Na noite morna de São Pulo,

quando a lua vestia véus de neblina,

pequenos gatinhos percorriam os telhados

como sombras bordadas pela sina.


O velho casarão adormecido

guardava segredos sob a pintura gasta,

e os felinos de olhos cor de âmbar

vigiavam a escuridão vasta.


Entre mangueiras silenciosas,

onde o vento rezava entre as folhas,

miados suaves flutuavam no ar

como antigas e esquecidas escolhas.


A igreja de pedra ao longe

erguia sua torre contra o céu profundo,

enquanto os gatinhos dançavam entre lápides

com a leveza de quem conhece outro mundo.


Suas patas tocavam a relva úmida,

seus pelos brilhavam sem claridade,

como se carregassem estrelas mortas

presas na própria eternidade.


Nas ruas vazias da madrugada,

entre lampiões de luz enfraquecida,

seguiam em procissão silenciosa

os guardiões secretos da vida.


E quando o primeiro sol nasceu

sobre os campos ainda cobertos de bruma,

os gatinhos sumiram entre as sombras,

sem deixar pegada alguma.


Restou apenas o perfume da chuva

sobre a terra vermelha do Brasil,

e a lembrança daqueles pequenos espectros

de olhar doce, antigo e sutil.

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