Os Fundadores

5 Godric conforta Salazar


O casebre parecia extremamente inabitável quando olhado de fora e, quase imediatamente, Salazar torceu o nariz para a construção. Rowena olhava com desconfiança, Helga tentava não julgar, mas Godric sorria. Sendo tarde da noite, não havia mais ninguém na rua para presenciar o momento em que quatro pessoas simplesmente surgiram como um estalar de dedos no meio da calçada de pedras.
— Venham, entrem. — Disse Godric, ainda sorrindo com otimismo. Sem esperar por resposta, ele começou a andar em direção a porta — que parecia prestes a cair. Salazar, por sua vez, enlaçou seus braços em Rowena e Helga protetoramente e estreitou os olhos para as costas de Godric. — Ora, ainda estão parados?
— Receio que... que isso parece prestes a desabar. — Rowena observou, incerta. — Não parece ser seguro. — Murmurou a última parte, fazendo Slytherin assentir em acordo.
— Não lhe parece suspeito, Godric, que os trouxas responsáveis por esse lugar abrirão a porta e encontrarão quatro pessoas usando apenas as vestes do corpo, sem carruagem, sem cavalos, sem nada? Simplesmente apareceram aqui, no meio da noite, buscando um local para pernoitar? — Salazar arqueou a sobrancelha. Godric riu e se virou para ele.
— Talvez, Salazar. Para trouxas. Esta é uma estalagem bruxa. — Sorriu debochadamente.
— Podemos presumir, então, que esteja sustentada por magia? — Perguntou Rowena, dando um passo à frente.
— Naturalmente, sim! — Godric falou num tom mais simpático e esticou o braço para ela, que segurou. — Vamos entrar.
Godric conduziu Rowena enquanto Salazar conduzia Helga, que observou uma placa com o desenho de uma bruxa mexendo num caldeirão furado. Ela se encolheu próxima do corpo de Slytherin quando entraram, olhando alguns poucos bruxos esquisitos sentados em mesas espalhadas pelo salão, que parecia ter sido ampliado por magia. Uma senhora conversava com um bruxo numa mesa afastada, mas girou para vê-los quando percebeu a movimentação.
— Olá, queridos. Posso ajudar? — Ela caminhou até eles, limpando as mãos num pano pendurado em seu ombro. Usava um vestido simples e surrado na barra com cor amarelada.
— Olá. — Godric sorriu. — Regis não está por aqui?
— Ele já se recolheu, querido. Estava tentando convencer esses outros a irem se deitar também. — Explicou a senhora, olhando-os curiosa.
— Gostaríamos de passar a noite. — Disse Salazar antes que Godric pudesse abrir a boca.
Ela os olhou preocupada.
— Temo só ter um quarto disponível, queridos.
— Isso não é problema, é, Slytherin? — Perguntou Godric. — Helga e Rowena podem ficar com o quarto.
— E onde vocês dormirão? — Interveio Rowena, com as sobrancelhas erguidas.
— Procuraremos algum lugar lá fora. — Salazar respondeu displicente. — Vocês ficam aqui. — Ele tirou um saco de veludo de dentro do bolso da calça e pegou moedas de ouro de dentro dela, entregando para a mulher. — Creio que isto deve pagar.
— É mais do que suficiente. — Respondeu ela, aceitando as moedas com um sorriso animado.
— Não quero que durmam na rua! — Helga protestou, parecendo ofendida. — Vocês podem e devem dormir conosco.
Todos a encararam com expressões surpresas, mas ela não se importou. Parecia decidida e não voltaria atrás de jeito nenhum.
— Helga... — Começou Rowena, sendo interrompida em seguida.
— Não acredito nessa história de honra manchada. Somos bruxos! — Ela cruzou os braços.
— Eu ia dizer que concordo. — Rowena sorriu. — Além disso, nunca estive em Londres. Acho que me sinto mais segura com todos nós juntos. — Ela empurrou uma mecha cacheada para trás da orelha.
— Então está decidido! — Salazar anunciou satisfeito. Parecia não querer prolongar a discussão. — Ficaremos até o fim da manhã. E gostaria de uma sopa, também. Estou com fome.
Helga sorriu e Rowena abafou uma risada, enquanto Godric seguia a bruxa escada acima. Havia um corredor com chão de madeira e cinco portas fechadas. A bruxa abriu a última delas e indicou o quarto, enquanto saía espremida contra a parede dizendo que buscaria os pratos de sopa de carneiro. Rowena e Helga rapidamente se acomodaram nas cobertas macias da cama enquanto Salazar e Godric tiravam as cobertas da bolsinha de Hufflepuff e usavam magia para transfigurar objetos do quarto em travesseiros para se deitarem. Godric acendeu a lareira com um aceno da varinha e deixou num fogo baixo, o suficiente para mantê-los numa temperatura agradável. Era verão, mas ainda estavam em Londres. A bruxa logo voltou com quatro pratos fundos e flutuantes cheios de sopa e cálices de vinho, que não demoraram para esvaziar e mandar de volta para a cozinha do lugar.
— E Saeth? Não vai alimentá-la? — Perguntou Godric, observando a cobra enroscada nas pernas de Salazar enquanto ele se deitava no chão.
— Ela já se alimentou. Ontem. — Ele acomodou a cabeça no travesseiro e puxou uma coberta para cima dos ombros.
Godric não respondeu, pois fitava os olhos da serpente o observarem com calma. Sentindo um frio na espinha, também se deitou e se virou de costas, fitando as chamas na lareira. Poucos minutos depois, respirações pesadas eram tudo o que se podia ouvir naquele cômodo.

{...}

— Salazar...
A voz macia e tranquila parecia acariciar seus ouvidos. Sentia dedos passearem pelo seu cabelo curto e suspirou pesadamente, determinado a continuar dormindo.
Alguém riu baixo.
— Vamos, Salazar, levante-se. Você disse que partiríamos pelo almoço.
Ele abriu os olhos lentamente, piscando para que a visão entrasse em foco. Observou a lareira apagada e o espaço onde Godric estivera deitado horas antes. Ainda podia sentir Saeth enrolada em suas pernas e sorriu, pois sua amiga jamais o abandonaria. Rolou o corpo e encarou o teto, vendo o rosto de Helga entrar em seu campo de visão. Tinha os cabelos louros e compridos soltos e sorriu para ele, afagando sua bochecha carinhosamente.
— Você não acreditaria se eu o contasse, Salazar. Rowena e eu acordamos quase juntas e fomos ao salão para o desjejum. Pouco tempo mais tarde, Godric apareceu completamente furioso. Não conseguia pronunciar uma palavra! Jamais lhe acusaria, é claro, mas passou pela minha cabeça... que, talvez, você o teria enfeitiçado durante a noite?
Salazar fechou os olhos, ainda sentindo os dedos de Helga passearem por seu rosto.
— Sim. Ele estava roncando em meu ouvido.
— Salazar! — A risada de Helga preencheu o quarto e ele sorriu junto, sem conseguir evitar. — Isso não se faz! Deve pedir desculpas! Rowena o ajudou com um contrafeitiço, mas ele continua bravo!
Ele se sentou, esfregando os olhos preguiçosamente.
— Está bem, Helga. Se isso lhe fizer feliz. — Salazar olhou para Saeth, que o observava com atenção. — Olá, Saeth. Deve estar com fome. Já vou procurar um rato pra você.
— O que está dizendo para ela? — Perguntou Helga, os olhos arregalados de curiosidade quando a cobra fez um movimento onde parecia concordar com o que ele dizia.
— Estou dizendo que já vou alimentá-la.
Helga estremeceu.
— Bem, eu vou descendo. — Ela se levantou e passou as mãos pela saia do vestido. — Não se esqueça de pedir desculpas a Godric. Você também fala enquanto dorme, sabia?
— Falo o que, exatamente? — Perguntou com tom de deboche.
— Não saberia dizer, querido. Você fala em língua de cobra. Ah, quase ia me esquecendo... Helga tirou um papel do bolso do vestido. — Chegou uma coruja para você esta manhã. Estaremos esperando, venha logo para se alimentar direito antes de seguirmos viagem. — Ela sorriu e bateu a porta ao passar, o deixando sozinho. Salazar virou o pergaminho na mão e o abriu.

Meu amor,
Sei que há muito terei escrito isso quando a carta chegar onde você estiver e eu só posso rezar para que não seja tarde demais.
Meu pai está negociando minha mão com um nobre trouxa e não pretende voltar atrás em sua decisão. Ele é um bom homem, é gentil e galante mas eu amo você e só consigo pensar em seu rosto todos os dias, choro pois quero que volte para mim o mais rápido possível.
Por favor, não me deixe! Por favor, não permita que eu me case com este homem!
Volte pra mim, meu amor.
Espero que a coruja lhe encontre logo e que você retorne para impedir que isto aconteça.
Sinto sua falta.
C.R.

Salazar releu a carta pelo menos dez vezes antes de dobrar o pergaminho e enfiar de qualquer jeito no bolso da calça, gemendo de frustração em seguida.
Terminou de arrumar o quarto e saiu com tanta pressa que esbarrou numa das paredes, o que só serviu para deixá-lo mais estressado. Desceu as escadas e varreu o salão — agora lotado — com os olhos.
— Godric, venha aqui. — Chamou ele com urgência ao encontrar a mesa onde o amigo, Helga e Rowena tomavam o desjejum.
— Ah, agora quer me ouvir? — Retrucou Godric, levando uma xícara de chá quente aos lábios. Salazar bufou.
— É urgente.
Godric pousou a xícara no pires e se levantou, parecendo imensamente satisfeito com o pedido de Salazar. Os dois caminharam até uma mesa afastada e vazia e se sentaram. Salazar jogou um pergaminho amassado na frente dele e Godric o leu rapidamente.
— Quem é C.R?
— Catherine Rowle.
— Rowle? Rowle? Você perdeu o juízo? — Ele arregalou os olhos azuis. — É a filha de Edward Rowle?
— Sim, é ela. — Salazar bufou e esfregou o rosto com as mãos. — Eu não vou voltar, Godric. — Sua voz estava rouca. — Eu só comecei a cortejá-la para me divertir com a ideia de ter a filha de Rowle em meus lençóis. Jamais previ que me apaixonaria. Fui covarde. Não posso trazê-la para a minha vida sem me recordar todos os dias de que o pai dela foi o homem que causou a morte de minha mãe. Como eu não pensei nisso? Como pude deixar que isso acontecesse? — Seus olhos brilhavam com as lágrimas que ele teimava em segurar. Deu um soco na mesa, atraindo olhares por alguns segundos.
— Isso é novo para mim, sempre pensei que fosse apaixonado por Helga. — Godric deu de ombros.
— O quê?! — Salazar riu, deslizando os olhos pelas pessoas até pararem em Helga, que sorria para Rowena mas ocasionalmente olhava para os dois com preocupação. Engolindo em seco, Salazar voltou-se para o amigo.
— Devo admitir, Salazar, que suas ideias de diversão me parecem ligeiramente preocupantes. — Godric pareceu reler a carta rapidamente. — Olhe, eu não sou a melhor pessoa para te aconselhar sobre isso. Considerando que estou num momento de fuga de meu próprio casamento... eu acredito que seu ponto de vista esteja certo. Ainda que você ame Catherine, não aguentaria viver com ela. Terminaria num desastre. — Godric pareceu escolher as palavras com cuidado. — Se você voltar e tirá-la desse noivado, será um covarde. Estaria tirando dela uma chance de encontrar a felicidade. E sabemos que, a longo prazo, você não aguentaria um casamento com uma... uma Rowle.
— Eu provavelmente fugiria. Depois de matar o pai dela. — Salazar murmurou, esfregando as têmporas com os dedos. — Vou ter que deixá-la, não é?
Godric deu um tapinha em seu ombro.
— Eu sinto muito, Salazar. — Dobrou o pergaminho e enfiou no bolso da própria calça. — Olhe. — Salazar fitava o mesa. — Escute. — Ele se virou para Godric. — Está protegendo-a de você mesmo, lembre-se disso. Vamos caminhar um pouco lá fora, para que você possa se acalmar um pouco.
Salazar se deixou ser guiado como uma criança até os fundos do bar e eles saíram por uma porta diretamente para um jardim. Andaram em silêncio, com Godric dando palmadinhas no ombro de Salazar cada vez que seu rosto se fechava numa careta.
— Provavelmente eu deveria escrever algo em retorno, não acha?
— Você detesta cartas, Salazar. — Godric lembrou. — Mas se você acha que deve... Talvez fosse melhor, se não ela poderia achar que algo ruim te aconteceu. A Srta. Rowle não merece viver em tamanha angústia.
Salazar riu sarcasticamente.
— Ela vai me odiar.
— Talvez seja melhor que ela te odeie por isso do que por amargar o amor de vocês num casamento com culpa. Confie em sua decisão, Slytherin. — Godric apertou a bainha da espada distraidamente e se virou para olhar a porta que se abria. Helga passava por ela, o cabelo louro comprido balançando em suas costas.
— Salazar, você ainda não se alimentou. — Comentou ela, com o tom de voz suave.
— Já vamos entrar, Helga. Estamos procurando algum rato para Saeth. — Desconversou ele com o rosto impassível.
— Bem, talvez devessem conversar com o proprietário, sabem. Não acredito que encontrarão algum rato no jardim. — Ela arqueou uma sobrancelha, sabendo muito bem que estavam mentindo. — E venham para dentro tomar o desjejum, por favor. Temos muito o que conversar.
Helga virou as costas e retornou para dentro do bar. Salazar e Godric se entreolharam.
— Talvez seja melhor obedecermos.
— É, tem razão. — Concordou Salazar. — E, antes que eu me esqueça, não vou mais lhe deixar mudo enquanto dorme.
— A palavra certa é ''desculpe''.
— Não vou te dizer isso. — Rosnou o outro, enquanto andavam em direção ao bar.
— Salazar, você é um péssimo amigo.

Notas finais
Esse capítulo pode parecer inocente, mas não é! Ele está recheadinho de informações que serão cruciais para o desenvolvimento dos personagens e, obviamente, da história... Então prestem atenção e não se esqueçam de nada! Ainda acredito que nesse cap pudemos ver como é a relação Godric/Salazar, cheia de deboche, cutucadinhas, mas que no fim das contas os dois se amavam e eram grandes amigos. Sendo dois homens de personalidade forte, é claro que vão se desentender às vezes, mas nada que cause uma grande intriga........... por enquanto. Obrigada pelos comentários e acompanhamentos, anjos! Fico muito feliz de saber que estão gostando ♥ Comentários sobre o novo capítulo? ♥ Um beijo!