Os Filhos de Fenrir
69 Renesmee- O combate das Betas
Eu encarei Kiara, tentando entender como ela podia estar tão cega pela vingança a ponto de ignorar tudo ao nosso redor. Aquilo era insano.
— Não percebe o que está fazendo? — perguntei, tentando manter a calma apesar do meu coração disparado. — Você perdeu tanto porque não soube aceitar um "não", Kiara. Sempre querendo o que não lhe pertence, sempre destruindo tudo ao seu redor. Mas olhe para você agora. Sozinha. É isso que quer?
Ela riu, um som amargo que ecoou pela floresta.
— Ah, Nessie, você sempre foi boa com palavras. Mas isso não importa mais. O que eu perdi não foi por causa do que fiz. Foi porque outros, como você, tiraram de mim. — Ela estreitou os olhos. — Você quer falar sobre perda? Eu deveria ser a alfa, deveria ter tudo o que você tem.
Eu respirei fundo, tentando conter a raiva. Isso não era só sobre mim, era sobre algo muito maior. Tentei uma última vez apelar para a razão.
— E Kamy? Já pensou nela? O que sua filha vai pensar quando souber que a mãe dela abandonou tudo para buscar vingança contra algo que nem faz sentido? Vai mesmo deixar que sua filha cresça sem você por causa disso?
A expressão de Kiara endureceu, mas logo se transformou em uma risada fria e sarcástica.
— Kamy? — disse ela, com um tom irônico. — Ela ficará bem. Melhor sem mim, talvez. Mas isso aqui... — Kiara fez um gesto ao redor, apontando para nós duas. — Isso é o que importa agora.
Antes que eu pudesse reagir, ela sacou duas espadas de sua cintura e jogou uma para mim. Eu a segurei, surpresa pela súbita ação.
— Vamos, Nessie — Kiara continuou, com um sorriso sombrio nos lábios. — Não existe forma melhor de me livrar de você do que aqui, no meio da guerra. Quando encontrarem seu corpo, culparão os Asgardheins. Tudo perfeito, não acha?
Eu apertei a espada, sentindo seu peso familiar em minha mão.
— Eu não vou lutar com você, Kiara — disse com firmeza.
— Ah, vai sim — respondeu ela, avançando contra mim com a espada erguida.
Eu tive apenas segundos para levantar a minha e bloquear seu golpe. O choque do aço contra aço ecoou pelo espaço ao redor, e eu me vi sendo forçada a recuar. A expressão de Kiara era pura determinação, quase enlouquecida. Ela atacava sem hesitação, como se sua vida dependesse disso.
Cada vez que eu bloqueava um ataque, tentava manter o controle. Não queria feri-la, não queria lutar. Mas Kiara não me dava escolha. Seus movimentos eram rápidos e ferozes, mas havia algo em mim que ela parecia não esperar: minha habilidade. Ela estava acostumada a me subestimar.
— Surpresa por eu saber manejar uma espada? — perguntei, desviando de um golpe e girando para contra-atacar, mais para afastá-la do que para feri-la.
Ela riu, ofegante, mas cheia de sarcasmo.
— Ora, ora, parece que a princesinha sabe lutar. Que ironia! Sempre pensei que Jacob fosse o único com habilidade em combate. Mas olhe só, você realmente aprendeu alguma coisa ao lado dele.
Eu mantinha minha postura defensiva, tentando acalmar minha respiração enquanto os golpes dela continuavam a vir com força. Ela estava perdendo o controle, e isso a tornava ainda mais perigosa.
— Não preciso te machucar, Kiara. Ainda dá tempo de parar. — Minha voz saiu firme, mas não havia ódio, apenas uma tentativa de fazer com que ela visse a loucura em seus atos.
Kiara avançou mais uma vez, a lâmina da espada dela quase tocando minha pele quando eu me defendi com força, girando meu corpo para desviar. Eu estava em vantagem, mas não queria levar isso adiante. Eu não podia machucá-la, não assim.
Foi então que uma voz interrompeu o combate.
— O que diabos está acontecendo aqui?
Eu e Kiara congelamos, ainda em nossas posições de ataque. Emily estava parada a poucos metros, os olhos arregalados ao nos ver.
— Kiara, o que está fazendo aqui? — perguntou Emily, sua voz cheia de incredulidade e raiva. — Sam vai puni-la por isso, mas não agora. O acampamento das betas está sendo invadido! Não temos tempo para brigas internas.
Minhas mãos ainda seguravam a espada, meu corpo tenso, mas ao ouvir as palavras de Emily, soltei um suspiro. Kiara, no entanto, parecia dividida entre continuar a luta ou acatar o aviso.
— Vamos, Kiara. — Falei mais uma vez, a voz firme. — Isso aqui precisa acabar. Agora, temos algo maior para enfrentar.
Ela me lançou um último olhar de desprezo antes de abaixar sua espada.
Eu, Kiara e Emily corremos de volta para o acampamento, a adrenalina pulsando nas minhas veias. Ao chegarmos, o caos já estava instalado. Várias betas lutavam com homens Asgardheins que haviam invadido o perímetro. Senti meu coração apertar, mas ao mesmo tempo, uma onda de determinação tomou conta de mim.
— Leve os feridos para um lugar seguro! — ordenei a Emily, que rapidamente assentiu, liderando algumas das betas para longe da zona de combate.
Peguei minha espada e olhei para Kiara, que pela primeira vez parecia alinhada comigo. Ela apenas assentiu antes de partir para a luta. Sem hesitar, corri em direção a um dos soldados Asgardheins, bloqueando seu golpe com minha espada.
— Vocês, Niflheim, são grandes, mas você... — o homem me olhou de cima a baixo, claramente surpreso com minha altura. — Parece mais uma de nós, uma Asgardheim, pelo seu tamanho.
Aquilo me pegou de surpresa. Ele zombava de mim por eu não ser tão imponente quanto os outros. Senti a raiva borbulhar dentro de mim, e com um movimento rápido, desviei de seu ataque e o golpeei com precisão, minha lâmina cortando sua carne. Ele grunhiu de dor, caindo de joelhos no chão.
— Eu sou uma filha de Fenrir e esposa do Alpha! — gritei, minha voz carregada de raiva e orgulho. — E gosto do meu tamanho!
Ele mal teve tempo de entender o que aconteceu antes de cair completamente. Respirei fundo, limpando o suor da testa. A batalha ao meu redor continuava, mas eu sabia que precisávamos de um plano.
Olhei ao redor e avistei Claire lutando com outro soldado. Corri até ela, derrubando o inimigo com um golpe rápido antes de encará-la.
— Precisamos afastar esses soldados daqui — Claire disse, ofegante. — Se continuarmos assim, as betas não terão chance.
Assenti, já planejando o próximo movimento.
— Eu vou atrair os soldados para longe. Leve todas pelo norte, vai dar tempo para recuarmos.
Claire me olhou com uma mistura de preocupação e confiança. Ela sabia que eu podia fazer isso, mas era arriscado.
Sem hesitar, me transformei em loba. Minha forma era diferente das outras lobas, e eu sabia que isso chamaria a atenção dos soldados. Minha pelagem ruiva cintilava sob a luz da lua, algo que sempre fez com que Jacob me chamasse de Raposa. Eu estava prestes a usar essa característica a meu favor.
Três soldados Asgardheins, que estavam prestes a atacar as betas, pararam ao me ver. Eles congelaram no lugar, os olhos arregalados de choque.
— O que... é isso? — um deles murmurou, a voz cheia de medo.
— Uma raposa gigante? — outro falou, sua mão tremendo ao segurar a espada. — Que tipo de monstro é esse?
Eu os encarei com intensidade, rosnando baixo. Eles estavam claramente apavorados, mas isso era exatamente o que eu precisava. Movi-me rapidamente, correndo em direção a eles para atraí-los para longe do acampamento. Meu plano estava em ação, e enquanto eles me seguiam, eu sabia que as betas teriam a chance de escapar pelo norte.
Correr pela floresta, sentindo o vento contra minha pele de loba, me trouxe uma onda de liberdade, mas também de responsabilidade. Eu precisava manter esses soldados longe o suficiente para dar tempo às minhas companheiras.
Avancei contra um dos soldados com toda a força que consegui reunir, sentindo o impacto de seu corpo sendo jogado no chão. Não havia tempo para hesitação. Assim que ele caiu, corri em direção ao leste, sabendo que os outros me seguiriam. Meu coração batia acelerado, a floresta passando por mim em um borrão de cores enquanto meus sentidos lupinos me alertavam do perigo. Eu podia ouvir os passos pesados dos soldados Asgardheins logo atrás, suas respirações arfantes tentando acompanhar minha velocidade.
Foi então que ouvi a voz de Jacob em minha mente, suave, mas carregada de preocupação.
— Nessie? — A ansiedade na voz dele me fez tropeçar por um segundo, mas logo recuperei o equilíbrio. — O que está acontecendo? Sinto que algo não está certo. E Fenrir... estou preocupado com ele.
Ele estava com medo. Eu podia sentir isso através da nossa conexão. A presença de Fenrir na guerra o deixava inquieto, assim como a mim. Mas eu não podia demonstrar o quanto aquilo também me aterrorizava.
— Estamos sendo atacadas — respondi mentalmente, tentando manter a calma. — Estou levando os soldados para longe das betas. Estamos indo para o leste. Não se preocupe, vou cuidar disso.
Senti um leve alívio na resposta de Jacob, mas ele ainda estava inquieto.
— Nessie, por favor...
— Eu vou ficar bem, Jake. — Tentei tranquilizá-lo, mesmo sabendo que a situação era muito mais perigosa do que eu deixava transparecer. — Foque na guerra, eu dou conta daqui.
Me aproximei de uma clareira, voltando à minha forma humana com um único pensamento: derrubar esses soldados antes que alcançassem as betas. Com a espada em mãos, derrubei os Asgardheins um por um, movendo-me com precisão e agilidade. O som de lâminas cruzando o ar ecoava ao redor, e minha respiração se misturava aos gritos dos inimigos caindo ao chão.
Então, de repente, ouvi um rosnado familiar. Virei-me a tempo de ver Kiara, em sua forma de loba, avançando contra os soldados que surgiam do nada. Ela estava ao meu lado, lutando com uma ferocidade que eu nunca tinha visto antes. Nossas diferenças haviam sido deixadas de lado naquele momento, unidas pelo mesmo propósito: sobreviver.
— Isso é uma armadilha! — sussurrei para mim mesma, percebendo o cerco que nos envolvia. Havíamos caído direto nela.
O som de folhas se movendo acima de nós chamou minha atenção. Olhei para cima e vi arqueiros Asgardheins posicionados nas árvores. Meu coração acelerou, e antes que pudesse pensar duas vezes, gritei:
— Kiara, proteja-se!
Ela me olhou rapidamente, e em um movimento ágil, correu para fora do alcance dos arqueiros. Mas eu não podia permitir que continuassem atirando nas betas. Voltei à minha forma de loba, sentindo meus músculos se estenderem, e com um salto ágil, subi nas árvores.
Derrubei arqueiro após arqueiro, movendo-me com velocidade e precisão. As flechas cortavam o ar em minha direção, mas consegui desviar da maioria delas. Até que, após derrubar o último arqueiro, senti uma dor aguda e quente em meu abdômen.
— Ahh! — Um grito escapou dos meus lábios, e por um momento, todo o ar parecia fugir dos meus pulmões.
Olhei para baixo e vi a flecha cravada em minha carne. O sangue começava a escorrer lentamente, manchando a pelagem ruiva da minha forma de loba.
Caminhei lentamente, sentindo meu corpo ceder, retornando à minha forma humana enquanto a dor em meu abdômen se intensificava. À minha frente, vi Kiara. Ela também estava ferida, sua pele pálida e manchada de sangue. Cambaleei até ela, minha respiração pesada.
— Kiara... — chamei, a voz saindo fraca. — Kiara, olha pra mim.
Ela ergueu os olhos, sua expressão resignada. Um sorriso amargo se formou em seus lábios trêmulos.
— Acabou, Nessie — murmurou, sua voz baixa, quase inaudível. — Acho que... no final... eu acabei salvando a Luna do alpha.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Não, isso não podia estar acontecendo. Não agora, não assim.
— Não... Kiara, você vai ficar bem — tentei convencer a mim mesma mais do que a ela. — Nós vamos te tirar daqui. Vamos salvar você.
Ela balançou a cabeça lentamente, já sem forças para lutar.
— Cuide da Kamy pra mim... por favor — sussurrou. Seu olhar, antes cheio de fúria e rancor, agora estava triste, mas havia um alívio ali, como se tivesse encontrado alguma paz. — Não deixe ela... se perder, como eu me perdi.
— Não fala assim — minha voz quebrou, e eu já não conseguia segurar as lágrimas. — Kiara, você vai sair dessa. Eu prometo.
Mas ela não respondeu. Seus olhos perderam o brilho, e seu corpo relaxou em meus braços, as últimas respirações desaparecendo com o vento.
— Kiara? Kiara, não! — gritei, mas era tarde demais.
Coloquei seu corpo delicadamente no chão, o corpo dela marcado por flechas. O campo de batalha agora estava quieto, o som da guerra distante. Eu precisava me afastar antes que os arqueiros voltassem. Minhas pernas fraquejavam, mas consegui dar alguns passos, cada movimento enviando uma onda de dor por todo meu corpo.
Me encostei em uma árvore, o sangue ainda escorrendo pela minha barriga. Com as mãos trêmulas, tentei puxar a flecha que estava cravada em meu abdômen, mas a dor era insuportável. Minhas forças estavam se esvaindo, e a visão começou a ficar turva. Fechei os olhos, tentando conter as lágrimas de desespero.
— Por favor, Fenrir... me ajude. — Minha oração saiu como um sussurro, uma última súplica.
De repente, ouvi uma voz familiar, como um sussurro na brisa.
— Nessie...
Meus olhos se abriram levemente, e eu sussurrei em resposta:
— Jake...
Com o pouco de força que me restava, me levantei, seguindo o cheiro dele. Cada passo era uma luta, mas eu precisava chegar até ele. Quando o vi, senti uma onda de alívio varrer meu corpo. Jacob correu até mim, e eu desabei em seus braços, exausta.
— Jake... — sussurrei, minha cabeça repousando em seu peito.
Ele me segurou com firmeza, a preocupação estampada em seu rosto. Ele murmurou algo, mas eu não consegui entender. A dor era demais, o mundo ao meu redor ficando cada vez mais distante.
Então, de repente, a dor explodiu quando senti a flecha ser arrancada do meu corpo. Um grito escapou de meus lábios, mas tudo ao redor começou a desvanecer. A escuridão me envolveu, e o mundo desapareceu.
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