Os Filhos de Fenrir
55 Renesmee- Complexidades
A dor no ombro veio com força assim que voltei à minha forma humana. Leah estava ao meu lado em um segundo, cobrindo meu corpo com um tecido, enquanto Clara e Rachel faziam o mesmo com Kiara, que, derrotada e ferida, mal conseguia se levantar. Jacob deu uma ordem clara, seu tom autoritário como sempre.
— Levem Kiara para a casa dos pais dela.
Kiara olhou para ele com indignação, mas sabia que não estava em condições de discutir com o Alpha. As mulheres a ajudaram a caminhar, e Jacob se aproximou de mim ao perceber que eu também estava ferida.
— Você precisa cuidar disso — ele disse, o tom mais suave agora, mas com preocupação evidente.
— Você sabe que lobos se curam rápido — retruquei, tentando afastar a preocupação dele. Eu não queria que ele se importasse comigo. Não mais.
— Lobos, não lobas — ele respondeu de forma firme, antes de me pegar nos braços.
— Eu posso andar — protestei, frustrada com a sua insistência, mas ele me ignorou completamente, caminhando com firmeza na direção da casa que um dia também havia sido minha.
Enquanto entrávamos, senti uma mistura de emoções. Raiva, frustração... e uma pontada de saudade. Rachel veio logo atrás de nós, e logo em seguida Karin também apareceu. A pequena Kamy estava na sala e, ao me ver, olhou para Jacob, confusa.
— O que aconteceu? — Kamy perguntou, a preocupação se misturando à curiosidade em sua voz.
— É melhor você ir ver sua mãe — Jacob disse com firmeza.
Kamy bufou, revirando os olhos antes de sair apressada. — Não acredito nisso...
Rachel então se aproximou de mim e examinou meu ombro com cuidado.
— Está deslocado — ela constatou.
Karin, que estava por perto, deu um passo à frente. — Posso ajudar
Eu olhei para ela por um momento. Não esperava a oferta de ajuda. Antes que eu pudesse dizer algo, Jacob pediu a ela:
— Pegue água e alguns tecidos limpos.
Karin assentiu rapidamente e foi para a cozinha. Eu me virei para Rachel e sussurrei
— Ela parece ser uma boa mulher.
Rachel deu de ombros, mas não conseguiu conter um pequeno sorriso. — Ela é a única que se salva dos Alteara.
Karin voltou com a água e os tecidos, e Jacob apareceu logo depois com algumas ervas nas mãos. Ele me olhou com uma expressão séria.
— Vai doer.
Eu o encarei, irritada com o tom quase paternalista, mas sabia que ele estava certo. Assenti com relutância, tentando me preparar para o que viria a seguir. Quando ele começou a tratar o ferimento, a dor foi quase insuportável, e eu gritei, sentindo o impacto profundo.
Karin rapidamente colocou o tecido limpo sobre o local, agindo com uma calma impressionante. — Você precisa de roupas — ela observou, ao perceber que eu ainda estava nua sob o tecido.
Ela saiu da sala e subiu as escadas, voltando minutos depois com um de seus vestidos.
— Vou sair para que você se vista — Jacob disse, seu olhar me examinando por um momento antes de sair da sala.
Rachel e Karin me ajudaram a vestir o vestido, e eu finalmente consegui relaxar um pouco. Olhei para Karin e murmurei:
— Obrigada pela gentileza.
Ela apenas assentiu, o rosto levemente corado. Havia algo genuíno nela, e, por mais que eu quisesse manter minha guarda alta, eu não podia deixar de sentir uma ponta de empatia por ela.
Eu não me sentia confortável ali. O ambiente, as memórias, e, claro, o que eu realmente sentia — ciúmes. Mas jamais demonstraria isso. Levantei-me com dificuldade e tentei sorrir para Rachel e Karin.
— Estou melhor. Acho que preciso ir.
Jacob, que estava próximo, deu um passo à frente.
— Eu acompanho você.
— Não preciso de escolta — respondi, meu tom mais firme do que eu pretendia. Não queria depender dele. Não mais.
Rachel, sempre espirituosa, riu.
— Relaxa, Jake. Eu a acompanho. Não precisa se preocupar — disse, me lançando um olhar cúmplice.
Concordei com um aceno, e Rachel me ajudou a levantar. Karin também nos acompanhou em silêncio, e eu podia sentir Jacob nos observando enquanto saíamos da casa. Quando estávamos do lado de fora, fomos recebidas por Fenrir e Emmett, que estavam nos esperando. Fenrir correu até mim e me segurou pelos braços, a preocupação estampada em seu rosto.
— Mãe, você está bem?
— Estou, Fenrir. Só alguns arranhões. Mas o que você e seu tio fazem aqui? — perguntei, confusa com a presença deles.
Emmett, sempre com seu jeito despreocupado, deu de ombros.
— Sabia que você tinha vindo ao vilarejo. Fiquei preocupado — disse, lançando um olhar discreto para Karin, que estava um pouco atrás de mim.
O olhar que eles trocaram não passou despercebido. Levantei uma sobrancelha, encarando meu irmão com curiosidade, e ele percebeu, dando um sorriso maroto.
— Ei, não te treinei para sair brigando por aí — provocou, tentando mudar de assunto.
Eu sorri levemente, mas não estava totalmente alheia ao que acabara de acontecer entre ele e Karin. Algo estava acontecendo ali, e eu não era a única a perceber. Mas, por enquanto, deixei para lá.
— Vamos para casa — falei, me preparando para seguir adiante.
Antes de darmos mais um passo, Fenrir segurou meu braço, seu rosto sério.
— Posso ficar com meu pai?
A pergunta me pegou desprevenida, e por um momento meu coração vacilou. Fenrir sempre sonhou com Jacob, mas algo na maneira como ele pediu parecia diferente. Olhei para meu filho e depois para Jacob, que também aguardava minha resposta. Eu sabia que, com tudo o que estava acontecendo, ele estava dividido, assim como eu.
Respirei fundo e assenti.
— Claro, Fenrir. Fique com seu pai.
Ele sorriu, e eu soube que havia feito a escolha certa. Mas ao mesmo tempo, ao ver Jacob e meu filho juntos, a sensação de estar cada vez mais afastada daquele mundo me esmagava.
Jacob sorriu e puxou Fenrir para um abraço apertado, seus olhos brilhando de orgulho, como se tivesse conhecido o filho desde sempre. Senti um alívio invadir meu peito ao ver aquela proximidade entre os dois. Mesmo que Jacob o tivesse acabado de conhecer, o vínculo entre eles já parecia natural, inquebrável.
— Cuide-se, ok? — disse, inclinando-me para dar um beijo na testa de Fenrir. Ele assentiu, o sorriso no rosto aquecendo meu coração.
Quando me afastei, senti o olhar de Jacob sobre mim.
— Eu deixo Fenrir em casa à noite — ele disse, sua voz calma.
Assenti rapidamente, sem dizer nada, apenas querendo me afastar antes que o imprinting que agora pesava sobre mim me levasse a fazer algo que eu certamente me arrependeria. Caminhei na direção de Emmett, meu coração disparado pela simples proximidade de Jacob. Tentei me concentrar em outra coisa, lutando contra a onda de emoções que o imprinting me forçava a sentir. Não ia facilitar para ele. O Alpha teria que lidar com as consequências de suas escolhas antes de qualquer coisa.
Enquanto caminhávamos pela trilha, o silêncio entre mim e Emmett me incomodava. Observei meu irmão por um tempo, notando a inquietação em seu comportamento. Então, a ficha caiu, e uma suspeita que eu vinha ignorando se confirmou.
— Você teve um imprinting, não foi? — perguntei, encarando-o de lado. — Pela segunda esposa do Alpha.
Emmett baixou a cabeça, seus passos desacelerando. Seu silêncio só reforçou o que eu já sabia.
— Puta merda — murmurei, mas não pude evitar um sorriso.
Ele levantou os olhos, envergonhado.
— Eu não planejei isso, Nessie. Aconteceu. E agora... bem, agora está fora de controle.
Ri baixo, tentando aliviar a tensão. Se tem uma coisa que eu sabia bem, era como o imprinting podia ser confuso, bagunçado e completamente implacável.
— Bem-vindo ao clube — respondi, com um toque de ironia. — Mas vou te dizer uma coisa, Emmett. Não facilite as coisas pra ela também. Se o imprinting nos enlaça, eles que trabalhem duro para merecer isso.
Ele sorriu de volta, apesar de seu desconforto.
— Não vou. Ela... Karin é diferente. Não sei explicar.
— Não precisa. Eu entendo melhor do que você pensa — suspirei, sentindo o peso da minha própria situação.
O caminho até nossa casa parecia mais longo do que de costume, e com a realidade do imprinting de Emmett com Karin, percebi que nossas vidas estavam entrelaçadas de formas ainda mais complexas do que antes.
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