Os Filhos de Fenrir

23 Renesmee - O herdeiro do Alpha


Os primeiros dois meses como Beta de Niflheim foram intensos, mas, aos poucos, comecei a me adaptar à nova vida cheia de responsabilidades. A rotina no povoado não era fácil, mas com o tempo, fui aprendendo a lidar com os desafios. Enquanto os lobos saíam em rondas para garantir a proteção de todos, as mulheres se encarregavam das tarefas diárias: cuidar dos mais jovens, organizar os mantimentos, costurar roupas e preparar os alimentos. O trabalho nunca faltava.

Minha relação com Leah havia se transformado, ainda que levemente. Ela nunca escondeu que não gostava de mim, mas respeitava as leis do Grande Deus Fenrir. Se Fenrir havia decidido que eu era a Beta de Jacob, Leah jamais iria contra essa decisão. Nós mantínhamos uma convivência respeitosa, e às vezes até conseguíamos trocar algumas palavras sem o peso do passado entre nós.

Kiara também se aproximou muito de mim nesse tempo. Ela sempre estava presente, antes de todas as outras, ajudando com as tarefas e mantendo a ordem na tenda. Kiara era uma das mais obedientes e disciplinadas entre as mulheres do povoado, e até mesmo Sarah a elogiava. Quando eu me sentia insegura ou tinha dificuldades em algo, ela estava lá, oferecendo sua ajuda sem hesitar. Kiara ainda não havia ido para o acampamento de treinamento, pois as tradições da matilha ditavam que os três primeiros meses do casamento do Alpha eram destinados a descobrir se sua Beta lhe daria descendentes. Era um tempo de espera e expectativa.

Aquela era mais uma manhã como qualquer outra. Jacob havia passado a noite em rondas e ainda não havia retornado. Quando cheguei à tenda das mulheres, vi Kiara já organizando a mesa. Ela era tão eficiente que muitas vezes me perguntava como conseguia dar conta de tudo.

— Bom dia, Kiara — sorri, me aproximando dela.

— Bom dia, senhora Black — ela respondeu com um sorriso acolhedor. — Estava preparando um chá. Gostaria de um pouco?

— Adoraria — respondi, sentando-me. — O aroma está delicioso. Você precisa me ensinar a fazer esse chá um dia.

— Posso ensinar agora mesmo, se quiser — Kiara riu suavemente enquanto servia o líquido quente em uma pequena xícara.

Levei o chá à boca e tomei um gole. Era, de fato, delicioso. Havia algo reconfortante na mistura de ervas.

— É realmente delicioso, Kiara. Acho que nunca vou conseguir fazer algo assim — brinquei.

— Não diga isso. É mais simples do que parece — respondeu ela, com aquele sorriso sempre presente. — Você começa escolhendo as ervas mais frescas...

Enquanto Kiara explicava o processo com paciência, comecei a relaxar, o chá aquecendo meu corpo. Aos poucos, as outras mulheres começaram a chegar, cumprimentando-nos enquanto se acomodavam. Assim que o grupo estava completo, dividi as tarefas do dia, atribuindo a cada uma suas responsabilidades.

No entanto, conforme os minutos passavam, algo começou a mudar. Uma leve tontura tomou conta de mim, e o calor que antes era reconfortante tornou-se opressivo. Minha visão começou a ficar embaçada, e um mal-estar crescente dominou meu corpo. Tentei ignorar, mas foi impossível.

— Nessie, você está bem? — Leah perguntou, percebendo minha inquietação.

— Acho... acho que não estou me sentindo muito bem — murmurei, pressionando a mão contra a testa.

Leah, sem hesitar, se aproximou e me segurou pelos ombros, enquanto as outras mulheres também vinham em meu auxílio. Senti o chão girar, e minha respiração ficou pesada.

— Eu vou chamar Jacob, ele deve estar voltando — disse Kiara, já se levantando apressada.

As vozes ao meu redor ficaram distantes, como se tudo estivesse acontecendo em um ritmo diferente. Minha cabeça girava, e a sensação de que algo estava muito errado tomou conta de mim. O calor em meu corpo transformou-se em um ardor desconfortável, e antes que eu pudesse reagir, tudo escureceu.

Quando abri os olhos, um enjoo forte dominava meu corpo. A primeira imagem que vi foi Sarah, sentada ao meu lado, seu olhar gentil e um sorriso acolhedor nos lábios. A luz suave do quarto me fez perceber onde eu estava.

— O que... o que aconteceu? — Murmurei, ainda confusa.

Sarah me ajudou a me sentar com cuidado, seus gestos maternais me reconfortando.

— Você passou mal e desmaiou, querida — disse ela com uma voz suave.

Mesmo com a mente nublada, as lembranças começaram a voltar. A tontura, as vozes ao meu redor... tudo fazia sentido agora.

— Eu... acho que me lembro — falei, tentando encaixar as peças na minha mente.

Sarah então se aproximou mais e, com uma expressão séria e ao mesmo tempo carregada de emoção, perguntou:

— Nessie, você sangrou nos últimos dois meses?

Eu olhei para ela, surpresa e sem entender aonde ela queria chegar. O pânico começou a surgir lentamente, mas tentei me manter calma.

— A última vez... foi quando ainda estava no acampamento — respondi, minha voz vacilante, enquanto tentava calcular as datas em minha mente.

O rosto de Sarah se iluminou com um sorriso radiante. Ela me envolveu em um abraço apertado, e, ainda que eu estivesse atordoada, senti o calor daquela alegria genuína. Eu estava tentando processar, mas tudo parecia confuso demais.

— O que está acontecendo...? — Perguntei, tentando entender.

Sarah se afastou um pouco, mas manteve as mãos em meus ombros. Seus olhos brilhavam de emoção enquanto sua mão descia lentamente até tocar levemente meu ventre. Eu a observei, sem entender completamente, até que ela sussurrou algumas palavras em tom reverente, quase como uma bênção.

— Que Fenrir abençoe o seu primeiro neto... — disse ela com suavidade.

Meu coração parou por um segundo, e o ar pareceu me faltar. As palavras de Sarah se repetiam em minha mente, mas demoraram a fazer sentido.

— Eu... estou... grávida? — Perguntei, ainda incrédula, sentindo minha garganta apertada.

Sarah assentiu com um sorriso terno, os olhos ainda brilhando de emoção.

— Sim, querida. Pode parecer assustador agora, mas você está carregando o herdeiro do Alpha. Jacob ficará radiante.

Senti meu corpo inteiro tremer com a revelação. Eu queria sentir felicidade, e talvez houvesse uma ponta de alegria em algum lugar dentro de mim, mas no momento, tudo parecia avassalador. Eu não sabia como reagir, minhas mãos involuntariamente tocaram meu ventre, tentando compreender a magnitude do que Sarah havia acabado de me dizer.

— Eu... eu não acredito — sussurrei para mim mesma, ainda sem conseguir absorver completamente a notícia.

Sarah se levantou da cama, ainda sorrindo, e disse gentilmente:

— Preciso avisar Jacob. Ele está lá fora, desesperado, sem notícias de você. Vai ficar muito feliz.

Assenti, ainda atordoada, enquanto a via sair do quarto, deixando-me sozinha com meus pensamentos. Minha mente estava girando. Grávida? Em questão de minutos, minha vida parecia ter dado uma reviravolta completa. Senti uma mistura de medo e uma estranha felicidade, mas principalmente uma enorme responsabilidade se formava dentro de mim.

Deitada ali, tentei acalmar minha respiração e absorver a descoberta.