A paz regressou a Hkion.

Os príncipes foram entronizados numa cerimónia singela e rápida, sancionada pela Nova República que foi representada, na ocasião, pela senadora Leia Organa. As testemunhas foram alguns governadores provinciais e parentes envelhecidos da família real. A pompa de ambos os séquitos que sempre acompanhava os dois herdeiros ficou arredada daquele momento que se quis prático e célere. Aconteceu de uma forma tão enfadonha que mais parecia um qualquer ato administrativo banal, mas perfeitamente válido.

Yur Tomason fez o que lhe pediram. Numa operação que durou apenas alguns minutos, momentos antes da entronização, as bombas foram retiradas dos organismos dos clones sobreviventes. Kar’kion e Gil’kion eram os últimos da sua espécie, os derradeiros exemplares da empresa clandestina do taanabiano financiada pelo ouro de Hkion e pela ambição do anterior mordomo real. A intervenção que removeu os explosivos foi um sucesso, mas Tomason deixou um aviso importante. A vida dos príncipes tinha sido encurtada e eles estariam mais suscetíveis a infeções e pequenas doenças. Nenhum deles pareceu importar-se com as consequências da sua mortalidade e ignoraram a advertência com uma sobranceria desagradável.

Depois de oficialmente declarados reis do sistema, foram redigidas leis constituintes que revogavam os anteriores preceitos legislativos. Novamente com a ajuda da senadora Leia Organa, que agia também outra vez em nome da Nova República, foi determinada uma nova forma de governo. Os reis iriam ser eleitos pelo povo, através de sufrágio universal, a acontecer num prazo máximo de dois anos-padrão. As eleições iriam ser supervisionadas por uma comissão republicana. Leia comprometeu-se em apresentar a proposta de Hkion no Senado Galáctico, fazendo com que a iniciativa tivesse partido voluntariamente daquele sistema – assim evitava-se o embaraço de ter o nome da Chanceler Mon Mothma associado a uma ingerência nas questões de Hkion, sem o conhecimento prévio da assembleia de senadores.

Os Otrok, os antigos escravos das minas, foram integrados na casa real como servidores oficiais, não se admitindo outros para os cargos de prestígio que foram, entretanto, criados. Redigiu-se um contrato vitalício que incluía várias gerações de Otrok. O ancião que representava esse povo injustiçado por tantas eras fez um discurso comovido em que jurava absoluta lealdade, em seu nome e em nome dos seus filhos, ao rei de Hkion.

Em resumo, tudo acabava resolvido.

Juntaram-se todos na pista principal do espaçoporto da capital. Os dois príncipes tinham enviado um emissário que se dividia em cumprimentos, despedidas e mesuras, numa demonstração excessiva da inexistente hospitalidade de Hkion. Ofereceu-lhes peças em ouro como presentes e depois de ter chamado um coro de mulheres que lhes entoou uma cantiga tradicional, deixou-os, para alívio de Han Solo que assim que se viu livre, finalmente, para deixar aquele lugar, revirou os olhos e sacudiu as mãos, num resmungo que fez par com o protesto gutural do seu wookie, Chewbacca.

Leia sorriu aliviada para o irmão.

— Creio que já temos permissão para partir de Hkion.

— Eles estavam apenas a ser simpáticos.

— Julgavam que não gostavam de forasteiros! – lembrou Leia bem-humorada.

— E continuam a não gostar – concordou Luke. – Por isso, esta pequena atuação demonstrou que ficaram gratos por aquilo que fizemos aqui, no fim de contas.

— Querem é ver-nos pelas costas e enviam-nos estes pequenos enganos… para que saiamos daqui com a impressão de que a nossa missão foi cumprida e esqueçamos todos os passos em falso, os perigos e em como, se pudessem, nos teriam assassinado sem qualquer remorso.

— Estás a ser demasiado cínica, Leia. Saímos de Hkion com a missão efetivamente cumprida!

Artoo apitou, frenético. Threepio disse, atónito:

— Oh, não! Também tu, meu estúpido balde de parafusos? A canção era genuína. Comprovei que o dialeto utilizado corresponde ao idioma indígena de Hkion. Oh, cala-te! O que sabes, seu astromecânico com ilusões de grandeza? Sim, claro que sei mais do que tu. No meu banco de dados não se encontram armazenadas mais de seis milhões de formas de comunicação em vão… Oh, és impossível!

Lando Calrissian cruzou os braços e olhou para Yur Tomason que entalava um charuto cigarra no canto da boca. Enfiava os polegares no cinto que repuxava, criando pregas nas calças largas que vestia, talhadas num tecido vistoso, muito semelhante àqueles que usara o mordomo real.

— Vens connosco?

, Calrissian. Tenho o meu próprio transporte. Daqui a nada vêm-me buscar.

— Regressas para Apon One?

O taanabiano negou com a cabeça. O seu olhar tinha uma cintilação de malícia e mantinha um sorriso afetado afivelado no rosto. Luke colocou uma mão nas costas de Leia e conduziu-a para a rampa da Millenium Falcon, atrás da dupla de androides que seguiam, por sua vez, Han e Chewie que já tinham entrado no cargueiro corelliano.

— A fábrica de clones está, neste preciso momento, a ser desmantelada. Já nada me prende a Apon One. Irei fazer fortuna noutro lugar, aproveitar que tenho algum capital para investir. Fui devidamente recompensado pelo inconveniente do encerramento compulsivo da fábrica, Calrissian. As minas da lua Apon Two continuam ricas de minério, os príncipes pagaram-me bem. Cortei qualquer ligação com os imperiais que, entretanto, acharam por bem desaparecer. Nem eu os irei procurar. Espero que nunca mais se cruzem no meu caminho, não quero chatices com a Nova República. E quanto a ti, meu amigo…

O socorriano fungou.

— Sim…

— Quanto a ti, Calrissian, eles também pagaram a tua dívida.

— Então isto é um adeus?

— Podes crer. Não quero ver a tua cara feia nunca mais.

— Foi um prazer lutar ao teu lado, Tomason.

— Pois…

Também Lando entrou na Falcon, já os propulsores estavam a aquecer e lançavam baforadas de fumo. Carregou no botão junto à escotilha e recolheu a rampa. Os androides ligavam-se aos sistemas da nave e Han dava as suas ordens ao seu copiloto, como sempre num tom de voz alterado, como se estivesse a zangar-se.

— O que é que se passa? – perguntou, com um suspiro.

— Oh, o habitual – respondeu Luke. – Um problema qualquer com os compressores. Vou para o lugar dos passageiros, a carlinga está demasiado lotada. Queres fazer-me companhia, Lando? Podemos jogar.

— Os Jedi costumam jogar?

— Sempre que existir um jogador na vizinhança. Creio que serás… um jogador, Lando – acrescentou Luke sorrindo. O peso de tudo o que tinha experimentado em Hkion diluiu-se e os seus olhos azuis brilharam fugazmente.

— O melhor da galáxia, Skywalker. Mas não posso dizer isto muito alto, o Solo não gosta da verdade.

O Jedi riu-se numa gargalhada.

Os alarmes sonoros dos painéis de navegação da Falcon rivalizavam com os apitos mais estridentes de Artoo que discutia com Threepio sobre uma análise à hidráulica do cargueiro.

— Queres que eu empurre?

— Não, Leia. Não quero que empurres! – insurgiu-se Han Solo. – Ajudava se te sentasses e que seguisses as minhas ordens. Preciso de um navegador para ajudar o Chewie. Sim, bola de pelo! Estás a precisar de ajuda. Não vais conseguir voar sem alguém a inserir manualmente as coordenadas no computador de voo. Pois, eu sei disso! Precisamos de peças. Quando chegarmos a Chandrila, vou tratar da aquisição de… sim, vou comprar peças novas, não me vou meter em negócios de peças usadas. Ah, estás a duvidar de mim?

Entretanto, a senadora já se tinha sentado na terceira cadeira da carlinga, apertado o cinto e estava a silenciar os alarmes, carregando nos botões um por um.

— Sabes o que estás a fazer?

— Não é a primeira vez que ajudo na navegação da Falcon, Han – disse Leia, enfastiada.

— Estava preocupado contigo.

Num primeiro instante, ela não replicou. Talvez tivesse julgado que o corelliano falava com a sua adorada nave. Mas ao perceber um pequeno silêncio estranho no meio da cacofonia impossível que saturava o ar, levantou os olhos e os dois encararam-se. Han olhava-a com intensidade. Repetiu:

— Estava preocupado contigo.

Os lábios dela entreabriram-se.

— Han…

— Vamos ter um filho e devia proteger-te mais. Tu devias deixar-me que te protegesse mais. És demasiado teimosa e eu sou demasiado teimoso, andamos tantas vezes às cabeçadas um com o outro. Vamos ter um filho e precisamos de paz. Não é assim muito difícil… Conseguimos trazer a paz a Hkion, não foi? Sabemos como fazê-lo.

— Han… por favor. Agora, não será o melhor momento para…

Ele calou-a com um beijo quente.

E ela perdoou-o.

Notas finais
Próximo e ÚLTIMO capítulo: O futuro é agora.