Os Filhos do Olimpo
6 Capítulo 6: Maya Hunter – Vovó vem me visitar.
Eu sei o que eles estão pensando, porque estou pensando a mesma coisa. Eu nunca havia parado para perceber que essa “atuação” que faço parece muito com charme. Não até convencer o médico que ele tinha dado alta em... Einstein. Em legítima defesa, também nunca havia usado aquilo para algo tão sem noção. Nas outras vezes falei a verdade só com um pouco mais de drama, ou então uma mentira sem contradição. Mas o médico sabia que não tinha dado alta ao Logan. E convence-lo do contrário era impossível. Impossível. Assim como meu parentesco com a deusa da purpurina.
Desde que saímos do hospital estávamos quietos. Eu estava com fome mesmo depois do sanduíche que ganhei por doar sangue. Obviamente, já que opção vegana do hospital era pão com alface. Nem tomate tinha, sem falar no sal. Dividi metade com Aísha o que piorou a situação. Já era noite e terminava o segundo dia do prazo. No bairro em que estávamos tinha uma confeitaria vegana, tenho certeza. Outra coisa que tenho certeza é da conta que meu pai tem lá. Fechei os olhos pensando no milk-shake de cookies da Doces Sonhos. Quando abri, estava na minha frente. Não o milk-shake, a confeitaria. Nem olhei para meus companheiros antes de entrar no paraíso com cheiro de bolo saído do forno. Escolhi uma mesa e vi os dois sentarem comigo.
— Maya, acho que a gente não tem dinheiro o...
— Não se preocupem. – falei – É por minha conta.
A garçonete chegou. Quando me viu, automaticamente endireitou a postura.
— Srta. Hunter, é uma honra recebe-la novamente. – só faltou uma reverência – Como está seu pai?
— Ótimo, Sharon, obrigada por perguntar. – sorri.
Ela olhou para meus amigos, mas seu olhar parou em Logan. Juro, os olhos dela brilharam e só faltava música de fundo. Aísha e eu nos olhamos querendo rir. O garoto nem pareceu perceber que a garçonete estava entrando em combustão por causa dele. Tossi tentando atrair a atenção da garota novamente.
— Ah, sim. – ela falou rápido, sem tirar os olhos do seu novo crush – Já sabem seus pedidos?
— Uma fatia de torta de chocolate e um milk-shake de cookies. – falei e então sorri para o menino na minha frente – Logan, já sabe o que quer?
Sim, sou gentil o bastante para deixa-la saber o nome do seu crush. Mesmo que eu quase nunca o chame pelo nome. Claro, só estava fazendo isso porque talvez Sharon o faça superar esse inconveniente crush que ele tem por mim e, assim, todos sairíamos ganhando.
— Não sei, tem tanta coisa gostosa. – comentou alheio a situação.
Sorri maldosa. Ok, confesso que também era um pouco engraçado ver ele completamente alheio da situação.
— Talvez Sharon tenha uma sugestão para você...
Ele olhou para a garota que prendeu a respiração, mas logo voltou para a guerra, se inclinando para pegar o cardápio e aproveitando para deixar o decote bem próximo do filho de Hermes. Pelo amor de Afrodite, é assim que se fleta? Eu com certeza não sirvo para isso.
— O bolo de café está saindo muito ultimamente. – comentou, com a voz mais rouca, tentando ser sensual.
— Não. – nós três falamos ao mesmo tempo. Café não era uma combinação muito boa para hiperatividade.
— O Logan é sensível a cafeína. – comentei — Estômago.
— Oh, claro. – falou sem graça – Que tal o milk-shake de manteiga de amendoim.
— Sou alérgico. – comentou Logan.
Eu não me aguentei e soltei uma gargalhada escandalosa, até tentei segurar, mas não tinha a mesma força de vontade de Aísha que mordia os lábios com força. Fingi um acesso de tosse para disfarçar.
— Esse tempo tá louco, não? — comentei, com a maior cara de pau — Minha rinite vive atacando...
— Acho melhor trazer o mesmo pedido para nós três. – falou Aísha, tentando acabar com a situação rapidamente. Uma pena, porque poderia assistir a cena por horas.
— Certo. – a garçonete respondeu me fuzilando com o olhar – Na conta do seu pai, Hunter? – falou ironicamente, como se eu fosse uma filhinha do papai.
— Por favor. – respondi e ela virou – Obrigada, querida.
Ela segurou a caderneta com força e quase voltou para me dar na cara pelo deboche. Então endireitou sua postura, decidiu que seu emprego valia mais e saiu rebolando.
Eu e Aísha começámos a rir imediatamente. Logan olhou pra gente confuso.
— Perdi alguma coisa? – perguntou.
— Você é filho de Hermes? — falei – Porque roubou meu coração!
Aísha gargalhou alta.
— Gato, você não é filho de Dionísio mas me deixou bêbeda de amor. – Aísha rebateu.
— O que tá acontecendo? – perguntou de novo fazendo rirmos mais.
— Gato, você não é filho de Hipnos, mas é um sonho!
Automaticamente parei de rir. Porque não havia sido Aísha que tinha falado. Muito menos Logan. E sim a mulher desconhecida que apareceu do nada na cadeira do meu lado. Não posso dizer que fiquei surpresa de ver Afrodite.
...
Sharon não achou estranho uma quarta pessoa no grupo. Na verdade, ela estava com quatro tortas. A garçonete sorriu para Logan, antes de sair ela mordeu os lábios e perguntou:
— Tem como me passar seu número?
— Desculpe, eu não tenho celular. – respondeu.
Até Afrodite riu. A garota ficou vermelha e saiu rapidamente. Provavelmente pensou que estava levando um fora, afinal, quem não tem telefone?
— Ser a deusa do amor é tão divertido. – comentou, dando uma garfada na torta – Ainda mais que eu posso comer essas delícias sem engordar. Um sonho, não é?
— O que faz aqui, afinal? – perguntou, temendo a resposta.
— Tão direta... Você me lembra da sua mãe. – ela suspirou. Eu também, mas foi de alívio, já não acho que a deusa fosse louca o suficiente para se referir a si mesma em terceira pessoal. – Grace, minha filha preferida... Eu sei, mães não devem ter filhas preferidas, mas Grace era maravilhosa.
E quanto acho que tinha me safado, vem isso. Ótimo, eu não era filha de Afrodite. Era neta, pelo visto.
— Você é minha...
— Se você dizer vó, eu faço você se apaixonar por um sapo. – ameaçou, me encarando com seus olhos verdes – Sim, querida, te levei para o acampamento. Você é meu legado.
— Mas..
— Eu sei, raramente legados possuem sangue divino considerável. – comentou – Não foi uma surpresa quanto percebi que você era filha de Grace. Ela era uma semideusa forte e a vi em você. Mas resolvi não te reclamar. Não queria que fosse criada com esses estereótipos do chalé. Você vai mudar o chalé de Afrodite, querida. Estou cansada de ver meus filhos sendo tratados como simples rostinhos bonitos, como se isso os impedissem de ser mais. No passado não me incomodava, mas até deuses mudam. Maya, você é minha mudança. Não sabia se estava na hora de desempenhar seu papel, mas percebi que já tinha descoberto parte da verdade. Quando voltarem vai ser reclamada como sempre quis. E confio em você para finalmente dar glória ao meu chalé.
Eu ia responder. Mas o que iria dizer? Não, obrigada? Obviamente não era o que esperava. Mas quem era eu para reclamar? Esse lance de charme está mesmo saindo melhor que a encomenda e apesar de nunca ter imaginado que Afrodite fosse minha parente divina, era melhor que nada, não?
— Certo, então o que pos... – virei para ela, mas já tinha sumido. Vi Logan e Aísha me observarem. – Nenhuma palavra.
Tomei um gole do meu milk-shake. Foi quando reparei nas minhas unhas. Eles não deviam está grandes, nem mesmo pintadas de preto. Fechei os olhos nervosa.
— Só não me diga que estou de maquiagem.
E eles ficaram quietos.
...
A boa notícia é que os dois também ganharam uma repaginada. A má era que nossas mochilas eram bregas, então minha avó tomou a liberdade de se livrar delas.
Entrei no banheiro da lanchonete para ver o estrago. Aísha, do meu lado, analisava seu visual também. Ela não estava tão má. Blusa cinza. Jaqueta. Short preto florido. Um trato no cabelo. Já eu parecia a nova barbie gótica. Estava com um vestido preto justo, sem mangas e com um tule até o decote. Saltos pretos. Uma bolsa carteira vermelha. Meu cabelo parecia ter passado pelo Rick, o cabeleireiro de Stella. E eu realmente estava maquiada! Com direito a batom vermelho! Não vou ser hipócrita. Eu estava gata. Era o look perfeito para uma festa. Não para uma missão.
— Não é tão ruim. – comentou Aísha – Você está maravilhosa.
— Como vou socar a cara de monstros com essas unhas? – resmunguei.
— Maya, você não soca. Teu estilo é decepar. – respondeu.
— E se eu precisar correr?
— Você tem bênção de Afrodite, um salto não vai ser o problema. – lembrou.
Encarei meu reflexo. Pelo menos ganhei lentes novas. Bufei e abri a minúscula bolsa que era o que havia sobrado. Só havia um papel. Peguei e o desamassei.
“Bolsa extremamente prática. É só imaginar e pegar. Contém dracmas e um cartão de crédito ilimitado. Kits de tudo que possa imaginar. Comida. E vários outros mimos. Somente um presentinho, para você aproveitar sua missão e não destruir sua coluna. Beijinhos, Afrodite.”
Enfiei a mão na bolsa para testar e imaginei aquele cartão ilimitado. Quando tirei lá estava ele. Estava na hora de mudar um pouco o estilo da nossa viagem.
Eu realmente não esperava ter um parentesco com a deusa do salto alto, mas aqui estamos. E se tem uma coisa que eu aprendi, é a aproveitar as oportunidades que são dadas. Ainda mais se essas opurtunidades estiverem relacionadas há cartões ilimitados. Sou um legado de Afrodite? Ótimo, vou usar as vantagens disso.
Me encarei no espelho mais uma vez. Não estava muito confortável mas não me mataria também.
— Vamos, Aísha. – falei, saindo do banheiro – Temos que acordar cedo amanhã e eu não vou dormir na rua. Como minha primeira tutora dizia, tirer toute la couverture.
...
Me joguei na cama macia, aproveitando o momento. Eu estava acabada. Logan e Aísha tinham seus próprios quartos mas estavam no meu para decidir como agir amanhã. Afinal, ainda tínhamos dois deuses para visitar. Deuses que provavelmente tentariam nos matar.
— Acho melhor deixar Hades por último. – comentou Logan – Não que esteja com medo mas.... Na verdade estou mesmo com medo. Me julguem.
— Parece sensato. – Aísha comentou.
— Tanto faz. – dei ombros – Mas como vamos achar Poseidon? Zeus fica no Olimpo, tem uma entrada pro mundo inferior logo no Central Park... Agora, Poseidon? Só se a gente ir para praia e ficar gritando seu nome.
Aísha e Logan me olharam como se estivessem mesmo considerando a ideia. Pelo amor de Afrodite, tenho que aprender a fechar minha boca.
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