Os Filhos De Dr. Light

1 Os heróis da humanidade


Toda a cidade se reuniu para ver aquilo, o caminho de destruição que Megaman trazia atrás de si era grande o suficiente para atrair o povo, para arrastá-los para fora do conforto de suas casas, mesmo com o vento uivando entre os prédios e as nuvens acizentadas cobrindo o sol.

Entre aquelas pessoas sedentas por um confronto, o “Bom Doutor”, Thomas Light, andava timidamente, sabendo, por mais triste que aquilo o deixasse, que um de seus filhos morreria ali. A mente do Doutor corria com imagens de um passado que parecia outra vida: O enterro de Emily, Joe sendo lançado do topo de um prédio por uma explosão, doze anos de trabalho para trazer seu primeiro filho à vida. Esse mesmo filho sendo atacado, destruido e arrastado como um pedaço de metal sem valor para a fábrica de Wily, onde se tornara outro.

Comandante das forças de Wily, Protoman era determinado, inteligente e violento para assegurar as leis estritas de seu novo pai. Até mesmo os Mestres, que há tanto tempo o atacaram em emboscada e riram de seus esforços para sobreviver, temiam e obedeciam o mais novo braço direito do homem que comandava a cidade.

Mas o Doutor desaparecia facilmente na multidão, que anunciava a vinda do novo “Herói da Humanidade”. Eles não lembravam, ou preferiram esquecer, que o homem que carregou esse título agora comandava as ruas com um punho de ferro, que enchia os corações humanos de insegurança e temor.

Mas era muito tarde para refletir sobre seus erros, pois seu segundo filho estava pronto para enfrentar um inimigo sobre o qual ele não sabia nada.

Megaman encontrou o caminho para o prédio onde Wily reinava sobre a cidade bloqueado por uma tropa incrível de robôs, todos alinhados em silêncio, como se desligados. O garoto achava que não estavam. Em frente deles, com um casaco militar que contrastava com suas peças vermelhas, a face bloqueada por um cachecol e um capacete (não muito diferente do que o garoto usava) outro o esperava, a mão direita segurando um megafone. O braço esquerdo acabava com uma arma giratória que frequentemente soltava uma nuvem de fumaça, como se operada a vapor. Megaman sabia(ou pensava) que aquela máquina era a culpada pelo sofrimento de seu pai.

Mas... alguma coisa estava errada. O garoto conhecia aquele método quase artesanal de fabricação, as peças trabalhadas com cuidado formando o corpo vermelho oculto pelo tecido. Um capacete, armas na mão esquerda, um robô criado com um cuidado que não poderia ter saído das máquinas do Dr. Wily. Era quase como se ele fosse uma versão mais velha de si mesmo. Quando a realização o atingiu, seu pai já estava do seu lado, e confirmou o que o garoto temia:

“Voce está tentando entender. Eu disse que seu irmão morreu.” Ele disse, uma voz pouco acima de um sussurro. “Mas você o encontrou, a própria sombra do homem que você veio destruir.” O que comandava o exército de robôs largou o megafone, arrancou o casaco e jogou-o ao vento. Agora era óbvio: Era Protoman que o observava, seu corpo idêntico ao do garoto.

“Você veio vingar sua morte, você veio salvar a humanidade”, Dr. Light prosseguiu, agora se afastando em direção ao povo que os cercava. “Consegue ver agora?”

“Não pode fazer as duas coisas.”

Antes que Megaman pudesse reagir, Protoman já tinha pego o megafone do chão e agora se dirigia ao povo ao seu redor, a voz vibrando com algo que beirava o desprezo.

“Me digam agora: Existe um homem entre vocês? Alguém que fique de pé e tente lutar?

Me digam, humanos! Não existe nenhum entre todos os seus números, ninguém que dê mais valor a coragem do que a vida?” E virou-se para o garoto.

“Eles olhavam para mim, agora se viram para você. Você compreende? Você vê que a verdade é que eles não querem mudar isso, eles não querem um herói, só precisam de um mártir, uma estátua a ser erguida!?”

“Dei tudo o que podia... Não existem mais heróis na humanidade.” Ele continuou, apontando a arma para seu irmão:

“Então começamos! Não importa qual de nós sobreviver, o chão abaixo de nós irá rachar e ser soprado para longe. Você vai lutar, e quando luta, luta sozinho, e no fim você vê que não existe outra maneira...”

A velocidade de seu discurso aumentou, o ódio na sua voz constante, queimando.

“Eu já estive aí, fiquei onde você está. Eles me chamaram de herói, de “Herói da Humanidade”! Eles querem que os salvem, enquanto eles não significam nada. Se merecem a vida, que lutem por ela eles mesmos!” E largou o megafone, sua voz diminuindo em velocidade:

“Nós demos tudo o que podíamos, não existem mais heróis na humanidade. Eles vão assistir você morrer pelas próprias vidas, não vão ficar do seu lado.”

Megaman lutava para entender o que ele dizia, mas uma parte dele sabia que aquilo era verdade: Nunca tinha recebido a ajuda de nenhum deles, e seu pai era o único que se importava. Mas onde ele estava? O garoto não sabia, mas o “Bom Doutor” estava se distanciando da multidão, esperando não ter que ouvir a morte de um de seus filhos.

Protoman quase sorriu quando sua arma começou a girar, espirros de fumaça saindo entre seus canos.

“Então deixe que assistam enquanto decidimos o destino de toda a humanidade!”

Quando finalmente se recuperou do choque de informações, Megaman gritou:

“Não vamos lutar!”

A voz de seu irmão saiu profunda, o rosnado metálico de um assassino.

“Você não tem escolha.”

“Eu estou do seu lado!”

“Eu vivo sozinho.”

“Você ainda é o herói deles...”

“Então são tolos!”

“Não pode ser a única maneira!”

“Você verá, que quando isso acabar, a humanidade cairá!”

“Eles não merecem isso, agora mais do que nunca. Nós somos a esperança deles!”

“Eles não te ajudariam.”

“Não conhecem outra alternativa!”

“Não vão lutar.”

“Não estão prontos!”

“E nunca vão estar!”

“Até agora existe esperança para a humanidade!”

“Palavras do meu pai...”

“Seu pai te ama!”

“Ele ainda vive?”

“O coração dele está partido.”

“Sua única fraqueza...”

“Sua maior força!”

“Agora veremos...”

“Você não é mau.”

“Se eles ficarão...”

“Você não está quebrado.”

“Junto ao seu herói!”

“Nós dois sabemos que eles nunca vão lutar!”

“Finalmente você entendeu. Heróis não existem, a humanidade está acabada!”

Como se ofendida pelas palavras de seu antigo Herói, a multidão gritava palavras de incentivo para o garoto, que erguia a própria arma, vacilante.

“Destrua ele!”

E Protoman se preparou para saltar em direção ao garoto.

“Você pode nos salvar!”

E o garoto também se preparava, com a dúvida pesando em sua cabeça.

“Mate Protoman!”

Os dois correram, armas disparando. Se o garoto pudesse chorar, lágrimas estariam correndo de seus olhos fechados. O impacto foi violento o suficiente para criar uma onda de choque que limpou as poças que se acumularam entre eles devido à leve chuva que ninguém percebia que caíra.

Megaman abriu os olhos e sabia quem sobrevivera. Atrás dele, seu irmão caiu de joelhos, mas foi aparado pelo garoto antes de cair totalmente ao chão.

O garoto sabia, mesmo que não quisesse, que o ferimento que causara fora mortal: três buracos idênticos marcavam o corpo do outro, jogando uma fumaça negra aos céus, mas a armadura melhorada do segundo filho de Light aparou as balas do primeiro, garantindo a segurança do garoto.

Quando Megaman achou que estava tudo terminado, Protoman ainda parecia ter um traço de energia:

"Se essas pessoas... contarem essa história para seus filhos, enquanto eles dormem..." O primeiro filho de Light dizia, olhos observando débilmente as nuvens cinza acima deles. "Talvez um dia eles percebam que um herói... é só um homem, que sabe que é livre" E finalmente, a existência de Protoman acabou, um filete de óleo descendo da boca, olhos apagados para sempre. Enquanto o segundo (o que sobreviveu) levantava, o coro dos humanos ecoava pelas ruas, o semblante calmo do Dr. Albert Wily observando de sua torre, em uma tela gigantesca. Mais gotas do que logo seria uma tempestade caíram sobre o exército metálico de Wily, que esperava as ordens de um novo mestre.

“Ele não pode salvar a si mesmo... Como poderia nos salvar?” Cantavam os homens, mulheres e crianças que o observavam. “Por todo o sangue que derramou, seu irmão falhou...”

Na cabeça do garoto, imagens passavam velozmente, mas sua mente se deteu em uma promessa que fizera no túmulo de seu irmão, tanto tempo antes.

“Enquanto eu viver, nenhum mal sobreviverá.” Ele disse naquele dia.

“Não há nada que você podia ter feito.” A humanidade cantava, em júbilo pela vitória.

“E eu vou acabar o que foi começado...” Ele disse, fechando os olhos do irmão e removendo ambos os capacetes, seu e de seu irmão. Quando pôs o antigo capacete vermelho, todos os robôs que aguardavam (ligados, como o garoto imaginara) se viraram para ele, olhos vermelhos acesos, frios, prontos.

“Você é o nosso herói!” O povo gritava, enquanto o garoto tomava o lugar de seu irmão, e sua mente brilhava com uma realização.

Agora ele entendia: Eram covardes, todos eles. Covardes que deixaram um heroi morrer duas vezes pois eram preguiçosos e covardes e tinham medo de um homem que eles mesmos ajudaram a pôr no controle da cidade. Eram medrosos covardes e preguiçosos que agora o cercavam com seus cantos vazios e suas preces inúteis e suas palavras de compaixão sem a menor ideia do peso que colocaram sobre ele. Agora ele entendia que não existem heróis, que os humanos mereciam cada dia de sofrimento e brutalidade que o Doutor Albert Wily jogava sobre eles, e que agora o cercavam e gritavam ao seu redor e faziam com que o garoto não conseguisse ver a torre de Wily, tão próxima.

“Você é o nosso herói!” Os humanos repetiam, e dos lábios de Megaman surgiu somente uma frase:

“E vocês são os mortos.” Ergueu o braço na direção das pessoas e os robôs de Wily saltaram à vida imediatamente, marchando em frente, pisando em tudo que ousasse ficar no caminho. Botas metálicas que esmagavam os parasitas em uma caminhada onde todos lentos ou tolos o suficiente para não correrem eram eliminados.

Foi um banho de sangue que mal foi registrado pelo garoto, seu único foco era a torre que observava a cidade, e o homem que aparecia na gigantesca tela em frente à torre, agora com um sorriso que beirava uma gargalhada. Megaman subiria aquela torre, e jogaria o homem que vivia nela do andar mais alto, para que ele entendesse a profundidade do mal que criara.

E a chuva começou a cair, agora definitivamente uma tempestade, que afogava aos poucos os gritos da multidão. Enquanto andava até a torre, a única coisa que o garoto ouvira foi um coro repetindo “Nós somos os mortos...” e ficou satisfeito com aquilo, sabendo que não sentiria o mesmo se ocorresse algumas horas atrás.

Mas era uma lição que tinham que aprender.


Notas finais
Comente, critique, ou os robôs do Dr. Wily vão achar sua casa e não vai ter Megaman para salvar você.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!