Os Filhos Proibidos
31 Capítulo 31 - Nice
Notas iniciais
Nice ainda não sabia porque havia confiado um objeto tão poderoso a James.
Ele era responsável, mas tal virtude não ocultava os defeitos do moreno, que além de tentador, poderia ser infernal e inquietante quando bem queria.
Então, por que confiar tal objeto a James?
"Por que está me entregando isso?"
Essa foi a pergunta do garoto, logo que recebeu a chave. Nice não respondeu, por não saber a resposta. Nem mesmo James entendera.
Talvez Nice temesse o que estava por vir? É, pode ser isso.
Algumas semanas haviam se passado e o Natal estava próximo. Dolores Umbridge não sossegou por um instante sequer, o que foi uma tortura para os alunos da Grifinória, da Lufa-Lufa e da Corvinal — os da Sonserina a idolatravam, portanto não sofreram nem um pouco.
Nice sentia um ódio mortal por Umbridge, de tal intensidedade, que chegava a doer. Estendeu a manga das vestes de suas vestes de Hogwarts, vizualisando com clareza a cicatriz em seu antebraço.
Não devo trair.
Bah, como se aquela sapa velha soubesse de alguma coisa.
Como aparente revolta contra Dolores Umbridge, Harry criou a AD (não, não significa Adore a Dolores e sim, Armada de Dumbledore!), um grupo formado por bruxos que querem aprender Defesa Contra As Artes das Trevas de verdade.
Nice entrou para o grupo (até ganhou um dos galeões que apenas os membros da AD possuem, que meigo), assim como James (praticamente todos os bruxos membros odiaram a ideia de um sonserino entrar para a organização, exceto Harry e Hermione).
As aulas até que estavam boas e tal, entretanto, Ana e Josh acabaram entrando para a AD e foi então que Nice resolveu sair do grupo.
Provou a si mesma como não conseguia viver no mesmo ambiente que os ex-amigos sem ficar desconfortável com a situação.
Provou como era fraca naquele sentido e como, no fundo, a culpa a assolava.
É, ser malvada era uma porcaria as vezes.
(...)
Na manhã de natal, Hogwarts estava surpreendentemente deserta; a maioria dos alunos tinha viajado para suas casas afinal.
Nice resolveu ficar no colégio, assim como os poucos alunos. Sua mãe, Annelize, estava ocupada demais fechando um "contrato" com um líder mafioso no México.
As vantagens de passar um feriado como aquele em Hogwarts, era ter o dormitório feminino apenas para si. Nice dormiu até a hora que bem quis e acordou animada.
Colocou seu suéter da Grifinória e uma saia de lã preta. Vestiu botas de veludo até a altura dos joelhos e soltou seus cabelos escuros, colocando um gorro vermelho sangue em seguida.
Mesmo não recebendo presentes de natal, Nice tinha certeza que aquele dia seria ótimo.
Desceu as escadas do dormitório feminino e chegou a Sala Comunal da Grifinória, onde sentiu sua animação se esvair por completo.
– Ana? Josh? — questionou, confusa. Ambos parecia esperar por ela, pois estavam com os braços cruzados e expressões indecifráveis. — O que querem?
– Precisamos conversar — disse Ana, de forma dura.
– Vamos à Sala Precisa então — sugeriu Nice, dando de ombros e passando pelos dois.
A Sala Precisa era o local onde as reuniões da AD eram realizadas. A sala podia atender qualquer desejo e adquirir qualquer forma — desde uma simples sala até um campo de Quadribol ou uma cidade imaginária -, de acordo com o bruxo que a utilizasse.
O trio alcançou o sétimo andar, passando pela tapeçaria do amalucado e ficando a frente de uma parede lisa.
Antes que Nice tomasse a frente, Josh o fez e iniciou a sequência, repetindo três vezes para si mesmo no que queria que a Sala Precisa se transformasse.
Uma porta surgiu, de madeira rústica e simples. Josh abriu a mesma, passando adentrando o local e permitindo que Ana e Nice o fizessem.
Quando Nice entrou na sala, percebeu que aquela tinha sido criada especialmente para os três.
Suspirou. Grandes laços nunca desaparecem, mesmo que estavam frouxos e velhos.
A sala na verdade não chegava perto de uma "sala" — mal lembrava uma, por sinal. O ambiente se resumia a uma praia, com areia perfeitamente branca e água azul oceânica, seguindo infinitamente por um horizonte incrível. O céu estava cheio de nuvens cinzentas, enquanto raios surgiam e desapareciam, piscando no céu acima deles. Para completar, um vulcão cuspia lava mais ao fundo, emanando poder.
– Uau — disse Ana, simplesmente.
Josh alcançou as garotas, com as mãos nos bolsos. Nice o encarou. O moreno parecia levar a sério os antigos laços que os três haviam construído.
– O que querem comigo, então? — Nice quebrou o silêncio, cruzando os braços e os encarando.
Ana suspirou.
– Nice, outro dia, você entregou a James uma chave, não foi? — indagou, encarando a morena.
Nice parou, incrédula. Como eles sabiam daquilo? Tratou de olhar para o horizonte, evitando os olhares de ambos.
– Não interessa a vocês — disse a mesma, de forma conclusiva.
– Interessa sim– Ana puxou Nice pelo ombro, atraindo sua atenção. — Se você não vai usar aquela chave para a guerra, para o que mais seria?
– Eu não disse que não a usaria para a guerra... — começou Nice, mas Josh a interrompeu.
– Nós concluimos! — o garoto indicou Ana, que assentiu, fixando seus olhos em Nice.
– Pouco importa! — a morena afastou a mão de Ana de seu ombro, com repugnância. — Vocês dois deveriam cuidar da vida de vocês se é o que querem saber. Como já disse, aqui em Hogwarts eu não estou fazendo nada de errado...
– Mas fora daqui, você vai fazer — Ana cerrou os dentes, irritada.
– Fora de Hogwarts! — enfatizou Nice, lentamente. — E não dentro de Hogwarts! Deu para entender ou a sua lerdeza não permite?
O tapa fez Nice cair no chão, segurando seu rosto. Ana tremia, com os dentes cerrados e uma postura decidida. Josh arregalou os olhos, surpreso e perplexo.
– Você merece muito mais do que isso! — sussurrou Ana, em tom ameaçador. — Por ter traído o Acampamento Meio-Sangue e os deuses, sem contar no que planeja fazer! Mas só te aviso uma coisa, Nice; se você planeja usar essa tal chave contra nós na guerra, pode desistir! Nem eu e nem Josh permitiremos!
Nice levantou-se, ao mesmo tempo em que o vulcão entrou em erupção, à longa distância de ambas.
– Como se o seu tapa fosse resolver tudo! — sussurrou, aproximando-se de Ana até ficar quase na mesma altura que a garota. — Vocês dois não entendem e nem nunca vão entender.
– Entender o quê? — perguntou Josh, cruzando os braços. — Que você nos usou e quase nos matou no Labirinto? Que na verdade trabalha para Cronos...?
– EU NÃO TRABALHO PARA CRONOS! — gritou Nice, enquanto o vulcão explodia em lava. — EU NÃO SOU COMO ELE, SEUS IDIOTAS!
– Você se iguala a ele com esse seu desejo de destruir os deuses! — exclamou Josh, furioso.
Nice bufou.
– Eles merecem isso! — a garota se afastou dos dois. — E o pior de tudo é que vocês não entendem, sendo que foram rejeitados por seus pais até meses atrás!
E dizendo isso, saiu da Sala Precisa como um daqueles raios que cruzavam o céu, sumindo rapidamente. Pôde ouvir os xingos que Josh emitiu e os bufos de Ana, mas mesmo assim, não olhou para trás.
(...)
Quando o Natal chegou ao fim e a rotina se tornou massante mais uma vez, o consolo da Páscoa estar próxima alegrava alguns dos alunos que não suportavam mais a ditadura de Dolores Umbridge.
Infelizmente, a mesma se tornara diretora de Hogwarts, dominando completamente os alunos da escola. Dumbledore havia ido embora, sumindo repentinamente.
Ninguém gostou da ideia de ter Umbridge como diretora.
Felizmente, James acabou por permitir que os colegas fossem para sua casa passar as férias de Páscoa — depois de Brian implorar de joelhos, arrancando risadas gerais.
Pelo menos, Nice conseguiu fugir da rotina cansativa de Hogwarts, embora retornar a casa de James depois de tantos anos era... Desconfortável.
– Umbridge é um porre! — xingou Karen, logo que Silas comentou sobre a Sapa-Velha estar torturando os alunos que ficaram em Hogwarts naquelas curtas férias.
– É a décima quinta vez que você diz isso — observou Silas, pensativo.
Brian bufou, parando imediatamente de lustrar sua varinha.
– Você não deveria prestar atenção nas coisas que ela diz, principalmente em quantas vezes... — cruzou os braços, frustrado.
Nice riu maldosamente, sem conseguir reprimir o desdém em suas palavras.
– Seus ataques de ciúmes são hilários, Brian — Nice aplaudiu, continuando a ler o seu livro do ponto pausado.
Brian e Karen iniciaram os gritos de indignação, mas Nice já não os ouvia mais. Seu livro estava muito mais interessante. Belo Desastre era perfeito, mais perfeito do que seus amigos discutindo feito dois retardados.
Ah, como seria bom se os dois se entendessem de uma vez. Talvez, esse seja um dos meus últimos desejos antes de partir deste mundo infernal.
(...)
Bocejou, fechando seu livro. Mal notou a hora passar. Precisava arrumar seu malão novamente para retornar ao colégio na manhã seguinte.
No final das contas, as férias de Páscoa não eram necessariamente férias. Eram mais dois ou três dias de descanso para os alunos. Por isso, poucos destes saiam de Hogwarts nessa época.
Nice levantou-se da poltrona e apagou o abajur. Estava prestes a sair da sala de estar, quando sentiu seu corpo ser puxado para trás com certa "violência", e reconheceu imediatamente quem fizera isso.
– James — murmurou a garota, sorrindo brevemente. — Não faça essas coisas. Sabe muito bem que eu poderia queimá-lo, não sabe?
O moreno virou-a para ele, tirando o livro das mãos da garota e o colocando na mesinha de centro. Em seguida a encarou, e mesmo estando escuro na sala, Nice percebeu que o olhar de James estava cheio de algo que ela não via há muito tempo.
Era comparado a obsessão e possessividade. Nice sorriu internamente.
– Eu gosto de brincar com o fogo — sussurrou James, causando leves arrepios em Nice.
Ambos se encararam por longos instantes, até a Lenhart sorrir, pendendo a cabeça para o lado em sinal de zombaria.
– Você disse isso para mim quando te rejeitei pela primeira vez — brincou ela, dando de ombros. — E no fim, acabou se queimando, não é?
James sorriu de lado, mas não disse qualquer coisa. O que veio a seguir foi o que Nice menos queria, mas que no fundo, desejava desde retornar para os antigos amigos e... Para ele.
James a puxou pela cintura e selou seus lábios aos dela, deixando-a entorpecida. Nice passou suas mãos pelos ombros largos do moreno, parando quando chegou aos cabelos negros do garoto. Puxou-os de leve, fazendo-o emitir um leve gemido, acompanhado pelo sorriso da garota.
Ainda sabia qual era o ponto fraco do garoto e como deixá-lo em suas mãos.
Separaram-se por breves instantes, recuperando o ar que fugiu de seus pulmões. Nice o encarou, recuperando sua consciência.
– Isso não deveria ter acontecido — murmurou, mordendo o lábio inferior.
– Esse é o seu problema. Você fala demais. — James tomou os lábios de Nice novamente, com mais intensidade, se é que era possível.
Nice não resistiu mais. Permitiu que a sessão de beijos se prolongasse pelo restante da noite, sem se importar com o dia seguinte ou com o depois.
A sensação de alguém a entender a estar com ela novamente era relaxante.
Foi então que, em meio aos beijos quentes e a sensação calorosa de "paz", que Nice descobriu a resposta para sua maior dúvida; Por que entregar um objeto tão importante à James?
Porque Nice o amava e confiava nele. Por isso ela fez tal coisa. Por isso, Nice lhe entregou a chave.
E por finalmente aceitar que, mais cedo ou mais tarde, morreria.
Fale com o autor