Os Espelhos
1 Prólogo - Eu nunca irei te esquecer.
Notas iniciais
''Você deu sua vida pela minha, eu não merecia, mas mesmo assim você o fez. Isso só mostra o quanto eu devo ser grato.''
Vi seu corpo no chão, longe de mim, enquanto eu estava caído a beira da calçada, sem reação, ainda absorvendo o choque. Voltei a realidade e corri até você desesperado. Me ajoelhei ao seu lado e murmurei ''Por que fez isso? Eu não dou permissão para você morrer, sua idiota. Não por mim.''. O motorista do caminhão desceu e já estava ligando para ambulância, sua cara era de medo e desespero. Ele não parecia se importar com ela, e sim, com a polícia.
Eu mexi no cabelo dela fazendo carinho enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto, e ela esboçou um leve sorriso, seu rosto parecia tão frágil quanto um floco de neve e sua expressão era delicada. A ambulância parecia estar demorando séculos e quanto mais o tempo passava mais nervoso eu ficava, a Yuko estava lutando para se manter acordada, eu queria ajudá-la, mas não havia muito o que eu poderia fazer naquela hora.
A ambulância finalmente havia chegado. Eles a colocaram as pressas no veículo e eu apenas me joguei antes que eles fechassem as portas comigo lá fora, já dentro eu sentei atrás da maca e comecei a brincar com mexas dos cabelos dela, um cabelo rosa claro com as pontas amarelas. Quando chegamos no hospital as enfermeiras disseram que eu não poderia acompanhá-la dentro da sala. Meus pensamentos estavam a mil, minha cabeça doía, e eu simplesmente recusava a ideia dela partir. O tempo parecia congelado e para ajudar as lágrimas a cair, começou a chover. Ela amava chuva e morria de medo de trovões. Era engraçado. E o jeito como ela se encolhia quando ouvia o som deles, era simplesmente irresistível. ''Se continuar assim, nenhum garoto conseguirá se conter perto de você.'', ela riu e voltou a se encolher com outro trovão.
Acordei de meus devaneios com a porta se abrindo e o médico chamando meu nome. Eu me levantei rapidamente com esperanças de serem boas notícias, mas pela cara dele, elas não seriam boas. Eu sabia exatamente o motivo, mas me recusava a acreditar. Minha mente travou e eu não o escutava mais. O mundo parecia perder as cores e cair num cinza profundo. A chuva ficou mais forte, e eu absorvia o acontecido.
O dia do enterro chegou, e eu não fui. Disse a mãe dela que lesse o discurso que eu tinha feito, pois eu não aguentaria tudo aquilo. Eu ainda sentia a presença dela, ela não poderia estar morta, mas ninguém notava isso. Parecia que ela nunca tinha existido... talvez eu devesse ''esquecer isso e seguir em frente'', como me falaram, mas é difícil quando ela parece estar em todos os lugares. Decidi esquecer isso e dar um passeio, acabei parando na frente da biblioteca. A senhora que cuida de lá estava destrancando a porta, quando me viu.
— Olá, querido. Como vai você e sua namorada? — Ela fala como se fosse minha avó, o que é bom, já que nunca tive uma.
— Ela... morreu há alguns dias, e não era minha namorada. — Disse olhando para a pulseira que a Yuu havia feito para mim.
— Eu não devia ter perguntado, desculpe. — Ela disse num tom melancólico.
— Não, tudo bem. Se me der licença, tenho que voltar, já deu a hora. — E fui andando a caminho de casa.
Assim que tranquei a porta de casa fiquei esperando um abraço que não veio. As vezes tenho que lembrar que ela morreu. Andei em direção ao sofá, onde vimos inúmeros filmes, e me joguei lá, estava cansado, e acabei dormindo. Acordei por causa de um pesadelo, onde via a Yuu presa em um espelho gritando e chorando, mas o som não o atravessava, e eu não podia me mexer, ignorei o sonho estranho e voltei a dormir.
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