Os Filhos de Fenrir

62 Jacob- A noite dos guerreiros


A lua nova estava alta no céu, envolta em escuridão, enquanto todos os lobos das tribos se reuniam na clareira. O ar estava denso com antecipação, o cheiro da terra úmida misturado ao perfume das fogueiras que iluminavam a noite. A música tribal ecoava por toda a floresta, uma melodia antiga que vibrava no coração de cada guerreiro. O som dos tambores reverberava, pulsando no ritmo do sangue de todos os presentes, e o momento parecia suspenso entre a calmaria e o caos que estava por vir.

Caminhei entre os lobos, cada um deles pronto para a batalha. Sabíamos que, em algumas horas, estaríamos frente a frente com o inimigo. Essa noite era para honrar os guerreiros, para celebrar nossa força antes do confronto inevitável. E ali, no centro da clareira, meus olhos se fixaram nas minhas filhas. Kamy dançava com Jason, rindo como se a guerra não estivesse logo à espreita. Fay estava com Seth, os dois se movendo em perfeita harmonia, enquanto a luz da fogueira projetava sombras dançantes em seus rostos.

Eu observava tudo, com um sorriso leve, mas o peso da responsabilidade não saía do meu peito.

— Pai! — a voz de Josh me chamou, me tirando dos meus pensamentos. Ele se aproximou, e eu o peguei no colo com um carinho automático.

— Vai mesmo para a guerra, pai? — Josh perguntou, com a seriedade que só uma criança prestes a perder seu pai para o campo de batalha poderia ter.

Suspirei e passei a mão pelos cabelos dele.

— Sim, filho, é meu dever. Mas você também tem um dever importante aqui — disse, olhando nos olhos dele. — Preciso que cuide da sua mãe e das suas irmãs enquanto eu estiver fora.

Josh acenou com a cabeça, como se estivesse aceitando a maior missão de sua vida.

— Pode deixar, pai. Vou cuidar de todo mundo! — ele respondeu, antes de sair correndo em direção a Fenrir.

Foi então que Karin se aproximou. Dei a ela um sorriso caloroso, tratando-a com o respeito e o carinho que sempre mereceu.

— Está bem? — perguntei, genuinamente interessado.

Ela assentiu, seus olhos vagando pela clareira até pousarem em Nessie, que estava mais distante, conversando com outras betas.

— Ela ainda não te perdoou, não é? — Karin perguntou, com um tom suave.

Suspirei, sentindo o peso daquela pergunta. Olhei para Nessie, o amor da minha vida, e um aperto familiar cresceu no meu peito.

— Talvez ela nunca me perdoe. Eu fui um cretino com ela... e com você também, Karin.

Karin balançou a cabeça e sorriu gentilmente.

— Não, Jake. Você foi bom para mim. Eu só desejo que você seja feliz.

Antes que eu pudesse responder, percebi que Nessie estava nos observando de longe, seus olhos se cruzando com os meus por um breve segundo. Karin notou o mesmo.

— Vou encontrar Emmett — disse ela, sorrindo antes de se afastar.

Eu assenti e voltei a olhar para Nessie. Não consegui evitar que meus pés me levassem até ela, mesmo que o espaço entre nós ainda estivesse repleto de tantas coisas não ditas. As betas das outras tribos me cumprimentaram com reverência enquanto eu passava, mas meus olhos estavam fixos apenas nela.

— Luna — chamei, com um leve sorriso nos lábios. — Aceitaria dançar comigo?

Nessie olhou ao redor, claramente ciente dos olhares das outras betas sobre ela. Por um segundo, pareceu ponderar, mas então seus olhos encontraram os meus novamente, e ela assentiu.

— Seria uma honra — respondeu, pegando minha mão.

Conduzi-a até o centro da clareira, onde a música ecoava ao nosso redor, os tambores parecendo bater no mesmo ritmo do meu coração. O toque de sua mão na minha ainda era familiar, mas havia uma distância emocional que nenhum movimento poderia encurtar.

— Isso foi golpe baixo — disse ela, com um leve sorriso nos lábios enquanto começávamos a dançar.

— Não foi intencional — respondi, olhando diretamente nos olhos dela. — Mas, se eu morrer amanhã na guerra, quero ter uma última lembrança da mulher que eu amo.

Ela não respondeu de imediato, mas seus olhos brilharam com uma emoção que ela tentou esconder. Movemo-nos juntos, em silêncio por alguns momentos, enquanto a música e a noite ao nosso redor continuavam.

— Você não vai morrer, Jake — Nessie disse, sua voz firme, mas com uma suavidade que me pegou de surpresa. — O grande Fenrir não permitirá.

Eu a olhei nos olhos, tentando decifrar o que se passava na mente dela. Havia algo mais profundo por trás de suas palavras, e a conexão que sentíamos parecia pulsar entre nós. Por um momento, o mundo ao nosso redor sumiu. As fogueiras, a música, os outros lobos… tudo ficou em segundo plano. Era só eu e ela.

— Não faça isso comigo — ela pediu, quase em um sussurro, como se estivesse se defendendo de algo mais doloroso que qualquer batalha.

— Eu tenho me esforçado, Nessie — falei, minha voz carregada de uma verdade que ela já conhecia. — Nos últimos meses, tentei ser o homem que você merece.

Ela suspirou e olhou para o chão por um segundo, antes de voltar seus olhos para mim.

— Eu sei. Eu reconheço isso, Jake. Mas agora não é hora de pensar nisso — disse ela, tentando me puxar de volta para o presente. — Você precisa se concentrar na guerra, no que vem pela frente.

Me aproximei um pouco mais, sem romper a tensão que havia entre nós, e toquei delicadamente o queixo dela, forçando-a a me olhar nos olhos novamente.

— Você não faz ideia da dor que sinto por não poder te beijar, por não poder te tocar como eu quero — admiti, minha voz baixa e rouca com a confissão.

Nessie me olhou, seu rosto sério, mas havia um pequeno brilho de compreensão em seus olhos.

— Eu imagino sim, Jake — ela disse, com um leve sorriso surgindo nos lábios. — Eu tive um imprinting, lembra?

Nós dois rimos juntos, a tensão se dissipando por um breve momento, como se, naquele instante, o peso do mundo fosse insignificante comparado à nossa cumplicidade. Continuei segurando-a, nossos corpos se movendo devagar ao ritmo da música, e enquanto dançávamos, não consegui resistir. Inclinei-me e a abracei, sentindo seu corpo contra o meu, como se estivesse tentando fixar essa memória para sempre.

— Me perdoa... — sussurrei, quase sem voz, perto do ouvido dela.

Nessie fechou os olhos, sua respiração pesada por um segundo, e respondeu em um sussurro igualmente suave:

— Jake… não faz assim…

Percebi, naquele momento, que algo dentro dela tinha se quebrado, mas não era uma coisa ruim. As barreiras que Nessie havia erguido ao nosso redor estavam desmoronando. Ela não estava mais se defendendo de mim, e eu sabia que esse era o momento que eu esperava há tanto tempo. Sem pensar duas vezes, inclinei-me e a beijei.

Para minha surpresa, ela não me afastou. Não houve rejeição, apenas a aceitação de algo que estava há muito tempo latente entre nós. O beijo foi suave no início, como se ambos estivéssemos testando as águas, mas rapidamente se tornou mais intenso, como se finalmente pudéssemos nos libertar de toda a dor, da distância, de tudo o que havia nos separado até ali.

Quando nos separamos, por pura necessidade de ar, ela manteve os olhos fechados por um momento, como se processasse o que havia acabado de acontecer. Eu a observava, o coração acelerado, esperando qualquer reação.

— Ness… — comecei, mas ela apenas colocou um dedo sobre meus lábios, silenciando-me com um gesto terno.

— Shhh… — ela murmurou, os olhos finalmente se abrindo e encontrando os meus novamente. — Não agora, Jake.

Assenti, compreendendo. Não era o momento para resolver tudo, mas aquele beijo… aquele momento era o início de algo. E para mim, isso já era o suficiente.

Ela se afastou devagar, a música ainda tocando ao fundo, e me deu um último olhar antes de se virar e caminhar em direção às fogueiras. Eu fiquei ali, observando-a ir, com o gosto do beijo ainda nos meus lábios e o coração mais leve, sabendo que, por mais que a guerra estivesse à nossa porta, algo entre nós dois tinha melhorado.