Os Filhos Proibidos
34 Capítulo 34 - Nice
Notas iniciais
Karen conseguia ser esperta quando queria.
Nice concluiu tal coisa quando a ruiva, em um surto de inteligência reunida – algo raro de acontecer com Karen, diga-se de passagem -, convocou vários lobos (de forma misteriosa) e iniciou um diálogo com eles, explicando quem eles deveriam atacar na hora certa.
E não é que deu certo?
Pela primeira vez, Karen mostrou o motivo de sua existência.
Enquanto ouvia as exclamações de pura indignação de seus antigos amigos, Nice buscava a tal profecia OFP, com o auxílio de Brian, James, Silas e Karen.
– Vamos nos separar, vai ser mais rápido – sugeriu Nice, dando de ombros.
Os outros concordaram e seguiram para longe, procurando em outras prateleiras a “Profecia OFP”. Nice torcia para que a profecia realmente profetizasse algo interessante, pois todo aquele esforço estava deixando-a irritada.
Quando o tempo pareceu correr mais depressa e a noite chegava, Nice começou a se desesperar. Os grunhidos dos lobos já não eram como antes, o que indicava que Ana, Josh e a pirralha sem nome (Nice não se importou em saber o nome dela), teriam passado pela barreira de lobos.
Mas a enrolação deles durante uma hora já foi o suficiente.
Nice tinha certeza de que a profecia estava bem perto dela, ou seja, só precisava ter atenção.
“Atenção, Nice”. Pensou ela, estreitando os olhos para poder ver com atenção os nomes nos globos empoeirados. “A profecia está por aqui”.
– NICOLLE LENHART! – uma voz autoritária soou por aquele corredor, chamando sua atenção.
Nice olhou a sua direita e não conseguiu segurar o riso. Ana e Josh estavam ali, com expressões furiosas. Mas o hilário da situação não era apenas isso; era o fato deles estarem completamente sujos, desleixados, com as roupas em farrapos e com vários hematomas e cortes pelo corpo – sem contar nos cabelos, que parecia mais com ninhos de ratos.
– Eeeei – a morena abriu os braços, em falsa saudação. – Queridos amigos, ou devo dizer, ex-amigos. A que lhes devo tal honra?
– PARE DE FALAR DESSE JEITO! – Ana se sacudiu inteira para poder gritar, o que foi cômico. – E VOCÊ SABE PORQUE ESTAMOS AQUI!
– Sei? – Nice se fez de desentendida, tentando arrumar tempo. A essa altura, Brian, Silas, James ou Karen deveriam ter achado alguma coisa. – Tem certeza do que afirma, Salvatore?
– AHHHHH! JOSH, FALA COM ELA, ANTES QUE EU FAÇA UMA BESTEIRA! – Ana empurrou o garoto, que a encarou com um olhar de “Eu?”, mas não hesitou em dar um passo à frente e fuzilar Nice com o olhar.
– Nice... – começou Josh, respirando fundo. – Estamos aqui pela profecia OFP...
– Jura? Que legal... – Nice arqueou uma das sobrancelhas, fingindo interesse.
– A questão é – Josh parecia se esforçar para permanecer calmo. – Que fomos atacados por lobos...
– Que emocionante... – Nice bocejou, incrivelmente entediada.
– E sabemos que foi você, para nos atrasar – completou Josh, com um quê de indignação na voz.
– Estão me acusando? – Nice deu um passo à frente, usando sua voz ameaçadora. – Tem certeza?
– É óbvio que foi você – acusou Ana, com uma risada aluscinada. Estava realmente pirando. – Quem mais teria coragem de soltar um monte de... Lobos em cima de nós? Eles... Eles... Quase nos mataram!
– Percebe-se. – Nice sorriu inocentemente, referindo-se ao estado dos dois.
– Você encontrou a profecia? – perguntou Josh, com um olhar cansado.
Nice franziu o cenho.
– Profecia? Que profecia? – questionou a morena, deleitando-se com o fato de irritar os dois.
Ana bufou, tentando avançar para Nice, mas sendo contida por Josh.
– Nice – o garoto respirou fundo. – É melhor dizer. Nós também temos direitos a essa profecia...
– Se enganam – Nice sorriu maldosamente. – Não tem direito algum. Nenhum dos dois.
– Nice... – Karen surgiu, juntamente com James, Silas e Brian. – Encontramos a profecia.
– Eles já estão aqui? – observou Silas, encarando Ana e Josh de forma avaliativa.
– Infelizmente – Nice encarou Karen. – Onde está a profecia?
– Vem comigo – a ruiva começava a se distanciar pelo corredor, quando um lampejo a atingiu em cheio, fazendo com que a mesma caísse no chão, inconsciente.
Nice olhou na direção do lampejo e viu a “Garota Sem Nome”, com a varinha erguida, em sinal de desafio.
Ana e Josh sorriram vitoriosos, aproximando-se do grupo.
– Quem está ferrado agora, Nice? – questionou Ana, fazendo com que Nice estreitasse os olhos.
– Tecnicamente ela não disse isso – Josh balançou a cabeça.
Ana revirou os olhos, mas nada disse. Aproximou-se de Nice, que riu.
– O que foi? – a garota parecia confusa, o que fez Nice rir ainda mais.
– Sabe, vocês são muito burros – comentou, encarando-os com desdém. – Vocês nem sabem onde a profecia está.
– Mas Brian pode nos dizer – a “Garota Sem Nome”, sorriu de modo incentivador para o garoto, que desviou o olhar, aparentemente confuso e frustrado. – Não é Brian? Diga-nos. Diga para mim onde está a profecia OFP.
– Brian... – Nice hesitou por um instante, ansiosa.
– Está três corredores depois deste – disse Brian, automaticamente.
James fechou os olhos, irritado. Nice balançou a cabeça, negativamente. Silas revirou os olhos, enquanto colocava Karen sob os ombros.
– Pronto, sabemos onde a profecia está – Ana sorriu vitoriosa. Encarou Nice, com deboche. – Até logo, Nice.
Quando Ana, Josh e a “Garota Sem Nome” faziam menção de sair dali, uma sombra os envolveu negra e obscura. Nice encarou James, que mantinha os olhos fechados, concentrando-se.
Então, o gesto de fechar os olhos não fora por frustração, afinal.
– O que está... – a “Garota Sem Nome” parecia terrivelmente assustada. Ou melhor, comicamente.
Nice tomou a frente, fechando os olhos e imaginando chamas envolvendo aqueles três curiosos, babacas e burros — sim, porque se pensavam que Nice assistiria de braços cruzados o instante em que eles colocariam as mãos na profecia OFP, ah, eram realmente muito retardados.
As chamas surgiram, varrendo o chão e passando por Nice, atingindo em cheio seus alvos.
A explosão soou alta e clara, permitindo que a autora de tal ação sorrisse, sentindo-se maravilhosamente bem.
Sabia que não os tinha matado, mas atrasá-los já era o suficiente.
– Onde está a profecia? — questionou, voltando-se para James e Silas.
James puxou Nice pelo braço, enquanto Silas ficava para trás, se encarregando de tratar de Brian e Karen, ou melhor, reanimá-los — Brian não resistiu aos encantos da "Garota Sem Nome" e caiu na incosciência. Realmente patético.
Nice e James foram parar diante de uma prateleira, três corredores depois do que estavam.
– Aqui — o garoto indicou o glopo empoeirado, que estava no alto, misturado aos outros.
Nice estreitou os olhos, identificando as palavras inscritas abaixo do globo.
Para Ana Salvatore, Josh Stwart e Nicolle Lenhart, Os Filhos Proibidos.
A morena levou a mão até o globo, que apanhou cuidadosamente, analisando diante de seu rosto.
– Oh meus deuses — sussurrou, observando atentamente o globo empoeirado. Podia perceber que uma fumaça arroxeada brilhava intensamente dentro da esfera, rodando sem parar, lentamente. — Pensei que não existisse...
James empurrou Nice na hora exata que raios e um jorro de água partiram para cima deles. O moreno voltou seu olhar para trás, enquanto ajudava a garota a se levantar.
Nice colocou a profecia no bolso interior das vestes e se preparou. Ana e Josh aproximavam-se, com expressões furiosas.
– Nós também temos direito a essa profecia, Nice — Josh trincou os dentes, enquanto vários relâmpagos brilhavam por seu corpo.
– James — Nice voltou seu olhar para o moreno. — Volte para os outros. Verifique se a outra garota está atacando-os. Se estiver, sabe o que fazer. Vou ficar e cuidar deles de uma vez por todas.
James assentiu, aparentemente querendo dizer algo, mas saindo em seguida. Nice suspirou e voltou-se para os dois, logo que ambos se preparavam.
Ana conjurou um jorro de água, que circulava seu corpo lentamente, ao mesmo tempo que Josh convocava raios e trovões, para que viessem em seu auxílio.
Nice pensou nas chamas, na quentura e na calma que lhe proporcionavam, e sentiu as surgindo aos seus pés, e consumindo-a lentamente, carregando-a com poder.
Os três se encararam por um instante, até que Ana e Josh atacaram. Nice sentiu as descargas de energia elétrica e água, atingindo seu corpo e provavelmente, causando danos.
Mas não se importou.
Conseguiu refrear uma dor maior e revidou com toda força que reuniu. Labaredas voaram nas direções de ambos, mas Ana os protegeu com uma barreira de água.
Maldição!
Nice conjurou bolas de fogo e atirou-as, uma a uma, tentando acertar aqueles dois patifes. Sentia raiva por errar e principalmente, pelos dois continuarem lutando por algo inútil.
Por uma causa inútil.
A batalha entre os três durou por longos instantes, onde nenhum deles pronunciou qualquer palavra. Apenas as explosões eram ouvidas, indicando que nenhum dos três desistiria de seu objetivo.
Em um instante de cansaço, Nice optou por desviar ao invés de se proteger com seu escudo de chamas.
Esse foi seu erro.
Ao desviar dos raios, um jorro de água a atingiu em cheio, lançando-a para trás, contra uma prateleira. Vários globos de vidro caíram ao seu redor, estilhaçando e lançando palavras ao vento, profecias sobre bruxos desconhecidos.
Nice fechou os olhos, sentindo a dor no peito e nas costelas. Suas roupas estavam encharcadas, tal como seus cabelos escuros.
Abriu os olhos e viu a Profecia OFP, sendo analisada atentamente por Josh.
Porcaria! O globo havia caído de seu bolso quando fora atingida por Ana.
– Acho que teremos de jogá-la no chão caso queíramos ouvi-la — supôs Ana, pensativa.
Nice trincou os dentes, furiosa. Odiava ter seus planos interceptados por terceiros.
– Nem pense nisso! — exclamou, começando a se levantar.
Josh a encarou, com a sobrancelha arqueada.
– Temos tanto direito quanto você — revidou, demonstrando calma.
Nice bufou, sentindo seu corpo latejar ao tentar levantar-se. Não poderia impedir que o paquiderme do Stwart destruísse o globo. Suas forças estavam esgotadas e com o lançamento de mais labaredas, corria o risco de perder a cosciência.
O jeito era observar enquanto aqueles dois desvendavam o contéudo da Profecia OFP.
Josh encarou Ana, aparentemente buscando confirmação. Nice forçou-se a encarar o teto, pois corria o risco de vomitar com tanta babaquice.
– Jogue logo a porcaria do globo no chão, Stwart! — disse a morena, de forma impaciente. — Antes que eu consiga me levantar e esfolar vocês dois.
Josh lançou um olhar de indignação para a garota, mas Ana deu uma cotovelada no garoto, o incentivando.
Stwart respirou fundo e lançou o globo ao chão, com força extrema. Ana e Josh se afastaram, enquanto Nice levava um dos braços a altura dos olhos.
Uma fumaça arroxeada esvoaçou por entre as estantes, ao mesmo tempo que uma luz extremamente forte iluminou o centro do corredor.
Uma voz doce e melódica, bem diferente do Oráculo no Acampamento Meio-Sangue, profetizou:
Os Filhos Proibidos, juntos irão
Defender o mundo de uma grande ameaça.
Dois deles serão os heróis.
Um deles perecerá diante da própria dor.
Dois deles viverão com a culpa,
Enquanto o outro viverá com o caos.
Três mundos se mostrarão,
Com destinos diferentes dos que eram previstos.
Os Filhos Proibidos, no fim se unirão,
Para enfrentar aqueles que retornaram do mal.
A fumaça se estinguiu de uma só vez, tal como a voz e a luz. O que era visível, eram apenas os cacos de vidro, a única coisa que provava a existência de um globo de vidro.
Nice estava ofegante, com o coração acelerado. Seu corpo tremia e a garota conseguia sentir o suor nas mãos.
As palavras ainda ecoavam em sua mente, sem cessar.
Ela era a vilã da história, portanto, as desgraças previstas ao terceiro "Filho Proibido", eram para ela, Nicolle Lenhart.
A morena se arrastou para longe do globo destruído, com medo de que a voz retornasse. Sabia que seu fim estava próximo, mas ouvir que isso realmente aconteceria a afetou seriamente.
Ana e Josh pareciam tão perturbados quanto ela. Ambos tremiam e estavam pálidos, péssimos aliás.
– Nice... — começou Ana, e sua voz soou com um quê de pena. Nice se enfureceu.
– MORRAM! — gritou, lançando labaredas na direção dos dois.
Essa foi sua última ação, antes de cair na incosciência, mergulhar na escuridão sem fim e torcer para que fosse seu fim eterno.
(...)
– Querida... — A voz ecoava em sua mente, doce e carinhosa, repleta de preocupação.
Eu morri?
Foi seu primeiro pensamento, enquanto retornava para seu corpo, tendo sua mente de volta. Abriu os olhos, em um súbito de nervosismo e dor.
Seu corpo inteiro doía.
Foi a primeira sensação, até finalmente entender o que se passava ao seu redor. Uma mulher de cabelos encaracolados a observava, com o semblante indicando cansaço e a preocupação acentuada em seus olhos.
Nice percebeu que estava na Enfermaria de Hogwarts, ocupando a única maca dali.
– Que bom que acordou, filha — murmurou Annelize, suspirando aliviada e segurando a mão da morena com força.
– Mãe... — Nice sentou-se na cama, ainda confusa. — O que houve?
– Você perdeu a cosciência. James disse que você estava na Sala Precisa, treinando quando isso aconteceu. Fiquei preocupada e como eu estava em Hogsmeade, resolvi vir até aqui — respondeu a sra.Lenhart, com um leve sorriso nos lábios.
Nice franziu o cenho por um instante. Sua memória começava a trabalhar, mostrando fatos que ocorreram no Ministério da Magia, quando Nice e seus amigos estavam em busca da Profecia OFP.
James não contara a verdade a sra.Lenhart, por algum motivo.
– O que a senhora estava fazendo em Hogsmeade? — perguntou Nice, desconfiada.
– Bom — Annelize sorriu largamente. — Conheci um bruxo milionário, que promete me bancar.
– Você não muda — Nice balançou a cabeça negativamente. Sua mãe sorriu.
– Nem você — Riu, afagando os cabelos da garota. Por um momento, Nice pensou que a mãe fosse chorar. Não, fora apenas impressão. Annelize Lenhart nunca chorava.
Só vou chorar quando você morrer, o que duvido muito que aconteça.
Certa vez, Annelize dissera isso, quando Nice havia feito seu pacto com Cronos. A herdeira Lenhart ficou orgulhosa de si mesma, por saber que sua mãe confiava nela.
– Mãe... — começou Nice, pensando em como expressar sua preocupação. Suspirou frustrada. — A Guerra está próxima...
– Eu sei — Annelize respirou fundo. — Cronos está pronto com seu exército. Provavelmente, no próximo mês...
– É — Nice balançou a cabeça. — Vou ter que voltar para Nova York o mais rápido possível.
– Sim — Annelize sorriu. — Você finalmente irá servir Cronos. Irá destruir os deuses e ter o que tanto quis; vingança.
Nice sorriu brevemente. Sua mãe — infelizmente -, não tinha conhecimento de todos os seus planos.
– Obrigada por confiar em mim, mãe — Nice, em um impulso, abraçou sua mãe. Annelize pareceu surpresa, já que a filha quase nunca agia tão carinhosamente. — Não vou te decepcionar.
A sra.Lenhart nada disse, mas também não foi necessário. Nice entendia sua mãe o suficiente para saber que ela estava feliz.
(...)
– Boa sorte com Voldemort, Harry — Nice sorriu para o amigo, que lhe devolveu o gesto.
Nice, James, Brian, Karen e Silas, estavam prontos para partir da Plataforma 9 ³/4, e seguir para o aeroporto de Londres.
– Valeu, Nice — Harry suspirou, enquanto Rony e Hermione aproximavam-se do amigo. — Boas férias.
– É. Se quiser aparecer na Toca, fique a vontade — disse Rony, de forma casual.
– E qualquer coisa, mande cartas — avisou Hermione, com um sorriso amigável.
Nice assentiu, sorrindo brevemente.
– Obrigada. Obrigada por tudo — E abraçando cada um deles, acenou, distanciando-se do grupo.
– Você é muito sociável com eles — comentou Karen, em tom de reprovação.
– Você deveria ser menos rabugenta — sugeriu Nice, sem se importar. — Com certeza você seria bem mais legal.
– Haha — Karen revirou os olhos.
Nice, de relance, viu Ana e Josh seguindo mais a frente, apressados para passar pelo paredão que se estendia a frente deles.
Nice parou por um instante, hesitando. James surgiu ao seu lado, seguindo seu olhar.
– Achei melhor sua mãe não saber o que houve — comentou, calmamente.
Nice o encarou, sorrindo agradecida.
– Você estava certo em achar isso — E voltou a caminhar, empurrando seu carrinho.
Ana e Josh já haviam desaparecido, o que era um bom sinal. Karen, Silas e Brian seguiam mais a frente, discutindo como sempre.
Nice, por um breve instante, segurou a mão de James, buscando segurança. Felizmente, o garoto não se afastou ou rejeitou seu gesto. Muito pelo contrário. Retribuiu o aperto, transmitindo-lhe segurança.
Nice suspirou, torcendo para que, futuramente, tudo acabasse bem.
Fale com o autor