Ano passado estreou um filme filipino sobre “relações não muito usuais” chamado “Máscaras”, que basicamente mostra ao mundo várias formas de se relacionar que não estão ligadas necessariamente em torno de gêneros, mas sim, em procurar se libertar e mostrar ao mundo que ninguém é obrigado a seguir um modelo de sexo ou namoro.

É tão chato esse ciclo humano infinito onde você precisa achar alguém pra viver a sua vida junto com você, sentir ciúmes de cada passo que a pessoa dá, dizer que a ama todos os dias até o fim de sua vida e tomar conta dela, mesmo não sendo mais aquilo que você queria, como se fosse a sua maior obrigação ou o seu maior motivo pra viver.

Bom, como era de se imaginar, a nossa “grande mãe” Rússia decidiu que seria uma boa ideia banir esse filme do país por ele ser “moralmente indecente”, então pessoas que ainda perdem tempo com esse tipo de cultura, como eu, precisaria sair do país se quisesse assistir um filme que não tem nem duas horas. O que realmente não seria uma má ideia, até porque eu não pretendo morrer nesse país.

Porém, se tem uma coisa que um péssimo governo não pode censurar, essa coisa é a sorte. Oliver, um dos meus amigos, conhece um cara que conseguiu enviar esse filme em versão DVD pra ele, passando por cima de todas essas regras chatas e burocráticas e também dessa lista interminável de artistas e programas banidos na Rússia que, se vocês soubessem o tamanho e a quantidade, ficariam tão enauseados quanto eu. (Curiosidade: Demi Lovato e Selena Gomes estão banidas daqui)

Oliver chamou a mim e ao Niko pra assistirmos esse filme na casa dele hoje à noite, então é pra onde eu estou indo agora, antes de ir pro trabalho. Também estou levando uma garrafa de Tequila pra podermos assistir bebendo, fica mais divertido desse jeito.

Já era de noite e estava bem escuro; as ruas só eram iluminadas por carros que passavam e postes de luzes. Não haviam muitas pessoas fora de casa e era uma daquelas noites onde saía fumaça de nossas bocas quando respirávamos devido ao frio. Dá vontade mesmo de ficar em casa, o tempo estava perfeito pra deitar no sofá, se enroscar nas cobertas, beber e assistir um bom filme com seus amigos.

Cheguei na residência do Oliver, com um gorrinho e cachecol cor-de-rosa bebê e um casaco peludo branco, além da garrafa nas mãos. Dava pra notar claramente que os dois haviam chegado graças às vozes altas e as luzes acesas. O Niko e o Ahiru não faziam nem questão de abaixar o volume quando conversavam pros vizinhos não reclamarem, dava pra ver que os dois não se importavam com isso, e eu acho que é muito mais divertido assim. Me aproximei, toquei a campainha e fiquei os esperando.

— Oi, Ana! – Oliver abriu a porta sorridente e gritando, como se não me visse há séculos, balançando seus cabelos ruivos médios e cheios. Niko estava bem atrás dele, com um sorriso um pouco mais discreto, mas olhos brilhantes do mesmo jeito.

— Oi, rapazes. – Sorri também de volta, mostrando o saco plástico com a garrafa de Tequila. – Olhem só o que eu trouxe!

— Wow, agora sim! – Oliver exclamou, me deixando entrar e pegando a garrafa da minha mão. – José Cuervo é a oitava maravilha do mundo. É esse o bom de ter uma amiga que trabalha num bar, você tem desconto nessas garrafas, né?

— Desconto nada, do jeito que o meu chefe é era capaz dele me cobrar até mais caro. – Respondi, sentando no sofá.

— Sério isso? Que horror, desconto é o mínimo que ele podia fazer por você. – Niko me disse, entendendo o meu lado. – Aposto que não tem ninguém lá que se esforce tanto por esse trabalho como você.

— Não tem mesmo, não.

Niko, me ajuda aqui a botar os copos? — Oliver disse, lá da cozinha, chamando o outro. Melhor eu ficar esperando aqui mesmo no sofá.

— Já tô indo! – Niko respondeu, o seguindo. – Pode ir ligando a TV, Ana.

— Tá bom.

Enquanto os dois garotos iam preparando os copos com a bebida, fiquei vendo a capa do DVD do filme. Era linda! Uma boneca de vidro em destaque com grandes olhos roxos brilhantes e pontas azuladas, com um fundo negro e pessoas nuas borradas ao fundo interagindo entre si. A sinopse abortava diferentes maneiras de demonstrar a sexualidade e relações humanas, namoros entre diferentes idades, épocas e entre uma, duas ou mais pessoas. Mal podia esperar pra ver se as ótimas recomendações faziam jus ao filme.

— Ei, vocês aí! – Gritei pra ver se eles me ouviam. – Será que dá pra pararem de se pegar e voltar com esse bebida pra cá? Ou já estão tomando tudo sem mim?

A gente não tá fazendo nada! — O ruivo exclamou.

É, a gente só tá fazendo pipoca, calma aí.— Niko também diz. Resolvi só esperar, até porque não tinha mais nada pra fazer além disso.

Logo depois, eles chegaram rindo como se tivessem trocado várias piadas na cozinha. Fiquei me sentindo de vela, mas isso não me incomoda tanto, é legal ver esses dois se dando tão bem e rindo juntos.

— Foi mal pela demora. – Ahiru anunciou, trazendo uma bandeja com três doses de Tequila servidas em copos com limão enquanto Niko vinha com a bacia de pipoca e a garrafa. – A gente jura que não bebeu nenhuma gota sem você.

— Pode me agradecer, porque se não fosse por mim, esse aí teria bebido a garrafa toda sozinho. – Niko o entrega.

— Shhh, tsc, não precisava falar. – E Ahiru, em troca, só reclama.

— Como se alguém não soubesse o quão egoísta esse garoto pode ser. – Retruquei, já pegando o meu copo pra que ninguém roubasse. – Hm, e eu já coloquei o filme no DVD, tá? É só ligar o aparelho.

— Ok, valeu, Ana! – Ahiru enfim liga a televisão, colocando o filme. Os dois estavam sentados no sofá ao meu lado e eu estava no meio, bem ansiosa pra começarem logo.

— Aliás, como é que você fez pra conseguir esse DVD? Eu achei que esse filme fosse tipo banido daqui. – Niko indagou, basicamente com a mesma pergunta que eu fazia pra mim mesma.

— Eu conheço um cara, que conhece um cara. – E ele respondeu, olhando fixamente pra frente, como se não quisesse nos dizer, e pegou o copo, tomando sua primeira dose. – Aah, como isso é bom..!

— Você conhece um cara, que conhece um cara... e algum deles é da Filipina?

— Mais ou menos isso.

— Ahiru, de onde você conhece essas pessoas? – Niko continuou o indagando, com receio.

— De uma comunidade virtual aí, que diferença faz? Que se dane esse sistema de censura. – E o ruivo novamente respondeu querendo mudar o assunto, pegando a garrafa. – Mas e aí, vamos ver o filme ou não?

— Vamos, e não começa a beber sem a gente. – Disse, também tomando a minha dose.

Bebemos nossos copos e finalmente colocamos o filme. Como eu já esperava, a trilha sonora e as imagens dele eram lindas! A história prendia você, embora não se passasse exatamente em uma data ou com pessoas específicas.

Mostrava a história de cada personagem como um indivíduo único e independente, o preconceito que cada um deles enfrentava de acordo com sua regionalidade, gênero, sexualidade ou religião. Haviam vários que não tinham gêneros definidos, fugindo do binarismo entre homem e mulher. Pessoas que não eram nenhum, nem outro ou até mesmo os dois juntos.

Mostrava a complexidade das relações humanas, casais compostos por três ou quatro pessoas ou casais que não tinham como 'sexo' uma forma de relação e que mesmo não tendo, eram felizes juntos. Todos que eram cobertos por máscaras sociais chatas, mas que por debaixo delas, eram livres.

Eu me sinto idiota às vezes por me tocar tanto com esses filmes... mas eu tenho um fraco por dramas que mostram a realidade das diversas formas de pessoas. Gente trans, como eu e como o Niko, homens e mulheres binárias, pessoas não-binárias, gays, lésbicas, bissexuais, panssexuais, polissexuais e assexuais. Monogâmicos ou não.

Era incrível poder se identificar com pessoas de todas as idades possíveis, com gente até do outro lado do mundo. É como se não importasse quem você é ou onde você mora, o preconceito e a discriminação existe em todos os lugares, de todos os jeitos possíveis. Niko parecia gostar tanto do filme quanto eu e comentamos ele inteiro rindo, nos surpreendendo e chorando juntos. Claro, isso nos fazia beber a garrafa inteira muito mais rápido, e quando o filme acabou, ela já tinha passado da metade. Já dá pra imaginar como estávamos, hipersensíveis.

— Nossa... – Dissemos todos, em uníssono, assim que terminou. Nossas faces praticamente estavam grudadas na televisão e ficamos estasiados.

— Que filme foda! – Ahiru exclamou, cortando o ar de silêncio e admiração que havia se criado ali, pulando do sofá e jogando os braços pra cima. – Wow!

— Esse é o filme... mais lindo da minha vida. – Niko fala praticamente engolindo o choro, ainda sem desgrudar os olhos da televisão. – Eu nunca mais quero parar de assistir...

— Você podia conseguir mais desses filmes pra gente, hein. – Pedi ao Oliver. – É uma pena que as garotas não puderam ter vindo hoje... elas iam adorar.

— A gente pode ver com elas de novo depois! – Niko exclama. – E depois ver de novo! E de novo, e de novo, e de novo.

— Nossa, você gostou mesmo do filme pelo visto. – Ahiru responde. – Beleza, eu vou ver o que eu posso fazer pra conseguir mais desses DVDs, mas é bem caro.

— Não tem problema, a gente faz uma vaquinha e compra todo mundo junto. – Sugeri a eles. – Aí também assistimos juntos, não só nós três.

— Esse seu DVD é comprado ou alugado? – Niko perguntou. – Você vai ter que devolver?

— Não, não, é comprado mesmo. É nosso.

— Sério? Ah, então você pode me emprestar? – Pedi a ele, tendo uma ideia.

— Você vai querer levar pra assistir de novo com as garotas?

— Não, na verdade eu... tô pensando em emprestar pra uma pessoa aí.

— Quem?

— Uma pessoa aí que eu conheço.

— Não é praquele seu amigo que raspa a cabeça e sai por aí batendo nos outros, né? – Niko indagou.

— Oi? Não, não, não, não e não! – E no mesmo instante, Oliver parece ficar realmente com raiva de mim, quase gritando. – Eu não vou te dar esse DVD nunca!

— Hã? Não precisa me dar, eu só quero pegar emprestado, só isso.

— Não se for praquele desgraçado botar as mãos. – Ahiru sai correndo do sofá e tira o DVD do aparelho, fechando-o na caixa e a abraçando. – Você nunca mais vai ver esse DVD.

— Não precisa falar assim.

— É, Ahiru, não precisa falar assim com a Ana. – Niko me abraça, mostrando que se importa comigo. – Ela só quer mostrar o filme pro namorado.

— Ele não é meu namorado. – Mas me afastei dele. – Não chega nem perto disso, aliás.

— Então por que você ainda perde tempo com ele?! – Ahiru continua implicando comigo, como se eu tivesse dito algo extremamente absurdo, o que nem foi o caso.

— Ai gente, não é possível que só eu pense que as pessoas podem mudar. Vocês não acham que dando esse DVD pra ele, ele pode aprender alguma coisa?

— Não é questão da gente “achar que ninguém pode mudar”. – Niko diz, um pouco cambaleante graças à bebida. – É que você é inocente. Só isso. Inocente.

— É, ninguém vai largar o nazismo por causa de um filme! – Ahiru prossegue fazendo o mesmo drama, acho que ele pois coisas na cabeça do Niko também.

— Pois saibam que ele já largou, ele me disse isso na última vez que nos encontramos. – Respondo, sentando no sofá e cruzando as pernas, colocando mais Tequila pra mim.

— Oh, verdade? – E Niko senta ao meu lado, com os olhos brilhando, parecendo interessado. – Verdade né, você nem contou pra gente como foi a briga de vocês! Você ganhou?

— Pode crer, você disse que ia se encontrar com ele pra se vingar por tudo o que ele fez contra a gente. – Ahiru senta do meu outro lado, com olhos tão manipuladores que parecia que eu tinha um anjo à minha esquerda e um diabo à minha direita.

— Eu não “quis me vingar”, eu só queria dar uma lição pra ele, pra ele deixar de ser babaca e voltar a ser a pessoa que eu conheci a alguns anos atrás.

— Mas você ganhou dele, não é? – Os dois continuavam a me perguntar, com olhares diferentes um do outro.

— Eu só vou contar detalhes quando o Ahiru deixar eu emprestar o DVD.

— Ahh, sem chance! Será que você tem tão pouca memória assim? – Ele fica chateado comigo. – Você já esqueceu o que aconteceu naquele dia? Ele e os amigos malucos dele quase mataram nós dois a troco de nada! Só por diversão!

— Mas ele já se separou dos amigos malucos dele. Isso não vale nada?

— Mesmo se ele tivesse pedido desculpas, você tá se deixando ludibriar.

— Eu não tô me deixando ludibriar. Você consegue ver o meu lado, né, Niko?

— Ahiru, você é muito malvado com ela... – Niko diz, ainda com voz embriagada. – Você não entende que a Ana é amiga desse cara desde que eram crianças, as pessoas têm sensibilidade pelos amigos, geralmente.

— E daí? Eles não são amigos, aquele cara nem lembra que já conheceu ela no passado.

— Mesmo assim... dá uma segunda chance pra ele, todo ser humano deveria ver esse filme.

— Pra ele denunciar e eu ser preso por porte ilegal de DVD? Não, nem pensar.

— Eu garanto que ele não vai te denunciar, ok? – Disse. – Qualquer coisa eu coloco a culpa em mim mesma.

— Tem certeza que isso vai ser uma boa ideia?

— Tenho, acredita em mim.

— Tá bom... mas você vai ter que contar pra gente tudo o que aconteceu naquela briga de vocês, tá?

(…)

Logo depois de contar pro Niko e pro Oliver sobre a noite de quarta, eu precisei sair de lá e vir em direção ao bar onde eu trabalhava antes que meu chefe me desse uma surra verbal ou me demitisse. Não teve jeito, precisei falar que a nossa briga terminou em empate, mesmo que seja doloroso dizer que eu não pude acabar com ele, como eu gostaria. Tudo por culpa daquele maldito corte dele na barriga, porque se não fosse por isso, nós teríamos ido até o final e eu teria ganhado dele. Urgh.

Mas não foi de tudo tão ruim... quer dizer, o Oliver quase me bateu quando eu disse, depois de muita relutância, que nós acabamos nos beijando depois de tudo, antes de ir embora. O Niko ficou feliz, até pareceu que ele não iria mais conseguir parar de rir, aliás, pior, parecia que ele ia enfartar de tantas risadas.

Tudo culpa da bebida, claro, porque eu já imaginava que o Niko só quisesse que o Máxim largasse todas aquelas ideias malucas, como eu, e passasse a ser uma pessoa melhor, mais empática e menos briguenta. Na verdade eu queria muito saber como anda a cabeça dele hoje em dia...

Não é lá muito saudável ficar pensando nisso durante o trabalho, eu sei, como se já não bastasse eu estar alta depois de todas as doses de Tequila. É a única coisa boa de trabalhar em bar, aliás, não precisar esconder do seu patrão que você bebe.

Mesmo eu sabendo que eu não deveria me importar tanto assim com uma pessoa que me deixou no hospital e quase matou o meu amigo, é difícil quando eu conheço essa pessoa desde que eu nasci. E olha que ele nem sabe que nos conhecemos há tanto tempo.

Enfim, depois de tudo eu consegui pegar o DVD! Ah, o maravilhoso filme “Máscaras”. Eu preciso mostrar isso ao Máxim e obrigá-lo a vê-lo. Se bem me lembro, ele comentou algo de ir levar a menininha que ele toma conta às vezes na praça, no fim de semana. Se eu for lá eu vou poder “esbarrar” com ele e dar o filme, mas aí vai parecer que eu tô perseguindo esse cara, o que não é verdade, absolutamente. O que eu devo fazer?

Opção 01: Fazer a louca e esbarrar com ele na praça, aproveito e vejo a Lilia de novo e levo o Peter pra passear. É um lugar público mesmo, e é ele que me persegue.

Opção 02: Ficar em casa e assistir o filme todo sozinha de novo, mas dessa vez com o Peter, meu cachorro que não me julgaria. Eu posso esperar o Máxim vir me procurar de novo no bar e dar o DVD num desses dias, aí ele que vai ser a 'pessoa perseguidora'.

(…)

No dia seguinte, era sábado, havia um sol bem forte do outro lado da janela. Tentei acordar o mais cedo possível depois de ter dormido só de madrugada e fui para o meu banho, fazer toda higiene matinal e tomar os nossos bons remédios de cada dia. De frente pro espelho, usei meu secador pra deixar o meu cabelo o mais arrumado possível e passei uma maquiagem super básica, somente para esconder os minuciosos defeitos em meu rosto.

— Rawr, rawr, rawr!! – Peter era o meu pequenino Poodle. Ele era bem pequeno mesmo, branco, bem peludinho e animado pra ver o que eu faria hoje. Ficava me olhando com aqueles pequenos olhos negros redondos, implorando para que eu o levasse pra passear.

— Oi, bebê. – Eu estava com uma toalha cobrindo o meu corpo depois do banho, e fui para o meu quarto me vestir. Peter ficou me assistindo colocar a roupa, uma saia com meia-calça por baixo, uma blusa de manga curta e um colete salmão. – Você quer sair hoje, é? – Perguntei a ele.

— Rawr, rawr! – E parece que ele disse sim como resposta.

— Então vamos dar uma volta.

Puis a coleira nele e acabei de fazer minha bolsa, colocando meu celular e o DVD. Decidi fazer o que eu queria, que era passear com o Peter pela cidade, independente de quem eu encontrasse pelo caminho. É melhor fazer o que me dá vontade do que ficar em dúvida sobre o que os outros iriam pensar disso. Saí de casa, junto com o meu cachorro, que parecia bem contente com a minha decisão.

Primeiro o levei para os lugares que eu precisava ir sem falta, como a farmácia, para comprar mais remédios e alguns produtos que deixassem o meu cabelo mais hidratado. Ah, também comprei tinta! Eu tenho algumas mechas pretas espalhadas pelo meu cabelo loiro, principalmente nas pontas. Acho que além de retocar eu vou colocar um pouco na franja também. Depois da farmácia, acho que eu vou dar uma volta com o Peter pela praça, fica perto daqui.

E fomos nós em direção a ela. Ele corria tanto que acabava me puxando junto pela coleira, mas graças a isso conseguimos chegar bem rápido. A praça como sempre estava cheia de crianças e pessoas com seus animais de estimação espalhadas por aí.

Ficamos passeando pelo gramado verde, tinham alguns vendedores ambulantes de picolé espalhados por aí, mas mesmo se eu quisesse parar pra comprar, tenho a impressão de que Peter não me deixaria. Como será que um poodle de dez centímetros de altura pode ter tanta força?!

Peter! — Logo eu ouço a voz de uma garotinha ao longe. Quando viro pra trás, era Lilia vindo correndo na direção do Peter e, atrás dela, Máxim vinha andando com as mãos no bolso olhando pra mim.

— Rawr, rawr!

— Oi, querida! – Quando ela chegou, se agachou e ficou brincando com Peter, que latia e abanava o rabo. Também me abaixei para olhá-la. – Há quanto tempo.

— Você veio. – Máxim veio falar comigo então me levantei, olhando nos olhos dele sem emitir nenhuma grande reação.

— “Eu vim?” – Perguntei, irônica, querendo saber o que ele queria dizer.

— Chegou tarde, mas veio.

— Tarde pra quê? Não me lembro de termos marcado nada.

— Eu te disse que ia vir pra cá esse fim de semana com a Lili, então nós marcamos indiretamente.

— Você é muito arrogante.

— Eu achei que você não viria. – Ele me olhava do mesmo jeito, praticamente sem querer nada ou como se simplesmente não se importasse, mas de algum jeito, me passava um ar amigável. – Quase fui embora sem ter te visto.

— Bom, então pode agradecer a Lilia por isso.

— Como vai a sua vida social, falando nisso? – Trocou de assunto, do nada. – Já contou pra todos os seus amigos que você ganhou de mim na nossa revanche?

— Isso seria uma coisa que você faria, não eu.

— Até parece que eles não iam gostar de ouvir que uma pessoa como eu perdi pra uma pessoa como você.

— E eu nem considero ter ganhado de você, você tinha um corte na barriga. Como tá, falando nisso?

— Cicatrizando, sem problemas.

— Que bom, quanto mais rápido você melhorar, mais rápido a gente vai poder ter uma revanche direito.

— É lindo saber que você só se importa com vingança.

— E você, se importa com o que?

— Com o que você acha que eu me importo?

— Sinceramente? Com nada. – Digo e ele olha pra baixo rindo, como se aquilo o tivesse atingido. – Você parece ser aquele tipo de pessoa que não se importa com nada além de si mesmo.

— É... quem sabe. O que você acha disso?

— Arrogante, mesquinho, abusado... quer que eu continue?

— Adoraria, mas eu preciso ir, fiquei de levar a Lili pra casa essa hora.

— Ah, jura? Que pena... – Olhei na direção dela, triste. Ela continuava brincando com Peter. – Eu senti saudades dela.

— Tio, a gente precisa ir agora? – Ela o olha igualmente triste. – Eu queria ficar com o Peter mais tempo.

— Mas se eu te deixar ficar mais os seus pais vão brigar feio comigo e eu nunca mais vou poder te trazer ao parque.

— Então deixa ela e o Peter virem com a gente!

Máxim olhou pra Lili como se estivesse cogitando a hipótese, e eu fiquei me sentindo encurralada. Desviei o olhar, um pouco tímida e corada, pronta pra recusar.

— É-É, é melhor eu não...

— Por mim pode ser. – Mas ele, em seguida, olhou pra mim com uma ponta de um leve sorriso no canto dos lábios. – Se por ela estiver tudo bem também.

E eu fiquei incrédula.

— Eba! – Lilia comemorou, independente da minha reação envergonhada. – Diz que vai, diz que vai!

— E-Eu não posso aceitar isso, eu nem conheço os seus pais...

— Vai com a gente até em casa, não é muito longe, não precisa entrar. – Ele me sugeriu.

— Você acha? Bom, pode ser... não tenho nada pra fazer o dia todo mesmo.

Deixei Lilia levar Peter pela coleira enquanto seguia Máxim pelo caminho até a casa dela. Ainda acho difícil acreditar que ele tenha mesmo me convidado pra sair, ainda que seja apenas para levar uma menina até sua casa. Será que é uma forma dele de tentar mudar como pessoa?

Fomos conversando. Ele me contou que nasceu na cidade, mas que tinha ido morar com o pai por uns anos no interior. Nada que eu já não soubesse, aliás, eu devo conhecer a vida inteira dele até o ponto em que se mudou e transformou-se em Skinhead. Também falei a ele o motivo de eu gostar tanto de artes marciais. Gostava de me sentir forte e de defender a mim e meus amigos.

[Tririm tririm tririm] — Quando o celular dele começou a tocar e ele teve que atender.

— Alô?

“”

— Ah, oi. Nós já estamos chegando em casa.

“”

— Ah, é?

“”

— Não, não tem problema. Eu posso ficar com ela enquanto isso.

“”

— Que nada, tudo bem. Até mais.

“” – E logo depois, ele desligou o celular.

— Os pais da Lili ficaram presos no trânsito, ligaram dizendo que iam se atrasar umas horas.

— Verdade? – Perguntei. – Você vai ficar tomando conta dela, então?

— Quer ficar lá um pouco comigo?

— Como assim..?

— A gente já tá chegando mesmo, pelo menos fica pra tomar um suco.

— Você acha que não vai ter problema?

— Nada, qualquer coisa eu me resolvo com eles.

— Se você diz, acho que tudo bem então.

— Então vamos nessa.

Logo virando a esquina, tínhamos chegado à casa de Lili. Entramos, a sala de estar tinha várias fotos dela com a família e Lili levou Peter para seu quarto, trancando-se lá para brincar com ele. Eu e Máxim fomos até a cozinha pegar alguma coisa para bebermos enquanto eu tentanva me sentir mais à vontade em uma casa onde os donos sequer sabiam que eu estava lá.

— Não tem mesmo problema eu ficar aqui? – Continuei perguntando, ele foi até a geladeira pegar um suco de melancia.

— Imagina, eles nem vão ficar sabendo. Quer suco?

— Quero sim. Viu só como você pode ser uma pessoa legal se tentar?

— É, até que não é tão difícil como parecia.

— Você só teve as influências erradas na sua vida. Pelo que você falou, o seu pai era uma pessoa horrível, nossa.

— Meu pai só queria ter um filho forte como ele, não é culpa dele.

— Forte não, babaca conservador sim.

— Enfim, não vamos ficar falando disso. – Eu estava sentanda no balcão da cozinha e ele se aproximou, ficando à minha frente e me dando um copo de suco enquanto olhava pra mim com um semblante amigável. – Alguma coisa que você queira fazer?

— Não sei... – Coloquei uma das mãos na mesa e também o fiquei olhando, com a outra apoiando meu queixo. – Você que é o dono da casa agora.

— Então... – E ele inclinou mais com o tronco em minha direção, deixando o suco de lado e indo devagar e despercebidamente com uma das mãos em direção à minha, até segurá-la, continuando a olhar pra mim, acariciando meus dedos com o seu. – Eu posso te mostrar a casa agora, ou depois.

— “Me mostrar a casa?” – Perguntei, igualmente segurando seus dedos e o olhando nos olhos.

Máxim saiu detrás da bancada da cozinha e veio em minha direção, parando à minha frente e acariciando minha nuca no tempo em que tocava meus cabelos. Estava sentada, deixando que suas mãos passeassem pelo meu rosto até que ele se aproximasse com o seu e chegasse mais perto do que já estava.

Ele logo veio com seus lábios até os meus e os tocou, puxando-me para um beijo exatamente quando conseguiu afastar meus cabelos. Deixei que o fizesse e continuamos, trocando investidas mais rápidas e intrísecas até que eu mesma levantasse-me do banco.

Suas mãos seguraram em minha cintura e me rodaram, até fazer com que minhas costas batessem contra a parede da cozinha provocando um som de talheres se encostando, o que facilmente daria para ser percebido por quem mais estivesse na casa, mas ambos ignoramos qualquer tipo de preocupação quanto ao sigilo.

O puxei pela camisa enquanto o beijava, dessa vez mais rápido, para que o tempo que tínhamos não seja perdido ou que algo pudesse atrapalhar. O joguei para fora da cozinha e ele só deixava-me fazer o que eu queria até se chocar contra mais uma parede que havia na sala de estar. Depois, voltou a me pegar pela cintura, guiando-me para algum canto.

Andávamos com olhos fechados e trocando beijos cada vez mais atilados até seguirmos para o que parecia ser uma escada. Não sabia ao certo o que era ou para onde estávamos indo, apenas deixei que fizesse o que queria. Máxim segurou meus braços e subiu os degraus, jogando-me para um cômodo cuja porta foi aberta com um joelho e fechada rapidamente com um chute.

Paramos um segundo, ou até menos, para respirarmos; senti suas mãos começarem a penetrar por debaixo de minha blusa, mais especificamente em minhas costas, querendo subi-la até arrancá-la. Ele novamente me empurrou e dessa vez eu caí no meio de diversos colchões macios. Parecia ser uma cama de casal, e aquele, quem sabe, o quarto dos pais de Lilia.

Quando consegui abrir meus olhos, tinha a visão direta do lustre que se encontrava no teto. Estava deitada com seu corpo entre meus joelhos, sentindo o ar quente de sua boca batendo contra meu pescoço, e seus afiados dentes deixando chupões no mesmo.

(…)

Olhava para a parede, pensando por um segundo no que meus amigos deveriam estar fazendo naquele momento. Estava nua, somente com uma calcinha cor-de-rosa me cobrindo, além de braços contornando por debaixo de meus seios com a respiração de Máxim batendo contra meu pescoço. Ele estava deitado ao meu lado, me abraçando e quase dormindo.

O que será que eles falariam se soubessem... mas era engraçado até. Em pensar que eu não o via há anos, e que além disso eu dormiria com meu ex-melhor amigo, o mesmo que menos de cinco meses atrás havia me deixado no hospital depois de quase matar a mim e meu amigo. É uma loucura só em pensar nisso, e não deveria ter sido tão bom como foi.

[Dinng... donng...]

Chegamos! Máx? Lili?!

— Tsc, eles chegaram. – Ouvimos a campainha tocar e Máxim se levantou em um pulo, colocando sua roupa. Fiz o mesmo. – Droga... eu tinha esquecido completamente disso.

— O Peter ainda deve estar no quarto da Lili! – Nunca havia tido que colocar um sutiã tão rápido, não preciso dizer que foi uma tarefa difícil. – Você precisa ir lá embaixo distraí-los enquanto eu dou um jeito de ir embora.

— É, eu vou fazer isso. Acho que tem uma janela no quarto dela, eu vou distrai-los na cozinha e você sai por ela. Ok?

— Beleza. – Tinha colocado somente a roupa de cima e continuava de calcinha, mas não ia dar tempo de me vestir. Peguei meu calçado e o restante das peças e me preparei pra sair. – Ah! Esqueci de uma coisa.

Porém, antes de irmos iniciar nosso plano, peguei o DVD da minha bolsa e entreguei a ele. Quase eu esqueço o objetivo primordial de ir vê-lo na praça!

— O que é isso? – Ele me perguntou, já vestido.

— É um filme, “Máscaras”. Eu queria te mostrar.

— Você queria me mostrar?

— É! Só assiste, depois a gente se fala antes que os pais dela vejam o Peter ou eu.

— Beleza. Conta até trinta depois que eu descer, você sabe onde é o quarto da Lili, né?

— Sim, sei.

— Então eu te vejo depois.

Pra se despedir ele veio em minha direção, mas foi um gesto tão rápido, automático e confuso que não sabíamos se nos abraçávamos, dávamos um aperto de mão ou nos beijávamos, então acabou ficando uma mistura de tudo. Um ato falho, mas nem pra ficarmos envergonhados dava tempo. Acabou ficando por aquilo mesmo, um “abra-beijo-mão”. Máxim saiu do quarto e eu contei até trinta.

Em seguida, desci. Ele tinha levado os pais para cozinha, normalmente, enquanto conversavam e eu fui em direção ao quarto de Lilia. Quando entrei, a garotinha estava dormindo silenciosamente abraçada com Peter em sua cama, que também cochilava. Fiquei os olhando um pouco, tão fofos...

Peguei meu cachorro no colo e depositei um beijo na testa dela, saindo pela janela logo em seguida. Já fora de casa, aproveitei para colocar minhas roupas direito antes de ir embora de vez, rumo em direção à minha própria residência.

(…)

Já na segunda-feira eu estava, como sempre, trabalhando no bar, à noite. Não tinha lá muita movimentação essa hora esse dia, então estava apenas limpando o balcão. Eis que escuto o portão abrindo, mas não dou muita atenção. Apenas quando a pessoa que entrou sentou-se no balcão, que foi quando percebi quem era.

— Você!

— Esse DVD. – Máxim estava com uma cara péssima, acabada, cheia de olheiras e furiosa. Ele apoiou o DVD que eu havia lhe emprestado na mesa com ódio. – Eu vim devolver esse DVD.

— Ah, não precisava ter devolvido tão rápido. Você chegou a ver?

— Se eu vi? Eu vi no mesmo dia em que você me deu, e mesmo assim... argh. Eu sinto que foi a coisa mais repugnante que eu já vi em toda minha vida.

— “Repugnante”..?

— Eu deveria te processar por isso. Eu não consegui dormir direito, mas sim... eu vi até o final.

— E você não gostou? Nem um pouco?

— Eu... só quero esquecer que isso aconteceu e fingir que isso nunca foi sequer produzido.

Em seguida, ele não me disse mais nada, apenas me encarou pela última vez com fúria nos olhos e se levantou, dando as costas e indo embora. Fiquei com o pano de limpar o balcão nas mãos e sem mais saber o que fazer... será que eu acabei piorando a situação?

Notas finais
Desculpem pela demora! :P Fazia realmente muito tempo que eu não postava nada. Mas enfim, o que acharam do capítulo? Deixem comentários aí, isso incentiva as postagens! Preciso saber se vocês estão gostando da fic/aprendendo coisas e lições novas com ela. Kissus ~~