Os Filhos Proibidos
36 Capítulo 36 - Josh
Notas iniciais
Ele? Estava bem, obrigado. Perfeitamente bem. Pronto para a pior guerra de sua vida -ou melhor, a única — e muito animado com a probalidade de morrer.
As desvantagens de ser um herói, é que quase nunca você morre sendo um. Ou você morre por causa de um infarto ao ver um monstro asquerozo — Argh! — ou você morre porque o monstro asquerozo matou você antes que você tivesse o infarto — Que trágico, não?
Resumindo, ser um herói é complicado, principalmente se você é filho de um deus super incrível — tipo o deus dos deuses e do Olimpo! — e os monstros sentem seu cheiro a distância — mesmo que você use litros de perfume francês!
Josh Stwart passava por sérios problemas. Primeiro, estava a caminho da guerra. Segundo, teve que ir de bicicleta porque não tinha dinheiro. E terceiro, um monstro resolveu persegui-lo e tentar tirar sua maravilhosa vida.
Ótimo. Seu dia não poderia estar melhor.
– Olha, eu sugiro que você desapareça por uns tempos — Josh estava com um martelo de bronze pronto para estourar os miolos daquele monstro feioso e com bafo de narguilé. — Tipo, que tal uma viagem para o Tártaro?
O monstro rugiu, mas Josh pisou no peito do mesmo, suspirando dramaticamente.
– Pelo visto você gosta de sofrer — Josh ergueu seu martelo. — Hasta la vista, baby!
E sem pensar duas vezes, acertou o martelo na cabeça do monstro, fazendo-o se desintegrar. Alguns instantes depois, a calçada do beco estava coberta por cinzas.
– Ah, que droga! — Josh sacudia sua camisa. — Sophia vai pensar o que quando me ver assim?
– Que você é um herói? — uma voz doce e divertida soou as suas costas, provocando um nervosismo desnecessário a Josh.
O moreno virou-se, sorrindo enquanto transformava seu martelo em pulseira novamente.
– Ei Soph — Josh coçou a nuca, pensativo.
Sophia sorriu-lhe, radiante. Seus cabelos encaracolados caíam em cascata por suas costas, indo até a cintura. Seus olhos escuros o avaliaram com atenção, enquanto seus lábios rosados se entreabriaram para permitir que novas palavras saíssem.
– Está indo para o acampamento? — questionou, aproximando-se e segurando a bicicleta do garoto.
– Ah... É. — Josh se aproximou a passos lentos, hesitante. — Eu... Quíron me convocou e... Vai haver a guerra e tudo o mais.
– É — Sophia sorriu tristemente, passando as pontas dos dedos pelo banco da bicicleta. — A guerra.
O silêncio pairou entre ambos, incomôdo. Josh pegou sua bike e arrumando a mochila nas costas, se pôs a caminhar. Sophia o seguiu, com a cabeça baixa.
– Você não parece bem — comentou ele, observando-a atentamente.
– Eu... Estou... — Sophia balançou a cabeça. — Bem.
– Não está não — insistiu Josh, com um sorriso de lado. — Te conheço, srta.Lenhart...
– Meu pai morreu.
Josh parou de caminhar, o sorriso desfazendo-se de seus lábios. Sophia não parou de caminhar, até perceber que o garoto parara, e resolveu fazer o mesmo. O encarou, seus cabelos esvoaçando por conta do vento.
– O quê? — Josh franziu o cenho, incrédulo. Sophia desviou o olhar, segurando seus próprios braços.
– Um monstro invadiu nosso apartamento, antes de eu ter as férias de Hogwarts — disse, com o olhar distante. — E... Meu pai tentou lutar, mas acabou morto. Foi isso.
Josh ainda não acreditava no que acabara de ouvir. O pai de Sophia... Morrera? Fora morto por um monstro?
– Eu sei que você vai me dizer que sente muito. Mas... — Sophia suspirou. — Não precisa sentir. Eu estou bem agora...
Josh estava perplexo com a notícia, que mal prestou atenção às palavras de Sophia. Ela havia perdido o pai. Sophia estava passando por um pesadelo e Josh não podia fazer nada.
Porque dizer "Tudo vai ficar bem" ou "Isso vai passar", seria mentir e acabaria soando falso.
A dor da perda sempre se faria presente. A ferida continuaria aberta. Apenas o tempo poderia interferir a amenizar a tristeza.
– Eu não diria isso — pronunciou-se Josh, de forma convicta. Sophia arqueou as sobrancelhas, surpresa. — Eu não sinto muito, porque sei que sua dor é apenas sua. Ninguém pode senti-la por você e muito menos dizer que a sente, pois soaria falso e seria uma grande mentira. Você não quer um consolo e eu entendo você. Eu já tenho minha própria dor, tal como a sua.
– Sua própria dor... — Repetiu Sophia, incoscientemente. — Qual é a sua dor?
Um vento mais forte soprou para ambos, que encaravam-se sem piscar. Josh, por fim, acabou cedendo àquela pressão feita pela garota.
Sophie — ou Sophia, como Josh gostava de chamá-la — Jasmine Clearwalther era a garota mais manipuladora que o Stwart já conhecera. Conseguia mexer com ele de uma forma totalmente diferente, matando sua consciência e tornando-o seu caso quisesse.
– Matei meu irmão mais velho quando eu tinha cinco anos — Josh permaneceu impassível, tentando parecer indiferente àquele assunto. — Foi por causa de algum monstro, não tenho certeza. Mas sei que vi uma criatura estranha atrás dele e... Tentei defendê-lo. Explodi uma rua inteira, convocando raios e trovões. — Fez uma curta pausa, renovando seus pensamentos e tentando não se lembrar da cena vivida a anos atrás (o que era quase impossível). — Depois, acordei em um hospital e recebi a notícia de que eu tinha matado meu irmão. Minha mãe fez questão de jogar isso na minha cara, ignorando completamente o fato de eu ser uma criança. — Riu com amargura, lembrando-se de Catherine e Fernando, que passaram grande parte do tempo ignorando Josh, até depois dele entrar no Acampamento Meio-Sangue e em Hogwarts, mais tarde. — Ela me odeia até hoje, tal como o Fernando, o meu padrasto insuportável.
Abrir-se daquela maneira o incomodou, mas Josh não conseguiu segurar as palavras. Sophia exercia um grande poder sobre ele e, mesmo não usando seus poderes, emanava uma segurança e confiança que Josh não podia resistir ao impulso de confiar inteiramente na garota.
O vento soprou com mais força, bagunçando os cabelos dos dois. Josh não quis encarar Sophia, por medo do que ela pensaria dele.
Ele havia matado seu próprio irmão! Querendo ou não, era um homicida.
Mas Sophia o surpreendeu ao segurar sua mão e encará-lo. Seu olhar demonstrava carinho e calor, aquecendo o coração de Josh e pela primeira vez em dias, fazendo-o esquecer dos perigos ao seu redor.
– Eu não deveria ter perguntado — Sophia maneou a cabeça, reprovando a si mesma. Segurou o rosto de Josh. Seu olhar se tornara triste de repente, deixando de lado o calor e permanecendo apenas com o carinho. — Eu...
Josh a interrompeu, agindo por impulso. Segurou a face da garota entre suas mãos e, sem pensar duas vezes, uniu seus lábios aos dela, sentindo sua maciez pela primeira vez.
Sophia pareceu surpresa de início, mas logo se rendeu aos "encantos" de Josh e passou seus braços pelos ombros do rapaz.
Josh pensou que seu coração fosse sair do peito, tal a maneira como este batia. Parou o beijo por um momento, sentindo a falta de ar, consequência de tal gesto carinhoso.
– Antes da guerra começar — Josh sorriu tristemente, fixando seus olhos nos de Sophia, passeando suas mãos pela pele cintilante da garota. — Eu precisava fazer isso.
A garota sorriu, levando suas mãos aos cabelos do moreno, puxando-o para si novamente.
Nada mudaria o fato de que a guerra estava próxima e que aconteceria, mas nem mesmo Cronos poderia estinguir o amor de Josh e Sophia, durante os tempos ruins que se passavam.
(...)
O Acampamento Meio-Sangue era personificação do caos.
Josh largou sua bike próxima a pinheiro com o Velocino de Ouro e desceu a colina, passando pela proteção mágica. Sentiu o estômago revirar de imediato.
Campistas iam de um lado para outro, reunindo armas e montando catapultas. Os filhos de Hefesto montavam armadilhas elaboradas e construíam armas, sendo liderados por um campista que Josh mal conhecia – onde estava Beckendorf?
Os filhos de Ares empunhavam espadas e soltavam gritos de guerra, enquanto os de Atena montavam estratégias, compenetrados demais. As filhas de Afrodite se embelezavam – para que elas vão para a guerra mesmo? -, enquanto os filhos de Hermes... Bom, eles não estavam a vista, o que significava: PROTEJAM SUAS LOJAS E OBJETOS PESSOAIS!
Josh avistou Ana, que parecia chateada com algo e encarava Percy de forma solidária. Nenhum dos dois percebeu a aproximação do Stwart.
– Escuta – Ana virou o rosto do irmão para ela. – A culpa não foi sua, ok?
– Culpa de quê? – Josh franziu o cenho, intrometendo-se na conversa.
– Josh! – Ana pulou nos braços do amigo, o abraçando com força extrema. Continuava baixinham, mas parecia diferente – e Josh não soube identificar a origem da diferença.
Percy manteve os olhos focados em outro local – aparentemente na agitação que Clarisse formava – e não pareceu perceber a presença do primo.
Josh sentiu-se frustrado. Odiava não ser notado. Ele era um filho de Zeus, pô!
– Então... – Afastou Ana e a encarou. Soltou uma exclamação e distanciou-se alguns passos, recebendo um olhar confuso em resposta.
– O que foi? – questionou Ana, aparentemente preocupada com a reação do amigo.
– S-Seus olhos... – murmurou Josh, perplexo, enquanto apontava um dedo trêmulo para o rosto da garota.
– Ah, isso – Ana deu de ombros, sorrindo com óbvio alívio. – É uma longa história... Mas vem cá, não sabia que você era dramático, Josh. Só porque meus olhos estão...
– Azuis? – completou Josh, cruzando os braços. – Não sabia que você se importava com estética, Ana. Deu para usar lentes de contato?
– Não são lentes de contato – repreendeu Ana, como se já tivesse dito aquilo umas mil vezes. Fez uma careta em seguida. – E daí se eu começar a gostar de estética?
Percy já havia ido embora dali, o que deixou Josh intrigado. Todos no Acampamento Meio-Sangue pareciam esquisitos, como se tivessem vivenciado algo ruim recentemente – como uma morte.
Foi então que Josh se tocou; o líder do chalé de Hefesto, Charles Beckendorf, não estava no acampamento como estivera no ano anterior; em seu lugar, havia outro campista.
Ou Charles estava de férias, ou...
– Ana – Josh a encarou, com o cenho franzido. – Onde está o Charles?
A garota desviou o olhar, fixando seus olhos azuis nos campistas que zanzavam diante de seus olhos. Parecia temer que Josh fizesse essa pergunta.
– Antes de você – Ana deu um passo a frente, segurando um de seus braços. – Percy e Charles foram em uma missão...
– Beckendorf está morto, Ana? – Josh buscou o olhar da amiga, sentindo um forte aperto em seu peito. – É isso que quer me dizer?
Ana o encarou por um instante, seus olhos demonstrando cansaço.
– Antes de morrer – Ana assumiu um ar pensativo. – Charles pediu ao Percy que deixássemos um recado dele para Nice.
– Um recado? – questionou Josh, confuso. – Que recado?
– Esse – Ana mostrou para o amigo um envelope dobrado. Josh o apanhou e não hesitou em tentar abri-lo. Entretanto, soltou o envelope logo em seguida, deixando um palavrão escapar por seus lábios.
Sua mão se queimara, no instante em que entrou em contato com o fecho do envelope.
– Acho que apenas Nice pode abri-lo. – Observou Ana, pensativa.
– Você ainda acha? – Josh sacudia a mão queimada tentando aliviar a dor.
– Deixe-me ver isso – pediu Ana, com certa impaciência.
Josh a encarou com desconfiança. Sua amiga nunca demonstrou talento para curar as pessoas. Mas com o olhar ameaçador lançado pela morena, Josh acabou estendendo sua mãe.
Ana respirou fundo e, segurando a mão do garoto entre as suas, fechou os olhos. Josh arqueou uma sobrancelha, ainda mais desconfiado.
Entretanto, em poucos segundos, Ana soltou a mão do amigo, orgulhosa de seu próprio feito.
– Uau – Josh não conteve sua surpresa, pois a queimadura já não existia mais em sua mão. – Obrigado.
– Vem comigo – Ana começou a caminhar, deixando-o para trás. – Você precisa ver Quiron.
– Ok, mas... Vem cá, qual é o lance dos olhos azuis e dessas suas “recentes” habilidades? – Indagou Josh, enquanto seguia a amiga de perto.
Ana sorriu, aparentemente contente pelo garoto perguntar.
– Você vai ver.
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