Os Fracos Nunca Mentem
2 Conhecendo o dia a dia de Ana
Notas iniciais
— Ahn..? O quê...
Tentei abrir meus olhos devagar. Minhas pálpebras estavam mais pesadas que o costume e minha visão mais embasada que o normal. Demorei um pouco para conseguir abri-los totalmente, e mais ainda para conseguir ter alguma visão nítida de fato.
Não sabia onde estava, ainda não conseguia enxergar direito, mas o cheiro era bem específico. Hospitalar. O vento fresco do ar condicionado invadiu minhas narinas com aquela paisagem de hospital, máquinas ao meu redor ligadas ao meu pulso e minha pressão sendo medida a todo instante, sem mesmo minha permissão.
— Ai, ai... – Levantei meu tronco, com dificuldade. Minha cabeça estava doendo bastante, não duvidaria que alguém tivesse batido nela com um martelo durante meu sono. Mesmo assim, consegui ter forças para indagar. – Onde... onde eu tô..?
— Ana! Você acordou. – Olhei para o lado, era um garoto baixinho com cabelos castanhos da cor do mel e olhos verdes falando, com aquela voz de adolescente no início da puberdade. – Que susto, eu achei que você nunca mais iria acordar.
— Niko..? – Ainda estava um pouco tonta, mas conseguia reconhecer Nikolas. Ele era um pouco mais novo que eu, tinha vinte quatro anos e gostava de usar roupas pretas na maior parte do tempo, além de ser um homem trans.
— Você tá bem? O Ahiru me disse o que aconteceu, você se lembra ainda? – Me perguntava insistente e preocupado. – Tá conseguindo pensar direito? Olha, quantos dedos eu tenho aqui? – E me mostrou sua mão.
— Tem quatro, idiota... eu tô mal, mas também não precisa exagerar. Só me diz, como eu vim parar aqui?
— Então, o Ahiru me disse que você o defendeu de uma briga na rua, mas depois você acabou desmaiando e ele chamou uma ambulância pra te trazer até aqui.
Agora que Niko havia dito, eu acabei me tocando. Havia salvo o Ahiru depois que ele fora enganado por um grupo de skinheads em um desses aplicativos de encontro por celulares. Eu não lembro direito em que hora eu desmaiei, porém, pensando bem, eu me lembro de ter reencontrado alguma pessoa naquela ocasião.
— E o Ahiru, ele tá bem? – Perguntei, um pouco mais sã.
— Sim, sim, ele ficou super culpado de ter feito você parar aqui então ele ficou no hospital contigo durante todo o tempo. Agora ele tá no refeitório, foi fazer um lanche depois que eu cheguei.
— Que horas são?
— Quatro da tarde, você desmaiou ontem.
— Entendi... obrigada por ter vindo até aqui. – Segurei a mão de Nikolas e abri um leve sorriso por ainda estar doendo meu rosto. Ele retribuiu, apertando minha mão e fazendo o mesmo gesto.
— Que nada, é pra isso que servem os amigos. Você acha que eu iria deixar você apanhar pra um bando de transfóbicos sem vir te dar apoio?
— Ei, ei, eu não “apanhei”, tá? Na verdade eu consegui derrubar a maioria deles.
— Ele me contou, você bateu em todo mundo mas perdeu pro último. Você é mesmo forte, hein.
— Então... era sobre isso que eu queria conversar com alguém.
Abri um pouco de espaço na cama para ele sentar. Lembro-me de ter visto Máxim, meu amigo de infância, como líder atual daquele bando de skinheads que atacou Ahiru na noite passada. Perdi apenas por isso, por ser um choque reencontrar uma pessoa tão querida depois de tantos anos em uma situação tão diferente.
— O que houve?
— Niko, lembra que eu mencionei que eu já tive um melhor amigo durante a infância?
— Hm... aquele que foi morar com o pai? Acho que lembro sim.
— Então, eu reencontrei ele.
— Sério? Nossa, que daora! E como foi?
— Ele era o líder deles, foi o fascista que me deu um murro na cara e me fez vir pra cá.
— Eita, sério mesmo? Caramba... então ele se converteu ao lado sombrio da força?
— Pois é! Não é um absurdo? Eu nem sei o que pensar.
— E eu nem sei o que dizer. Ele te reconheceu?
— Óbvio que não.
— É, foi o que eu imaginei. Mas que bizarro hein, como você pode ter gostado de um futuro neofascista na infância, Ana?
— Ei, ele não era assim quando eu o conheci! Deve ter sido a influência do pai, sei lá, mas agora que eu descobri o que ele se tornou eu perdi o interesse. Não quero saber. Como alguém pode crescer e virar essa coisa? Decepção.
E de fato, era muito triste saber que alguém tão gentil e amável possa ter virado um monstro desprezível que vive por atacar as minorias que já são atacadas diariamente. Não tem perdão, no máximo eles podem encontrar alguma luz no coração e deixar o fascismo, mas não sou eu quem vou me dar o trabalho de converter quem não quer ser convertido, é perda de tempo.
— Oie, gente! – Nisso, Ahiru, um garoto cis de cabelos laranjas que foi o responsável indireto por toda essa história começar, entrou no quarto. – Ah, Ana, você acordou!
— Oie. – Ainda estava um pouco tonta, mas Oliver veio em minha direção e me abraçou, me dando um beijo na bochecha. – Eu soube que você dormiu no hospital, obrigada, não precisava.
— Óbvio que precisava, foi graças a mim que você veio parar aqui, era o mínimo.
— E você, ficou bem daquele dia? Eu lembro que você tinha desmaiado.
— E-Então... na verdade eu não desmaiei. Eu caí no chão e como eu vi que você tava batendo muito naqueles caras, eu resolvi fingir que tinha dormido até porque eu só atrapalharia, hahaha. Foi por isso que quando você desmaiou eu consegui logo chamar a ambulância.
— Ahh, entendi, você ficou com tanto medo que decidiu se fingir de morto.
— Não foi bem isso, vai... eu juro que achei que você daria conta de todos aqueles caras.
— É, eu teria dado mesmo...
— Mas olha, eu trouxe um amuleto da sorte pra você conseguir se recuperar rápido.
— Sério? Deixa eu ver!
Oliver retirou de seu bolso um pequeno chaveiro em formato de pato amarelo e me deu. Não era o primeiro, tampouco o último, ele tinha essa característica curiosa de adorar esse tipo de animal. Já havia me dado vários patinhos como lembrança, sendo em pelúcia ou de qualquer outro material. Aliás, ele também só anda com um gorro preto com patos estampados e até mesmo seu alargador é personalizado. Vocês precisam é ver o quarto desse garoto.
— Que fofo! Obrigada. Vocês sabem quando vão me dar alta?
— O médico disse que só veria uns exames e já te liberaria. – Niko responde. – O que você quer fazer depois daqui?
— Eu preciso ligar pro meu chefe e avisar que eu tô no hospital.
— Isso ele já sabe. – Ahiru diz. – Ele percebeu que teve briga atrás do bar e que você tinha desmaiado.
— E o bom é que eu trabalho à noite, então dá pra ir lá hoje sem problemas.
— Tem certeza que já vai trabalhar hoje? – Niko fala. – Não é melhor ficar em casa descansando, Ana?
— Não, não, meu chefe é uma pessoa super séria e se eu perder esse emprego não vou conseguir outro tão cedo. E além disso, eu já tô ótima, não vou deixar que um fascista estrague a minha vida.
Meu chefe não costumava ser a pessoa mais compreensível do universo, até mesmo muito pelo contrário, mas eu não poderia perder este, que foi o único emprego que eu já tive onde me tratam no feminino. Trabalhar no bar é um privilégio que eu não posso abrir mão agora.
— Olá. – Nisso, aparece um enfermeiro com o prontuário em mãos, olhando para mim. – Já acordou? Como está se sentindo?
— Ainda tô com um pouco de dor de cabeça, mas já estou bem.
— Que ótimo! Então... – Ele olha a ficha, antes de prosseguir sua fala. – Sr. Alexis, certo? Eu irei chamar o médico e ele irá te dar alta.
— A-Ahnm... – Odiava quando chamavam-me por este nome, mas precisava aguentar ficar explicando toda hora, afinal, era o nome que ainda estava em meus documentos. Odiava mais ainda quando faziam perto de alguém que eu conhecia. – Senhor...
— Sim?
— Meu nome é Anastácia.
— Oh, será que houve um enganei? – Ele torna a olhar a ficha. – Aqui diz Alexis Ivanov, com algumas sequelas depois de ter entrado em uma briga de rua. Não é você?
— Uhn, sim, mas... quer dizer...
— Cara, olha pra ela! – Nikolas aponta pra mim, falando com raiva com o enfermeiro. – Se você olha pra ela e vê qualquer outra coisa senão uma mulher, parece que você tem algum problema de visão.
— Mas aqui na ficha não consta nenhuma “Anastácia”, somente Alexis. Eu preciso tratar os pacientes do modo que o prontuário diga que eles precisam ser tratados.
— Então mude o prontuário porque ele está errado!
— Calma, Niko... – Disse, tentando amenizar a situação antes que meu estado de saúde piorasse com aquilo tudo. Ahiru ficou só assistindo, desconfortável, mas em silêncio.
— Bom, eu vou chamar o médico e ele irá saber o que fazer.
O enfermeiro, enfim, se retira. Não é como se eu não estivesse acostumada com aquela situação, mas sempre que eu ouço esse antigo nome masculino, uma parte de mim morre e eu me sinto esquecida. Parece que Anastácia nunca existiu, ficou perdida, morta, cruelmente assassinada. Pode parecer exagero para a maior parte das pessoas, mas pra mim, significa uma vida de aprisionamento sendo lembrada.
Niko não tinha culpa de ficar impaciente com o enfermeiro, ele também passava pelo mesmo todos os dias com um nome feminino. As sequelas da briga de ontem não doem tanto quanto o sentimento de desrespeito, e o pior, é logo em um hospital, onde eu supostamente deveria melhorar minha saúde, que acabo sofrendo mais uma violência derivada da ignorância.
— Desculpa por isso, Ana. – Niko vem até mim, com pêsames. – Eu disse alguma coisa de errado?
— Claro que você não disse nada de errado, nem sei porquê tá pedindo desculpas.
— Eu só não aguentei ver aquele babaca te chamando pelo dead name, principalmente quando ele usou o prontuário como argumento, como se aquela ficha de merda te conhecesse melhor que você mesma.
— Infelizmente isso só vai acabar quando um milagre surgir e eu conseguir mudar meu nome nos documentos.
(…)
Mais tarde, eu já tinha sido liberada do hospital e fiquei em casa, sozinha, descansando bastante para poder retornar ao trabalho. Era de noite, o bar estava abrindo e eu cheguei mais cedo, como normalmente, para falar com o meu chefe acerca do ocorrido.
— Ah, você veio, ótimo. – Ele tinha um tom de voz grosseiro e uma barba mal feita, olhos castanhos assim como o cabelo e bastantes pelos nos braços.
— Sim, desculpa por isso. – Falei, colocando o avental para me vestir. – Eu fiquei desacordada por um tempo, mas já estou bem.
— Você se meteu em uma briga atrás do meu bar, uma funcionária! – Praticamente grita. – Sabe quantos problemas eu teria se alguém visse isso?
— Desculpa, mas ele era–
— Não quero saber se era um bandido ou sei lá o quê, cliente é cliente. Se eu perder algum freguês por sua culpa você vai pra rua, entendeu?
— Sim, desculpa...
— Eu já faço demais te colocando como mulher aqui apesar dos documentos, eu exijo algum tipo de satisfação. Deixar seu emprego no meio do expediente pra se meter em briga? Tsc, que bobagem!
— Perdão, não vai mais acontecer, eu juro.
— É bom que não aconteça mesmo! Quando você estiver atendendo seus clientes, trate-os da melhor maneira possível e não arranje confusão.
— Entendi, sinto muito por isso.
Não posso deixar de entender o lado do meu chefe. Para ele, os lucros eram o mais importante, mas para mim, não consigo me imaginar traindo meus conceitos políticos para vender bebidas. Sei que preciso do emprego para sustentar minha vida, mas como eu iria trocar a saúde e bem estar do meu amigo por isso? O capitalismo é aquele sistema em que você precisa abrir mão da sua liberdade em favor do capital.
— E foi isso que aconteceu.
No dia seguinte, por trabalhar de noite, eu conseguia sair com meus amigos durante a tarde. Estávamos nós cinco em um restaurante, Niko, Ahiru e mais outras duas garotas cisgêneras que formavam um casal lésbico, apesar de uma delas ser bissexual. No momento, eu estava contando o que meu chefe havia me dito.
— Sério, desculpa por aquilo, é minha culpa o seu chefe ter brigado contigo. – Ahiru diz meio que em desespero. – Se eu tivesse ouvido seus conselhos eu não teria encontrado aquelas pessoas do aplicativo.
— Nah, que nada, não precisa ficar pedindo desculpas.
— Mas que babaca o seu chefe, hein. – Lara, uma garota da minha idade com cabelos cor de mel e olhos amarelados com algumas sardas no rosto, diz. – Ele deveria ter te dado apoio, você poderia ter morrido!
— Não exagera, Lara...
— Ela tá certa, e se você tivesse sofrido algum traumatismo craniano? – Natasha, a namorada um pouco mais nova dela, de vinte e seis anos, complementa. Seu cabelo era curto e castanho, um pouco voltado para o vermelho, e seus olhos verdes.
— Você vai chamar a polícia? – Lara prossegue. – Pra prender esses marginais e tudo mais?
— Eu, chamar a polícia pra quê? Esses policiais são os verdadeiros fascistas, é capaz deles rirem de mim ou dizer que eu mereci.
— Fora que se até a homossexualidade é crime aqui, imagina pras pessoas trans. – Nikolas diz. – Não tem muito o que fazer.
— Esquece isso, gente, o meu emprego continua e eu não me arrependo de nada que eu fiz, muito pelo contrário, se eu pudesse repetiria a surra que eu dei em cada um.
— E a Ana só não bateu em um deles porque ela ficou com pena, não é? – Niko diz, olhando pra mim. – Conta aquela história!
— Ah, é, verdade! Vocês nem vão acreditar no que aconteceu.
— O quê? – Os três perguntam em conjunto.
— Eu acho que eu já mencionei pra todos vocês que eu tinha um amigo de infância que ficava o tempo todo comigo, lembram?
— Sim.
— Então, esse único cara que conseguiu bater em mim, o líder dos Skinheads, era o Máxim! Quando eu o reconheci eu levei um susto tão grande que meio que deixei ele me dar um soco sem perceber.
— Eita, sério? – Oliver se surpreendeu. – Que coisa.
— Aff, é sério que aquele garoto tão fofo que você mencionou virou um líder fascista? Que horror! – Natasha sente asco.
— Caramba, e o que você vai fazer então? – Lara pergunta. – Deve ser horrível ser amigo de alguém e depois descobrir que essa pessoa é um merda.
— Pois é, eu fiquei bem decepcionada. – Disse. – Mas é aquilo, o que a gente pode fazer? Cada indivíduo tem a liberdade de escolher se vira alguém do bem ou um fascista.
— Vai deixar pra lá então?
— Vou, isso só vai ficar como uma lembrança na minha mente, eu até fiquei feliz de ter reencontrado o Máxim e bem triste por ele ter virado isso.
— Ei, você já tá sabendo? – Mudando de assunto, Niko fala com Ahiru.
— O quê?
— Amanhã no shopping vai ter uma exposição infantil de animais, aí eu acho que vão botar algumas coisas de patos, hahaha.
— Wow, sério?! – Era só mencionar que Oliver já ficava animado. – Eu amo patos!
— Acho que é uma exposição de fotos, mas deve ter aquelas pelúcias de animais pra você renovar o estoque. Quer ir comigo?
— Aham, claro! Que horas?
— Umas duas, por aí. E vocês. – Se vira pra gente. – Alguma de vocês quer ir com a gente?
— Amanhã a gente trabalha à tarde. – Natasha diz.
— E eu tava pensando em ir ao salão amanhã. – Respondo. – Acho que vocês vão ter que ir sozinhos então.
— Então tá combinado? – Niko pergunta ao Oliver.
— Combinado!
(…)
À noite, novamente estava no bar, fazendo mais uma série de drinks e trabalhando como rotineiramente. Eu adorava esse emprego, além de poder ficar ouvindo as músicas ambientes que tocam aqui, também dava pra conversar com os fregueses e passar o tempo. É bem divertido.
Fazer drinks era uma verdadeira arte, uma mistura de várias bebidas e frutas distintas. Adorava! Me sentia profissional batendo-os e servindo em copos decorados com açúcar, limão ou laranja. A casa estava cheia e eu já havia preparado dezenas de batidas diferentes.
— E aí. – E estava tudo ótimo, até ele voltar a aparecer. Na hora, fiquei sem reação.
— Ahn?
E quase não acreditei no que via. Estava com um copo na mão, pronta para preparar um drink, quando um homem alto, loiro e de olhos azuis senta na bancada com um sorriso implicante, típico de pessoas que sentem prazer em intimidar os outros. Era a natureza dele. Fiquei em choque, somente segurando o copo e o encarando paralisada, até havia esquecido qual drink iria preparar.
— Que foi, eu tô com alguma coisa na cara ou tu não tá acostumado a receber clientes?
Voltei a mim e terminei de preparar o drink do cliente na velocidade mais rápida que conseguia, pois ele não tinha culpa do monstro que havia chegado, e o entreguei. Em seguida, debrucei-me no balcão do bar e falei baixinho, praticamente sussurrando para aquela pessoa.
— O que é que você quer?
Sim, aquele que havia chegado e estava sentado à minha frente era Máxim, o neofascista.
— É, pelo visto você não sabe mesmo tratar seus clientes. Me dá um Martini.
— Eu não vou servir alguém com as mãos tão sujas quanto as suas.
— Então eu vou ter que contar ao seu chefe que ele contratou alguém que se recusa a atender os fregueses.
— Tsc... – Depois da conversa que eu tive com meu chefe ontem, achei melhor servi-lo e encerrar de vez com isso. – Toma, aqui seu Martini. Mais alguma coisa?
— Sim. Como é que um traveco consegue bater em todos os meus amigos daquela maneira?
Bufei impacientemente. “Como uma criança tão fofa se torna um adulto tão merda?” – Perguntei a mim mesma, enquanto terminava de limpar alguns copos e de tentar abstrair aquele xingamento tão chulo, que consegue ser o pior de todos. Achei que ele fosse entender meu ignorar, mas somente ficava me olhando como se aquilo aumentasse seu ego.
— Só digo uma coisa, eu não tolero discriminações no meu ambiente de trabalho. – Disse, firme. – Meu nome é Anastácia, não sou homem pra você ficar me tratando no masculino.
— Mas bate direitinho como um.
— Que foi, seu machismo não permite admitir que os seus amigos perderam pra uma mulher?
— Eu não me importo com aqueles otários. Que seja, então, “Anastácia”. – Fez questão de falar como se estivesse entre aspas, com todo sarcasmo possível. – Pelo menos você também apanha como uma mulherzinha.
— Que bom, sou “mulherzinha” com orgulho pois isso jamais será uma ofensa. Só veio aqui pra me elogiar ou teve um motivo?
— Achei interessante o que você fez pra ajudar o seu amigo e como eu soube que você trabalhava aqui e tava sem nada pra fazer, eu vim tomar alguma coisa.
— Hm, veio aqui se vangloriar por ter conseguido bater em mim? Posso aproveitar que você tá aqui e te dar a conta do hospital.
— Só curiosidade mesmo, você me chamou atenção. Faz algum tipo de luta?
— Systema.
— Ah, é a mesma que eu luto.
“Systema” é uma arte marcial própria aqui da Rússia, não é muito conhecida, mas eu já sabia que ele a fazia. Além de ter feito os mesmos movimentos que eu quando brigamos, treinávamos juntos na infância, obrigados por nossos pais. Não entendia bem o interesse que ele estava tendo em conversas comigo, entretanto.
— Posso te perguntar uma coisa? – Disse, servindo outros drinks ao mesmo tempo.
— O que é?
— Qual é o seu nome?
— Máxim.
… sabia.
— Por que você juntou os seus amigos pra baterem no meu, Máxim?
— Opa, aí já são duas perguntas.
— Ninguém mandou você vir aqui arrumar conversa comigo, agora vai ter que falar.
— Tá bom, mas antes me dá outro Martini.
— Aqui. – O fiz, o servindo e o encarando o mais direto que conseguia. Ele parecia calmo, como se quisesse tirar algum proveito meu naquela noite.
— Nós só queríamos fazer uma limpa na cidade, sabe? Se uma das bichas morresse, as outras ficariam com medo e procurariam um tratamento. É graças a esse comodismo todo atual que vocês gays pensam que são normais e param de buscar assistência médica.
— Que ridículo, eu fiquei com medo que você respondesse algo desse tipo. A vida não significa nada pra vocês?
— A vida de um pedófilo escroto? Pf, claro que não.
— “Pedófilo”? Affs, era só o que me faltava, vocês fascistas são tão atrasados que ainda consideram a homossexualidade como pedofilia.
— Cada vez mais têm aparecido essas crianças afeminadinhas, filhos de gays e essas coisas, fora que esses homens só estão atrás de perversões malucas. Você quer que eu pense como?
— Pasme, mas gays não vivem só de sexo, sabia? Eles também trabalham, estudam, namoram e etc, a única diferença é que se relacionam com pessoas do mesmo gênero, mas até mesmo os relacionamentos são iguais aos dos héteros. Não existe nenhum tipo de perversão nisso e é tudo consensual, entre maiores de idade.
— Isso é o que você diz, imagino que deva saber melhor que eu mesmo. Quantos abusos na infância você sofreu pra querer virar mulher?
— Cara, sério isso? – Que vontade de dar um murro nele, mas não posso perder meu emprego por um merdinha desses. – Nenhum.
— Hm, sério?
— Até porque eu não “quis virar mulher”, eu sou uma e eu exijo que você me respeite em qualquer lugar. Se eu tenho algum problema comigo mesma, é culpa de vocês que sentem tesão em discriminar os outros, não minha. Eu sou o que eu sou e sou feliz assim.
— Feliz enganando os homens? Hahaha, verdade, pros viados deve ser mais fácil mesmo colocar uma peruca e fingir ser mulher, isso aí que você é é só o ponto auge do gayzismo!
— “Isso” que eu sou é só o ponto auge da coragem em me assumir num mundo tão horrível e machista como esse, diferente de vocês, covardes, que se juntam em grupos pra baterem em pessoas que nunca fizeram nada.
— Não fizeram nada? É mais que nosso dever como cidadãos russos exterminar essa raça que só enoja o nosso país.
— E vocês enojam o mundo com suas ideias retrógradas. Não têm mais o que fazer, não?
— Hahaha, não precisa ficar com raiva, foi você quem perguntou, eu só respondi. Na real isso pra mim é mais uma brincadeira, eu gosto mais de ver esses marginais apanhando que qualquer outra coisa, mas tenho que admitir que ver você bater nos meus amigos me chamou atenção.
— Por quê, não está acostumado a quando alguém que você subjulga tanto consegue se sobrepor?
— Ei, não precisa ficar me atacando a cada frase que você fala.
— Bom, é difícil não fazer isso, né. Você tem alguma qualidade?
— Dizem que eu sou um ótimo massagista.
— Que legal, é bom saber que nem tudo está perdido.
— E você, faz alguma coisa além do bar?
— Quando eu não estou ocupada convertendo héteros, destruindo famílias e lutando pela supremacia da ditadura gayzista e feminista, eu costumo assistir séries em casa.
— Sério isso? – Ele me indagou achando graça, deixou até escapar um sorriso descontraído em sua face séria.
— Foi mal, não consegui evitar.
— Que nada, isso só prova que vocês querem desmoralizar o mundo, como eu já achava.
— Apesar de ser interessante viver em um mundo só LGBT, não, eu não desejo que vocês héteros cis “se convertam” nem nada parecido, eu só quero respeito pra que possamos conviver com as diferenças.
— Entendi... você é bem diferente das pessoas que eu conheço.
— Fico feliz por isso.
— Bom, eu já vou nessa. – Ele bebe todo o seu Martini de uma vez. – Já tá ficando tarde.
— Espero de verdade que você não volte.
— Também foi bom te rever. Até mais.
E foi assim que ele saiu. Levantou-se, deu as costas e seguiu caminho até a rua onde estaria bem longe de meu campo de visão. Ótimo. Não sei o que de fato o trouxe até aqui, achava que essa gente queria distância de mim e me sentia bem por conseguir a distância deles. Os motivos de Máxim não são do meu conhecimento, mas somos de mundos tão opostos que é fácil afirmar: ele tem asco de mim e também tem meu asco por ele.
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