Os Filhos do Olimpo
1 Capítulo 1: A Crush Fala Comigo
Notas iniciais

— Logan, acorda! Acorda! – senti alguém puxar minhas cobertas seguido por um grito – Eca, Logan! Você dorme pelado? – ignorei – Eu vou lá vomitar rapidinho. Pode ficar dormindo. Não sou eu que vou perder aquele acampamento estúpido.
A pronuncia da palavra acampamento me fez acordar.
— O acampamento é hoje? – perguntou, pronto pra me levantar.
— Não se mexa! – exclamou Lara – Eu já vi essa bunda branca, não quero mais traumas na minha vida. Vou sair do seu quarto e vamos fingir que isso nunca aconteceu. E da próxima vez que minha mãe pedi para eu te acordar... Bem, eu vou me fazer de morta.
Ouvi a porta se fechar e levantei. Nossa, eu estava mesmo pelado. Eu não devia ter ido naquela festa ontem. Christopher me convenceu a beber e eu nunca fui forte para bebida. Eu não sei se devo ligar pra ele e perguntar o que aconteceu ontem. Tenho medo de saber.
Entrei no banheiro do meu quarto e peguei um analgésico. Engoli e fui pro banho.
Enquanto eu tomo banho vamos explicar algumas coisas. Oi, eu sou o Logan! Se você já me viu na escola, sabe um pouco de mim. Que eu sou lindo, obviamente, e jogo no time de futebol da escola. Sabe sobre alguns problemas nas outras escolas mas depois que entrei nessa não fui mais expulso. Talvez por meu padrasto ser o diretor. E sabem que tenho dislexia e hiperatividade, mas tirando isso sou um garoto bem normal, que fala com todo mundo e até é um pouco popular. Mas vocês não sabem quem é meu pai. E meu pai é um deus. É, eu sei... Loucura. No começo eu também achei. Mas com o tempo a gente se acostuma. Principalmente, porque eu não sou o único. Existe um acampamento de verão, chamado Acampamento Meio-Sangue, que abriga semideuses. E não se engane, eu amo minha mãe, meu padrasto, meus amigos e até mesmo a insuportável da Lara, mas eu só me sinto em casa no Acampamento. Na escola, sempre parece que eu estou escondendo um segredo (porque eu estou) e em casa sou o diferente da família e já coloquei eles em risco várias vezes. Mas no acampamento eu posso ser eu mesmo e todos me entendem porque estamos no mesmo barco. É por isso que eu estou empolgado. Hoje, o primeiro dia de férias, eu estou indo pra lá, reencontrar meus irmãos, meus amigos e, principalmente, ver ela. Não que ela se importe com isso, mas a esperança é a última que morre, não?
Desligo o chuveiro e volto para o quarto. Visto uma calça e um tênis qualquer. Coloco a blusa laranja do acampamento e o colar de contas do meus cinco verões. Hoje eu tenho 16 anos mas a primeira vez que fui para o acampamento eu tinha 10. Eu mal sabia o que estava acontecendo. Durante uma semana eu ouvi minha mãe e Paul discutindo baixinho durante a noite. Lara tinha 8 anos na época e também não sabia razão, mas nós dois percebemos que era sobre mim. Então, no começo do verão minha mãe fez minhas malas e Paul se despediu de mim. Eu e Lara já sabíamos o que estava acontecendo. Como eu não era filho de Paul, eles iriam me abandonar e virar uma família de verdade. Dramático, eu sei. Lara chorou muito, e pediu para não me levaram. Minha mãe não entendeu e falou que eu voltaria logo, mas a gente sabia que era mentira. No entanto, eu não chorava. Eu havia dado tanto trabalho para Paul e minha mãe que era algo justo, na minha cabeça de 10 anos. Estava triste mas não ia chorar na frente deles. Assim que minha mãe deu partida no carro, porém, eu percebi que talvez nossa teoria estava meu errada. Minha mãe dirigiu nervosa e percebi que queria falar algo e não sabia como começar. Por fim ela suspirou e começou:
— Quando eu tinha 25 anos eu fui na minha primeira viagem para o jornal. Eu estava empolgada, porque eu sempre quis conhecer outros países mas não foi exatamente como eu esperava. Houve um problema na reserva e meu quarto não foi separado. Eu acabei tento que procurar outro lugar para ficar, sozinha, num país que eu não conhecia e ainda estava chovendo. Todos hotéis que eu passava estavam lotados, afinal, eu não era a única que tinha vindo para esse evento que cobriria. Então, eu vi uma pensão que parecia muito aconchegante. Toquei a campainha e na hora um moço me atendeu. E eu juro, Logan, meu coração acelerou na hora. Fiquei lá por um tempo, e foram dias incríveis, quase os mais felizes. Um pouco depois de eu voltar para a Califórnia, eu descobri que estava grávida. Esse foi o melhor dia da minha vida. Tentei achar aquele chalé de novo, mas nunca o encontrei. Naquela época eu não entendi, mas quando reencontrei aquele moço de novo tudo ficou claro. – contou – Querido, seu pai é diferente das outras pessoas, é especial de uma forma incrível. E você também é. Eu sei que você já percebeu que coisas estranhas acontecem com você, e acha que nunca ninguém vai te entender mas você não está sozinho. Eu queria esperar mais tempo para te levar para lá, porém eu sei que esse ano foi difícil para você e sei que precisa disso. Estou te levando para um lugar que, assim como você, é incrível. Um lugar para pessoas incríveis. E eu quero que tente ficar lá esse verão, porque tem irmãos lá e crianças que se sentem como você. Mas se não gostar, pode pedir para Quíron me chamar e eu vou te buscar no mesmo instante. Tudo bem para você, meu amor?
Não havia entendido nada daquele discurso mas eu disse que “Sim, está tudo bem” porque eu sabia que minha mãe estava fazendo o melhor que podia. E ela havia me ganhado quando falou que eu era incrível.
...
— Bom dia, família! – falei, com um bom humor que não combinava em nada com a minha ressaca. Mas nem isso iria acabar com meu dia – Como estão hoje?
Lara revirou os olhos. Apesar dessa ceninha, nós dois era muito próximos. O problema é que ela odiava o acampamento porque achava que eu trocava ela pela dúzia de irmãos divinos que tinha. Eu sempre dizia que ela era minha preferida, mas isso não melhorava o humor dela.
— Empolgado? – perguntou Paul.
— Demais. – sorri – E vocês? Vão para a Espanha, não é?
Minha mãe amava viajar, apesar de não termos tanta grana. Sempre economizava para poder conhecer algum país nas férias. Não era surpresa nenhuma meu pai ser o deus dos viajantes. E dos ladrões, mas nós ignorávamos essa face dele.
— Porque você não vem? – perguntou Lara.
Suspirei. Nós já havíamos tentado isso. Porém, o resultado foi minha família fugindo de um bando de galinhas demoníacas, conhecidas por harpias. No outro dia já estava no acampamento. Eu odiava ser um risco para eles.
— Lara, você lembra da última vez...
— É, eu sei. – resmungou – É melhor você ir para o seu acampamento mágico com seus amigos.
— Lara, vamos fazer um acordo? – perguntei – Eu vou te dar aulas de esgrima assim que voltar e quando você se formar nós dois vamos fazer a melhor viagem do mundo. Sem esses dois velhos aí. Sem semideuses. Só não posso falar sem monstros, mas prometo que nada vai estragar nossa viagem.
— Você promete? – perguntou ela.
— Claro que prometo.
...
Depois do café da manhã eu e minha mãe nos despedimos de Paul e Lara e fomos para o carro.
— Porque não posso dirigir? Já tirei a carteira! – argumentei.
— Por que não temos dinheiro para comprar um carro novo e não confio tanto em você para dirigir esse. Vai que passa uma borboleta e você se esquece da estrada? – brincou.
— Hahaha. Brinque com o déficit de atenção alheio. Muito engraçado. – resmunguei.
— Você sabe que te amo, meu herói. – falou.
Conversamos um pouco até chegarmos ao acampamento. Agora que morávamos em Nova Iorque a viagem não era tão longa, um dos motivos para Paul ter aceitado a transferência tão bem. Minha mãe ainda não tinha superado o clima de turista na cidade mesmo depois de 3 anos. Ainda tinhamos o hábito de ir para o acampamento cedo, então fui um dos primeiros a chegar. Eu e minha mãe saímos do carro.
— Tem certeza que não esqueceu de nada? – perguntou ela.
— Sim, mãe.
— Promete que vai me chamar caso algo aconteça?
— Prometo.
— E não vai pregar peças em ninguém, nem roubar nada?
— Então....
Graças aos deuses minha mãe pareceu muito interessada no carro parando atrás de mim. Olhei, só para dar de cara com uma Lamborghini prateada que devia custar mais do que minha casa junto com minha família.
— Uau. – minha mãe falou.
— Uau. – respondi.
E então, ela saiu da porta do motorista. Maya Hunter. A garota que eu sou apaixonado deste os 10 anos e que nunca olhou para mim. Humilhante, eu sei.
Lá estava ela, descendo do carro como se fosse uma top model com seus all stars pretos, seus jeans rasgados e sua mochila de caveira. Nada condizente com o carrão, mas funcionava para ela. Esse estilo de quem não está se importando com nada, me inclua no nada, combinava com ela. Jhonny Hunter, o ex-jogador de basquete e dono da maior empresa de artigos esportivos do mundo saiu do passageiro.
— Obrigada por me deixar dirigir, pai. – Maya entregou a chave para ele – Mas eu não quero uma Lamborghini de presente. Não faz meu estilo. Faz seu estilo.
— Aquele é o Jhonny Hunter? – perguntou sussurrando.
— Sim. – respondi.
— Eu tive um crush por ele minha adolescência inteira. – a voz dela estava aguda.
— Mas eu ainda não te dei seu presente de aniversário.. – Reclamou Jhonny.
— Claro que deu! – argumentou Maya – Você fez a doação que eu pedi.
— Eu não considero isso um presente. Você tirou sua carteira, porque não quer um carro?
— Pai, ninguém da minha idade tem uma Lamborghini. Não por mérito próprio. – respondeu e depois se virou para mim e para minha mãe – Esse carro é seu?
— Não... – eu consegui falar não sei como. Talvez minha voz saiu meio aguda.
— Viu? – falou ela como se provasse um ponto. – Eu vou ter um carro no dia em que eu possa pagar um. E você me deu mais presentes do que pensa. Me deu uma família. Agora para com ceninha, porque é constrangedor e me faz parecer uma garotinha mimada.
— Certo, tem certeza que não esqueceu nada? – perguntou exatamente como minha mãe e nem pareceu um bilionário.
— Pai...
— Desculpe, vou parar. – ele abraçou ela. – Divirta-se!
Ela começou a subir para o acampamento e minha mãe me cutucou.
— Logan...
— Você quer tirar uma foto com ele, não é?
...
É, eu sei, olhando para Maya de primeira daria para dizer que ela é uma garota legal. Humilde, empenhada em causas sociais e amorosa. Mas isso é com o pai dela. Porque com o resto de nós, ela é... Bem, assustadora. E o trouxa aqui foi logo se apaixonando.
Não teve um momento em que a reputação dela se formou. Ela era a melhor em tudo no acampamento, não falava com ninguém, não sorria e no primeiro ano dela quebrou o braço de um irmão meu que tentou pregar uma peça nela. Isso tudo, mas o fato de que ela é a única que nunca soube quem são seus pais divinos (afinal, ela é adotada) resultou em uma reputação bem grande.
Mas ela não era tão ruim quando queria mostrar. No meu primeiro ano, nós dois estávamos em uma dupla no capture a bandeira e eu consegui levar um tombo e quebrar o braço. Não queria parecer fraco, mas comecei a chorar o que chamou sua atenção. Ela se virou para mim e revirou os olhos com desprezo:
— Não precisa chorar, não é nada. – reclamou e olhou o meu braço. Eu não tive coragem de olhar, mas depois descobrir que era uma fratura exposta. Ela, pelo contrario, não se deixou abalar – Só um raladinho, tá bom? – Ela tirou o casaco e começou a estancar meu braço. Assim que terminou me olhou e enxugou minhas lágrimas – Não chore ou vai parece um fracote. Vou chamar ajuda e já volto.
E foi ai que desenvolvi um crush enorme por ela. Não que a mesma se lembre dessa história.
Quando entrei no chalé, ela já estava em sua cama (já que é indeterminada há tanto tempo que ganhou um lugar nas beliches) com fones de ouvido. Não que possa ter esses aparelhos aqui, mas ela tinha aprendido uma ou duas coisas com meus irmãos. Me olhou e tirou os fones.
— Você sabe né? – perguntou.
— Se eu comentar sobre seu pai ser um bilionário ou sobre você fazer caridade me mata. – revirei os olhos.
— Exatamente.
— Então.... – comecei a arrumar as minhas coisas – Eu não sei se percebeu mas eu gosto de você, sabe? Mesmo com seu jeito de filha de Ares e tudo mais. Talvez um dia a gente possa fazer alguma coisa...
Silêncio. Olhei para trás e só para ver que ela estava com os fones novamente. Me viu encarando e ergueu a sobrancelha como se perguntasse o que eu queria. Balancei a cabeça num não.
— Logan Black, você é muito trouxa. – resmunguei.
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