Os Golpistas
36 O passado de Peg
Notas iniciais
POV A BUSCADORA

O dia estava quase amanhecendo, estava dando uma volta pela cidade, quem sabe encontrasse alguns drogados para dar uma boa surra, mas nem isso eu encontrara naquela noite, tudo estava calmo, calmo até demais, e eu estranhava isso.
Peg havia me mandado uma mensagem de texto mais cedo, dizia que tinha novidades, esperava que valessem à pena, contava os minutos para acabar com aquela equipe de merda, contudo tinha calma, gostava de degustar os melhores pratos lentamente.
Parei o carro em um antigo bairro, conhecia bem aquele lugar, por um momento lembranças atacaram minha mente, tentei afastá-las, porém sem muito sucesso, fora ali que tirara a vida do grande e único amor da minha vida. Sai do carro, caminhei sobre o salto fino, o lugar estava abandonado, a antiga casa continuava lá, agora abrigo de mendigos e usuários de drogas.
Subi os degraus da varanda, empurrei a porta com a mão, um ruído ecoou pelo interior escuro. O cheiro também não era o mais agradável, cheiro de podridão e morte. Dei mais alguns passos, já me encontrava na sala, não havia nada ali, apenas um cômodo sujo e vazio, os móveis e aparelhos já tinham sido roubados por ladrões.
Fechei meus olhos por alguns instantes, toda a cena viera à tona, como se uma fita de vídeo estivesse pronta para ser passada em frente aos meus olhos.
FLASHBACK ON
Alguns anos Atrás.
—Para onde vai Demétrio?—O encontrei no estacionamento, acabava de entrar em sua Mercedes prata.
— Lacey eu ia falar com vc—Abaixou o vidro, fiquei quieta apenas o escutando—Preciso vê a Juliet, ela me ligou mais cedo, acho que o parto acontecerá hoje ainda.
—Mais já? Pensei que só daqui duas semanas—Falei surpresa.
—Parece que nossa pequena Wanda não quer esperar—Demétrio esbanjava satisfação em suas palavras.
—Achei que íamos terminar de resolver aquele caso.
—Não posso Lacey, preciso ficar com minha esposa, minha família vem na frente de qualquer caso.
—Bom, mande noticias então—Me afastei.
—Até logo Lacey—O motor do carro soou alto, logo Demétrio havia ido embora.
[...]
Não suportava a idéia de Demétrio ter uma filha, na verdade não suportava a idéia de vê-lo com Juliet. Desde que a conhecera mudara seu jeito comigo, tratava-me apenas como uma querida e velha amiga.
Estudamos juntos na faculdade, conhecia Demétrio de longa data, chegamos até ter um pequeno envolvimento juntos no colegial, tudo muito passageiro, naquela época eu não gostava dele, o sentimento cresceu quando fomos trabalhar no departamento, gostava do jeito que ele trabalhava, mantinha uma postura séria e firme, intimidando os bandidos e adversários.
Comecei a admirá-lo, muito mais que isso, eu comecei a amá-lo. Três anos depois de entrarmos para o departamento ele conhecera Juliet, um amigo nosso apresentara ela, não sei qual a parte que eu perdi, pois quando dei por mim, eles já estavam fazendo planos de casarem, achei tudo aquilo ridículo.
O aconselhei a esperar mais um pouco, ele mal conhecia aquela mulher, como podia pensar em casar com ela? Porém tudo que falava parecia inútil, Demétrio não me dava ouvidos, estava completamente cego de amor por Juliet, minha raiva só aumentava, dia após dia.
A notícia da gravidez veio como uma bomba, isso o fez tomar ainda mais coragem e casar-se com ela, dois meses depois da noticia eles oficializaram o compromisso, estava feito, Demétrio estava casado com ela. Tentava me distrair, lotava minha mesa com casos e mais casos, caçava bandidos como uma louca, Demétrio nem me acompanhava mais, estava ocupado demais com a nova função de papai e marido.
O tempo foi passando, dias, semanas e meses, logo faltavam apenas duas semanas para o nascimento da pequena fedelha. Demétrio mal aparecia no departamento, os poucos casos que ele pegava deixava em minhas costas, sua atenção estava voltada a Juliet e ao bebê, não demorou muito para que ele comunicasse que quando a menina nascesse iria sair do departamento, aquela noticia havia sido o estopim.
Passei os últimos dias arquitetando uma forma de eliminar Juliet, precisava me livrar dela, mas quando Demétrio me avisou que a menina nasceria logo, fiquei preocupada, ainda não havia planejado nada, precisava agi, mesmo que fosse perigoso demais, apenas uma alternativa me surgiu na cabeça, precisava fazer aquilo e não recuaria.
[...]
Uma semana depois do nascimento de Wanda
Na casa de Demétrio
—Não faça isso Lacey, eu te imploro—Demétrio implorava pela vida da esposa e filha, contudo aquela cena não me comovia, eu não hesitaria.
—Saia da frente Demétrio, não quero machucá-lo—A arma estava bem presa em minha mão, o dedo fixo no gatilho, Juliet estava agarrada a criança, chorava desesperadamente.
—Vou chamar a policia, invadiu minha casa, você está fora de si—Soltei uma risada medonha.
—Estou tão lúcida quanto você meu querido, mas se cooperar irei fazer isso bem rápido, prometo não fazê-las sofrerem.
De nada adiantara minhas palavras, Demétrio e um ato estúpido se jogou em minha frente, eu não podia deixar que ele me atrapalhasse, mesmo que eu o amasse. Mirei a arma em direção ao seu peito e atirei, um único tiro que o fez cair no chão, os gritos de Juliet ecoaram pela sala.
—Calada—Mirei a arma novamente para ela—Fique quieta—Demétrio tosia no chão, alguns pingos de sangue saiam de sua boca, uma poça de sangue se formava no chão, não havia muitos vizinhos por ali, e eu também havia usado um silenciador em minha arma, não queria chamar atenção alheia.
—Porque Lacey?—Sua voz saiu falhada, mas eu conseguira entender.
—Porque eu te amo meu amor, não posso deixar nada nem ninguém nos atrapalhar—Juliet tentou correr para o quarto, meus reflexos foram mais rápidos, disparei novamente, logo a mulher caiu no chão, acertara bem no meio das costas.
—Nãooooooo—Demétrio gritou no chão, tentou se levantar para ajudar a esposa, mas o ferimento em seu peito estava bem sério, ele nunca conseguiria chegar até Juliet e ao bebê.
Caminhei até ela, Segurava o bebe contra o peito, pensei que também tivesse acertado a criança, mas havia me enganado, quando puxei a menina dos seus braços, percebi que ela não estava machucada, a bala acertara apenas a mãe, segurei a garota levando-a para o carinho, ali a deixei enquanto voltei para meu serviço.
—Cuido de você depois—Sussurei para a menina.
—Deixe minha filha em paz Lacey, ela é apenas uma bebê, não tem culpa de nada—Juliet ainda conseguia falar.
—Claro que ela tem, é união desse amor medíocre de vocês dois, mas vamos acabar com isso, ainda tenho muito serviço, sem dó alguma mirei na cabeça de Juliet, seus olhos desesperados suplicavam que eu parasse, virei à cabeça olhando para Demétrio, ele mexia a cabeça pedindo para que eu não continuasse com aquilo, disparei a arma novamente, dessa vez na cabeça de Juliet.
—Ah meu Deus! Você é um monstro—Caminhei até o corpo de Demétrio.
—Culpa sua—Ele chorava alto—Se tivesse ficado comigo, nada disso teria acontecido.
—Sua doente, como pôde matá-la? Eu a amava.
—E eu o amo meu amor— Me abaixei ao lado de seu corpo.
—Pois eu a desprezo com todas as minhas forças, arrependo-me de tê-la conhecido, matou a única pessoa que amei nessa vida por inveja, tenho pena de você Lacey.
—Como ousa dizer isso?—Acertei o cabo da arma em sua testa, um pequeno corte começara a sangrar—Me despreza? Pois bem, saiba que depois que matá-lo, vou matar sua filha da pior forma possível, arrancar membro por membro, depois irei jogar as partes dela por ai, talvez seja uma boa refeição aos cães.
—Não toque nela, ou então...
—O então o que?—Levantei-me—Não pode fazer nada, mal consegue se levantar, como acha que vai me impedi?
—Por favor, não a machuque, é só uma criança, se existe algum sentimento dentro de você, não mate minha filha.
—Comovente—Revirei os olhos—última chance Demétrio, posso levá-lo para um hospital, ainda posso salvar sua vida, tudo depende de você, fique comigo, esqueça o que aconteceu aqui, prometo que comigo será feliz.
—Prefiro morrer, nunca ficaria com você, ainda mais depois do que fez hoje.
—São suas palavras finais?
—São Lacey, eu não amo você, se devo morrer então me mate.
—Estupido—Segurei o gatilho—Que seja feita a sua vontade—Mais dois tiros acertaram seu peito, depois me certifiquei que ele estava morto, não havia mais pulsação.
Estava acabado, Demétrio e Juliet estavam mortos, seus corpos estirados pela sala, poças e mais poças de sangue, coloquei a arma na cintura, minha cabeça parecia rodar, senti um pouco de enjôo, me sentei por alguns instantes e tomei um pouco de ar, um pouco difícil com o cheiro de sangue fresco no local.
O choro da menina me fez olhar para ela, precisava me livrar dela, levantei indo até o carrinho, a peguei em meus braços.
—Só falta você pequena Wanda, que nome mais feio, prefiro Peg, é mais sua cara—A criança cessou o choro, por alguns minutos a observei, talvez Demétrio estivesse certo, era apenas uma criança, não que eu me importasse. Tive outra idéia que veio imediatamente a cabeça—Hoje é seu dia de sorte pequena Peg, não irei matá-la por enquanto, tenho outros planos para você—Dizendo isso sai da casa, coloquei a menina em meu carro e desapareci dali.
[...]
Peg havia se criado em um orfanato, aos 16 anos havia tirado ela de lá, levei a garota para o departamento, a treinei para que trabalhasse comigo, estava trabalhando para torná-la a melhor, melhor que seu pai, ela tinha potencial.
Seus pais tinham sido declarados mortos por causa de um assassinato, nunca conseguiram encontrar os assassinos, pelo menos era nisso que a policia se baseava. Disse a Peg que com certeza havia sido uma dessas gangues, estavam atrás de dinheiro, claro que depois me certifiquei de sumi com alguns objetos de valores de Demétrio, assim a história teria mais sentido, ninguém podia descobrir que quem matara seus pais, havia sido eu.
FLASHBACK OFF
Voltei das lembranças para o tempo real, não gostava de lembrar o passado, mesmo que às vezes fosse necessário, olhei novamente para aquela sala, aquela sala que anos atrás havia sido cenário de um cruel assassinato. Sai da casa indo em direção ao meu carro, os primeiros raios de sol saiam, olhei em meu celular, quase seis da manhã, entrei no carro e dei a partida, precisava descansar um pouco, então voltei para o departamento.
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