Os Gatinhos da Chuva Negra
1 Capítulo Único
Na noite morna de São Pulo,
quando a lua vestia véus de neblina,
pequenos gatinhos percorriam os telhados
como sombras bordadas pela sina.
O velho casarão adormecido
guardava segredos sob a pintura gasta,
e os felinos de olhos cor de âmbar
vigiavam a escuridão vasta.
Entre mangueiras silenciosas,
onde o vento rezava entre as folhas,
miados suaves flutuavam no ar
como antigas e esquecidas escolhas.
A igreja de pedra ao longe
erguia sua torre contra o céu profundo,
enquanto os gatinhos dançavam entre lápides
com a leveza de quem conhece outro mundo.
Suas patas tocavam a relva úmida,
seus pelos brilhavam sem claridade,
como se carregassem estrelas mortas
presas na própria eternidade.
Nas ruas vazias da madrugada,
entre lampiões de luz enfraquecida,
seguiam em procissão silenciosa
os guardiões secretos da vida.
E quando o primeiro sol nasceu
sobre os campos ainda cobertos de bruma,
os gatinhos sumiram entre as sombras,
sem deixar pegada alguma.
Restou apenas o perfume da chuva
sobre a terra vermelha do Brasil,
e a lembrança daqueles pequenos espectros
de olhar doce, antigo e sutil.
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