que não sou mais criança, mas não me desfazia da minha coleção de bonecas e livros infantis, era uma lembrança gostosa da minha vida, queria preservá-la viva.
Vários porta retratos enfeitavam as paredes, fotos minhas com meus pais e com a meus avós, também havia outras fotos com os demais parentes da família. Uma cortina branca de renda cobria a janela, a mesma tinha uma bela vista para o imenso jardim da casa. No chão um carpete roxo claro, eu me sentia tão infantil dentro daquele quarto, ao mesmo tempo em que me sentia tão feliz.
Resolvi terminar logo de arrumar minha mala, estava quase chorando, não queria que a vovó me visse assim. Já era quase uma da tarde, quando ajeitei tudo, peguei a mala e dei uma última olhada para o quarto, sentiria falta dele, mas estaria de volta nas férias no final do ano.
[...]
—Minha netinha querida, telefone assim que chegar tudo bem? Sabe que fico preocupada quando você viaja sozinha, ainda mais de avião—Minha avó me levava até o táxi, que já estava me esperando, ela era uma senhora de 69 anos, cabelos branquinhos como neve, seus olhos eram de um azul bem intenso, assim como os da minha mãe e os meus, sua pele era clarinha, já estava bem gasta pelo tempo, ela estava enrolada em seu xale verde de crochê.
—Eu ligo sim vovó, não precisa se preocupar. Vou chegar bem, procure se cuidar tudo bem? E eu adorei essas férias, me sinto muito bem quando veio aqui para a Virgínia ficar com a senhora.
—E eu não sei disso, também gosto da sua companhia mel. Volte no final do ano, tudo bem minha querida?
—Claro vovó Grace, eu virei de novo—Coloquei a mala na calçada, abri meus braços para abraçá-la. O gesto foi retribuído bem calorosamente. Era tão gostosa aquela sensação de carinho, de afeto. Meu pai não costumava fazer isso comigo, ele nem ao menos tentava.
—Vá minha querida, ou vai perder o avião—Minha avó finalizou o abraço. Infelizmente ela estava certa, precisava ir logo, meu voo sairia em uma hora e meia.
—Se cuida ta bom vovó?—Beijei sua testa. Voltei a pegar a mala, e a coloquei dentro do taxi, logo em seguida entrei também. Fiquei sentada perto da janela, e quando o taxi foi se afastando, acenei várias vezes para ela.
Minha avó foi ficando para trás, comprimir os olhos para não desabar em lágrimas, mas ainda pude sentir duas lágrimas quentes rolarem pelo meu rosto, como eu odiava despedidas, isso me fazia lembra-me da minha mãe e do meu avô. O Taxi virou no final da rua, e minha avó desapareceu da do foco da minha visão.
[...]
—Voo 4389, com destino para Nova York—Já era a quarta vez que meu voo estava sendo anunciando, eu estava sentada na fila de embarque, ainda tinha dez minutos antes de embarcar, havia um aglomerado de pessoas na fila, elas quase atropelavam umas as outras, resolvi deixar a confusão se acalmar, só assim eu poderia entrar tranquila para o avião.
Depois de poucos minutos, a fila já se encontrava bem melhor, levantei do banco, e fui até um moço que usava um terno escuro, passei a minha passagem para ele, o mesmo avaliou o papel, depois me entregou autorizando a minha passagem. Entrei em um corredor que me levaria até o avião.
Procurei minha poltrona, era a de número vinte e oito. Assim que a encontrei, guardei minha mala no bagageiro que ficava em cima das poltronas. Sentei-me, e peguei meu Ipod, já que seria uma viagem de quase três horas, poderia me distrair escutando algumas músicas.
Começou a tocar uma das minhas prediletas, eu simplesmente amava aquela banda, e a música era perfeita.
Nem acreditei, estava de volta à Nova York, outra vez. Já havia desembarcado, estava no aeroporto agora, procurava a saída, pois o lugar estava cheio de pessoas, indo e vindo, de um para o outro. Quando alcancei a porta da saída, tentei procurar algum táxi ali em frente, eu puxava minha mala com um pouco de dificuldade, era estranho, quando eu havia ido para Virgínia não me lembro de tê-la sentido tão pesada. Certamente devia ser pelas coisas que minha avó me mandara trazer.
Agora estava eu ali, parada feito um monumento, segurando uma mala, e nada de um táxi aparecer. Como eu não queria ficar esperando, resolvi procurar um ponto de táxi, aqui em Nova York sempre tinha um. Fiquei alguns minutos caminhando pela calçada da rua, mas não estava encontrando.
Eu também não queria ligar para meu pai, não gostava muito de depender dele para tudo, eu era capaz de chegar em casa sozinha, isso se eu encontrasse algum táxi. Estava tão distraída olhando para os lados, que acabei tropeçando em um buraco que estava no meio da calçada, nem preciso contar o resultado disso.
Levei o maior tombo da minha vida, cair bem bonito contra a calçada, precisamente eu cair de joelhos, tive que apoiar minhas mãos no chão, ou então, a queda seria bem feria, acabei derrubando minha mala também, fiquei morrendo de vergonha. Primeiro não encontro um ponto de táxi, e agora levo uma queda dessas, era demais para um dia só.
Quando pensei que nada mais podia acontecer, senti umas mãos em minha cintura, seguido de um ‘deixa que eu te ajude’. Quando virei o rosto para ver quem era, vejo um homem...muito bonita por sinal, tentei me recompor, eu sorria sem graça. Ele apanhou a minha mala do chão, colocando-a do meu lado.
—Tudo bem com você? Precisa tomar mais cuidado, essas ruas podem ser perigosas—Fiquei paralisada enquanto o encarava, ele era branco, tinha os cabelos curtos, aloirados, um belo par de olhos azuis, parecidos com os meus, aparentava ser bem forte, o mesmo chamou minha atenção duas vezes estralando os dedos, só na terceira vez eu consegui piscar, fiquei muito sem graça, eu estava olhando-o como se quisesse comê-lo vivo.
—Ai me desculpa! Sou distraída mesma. Estou bem sim, acho que não quebrei nada não—Sorrir com a minha piada, e por incrível que pareça ele me imitou também—Obrigada por me ajudar—Eu estava nervosa, tentava procurar as palavras certas.
—Não precisa pedir desculpas moça, apenas tenha cuidado, poderia ter se machucado feio—Um lindo sorrido transpareceu em seus lábios desenhados.
—C-claro, obrigada mesmo assim, é que eu estou procurando um táxi, mas ainda não dei sorte de encontrar nenhum—Falei mais calma, aproveitei para passar as mãos sobre meus joelhos, havia sujado um pouco da minha calça, pelo menos eu estava de calça longa, não cheguei a arranha meus joelhos.
—Não seja por isso, fique aqui tudo bem?—Ele pediu, e eu concordei. O mesmo atravessou a rua, logo vi que ela estava indo em direção a um carro, fiquei observando a cena de longe. Ele atravessou a rua novamente voltando.
—Conheço aquele carinha ali do outro lado da rua, ele costuma dar carona as pessoas, você paga pra ele, o que pagaria para um táxi, afinal vai ser difícil achar um táxi livre por aqui, ainda mais nesse horário—Parecia que ele estava certo, tirei meu Ipod do bolso da calça, marcava cinco horas da tarde.
—É seguro?—Perguntei, enquanto guardava o Ipod.
—Com certeza, pode ficar tranquila, ele é de confiança—Voltou a sorrir me garantindo.
—Obrigada mesmo—Ele assobiou para o cara, o mesmo poucos segundos depois estava estacionado na calçada.
—Pode entrar!—O loiro abriu a porta do carro, entrei ainda sem graça, joguei a mala no banco dos fundos, e me ajeitei do banco do passageiro—Charles?—Ele chamou o homem que estava do meu lado, no banco do motorista. O mesmo era barbudo, usava um óculos escuro, que escondia seu rosto quase todo, tinha a pele um pouco queimada, e aparentava ter mais de 40 anos—Leve a moça em segurança, por favor.
—Pode deixar Ian, sabe que faço meu serviço direito—O senhor respondeu ao loiro que agora tinha um nome, Ian.
—Obrigada!—Voltei a agradecer, o loiro piscou para mim e fechou a porta. Ficou parado ali na calçada, enquanto o homem chamado Charles dirigia. Olhei pelo retrovisor, ele ainda estava parado lá, no mesmo lugar. Depois de um breve momento, eu não o vi mais. Charles já havia virado a rua.
[...]
—Quanto custou?—Eu pegava minha mala no banco de trás.
—30 dólares moça—Charles parou o carro em frente ao condomínio, estava boquiaberto olhando para fora da janela—Você mora nesse lugar? Nunca havia trago ninguém aqui antes.
—Sim, eu moro aqui com meu pai, mas nem faço muita questão—Olhei para o lugar com indiferença—Aqui, 40 dólares, foi muito gentil me trazendo aqui.
—Há! Muito obrigada moça, é uma boa gorjeta, obrigado mesmo.
—Não precisa agradecer Charles—Abri a porta do carro e apanhei minha mala, depois disso, me debrucei sobre a janela olhando o homem—Se encontrar com aquele seu amigo de novo, diga a ele que sou muito grata por ele ter me ajudado.
—Eu digo sim, passar bem moça—Ele levantou os óculos sorrindo, reparei que seus olhos eram negros, bem bonitos por sinal. Charles voltou a ligar o carro, e eu me afastei da janela. O mesmo pegou o caminho de volta, enquanto eu fui interfonar para que abrissem o portão do condomínio. Não demorou muito, e a entrada foi liberada, era um grande portão dourado, ele abriu-se automaticamente. Entrei empurrando minha mala atrás de mim, e poucos segundos depois escutei o portão sendo novamente fechado.
Toquei duas vezes a campainha, eu havia esquecido de levar as minhas chaves, provavelmente meu pai ainda não estaria em casa, ele só chegava do banco depois das nove horas. Quando ia tocar pela terceira vez a campainha, Shane, o mordomo da casa, abriu a porta, e quando me viu tratou logo de esbanjar um sorriso no rosto pálido.
—Senhorita Stryder! Que bom que voltou, mas porque não avisou que chegaria hoje? Teria mandado buscá-la no aeroporto, parece cansada e com fome, vamos minha querida, entre.
—Não quis incomodar Shane, sabe como eu sou—Falei enquanto entrava na mansão, empurrando aquela bendita mala comigo, vendo a minha dificuldade, Shane, que era um homem alto e bem forte, pegou a mala das minhas mãos, sorrir agradecendo a sua gentileza.
—Deixe essa mala comigo, gostaria que eu preparasse um banho para a senhorita?—Shane fechou a porta atrás de si, e caminhamos pelo hall, seguindo para a grande sala de Star, bem uma das salas de star. Pois aquela mansão era imensa.
—Seria pedir demais uma comidinha também?—O olhei fazendo beicinho—A comida do avião não é tão boa assim.
—Com o maior prazer senhorita Melanie, deixe tudo em minhas mãos, vou levar essa mala para seu quarto, preparo seu banho e depois levo uma refeição para seu quarto.
—Estava sentindo falta dos seus mimos Shane, sabe que gosto muito de você. Obrigada mesmo.
—Não agradeça senhorita, faço tudo com muito amor—Após dizer isso, Shane subiu a grande escadaria que o levaria para o segundo andar, a escada se dividia em duas partes, cada parte levava para um corredor, uma para a esquerda, outra para direita. O meu quarto ficava do lado esquerdo, e foi por onde ele seguiu.
Larguei-me no sofá, peguei o controle da TV, comecei a passar por alguns canais, não tinha nada muito interessante, eu estava cansada, Shane tinha razão, um banho me faria bem. Fiquei alguns minutos olhando uma reportagem sobre um homem que havia feito uma mulher refém, ele estava em um banco, à notícia estava se passando no novo México, acabou chamando a minha atenção.
Havia muitos carros de polícia pelo local, estava uma bagunça completa, mas o que me chamou atenção, foi uma mulher que usava um terno branco, ela era loira, usava um rabo de cavalo, parecia bem destemida.
A loira subiu por uma escada que levava ao térreo do banco. Depois disso a mesma desapareceu, só fui vê-la novamente, quando pulou em cima do homem que mantinha a mulher refém. Ela deu um golpe nele, o mesmo acabou caindo no chão, e deixou sua arma cair também, pelo menos à refém havia conseguido escapar, a loira apanhou a arma do chão, virou o homem de frente para ela, e começou uma sessão de chutes sobre ele, admito que eu estava me assustando com a violência que a mulher usava.
A notícia estava se passando ao vivo, havia muitos repórteres fora do banco, todos famintos por informações, acabei mudando de canal, não estava mais gostando de assistir aquilo, acho que não era com violência que as coisas eram resolvidas. Mudei para um canal de desenho, acabei pensando no mico que eu havia pagado hoje, mas acabei soltando uma risada ao me recordar da cena, como aquele homem era bonito ‘pensei comigo’. E muito educado, foi muito gentil me ajudando, seu nome acabou ficando em minha mente, era um nome bonito, apesar de pequeno.
Shane desceu as escadas, dizia que estava tudo preparado para o meu banho, desliguei a TV, e o agradeci com um beijo na bochecha, ele ficava todo vermelho quando eu fazia isso. Mas era uma forma de demonstrar o meu carinho por ele.
—Você é o melhor mordomo do mundo Shane—Corrir em direção as escadas, subindo-as.
—Sei disso senhorita—Pude escutá-lo responder lá de baixo.
Fale com o autor