Os Filhos De Hades
6 Os pesadelos
Notas iniciais
[…] Caminhamos mais, encontramos mais alguns monstros, nada que uma Contracorrente não resolva. Admito, estava cansada demais para manejar qualquer coisa.
Karina sorriu, tentou nos animar, mas nem sua doçura nos ajudou mais.
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Andamos até nos depararmos com uma cerca de arame farpado. Suspirei. Conseguimos atravessar aquelas trilhas horrendas, consegui andar sozinha. Decidimos parar e descansar, comer alguns pedaços de comida, dormir algumas (poucas) horas e explorar as Ilhas Afortunadas, onde os piores assassinos estão. Sangue frio é o que eu e todos os meus colegas precisávamos ter. Depois de algum tempo, a trilha acabou. Vimos um lugar que ecoava gritos desesperados, um lugar com cheiro de tortura. Sentimentos de “para sempre”. Tudo isso me assustou, meu pai é Hades, mas mesmo assim aquilo fazia meu corpo tremer.
– Bem, pessoal… Seguiremos em um atalho, não queremos encontrar vilões impetuosos que aqui habitam, mas em compensação teremos que lutar mais – Karina ficou sem graça, mas continuou -, talvez não do método convencional.
– Não? – Todos nós indagamos.
– Mesmo aqui não sendo o Tártaro, medos antigos e culpas vêm à tona nas Ilhas Afortunadas.
Olhei para Connor pedindo para que ele fizesse alguma piada ou começasse uma conversa com Karina, o clima estava pesado demais. Felizmente isso aconteceu, ele perguntou a Françoise sobre qual grupo de música coreana ela gostava mais e se ela tinha músicas para nos mostrar. Todos se animaram, porque a canção mostrada se chamava “All my love is for you” e tinha vocais muito bons. Um bom entretenimento curava seu coração de toda a tristeza do Sub Mundo.
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Estávamos felizes até excessivamente. Tinha até me esquecido do que a nossa fantasma nos falou, teremos que lutar mais, talvez não do método convencional. Olhei para o Percabeth, estavam mais alerta, mas de vez em quando, quando as músicas alcançavam notas altas, se olhavam amorosamente; Nico estava excluso, poucas vezes falava, apenas dizendo se gostou ou não das vozes; Travis se encantou pelas meninas que cantavam as canções, de verdade; Connor sempre olhava para mim, não era retribuído, sem “olhares 43”para cima da filha de Hades; Karina mostrava-se alegre, contente por expor aos seus novos acompanhantes as suas paixões, porém eu conseguia ver, conseguia ver que bem lá no fundo ela carregava uma antiga mágoa, a que a fez presa no Hades.
Canções fofas e algumas mais dançantes embalaram nossa jornada, mas estávamos exaustos. Karina estava entrando em pânico, mesmo discretamente.
–Acham que conseguimos atravessar isso aqui sem dormir?
– Por que não? – Respondeu-lhe Percy.
– Aqui é pior do que os Asfódelos... – suspirou e voltou-se para sua playlist coreana- Querem ouvir grupos masculinos? São bem legais!
Todos estavam bem sonolentos. Os meus olhos, os de todos, estavam pesando. Mas Karina insistia que era melhor fazermos a jornada de uma vez só, sem paradas. Colocou diversas vezes toques para celular incrivelmente irritante. O importante era não cair no sono. Era estranho uma filha de Hipnos desperdiçar repetidas chances de dormir. Pensei, seriamente, se dormíssemos, teríamos que lutas, não do método convencional. Comecei a apoiar Françoise no combate ao sono. Chegou a um ponto que nem eu estava aguentando mais, depois dos Stolls e Annabeth desmaiar; de Nico cair em meus braços e de Jackson quase esmagar o corpo de sua namorada, desabei. Vendo de fora, devia ter parecido um círculo de sacrifícios humanos, seis corpos desacordados e uma alma no meio.
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Levantei-me, todos meus companheiros estavam em círculo, como na cornucópia de Jogos Vorazes, Karina tentava me falar alguma coisa, mas estava sem voz. Gritei para meu irmão, ele não me ouviu. O que estava acontecendo?
Repentinamente, uma névoa negra, como a da encruzilhada de Héstia, veio sobre mim. Tirei da bainha minha espada, e fiquei atenta aos detalhes... Nada de anormal acontecia. Absolutamente nada, até que imagens surgiram entre aquela fumaça. Iris me segurava no colo, como mãe e filhas felizes, até que ela me joga no chão e se vai. Me vejo em um orfanato, completamente infeliz, e ela me chamando para pagar sua dívida com os traficantes. Dívidas pagas, porém havia um corpo desgastado e desnutrido. Lágrimas se esparramavam pelo meu rosto, era incontrolável. Teremos que lutar mais, talvez não do método convencional. Era isso que Karina estava avisando, os pesadelos.
Respirei fundo, me concentrei. Rasguei a névoa diversas vezes, mas os pesadelos continuavam a vir. Lembrei-me dos filmes de terror onde a pessoa é salva ao pensar nos momentos bons e das pessoas que amava. Fiz exatamente isso. Imagens de Hazel me ajudando com as dívidas e me mostrado seu amor fraterno; mamãe, antes de falecer, dizer-me que me amava sempre me amou; conhecer papai e seu reino; viajar com Nico pelas sombras; alguém que se importa comigo; Karina… Todas aquelas assombrações sumiram e eu desabei novamente. Acordei no mesmo círculo, na mesma roda. Annabeth e Nico pareciam ter acabado de voltar. Passados 20 minutos os outros garotos se levantaram Françoise também estava de volta.
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–Vocês se lembraram do que Karina disse, não é? – Comecei.
–No começo, estava usando minha força física, demorei a concluir isso, mas eu consegui – Respondeu-me Travis.
Comecei a contar minha experiência na encruzilhada, apenas tirei a parte do “alguém que se importa comigo”. Em seguida foi Nico, ele nos contou sobre a morte da mãe, de Bianca e dos seus tempos de solidão, mas se lembrou dos amigos e das irmãs; Percy lembrou do seu ex padrasto, de Cronos sussurrando em seu ouvido, das aventuras no Tártaro, porém disse que melhorou lembrando do Camp Half-Blood, seus amigos, família e Annie; Annabeth se recordou de quando tinha sete anos, do Tártaro, seus motivos de volta eram os mesmos de Percy; os Stoll falaram de seus medos, como serem esquecidos por Hermes, mas que amavam as pegadinhas no Acampamento... E por fim:
– Gomen nasai, minna-san*, mas Lorde Hades ordenou que isso acontecesse, por mais que eu não quisesse, desculpe mesmo – Karina estava corada de vergonha, suas desculpas eram sinceras, mas meu pai está por trás dessa missão. Está planejando tudo.
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