Os Espelhos
4 Não importa o que você é
Notas iniciais
“E as pessoas mais sofridas podem ser suaves e acolhedoras como os ventos”
Assim que saímos pelo portão, nos deparamos com um caminho de pedras e vários comerciantes indo e vindo. Continuamos em frente seguindo a estrada por cerca de duas horas, as duas estavam cansadas de andar e carregar aquelas coisas então fizeram uma parada em uma taberna e compraram alguns alimentos, comendo-os enquanto pensavam em um jeito menos cansativo de continuar. Elas decidiram continuar caminhando, mais devagar, enquanto comiam. Elas avistaram uma loja incomum aos olhos de Yuko, mas Carol já sabia do que se tratava.
As duas adentraram a loja e uma garotinha apareceu para as atender.
— Quero cartas de montaria. — disse Carol enquanto observava a menina, que brincava com seu mini cajado.
— Qual montaria deseja? Alada, terrestre, aquática...? — falou enquanto dava as costas para as duas.
— Hm... Yuko, tem alguma sugestão? — indagou com uma das mãos na cabeça e um sorriso.
— Que tal... Alicórnios? Eles existem aqui? — as duas riram.
— Claro que existem! E são muito lindos. — Carol tirou dinheiro de sua pequena mochila — Vamos levar duas cartas.
— Não prefere o bracelete? Aí você poderá evoca-los sempre que precisar. — a pequena atendente ofereceu.
— São muito caros...?
— Posso fazer um preço de amigas. — e deu uma piscadela para nós.
Saímos de lá com dois braceletes de evocação e uma amiga. Colocamos os braceletes no pulso, que eram dourados com uma pedra que alternava entre vermelho e turquesa, e evocamos nossas lindas montarias. O meu era de cor preta com uma crina que esvoaçava ao vento e as penas das asas iam de preto a um roxo escuro.
— Como somos “porpurinadas” ... — disse fazendo Carol ter uma crise de risos.
Alguns minutos depois ela finalmente parou de rir e evocou seu alicórnio. Ele —chamo de “ele”, mas eles não possuem sexo— era branco com o com as asas que iam de branco a dourado.
— Temos que dar nomes a eles. — a fitei.
— Tem que ser maravilhosos como nós. — e começou a rir de novo.
— Que tal... Pãozinho e Railgun? — sugeri.
— Fico com o Pãozinho. — ela disse rapidamente.
— O meu é Railgun.
Nossa montaria é muito, muito rápida. Chegamos em uns quinze minutos em Wyvern. Claro, tivemos que descer dos alicórnios porque aquela era a cidade dos ventos sagrados e não temos muito controle aéreo nela. Achamos um bom lugar para passar a noite, ou até mais, não tenho certeza de quanto tempo vamos ficar aqui...
Carol disse que sairíamos em busca de poder, mas não explicou como conseguirei poder aqui. A ouvi chamando meu nome e virei-me.
— Então, irei te guiar em sua jornada. Yuko, aqui você ganhará poder conforme aprende. Virtudes aparecerão para te ajudar, como: companheirismo, gentileza, sinceridade. Aceita que eu seja sua guia? — disse fitando-me serenamente.
— C-claro! Você foi a única pessoa que me ajudou quando eu estava perdida nas trevas daquele maldito castelo. — olhei para o chão enquanto pensava em como eu iria aprender essas lições. Sair ajudando pessoas? Salvar gatos? O quê?
— Vamos apenas chegar ao palácio negro, lá você saberá o que fazer. No caminho encontrará o poder necessário. — Ela puxou minha mão— Vamos andar pela cidade!
A cidade até que era grande, apenas ficamos conversando sobre o que aconteceria na jornada que faríamos quando esbarrei em um garoto que vinha correndo com um dos braços no rosto —parecia estar chorando— e uma foice na outra mão, caímos para lados opostos com a batida. Levantamos e perguntei se ele estava bem e percebi que ele estava realmente chorando. Fiquei imóvel, não sabia o que fazer. Abracei ele no impulso até ele parar de chorar.
— Por que está chorando? — Olhei para ele.
— É que... meus treinadores dizem que sou um fracasso, não importe o quanto eu treine, eu derrotei todos e mesmo assim disseram isso... “foi uma questão de sorte” eles falaram na minha cara! — Disse o menino, com as mãos no rosto.
— Não acredite neles, para derrotar todos você deve ser muito bom com a foice... — Fiz cócegas nele.
— Ah, esqueci de me apresentar! Sou Frederick Van Wolffan e obrigado por isso — Ele sorriu.
Andamos juntos conversando pela cidade e vimos várias pessoas reunidas falando sobre uma recompensa. Nos aproximamos para ouvir e vimos um cartaz com as seguintes frases: “Princesa Yuko desaparecida. Recompensa: títulos e peças de ouro”.
— Não pode ser ... — Balbuciei desnorteada.
Carol pôs-se a pensar em um plano, até que sugeriu que eu escolhesse um nome para me disfarçar.
— Ellen — Sempre gostei desse nome, talvez essa fosse minha chance de usá-lo.
— Vamos lhe chamar assim, Ellen — Carol estava rindo, mas parecia mais preocupada que antes.
O garoto ficou a nos encarar até que se pronunciou.
— Quem são vocês, afinal? — Ele estava com uma cara um pouco desconfiada e carregava certa insegurança na voz.
Explicamos toda a situação a ele e perguntamos se ele gostaria de nos acompanhar durante a jornada. Ele fez que sim com a cabeça e continuamos o passeio pela cidade, até decidirmos tomar um atalho para chegar mais rápido na estalagem onde iríamos passar a noite. Um grupo de homens bêbados e com garrafas de vinho nas mãos tentaram nos apalpar e jogavam cantadas em nós duas, continuamos andando, até que dois deles jogaram Carol na parede e começaram a tentar tirar sua roupa. Ela tentou pegar seu machado, mas um dos homens já tinha pego antes que ela pensasse em executar tal ação.
Eu corri até ela num ato de instinto, mas outro homem surgiu e me colocou contra a parede também. Frederick estava com um olhar diferente, mais sombrio. Ele puxou sua foice que estava com um brilho vermelho cobrindo a lâmina, avançou rapidamente em direção aos homens cravando a lâmina na costa de um deles, batendo com o cabo nas partes baixas do outro que vinha para atacar ele. Fez um movimento horizontal cortando os outros ao meio.
Eu olhei para Carol e ela estava tão surpresa quanto eu. Ele pareceu perceber o que aconteceu e saiu correndo. Nós procuramos ele pelo resto do dia, até acha-lo sentado perto da saída da cidade. Fui correndo até ele e o abracei.
— Não tem medo de mim? — Ele olhava para o horizonte avermelhado pelo pôr do sol.
— Claro que não, você não é uma pessoa ruim... — Eu olhava os olhos dele e percebi que ficavam num degradê de castanho escuro e vermelho.
— Você não percebeu, né? Mas sua amiga ali sabe, não é mesmo, Carol? — Acenou para ela com a cabeça.
Carol parecia desconfortável com isso, mas ela se limitava a apenas encarar o chão com os braços cruzados. Eu esperava por uma resposta, mas ela parecia distante encarando aquele chão de pedras.
— Eu sou um demônio, e sei que você não é humana. — Ele voltou a olhar para o horizonte, que já estava com cores de rosa, laranja e vermelho.
— Eu o quê? — Minha cabeça parecia estar rodando como um furacão.
— Você saberá na hora certa, mas por enquanto, deve se preocupar em recuperar sua força. Quando conseguir isso poderá libertar a memória do povo. E eu vou lhe ajudar nisso, porque você me ajudou quando eu precisei. — Fechou os olhos e virou a cabeça em minha direção.
Ninguém me disse mais nada sobre e eu também não perguntei. Voltamos para o “hotel” e preparamo-nos para dormir. O dia seguinte seria longo e elas precisavam descansar.
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