Os Filhos do Inverno
3 Tempestade em Alto Mar
Capítulo 2
A viagem de volta para Cair Paravel estava bem mais turbulenta do que Pedro gostaria.
Após onze anos governando Nárnia, os reis e rainhas estavam acostumados a viajar para os países próximos para participar de bailes e banquetes para os quais eram convidados com certa frequência.
Não fora diferente quando o governante de Galma os convidou para o baile de aniversário de seu filho mais jovem. O rapaz completava 26 anos e estava à procura de uma princesa ou rainha para cortejar. Naturalmente, o duque ficaria muito feliz se seu filho de se casasse com uma das rainhas de Nárnia, por isso ele havia sido até mesmo um pouco insistente em seu convite.
Obviamente, como bons governantes e diplomatas que eram, não negaram e foram a comemoração de bom grado.
Mas agora na viagem de volta, três dias após a celebração, o mar estava revoltoso, fazendo com que o Esplendor Hialino balançasse bem mais do que gostariam. Os céus escuros a frente anunciavam a chegada de uma possível tempestade e o capitão do galeão informou aos reis e rainhas que se abrigassem em seus aposentos, pois a chuva viria com toda força.
Apesar disso, Pedro continuou no convés do galeão, observando a estranha tempestade.
Algo parecia errado.
E sabia que havia outros que concordavam com ele.
Especialmente sua irmã mais nova, Lúcia, que também estava parada no convés, um pouco mais a frente, debruçada na borda cuidadosamente entalhada em ouro. Uma capa cor de vinho lhe aquecia os ombros enquanto os cabelos louros escapavam de uma trança outrora toda enfeitada com fitas prateadas.
— O que foi, Lu?
A jovem rainha pareceu demorar a dar-se conta que Pedro havia se aproximado, soltando uma exclamação de surpresa quando ele a empurrou suavemente com o ombro.
— Desculpe... tive a impressão de ouvir algo naquela tempestade e estava pensando o que pode significar – explicou sem rodeios, pois sabia que seu irmão acreditaria nela.
— Ouvir algo? – Pedro franziu o cenho, apoiando-se da mesma maneira que ela, observando o mar que batia quase violentamente contra a madeira do galeão – Como o que?
Lúcia hesitou um pouco, pensando se realmente tinha ouvido o que acreditava ou não.
— Ouvi o rugido de Aslan – explicou, encarando firmemente a tempestade que se aproximava – Era como se ele estivesse vindo em nossa direção junto com a tempestade. Trazendo algo com ele...
Pedro ficou em silêncio, observando a mais nova.
Após tantos anos governando a seu lado ele sabia que de todos eles, Lúcia era a que mais recebia sinais e mensagens de Aslan. E com o tempo, aprendeu a não questionar o porquê e nem se esses sinais eram verdade ou não, afinal ela nunca falhava.
— Então... acha que a tempestade vai nos trazer algo de Aslan? – disse, voltando seus olhos para o mesmo ponto distante que Lúcia.
— Talvez... mas não entendo... – murmurou ela um pouco mais baixo, talvez para si mesma, mas isso não impediu que Pedro ouvisse e a questionasse a respeito.
— O que você não entende?
— Eu senti como se ele estivesse... triste.
Pedro ia abrir a boca para continuar o assunto, mas Edmundo se aproximou, cortando a conversa e os avisando que deviam entrar, pois a chuva logo começaria a cair.
— Está bem... – disse ele, afastando-se andar na direção das cabines.
— O que houve? – perguntou Edmundo para Pedro enquanto os dois caminhavam lado a lado. – Lúcia parece quieta desde que aquela tempestade apareceu e ela não costuma ter medo de navegar...
— Ela disse que ouviu Aslan... – explicou o Grande Rei, fazendo com que o irmão imediatamente parasse de andar para encará-lo com surpresa estampada em suas feições – Disse que ouviu seu rugido na tempestade.
Edmundo ficou em silencio, voltando-se para Lúcia.
As gotas de chuva começavam a cair sem pudor sobre eles enquanto Lúcia permanecia imóvel no lugar de antes, não mais debruçada, mas ainda incapaz de descolar sua mão da borda do galeão.
O Rei mais jovem se aproximou dela, posando delicadamente as mãos em seus ombros. Percebeu que Lúcia se assustou um pouco, mas logo relaxou quando percebeu que se tratava de Edmundo. Ele a guiou de volta para a cabine, mas a atenção dela em nenhum momento deixou a tempestade que se aproximava cada vez mais rápido.
Na cabine que dividia com Susana, Lúcia não conseguia deixar de pensar no que poderia significar tal rugido de Aslan. Chegou a conversar um pouco com a irmã a respeito do assunto, mas não conseguiram chegar a nenhuma conclusão.
— Talvez tenha sido impressão, Lu... – sugeriu Susana enquanto Lúcia passava os dedos distraidamente por suas longas madeixas escuras.
A mais nova sacudiu a cabeça.
— Não foi, tenho certeza... – respondeu – Tenho a impressão que Aslan está querendo nos avisar de alguma coisa que está para acontecer...
Susana soltou uma leve risada.
— Quando fica séria desse jeito nem parece ser mais nova que eu.
Lúcia sorriu para a irmã.
— Já sou considerada uma adulta, Su! – exclamou.
— Com 19 anos você ainda não é adulta, Lúcia!
— Adulta o suficiente para certos lordes me tirarem para dançar em bailes.
— Você fala como se tivesse muito interesse nisso – Susana revirou os olhos de maneira brincalhona, pois sabia muito bem que a irmã não tinha o mínimo interesse nos lordes que a tiravam para dançar – Você só gosta de dançar.
— É o suficiente!
Elas riram juntas e por um momento, Lúcia esqueceu de sua preocupação com a mensagem de Aslan.
Apenas por um momento, pois no momento seguinte puderam ouvir um alto estalo no convés do galeão. Se entre olharam e decidiram subir para saber o que havia acontecido, encontrando com Pedro e Edmundo no caminho.
— A retranca de um dos mastros quebrou! – explicou um dos homens que estava no convés quando chegaram – O vento está muito forte, mas já estamos controlando a situação!
— Alguém se feriu? – perguntou Lúcia ao que o homem apenas negou com a cabeça, voltando para seu lugar.
Lúcia ouviu Susana gritar que era melhor eles voltarem para dentro, pois tudo já estava sob controle, mas seus olhos estavam novamente focados no mar. A água estava escura por conta das nuvens pesadas que cobriam o céu e a chuva quase a impedia de manter os olhos abertos.
Mas algo em seu amago pedia que se aproximasse daquela borda novamente e olhasse para a água.
Ela o fez, sendo seguida pelos irmãos, que tinham em mente já arrastá-la para dentro da cabine novamente e dar-lhe uma grande bronca, mas não o fizeram, pois encontraram-na com uma expressão horrorizada.
Lúcia sentiu seu coração falhar quando conseguiu identificar uma forma clara dentro da água, lutando com a força da tempestade.
— Tem alguém na água! – gritou com todas suas forças – Alguém caiu na água!
Logo vários marinheiros haviam se juntado a ela e conseguiram identificar mais duas pessoas junto a primeira. Ao longe ouviram outro tripulante gritando que via mais uma do outro lado do galeão.
— Não são marinheiros meus, Altezas – explicou o capitão, lívido – Eu não sei de onde essas pessoas vieram.
— Não importa! – exclamou Lúcia – Precisamos tirá-los da água! Depressa!
O homem prontamente correu para ordenar que quatro marinheiros se amarrassem ao navio e pulassem para resgatar os desconhecidos e assim o fizeram.
Logo, os quatro foram içados para dentro do galeão.
Fale com o autor