Os Fantasmas da Black Manor

1 Os Fantasmas da Black Manor


Cygnus Black III não soube como reagir quando o primo lhe entregou as chaves da Black Manor como presente de casamento.

— Órion, eu não posso aceitar! Você é o herdeiro mais velho da família Black, a mansão é sua por direito. — Voltou a empurrar as chaves de prata na direção do primo, esse que apenas sorriu, sem qualquer intenção de as pegar de volta.

— Exato, a mansão é minha e, por isso, faço com ela o que bem entender. Além disso, tanto eu quanto Walburga preferimos Grimmauld Place, gostamos de estar na cidade. — Órion tomou mais um gole de vinho antes de pousar o cálice na mesa do escritório. — Portanto, a Black Manor é toda sua.

Cygnus tinha noção de que deveria parecer ridículo como estava; parado no meio do escritório do primo, com um copo de vinho meio cheio numa mão e as chaves pesadas na outra, tudo isso junto a uma expressão de pura confusão no rosto corado.

— Eu entendo que prefira o meio da cidade, mas porquê se desfazer por completo da Black Manor? — Observou Órion, que já se preparava para partir, sem lhe dar uma resposta de imediato. O herdeiro da família Black tomou o seu tempo ao vestir a pesada capa preta, se dirigindo para a porta com toda a calma do mundo, como se tivesse se fechado num universo à parte.

Foi somente quando já tinha a mão enluvada sobre a maçaneta da porta que se recordou de que ainda devia a Cygnus uma resposta. No entanto, não queria se alongar nas suas explicações. Nem saberia colocar por palavras todos os motivos que levaram àquela decisão.

Olhou para o mais novo por cima do ombro e somente lhe disse que:

— Nunca me dei bem com os outros inquilinos. Talvez você tenha mais sorte.

Minutos depois do primo já ter ido embora, Cygnus ainda ponderava a resposta.

— Que… que outros inquilinos?

Murmurou para o vazio.

A dama e o cavaleiro da noite

1933

Órion Black tinha apenas quatro anos quando viu fantasmas pela primeira vez.

Toda a família tinha decidido passar o Yule na Black Manor, e o pequeno herdeiro estava encantado com a decoração que, aos poucos, ocupava todas as divisões. Era uma pena que, de noite, aquelas belas árvores e estátuas se tornavam armadilhas, inimigos sem forma.

Era também a primeira vez que ele dormia naquele enorme quarto sozinho, se sentindo desaparecer entre os cobertores quentes. O pai tinha insistido que ele já tinha idade o suficiente para não precisar nem de companhia, nem de fadinhas brilhantes para espantar os medos da noite.

Portanto, ali estava Órion, escondido por baixo das mantas pesadas, com os olhos girando pela divisão, se assustando com os barulhos a todo o redor; de corujas a cantar, de galhos a sacudir ao vento, do soalho da antiga mansão rangendo noite fora. Era uma melodia que fazia o pequeno Black tremer de medo.

As horas passavam e o sono não vinha. Se forçou a fechar os olhos, se recusando a ver as sombras que dançavam na parede, iluminadas pela pálida luz da lua. Mesmo assim, ele não queria fechar as cortinas e ser mergulhado no mais profundo breu.

— Eu não tenho medo, eu não tenho medo, eu não tenho medo… — Órion passou a murmurar em desafio às intimidantes formas da noite. Foi aumentando o som das palavras quando começou a ouvir outros sussurros se juntarem ao seus.

Tadinho, o bichinho está aterrorizado. — O herdeiro Black pensou estar a alucinar devido ao sono quando escutou uma voz feminina desconhecida. Pela nitidez das palavras, soube que a fonte do barulho estava próxima, talvez até ao lado da cama de dossel.

Acha que devemos fazer algo, querida? — Uma voz masculina respondeu ainda mais próxima de si. Parecia que tinha mais duas pessoas no quarto. Só que Órion não queria descobrir. Preferia acreditar que era tudo fruto da sua imaginação.

Talvez… o pequeno assim não vai descansar nada.

Foi então que o medo tomou conta de si, paralisante. Sentiu os pesados cobertores serem puxados para baixo, deixando-o exposto para o frio cortante. Sentiu todo o corpo se sacudir pelos tremores.

Venha cá, meu querido. A tia vai cuidar de você.

Abriu os olhos quando sentiu algo frio passar por ele, como se tivesse sido tocado por uma rajada de vento.

A luz da lua iluminou as figuras prateadas, esvoaçando aos pés da cama. A mulher usava um vestido de uma época passada enquanto que o homem portava uma armadura pesada. Esses foram todos os detalhes que Órion conseguiu vislumbrar antes de soltar um grito de horror perante os rostos desfigurados dos fantasmas.

Afinal, eles não tinham caras. Toda a face dos dois estava derretida como a cera de uma vela, de tal modo que o pequeno nem conseguia fazer a distinção dos lábios que se mexiam para falar consigo.

Vamos o ajudar a dormir. — O homem de armadura deu um passo em frente, fazendo o som do metal ressonar no quarto.

Órion não pensou em mais nada. Tomou fôlego e saltou da cama o mais rápido que conseguiu, se desviando dos fantasmas ao correr porta fora, gritando a plenos pulmões enquanto procurava auxílio.

Os fantasmas permaneceram no quarto, olhando confusos para onde o jovem bruxo tinha saído.

Nossa… o que foi que eu fiz, Albert? — Um bocado de pele escorreu pelo pescoço da dama quando ela se virou para olhar o companheiro.

Não faço ideia. Esses mortais são muito estranhos.

Órion não voltou a dormir naquele quarto.

A voz da razão vem do além

1943

O herdeiro da família Black cresceu e se tornou um jovem quieto, que não gostava de trocar palavras a não ser que fosse estritamente necessário.

Órion Black estava tendo uma adolescência conturbada e, aos quatorze anos de idade, preferia a companhia de livros a qualquer ser vivo, algo que preocupava muito os pais, que temiam que o filho tivesse algum defeito que afetasse a sua condição de herdeiro.

Por isso, os pais decretaram que, no fim daquele ano escolar, iriam passar o verão inteiro na Black Manor, clamando que uma mudança de ares iria fazer bem a todos.

Era pleno agosto e o sol brilhava alto no céu. Apesar disso, soprava uma brisa fresca que não tornava a temperatura insuportável. Os pássaros cantavam e o piso inferior da mansão cheirava deliciosamente bem. Os elfos estavam se esmerando naquele almoço, pelos vistos. Também conseguia escutar com clareza os gritos animados da irmã mais velha, que corria pelo jardim com mais três amigas, que estavam passando alguns dias para lhe fazer companhia.

Resumindo, todos estavam se divertindo, com exceção de Órion.

O jovem podia ser encontrado na biblioteca particular da mansão, debruçado num canto poeirento com um livro na mão, murmurando as frases à medida que ia acompanhando a leitura.

— “Ser ou não ser, essa é que é a questão: Será mais nobre suportar na mente; As flechadas da trágica fortuna; Ou tomar armas contra um mar de escolhos…” — Escutou um farfalhar mas decidiu ignorar, se focando em ler aquele trecho. — “…Quem suportará os golpes do destino; Os erros do opressor, o escárnio alheio; A ingratidão no amor, a lei tardia; O orgulho dos que mandam, o desprezo; Que a paciência atura dos indignos; Quando podia procurar repouso; Na ponta de um punhal? Quem carregará; Suando o fardo da pesada vida…”

Uma leitura estranha para um moço da sua idade, não acha?

Órion se virou para encarar quem o perturbava. Revirou os olhos ao ver um fantasma de um homem de barba, que usava vestes da época medieval e um ridículo chapéu com uma pluma esvoaçante. O jovem Black já não tinha medo de fantasmas como quando era pequeno, tinha se acostumado com as suas presenças em Hogwarts. Se lembrou de que, anos antes, havia desenvolvido um fascínio mórbido pelo Barão Sangrento, que nunca se importou em responder às questões do herdeiro sobre um dos seus temas preferidos: a morte.

— Não, não acho. — Voltou a ler a peça em voz alta, fingindo estar só. — “E nos fizesse arcar co’o mal que temos; Em vez de voar para esse, que ignoramos?; Assim nossa consciência se acovarda; E o instinto que inspira as decisões; Desmaia no indeciso pensamento...”

O fantasma permaneceu em silêncio enquanto escutava Órion terminar de ler todo aquele ato. Depois disso, ficou somente a analisar o jovem Black, vendo ele se enterrar num silêncio contemplativo logo em seguida. Para a infelicidade de Órion, a paz não durou muito. Aquele seu antepassado era um espírito bastante falante.

Você não está… contemplando a sua morte, pois não? — O herdeiro se sentiu desconfortável perante o tom preocupado de um ser que já nem deveria sentir emoção.

— E se estiver? Perante uma vida de tormentos, não será essa a melhor solução? — Encarou as letras no fundo branco, sentindo os olhos enevoados de pensamento. O jovem feiticeiro nem sabia o porquê de estar alimentando aquela conversa, mas não fez nada para cessar o momento.

Tormentos? — O fantasma soava surpreso. — Você ainda não tem idade para sofrer dessa maneira.

— Eu sou um Black. Pior ainda, eu sou o herdeiro dessa antiga linhagem. Toda a minha vida é uma angústia. Por enquanto ainda consigo fugir do dever, mas nem sempre assim será. — Fechou o livro, sem vontade de continuar em seguida.

E então? Pensa que a morte trará alívio? — O fantasma riu com descaso, soprando um vento fresco na sua direção. — A morte é apenas um tipo diferente de tormento, garoto. Nesse momento, até pode pensar que a morte é uma boa solução, uma libertação. Só que a realidade é que ninguém tem a certeza de que irá encontrar paz no além. Permita que lhe dê um conselho. — O fantasma do seu antepassado se arrastou para mais perto, parando a meros centímetros de si. — Aproveite a vida agora, todos os momentos, bons ou ruins. E quando a vida parecer um martírio, procure pelas pequenas coisas que valem a pena. E, o mais importante de tudo: nunca deixe nenhum assunto pendente, ou então aí você irá ficar como eu, preso nessa meia-vida, nessa porta entre o agora e o depois. Entendeu, jovem Black?

Órion só conseguiu assentir, espantado demais com aquele encontro. Observou quando o fantasma atravessou as prateleiras da biblioteca e desapareceu pelos confins secretos da Black Manor.

As conselheiras do matrimônio

1946

A fixação de Órion Black por Shakespeare continuou durante toda a sua juventude ao ponto de ter devorado toda a coleção que era guardada na Black Manor.

— Não creio que existam pessoas que acreditem que Shakespeare era um trouxa. — Riu com aquele pensamento enquanto passava mais uma página da atual leitura, Macbeth.

O Yule daquele ano estava sendo um dos mais frios de que tinha memória, e Órion fazia questão de permanecer imóvel na poltrona do pai, devorando página após página em frente da grande lareira acesa de uma das salas de estar do piso inferior.

Conseguia escutar com clareza os barulhos da família por toda a mansão, mas estava empenhado em ignorar todos os ruídos enquanto não terminasse o que estava fazendo. A única outra ocupante da divisão era a irmã mais velha, Lucretia, que não estava lhe perturbando, uma vez que ela permanecia quieta no sofá oposto, lendo um livro de romance medieval.

Órion sabia que a irmã estava mais reclusa desde que o seu casamento havia sido marcado e, desde então, também ela havia desenvolvido o hábito de desaparecer pela mansão, em busca dos cantos escondidos e isolados, onde ninguém pudesse vislumbrar a sua humanidade.

— Eu vou perguntar à mamãe se ela quer pedir um chá. Quer também, Ório? — O mais novo se limitou a fazer um gesto de negação e logo não demorou a ouvir os passos da irmã no soalho enquanto ela se afastava.

Ela não quer se casar, dá para sentir a repulsa a metros de distância. — Órion se forçou a respirar fundo, não tirando os olhos do livro. Só gostaria de saber por que razão todos os fantasmas da Black Manor terem aquele estranho fascínio por si, uma vez que não se mostravam visíveis a mais nenhum outro integrante da família.

Virou uma página e permaneceu quieto.

Não interessa o que ela quer, irmã. Todas as moças devem casar o quanto antes. — Uma segunda voz se juntou à primeira. Órion não conseguiu mais ficar indiferente quando viu, pelo canto dos olhos, um vestido esvoaçar perto da sua cabeça antes de se acomodar no sofá.

Sim, sim, é verdade irmã. Lembra quando o papai me trancou no quarto a semana inteira antes do casamento para eu não fugir? — Órion arregalou os olhos e se voltou para encarar as duas figuras, que pareciam pairar como se estivessem sentadas no sofá de veludo.

Mirou os fantasmas das jovens mulheres e constatou que eram ambas belas, como todos os Black deviam ser. Pelo estilo dos vestidos, elas pertenciam a uma época não tão distante assim. Em contraste como quando viu aqueles espectros pela primeira vez, o feiticeiro já nem fazia caso à aparência grotesca que alguns tinham, o que evidenciava mortes violentas.

Uma das senhoras não tinha ambos os olhos. Era como se tivessem sido arrancados violentamente, deixado dois buracos fundos no crânio. Já a outra tinha a face perfeitamente preservada e, de fato, até poderia parecer normal se não fosse a enorme fenda no peito, como se a pele tivesse sido arrancada para o lado. Só que, quem quer que tivesse feito aquilo, não tinha conseguido terminar o serviço, visto que Órion conseguia ver com perfeição o coração imóvel na cavidade.

Você sabe como era o papai. Mas até que o seu casamento não foi tão ruim assim. O seu marido ao menos só lhe batia uma vez por dia, o meu nem essa simpatia fazia, passava os dias agarrado em mim. — Órion queria ter dito algo, mas estava tão embasbacado com a conversa que fingiu ler o livro enquanto deixava os fantasmas discutirem os horrores do matrimônio.

Minutos se passaram e a irmã não tinha ainda regressado. Órion tentou a todo o custo ignorar as atrocidades que os fantasmas revelavam mas, a certa altura, todos os episódios de tormento narrados pelas senhoras se tornaram demais para si. Fechou o livro com força e se virou para encarar as figuras no sofá.

Nossa, não sei como você aguentou aquele homem. Ao menos você teve um filho no mesmo ano… — A mulher foi interrompida pela voz irritada do jovem feiticeiro.

— Eu gostaria de saber o motivo de todos os fantasmas dessa casa acharem por bem me perturbar somente a mim. — Os espectros cessaram o falatório e voltaram toda a atenção para Órion, o que fez ele se sentir um pouco desconfortável. Mesmo assim, tentou não deixar isso evidente, moldando o rosto numa máscara de exasperação.

Ora, você não é o herdeiro da família? — A mulher sem olhos perguntou, inclinando a cabeça para o lado de forma a mostrar a sua incerteza.

— Bem… sim, eu sou o mais velho. — Órion queria dar um tapa em si mesmo por acabar sempre dando mais incentivo para aquelas conversas estranhas que partilhava com os fantasmas da família.

Então nós, como seus ancestrais, temos o dever de aconselhar o futuro patriarca da família, meu querido. — Dessa vez foi a dama com o buraco no peito que proferiu, mostrando um sorriso de superioridade, de alguém com séculos de experiência que ansiava compartilhar.

— Se eu precisar de conselhos já sei a quem pedir então. — Se levantou da poltrona num único movimento fluido, pegando no livro de Shakespeare, com o intuito de deixar aquela divisão assombrada, e todas e quaisquer conversas sobre casamento, para trás.

Qual a sua idade? — Sentiu uma leve brisa e se virou, constatando que as damas tinham se levantado da posição em que estavam, pairando alguns centímetros à sua frente.

— Dezassete. — Ele tinha mesmo de parar de responder às perguntas dos espíritos.

Ah, então o dia do seu casamento também está próximo. Posso lhe dar uma dica, querido? Engravide logo a sua mulher. Facilita muito a vida de todo o mundo. — Falou a moça sem olhos, com um sorriso no rosto desfigurado. Ao seu lado, a irmã assentiu em concordância.

Órion sentiu as bochechas esquentarem, não crendo que estava mesmo tendo aquele tipo de conversa com dois fantasmas.

— Pela graça de Merlin, eu não quero ouvir mais nada.

A plateia da copulação

1957

A paciência de Órion Black para com os outros inquilinos da Black Manor chegou ao fim na sua noite de núpcias.

Havia selado o laço do matrimônio com a prima, Walburga Black, naquela tarde de outono. A cerimônia decorreu nos terrenos da casa ancestral da família ao pôr do sol, sendo seguida por um opulento jantar e, depois disso, um baile. No entanto, o ponto principal do evento era a noite. Portanto, quando o relógio apontou que já era quase meia noite, o jovem casal foi instruído a terminar o dia no quarto que as mulheres da família tinham preparado somente para a ocasião.

Órion odiou quando todos os homens presentes lhe felicitaram, lançando sorrisos maldosos e carregados de duplo sentido, à medida que o ajudaram a vestir a roupa de linho antes de o conduzir para o quarto, onde a mulher já o aguardava, enfiada numa larga camisola do mesmo material.

Ambos permaneceram se encarando em silêncio, não se atrevendo a fazer o que quer que seja enquanto que a multidão entorpecida aguardava ansiosamente por ouvir qualquer ruído do lado de fora. Quando, enfim, alguém murmurou que já estava tarde e todos teriam de regressar aos próprios quartos, foi quando Órion e Walburga se moveram para fazer o seu dever.

Tanto o homem quanto a mulher estavam anestesiados de bebida e logo chegaram, com muito custo, à posição atual: os dois completamente despidos em meio aos lençois de seda perfumada, com Órion em cima da mulher, prestes a consumar o casamento. No entanto, antes que pudesse se mover, sentiu uma corrente de ar gelada lhe tocar o pescoço e as costas suadas, arrepiando toda a pele pálida.

— Eu não acredito nisso! — Praguejou antes de se libertar dos braços da prima, que o olhou com um misto de confusão e irritação nos olhos escuros.

— O que foi? — Walburga perguntou numa voz carregada, olhando com descrença para a figura do marido, parado no meio do quarto, completamente desnudo, enquanto vociferava insultos para o vazio.

— Você não está vendo? — Ele apontou para a parede, iluminada pela luz da lua.

— Vendo o quê!? — Walburga se sentou na cama, não prestando atenção à própria nudez.

A todo o redor da enorme cama, e espalhados pelo quarto, uma plateia de fantasmas da família Black estava parada, todos eles com expressões de graus diferentes de divertimento nos rostos translúcidos. Os homens tinham sorrisos presunçosos nas faces, umas desfiguradas e outras nítidas, ao passo que as mulheres olhavam a cena com mais seriedade, uma vez que aquele momento era deveras importante, pois significava a continuação da preciosa linhagem da família.

— Será que vocês não podem me deixar em paz? Esse é um momento privado. — Sibilou para o fantasma que, anos antes, o havia dado conselhos sobre a morte.

Privado? Mas, no meu tempo, a noite de núpcias devia ser presenciada pela família, para se ter a confirmação de que o casamento é válido. — Quem falou foi a mulher com a cara derretida, que já não via desde a infância.

E então Órion Black perdeu toda a compostura.

— Saiam daqui! Todos vocês!

Quando Órion bateu a porta do quarto, os fantasmas se aglomeraram no corredor, encarando uns aos outros com confusão.

Esses jovens de hoje em dia… São uns desavergonhados. — O cavaleiro baixou a cabeça, desapontado com o jovem Black.

O resultado foi que, de fato, o casamento não chegou a ser consumado naquela noite e, assim que amanheceu, Órion informou a mulher de que, dali em diante, iriam viver permanentemente em Grimmauld Place.

— Eu nunca mais quero ver um fantasma na minha frente. — Prometeu Órion Black quando saiu pelas pesadas portas principais da Black Manor, determinado a nunca mais voltar.

E assim foi.

Cygnus Black III aguentou viver na assombrada Black Manor por um total de três meses. No fim do mesmo ano, regressou a Grimmauld Place, deixando a mansão ancestral da família para ser habitada somente pelos fantasmas dos antepassados.


Notas finais
*Trecho retirado da obra "Hamlet" de Shakespeare. Espero que tenha gostado do presente!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!