Os Filhos de Fenrir

65 Jacob- Guerra e Caos


O caos da batalha se espalhava por Vindalheim como uma tempestade. Os soldados de Asgardheim, pegos de surpresa, mal tiveram tempo de reagir ao ataque dos lobos. Eu corri pelas árvores, meu corpo pulsando com a adrenalina, sentindo cada batida de meu coração como se fosse a última. Ordenei a Emmett que libertasse os escravos e os levasse para um lugar seguro. Era a primeira vez que o via lutar ao meu lado, e sua lealdade era inquestionável.

— Emmett, liberte os escravos e guie-os para o abrigo! — ordenei mentalmente, a voz grave ecoando em sua mente.

Ele assentiu sem hesitar, desaparecendo pela floresta enquanto nós, os lobos, avançávamos contra o exército. A fúria dos nossos corpos em movimento, unidos como um só, nos dava uma vantagem enorme. Os soldados mal conseguiam levantar as espadas antes de serem abatidos.

— Sam, cuide dos arqueiros nas árvores. Dê cobertura para a matilha — disse mentalmente, confiando em sua experiência como líder

— Entendido, vou pegar aqueles malditos — Sam respondeu. Sua presença em minha mente era uma âncora de segurança. Eu sabia que ele não falharia.

Jeremy e Solomon logo se uniram a ele, derrubando os arqueiros com agilidade feroz. As árvores que antes abrigavam a morte agora estavam despovoadas, seus galhos manchados de sangue. Eu avancei pelo campo de batalha, cercado por soldados de Asgardheim. Podia sentir o cheiro da morte no ar, misturado ao suor e ao medo dos inimigos.

Então, do nada, senti uma conexão mental que não era minha nem de nenhum dos meus lobos. Um pensamento cruzou minha mente, intenso e inesperado. Fenrir.

O grande lobo avançou com uma velocidade que eu nunca havia visto, derrubando dois soldados em um movimento devastador. Sua presença era imponente, e por um breve segundo, o campo de batalha pareceu parar.

— Fenrir!*— gritei mentalmente, mas ele já estava ao meu lado, seus olhos fixos nos inimigos. — Você está de castigo pelo resto da vida por me desobedecer!

Ele me encarou, os olhos ardendo com determinação e fúria, mas também com algo mais: orgulho. Eu sabia que ele sentia o peso de estar ali, lutando ao meu lado, defendendo o que era seu por direito. Mesmo com a reprimenda, havia um laço entre nós, uma força inquebrável. Fenrir era meu filho, e naquela batalha, sua presença fez toda a diferença.

— Eu só quero lutar com você, pai — sua voz retumbou em minha mente, e mesmo que quisesse manter minha postura, um sorriso involuntário surgiu em meus lábios. Ele era obstinado, assim como eu.

Enquanto lutávamos lado a lado, vi o futuro da nossa linhagem. Não importava o que viesse, nós sempre estaríamos unidos, lobos, pai e filho.

— Protejam os flancos! — ordenei à matilha. A batalha estava quase vencida, mas ainda precisávamos manter nossas posições.

Fenrir avançava com uma fúria que me lembrava de mim mesmo quando jovem, derrubando qualquer um que se colocasse em seu caminho. Eu mal conseguia acreditar que ele estava ali, ao meu lado, lutando pela nossa terra, pela nossa gente.

Quando o último dos soldados de Asgardheim caiu, pude sentir o peso da batalha começar a desaparecer. As sombras da luta ainda estavam ao nosso redor, mas a vitória era nossa. Fenrir parou ao meu lado, seus olhos brilhando de excitação e triunfo.

— Você fez bem, garoto, disse mentalmente, enquanto olhava para o campo de batalha agora silencioso. — Mas ainda assim, está de castigo.

Fenrir riu em nossa mente compartilhada, e eu não pude deixar de rir também. Eu sabia que essa batalha era apenas o começo, mas com meus filhos ao meu lado, nada nos impediria de vencer o que viesse a seguir.

A voz de David invadiu minha mente como um trovão, cortando o caos ao meu redor.

— Não é só Fenrir, Alpha… Seth também.

Eu me virei, olhos arregalados, quando vi o lobo de Seth surgir ao lado do pai, correndo em meio ao campo de batalha. A raiva subiu à minha garganta como um fogo. Dois jovens desobedientes, correndo direto para a morte.

— Fenrir! Seth! Depois da batalha, teremos uma longa conversa com o Alpha! — gritei mentalmente, minha voz carregada de fúria.

Antes que pudesse organizar meus pensamentos, Quil me alertou com um grito mental:

— Jake! Um grupo de soldados está fugindo pelo lado sul!

Meu coração parou por um segundo e depois disparou. Meu instinto sabia o que isso significava. Nessie. Os soldados estavam indo direto para elas. O pânico tomou conta do meu corpo como uma corrente elétrica. Sam gritou, sua voz cheia de urgência.

— Alphas, corram e protejam suas betas! Os outros, defendam a vila!

Sem pensar, me joguei na corrida, meus músculos respondendo ao chamado do desespero. Fenrir estava ao meu lado, mas sua velocidade o impulsionou à frente, o desespero em seus olhos tão intenso quanto o meu.

— Nessie! — chamei mentalmente, minha voz transbordando de medo.

A conexão se estabeleceu por um breve segundo, e sua resposta veio rápida e desesperada.

— Estamos partindo para o leste! Eles estão nos atacando!

O leste! Meu coração afundou. Eu sabia o que estava no leste: arqueiros.

— Não vá para o leste! Nessie, tem arqueiros lá! Volte! Busque um lugar seguro, AGORA! — ordenei mentalmente, minha voz quase se quebrando de pânico. Mas a conexão se partiu abruptamente.

— Nessie! — gritei, sentindo o vazio na mente. Nenhuma resposta.

Eu sabia o que significava quando uma conexão mental era interrompida de repente. Era algo que nunca deveria acontecer entre nós, e agora, o vazio me aterrorizava.

Fenrir disparou à minha frente, seu corpo jovem e forte cortando a floresta em um borrão de desespero. Ele também chamava por ela, a angústia ecoando em nossa mente compartilhada. Eu mal podia acreditar que meu filho, tão jovem, estava vivendo isso agora. Mas não havia tempo para hesitações. Eu corri mais rápido, cada fibra do meu ser impulsionada pelo medo de perder minha família.

Os galhos e folhas chicoteavam meu corpo, o som das patas de Fenrir à minha frente, pesadas, cada vez mais distantes. Não podia perder Nessie novamente. Não agora. Não depois de tudo.

— Fenrir, mantenha a calma! — gritei em sua mente, mas a dor e o desespero eram incontroláveis.

Minha respiração vinha em arfar, meus pulmões queimando com o esforço. Eu mal conseguia manter meus pensamentos no lugar, o terror crescendo a cada passo. O tempo estava contra nós, e eu só podia esperar que quando encontrássemos Nessie, fosse antes dos soldados de Asgardheim.

A floresta se estendia interminável à nossa frente, mas eu sabia que nós dois — pai e filho — continuaríamos até o último suspiro. Nada, nem mesmo a guerra, me impediria de salvar minha família.

O cheiro de Nessie finalmente invadiu minhas narinas, misturado ao aroma familiar da floresta e ao ferrugem do sangue. Fenrir correu à minha frente, os músculos de seu corpo juvenil se movendo com uma agilidade que eu não esperava. Ele era uma força incontrolável, saltando de árvore em árvore, derrubando soldados de suas posições antes que tivessem a chance de disparar mais flechas.

As rajadas de flechas começaram a chover sobre nós, mas Fenrir se movia como um raio. Ele pegava impulso de um galho para o outro, derrubando arqueiros que, ao atingirem o chão, eram rapidamente abatidos pelos lobos que os seguiam.

Eu o segui, meu corpo quase automático, instintivo. Mas então, mais à frente, meus olhos se arregalaram. Lá, no meio da clareira, uma figura que conhecia bem estava caída, seu corpo crivado de flechas. Meu coração parou por um momento. Kiara.

Voltei imediatamente à minha forma humana e me aproximei dela, a garganta apertada pelo choque. Suas feridas eram profundas, mas seu sorriso, surpreendentemente, ainda estava lá, suave e tranquilo.

— Kiara… — minha voz saiu rouca enquanto a pegava nos braços, sentindo sua vida escorrer diante de mim.

Seus olhos, ofuscados pela dor, se concentraram em mim por um breve segundo.

— Cuide de Kamy... — ela sussurrou, antes de expirar pela última vez. Sua vida se foi como o vento.

A dor me atingiu com força, mas não havia tempo para lamentar. Eu a deitei suavemente no chão, o coração apertado, mas algo muito mais urgente tomou meu foco.

— Nessie!— gritei, olhando ao redor, desesperado. Fenrir, agora em sua forma humana, estava ao meu lado, o rosto coberto de lágrimas. Ele viu tudo, sentiu tudo.

E então, um som. Um farfalhar suave nas folhas secas, vindo das árvores. Meus olhos se arregalaram quando a vi. Nessie, com uma flecha cravada em seu abdômen, tropeçava para fora das sombras, pálida e fraca.

— Jake... — ela sussurrou, antes de cair em meus braços.

Meu mundo desmoronou naquele momento.

— Nessie! — gritei, a segurando firme, o pânico tomando conta de mim.

Fenrir soluçava ao meu lado, seus olhos fixos na mãe.

— Eu vou ficar bem... — ela tentou sorrir, mas a dor era evidente em seu rosto.

Eu sabia o que tinha que fazer, mesmo que doesse mais do que qualquer coisa. Segurei a flecha firmemente.

— Vai doer, Ness... mas eu preciso tirar isso. Pode ser envenenada.— minha voz era um eco de desespero.

Antes que ela pudesse responder, arranquei a flecha com força. Nessie gritou, o som perfurando meu coração como uma lâmina, mas a flecha estava fora. Sem tempo para hesitar, levantei-a em meus braços.

— Se transforme, Fenrir. Vamos levá-la para o a campamento— minha voz era baixa, controlada, mas o medo me corroía por dentro.

O lobo disparou pela floresta, comigo montado sobre ele, o peso de Nessie em meus braços o fazendo correr mais rápido do que jamais correu antes. O desespero era como uma força invisível o impulsionando.

Nada mais importava. Eu tinha que salvá-la.