Os Espantalhos de Altamira
1 Os Espantalhos de Altamira
As últimas luzes do dia já se findavam no horizonte do deserto. Aos
poucos, toda a extensão de areia e rochas era inundada pela escuridão quesó não era total graças aos parcos brilhos das estrelas. Uma lua minguantee imatura brilhava fracamente, como se estivesse envergonhada e temerosaperante a vastidão do céu.O acampamento do duque de Altamira, Alcides Montenegro, havia sidoarmado logo cedo e, após escurecer, o duque desfrutava de seu jantar emsua luxuosa cabana (a maior e mais confortável, alias), enquanto seus doisgenerais lhe observavam, fatigados. Como generais do exercito queescoltava o duque em sua viagem, eles deveriam ter escolhido algunssoldados para vigiar o duque em sua refeição e suas ultimas horas até osono, mas como Alcides tinha assuntos a tratar com eles, deveriam esperaro duque cair no sono para depois se recolherem. Enquanto comia, selambuzando com a gordura do porco, Alcides debatia com os generaissobre a viagem e o quanto andariam no dia seguinte.— Já estou farto desta viagem — dizia o homem magricelo entre asmastigações — Como se já não me bastasse meus ofícios, tenho que medeslocar até Belavista para responder ao chamado do rei para um debateque pouco me importa.— Mas senhor, se a guerra de fato acontecer, afetará todos os dezducados de Ambrosia, e não só o reino — disse um dos generais,Monteiro.O duque riu desdenhoso.— Se o rei tivesse fechado o cerco e executado os traidores quecomeçaram essa bagunça inteira, a situação já teria sido resolvida. Bom,pensemos agora em nossa viagem para casa. Não quero correr o risco determos que nos encontrar com alguma fera por nos demorarmos demaisno deserto.Então, após a refeição, eles finalmente programaram a viagem de volta.Acordariam bem cedo no dia seguinte para aproveitar o máximo possívelo dia de viagem. Quando tudo já estava acertado Alcides resolve ir dormir,e os generais finalmente puderam descansar para o longo dia que seria oseguinte.— Finalmente um pouco de descanso, hein? — disse Carlos, o segundogeneral, a Monteiro.— Nem me fale, Carlos. Às vezes eu fico pensando se foi mesmo umaboa idéia entrar para a guarda Altamira.Carlos riu.— Está pensando em se aposentar, é?— Acho que seria melhor para minha saúde, e também para passarmais tempo com minha família.— Bom, está aí um ponto interessante. Meu filho já vai fazer três anose eu quase não participei dos primeiros anos dele.— Pois é. Perdemos muita coisa nesse tipo de serviço. Não é como seeu não gostasse de ser da guarda, mas chega um momento em que vocêcomeça a perceber que estava dando muito valor às coisas erradas. Masisso eu vou deixar pra conversar com minha esposa quando chegarmos emcasa.— Você está certo. Vamos dormir, pois em breve acaba nossa viagem equero chegar bem disposto.Após mais quinze dias de viagem, o duque e sua caravana finalmentedeixaram o deserto para trás e começaram a ver os primeiros indícios decivilização. Com o nascer do sol do nonagésimo sexto dia desde sua saída,finalmente a caravana pôde avistar os muros do ducado de Altamira. Umlugar abençoado pelos céus com terra fértil e povo trabalhador, construídoem cima de uma grande montanha, podendo ter uma bela vista de boaparte do território do reino. Mas os membros da caravana perceberamalgo bem diferente. De longe eles viram vários abutres sobrevoando egrasnando próximos aos muros do ducado. Eles se concentravam acimade centenas de espantalhos que estavam fincados pelo terreno dascercanias.Conforme se aproximaram, perceberam um odor pútrido que lhes veiocom a brisa. Apreensivos, alguns aceleraram o passo, alguns correram, maso duque Alcides só reclamava do cheiro. Monteiro, preocupado, quase nãoprestava atenção no que o duque falava.Atrás das fileiras de soldados, Alcides não tinha uma visão plena do queacontecia, mas percebeu que os primeiros a se aproximarem dosespantalhos começavam a cair em prantos e a gritar. Um dos soldados dafrente veio ao encontro de Monteiro.— O que houve na frente, soldado? — inquiriu o general logo de cara.— Meu senhor... — o soldado estava branco, e seus olhosdemonstravam horror, como Monteiro vira poucas vezes na vida — osespantalhos, senhor... Eles são os moradores do ducado.Monteiro e Carlos se olharam ambos preocupados.— Senhor, nos permita ir à frente e verificarmos a situação — disseCarlos.Após a autorização de Alcides, eles pegam seus cavalos e vão para osportões. Quando se aproximam dos espantalhos, eles percebem que, defato são corpos pendurados em cruzes. São corpos dos moradores doducado.— Mas que merda é essa? — comenta um dos soldados, que está maispróximo dos generais.Os dois seguem por entre os corpos, Carlos à frente, em busca de umaexplicação. Então ele empaca. Monteiro o ouve exclamar "O que-'' e sem
terminar de falar Carlos salta do cavalo e se aproxima correndo de um dosespantalhos.Monteiro se adianta e vai até o amigo, e vê o motivo da reação dele. Aliestão os corpos da esposa e do filho de Carlos, estirados em uma cruz,como espantalhos. Seus corpos estão nus e cobertos de lacerações, sanguecoagulado e terra. Ambos aparentemente foram pendurados ainda vivos eficaram ali até morrerem.Carlos corta as cordas dos espantalhos e acolhe sua esposa e filho emseu colo.— Que tipo de demônio faria isso, Monteiro? — ele diz, sua voz ummisto de dor e fúria — O que levaria uma pessoa a fazer isso com umducado inteiro?— É isso que eu quero descobrir, Carlos. Sua dor é a minha, e a detodos aqui. Não vou te pedir pra deixar essa dor de lado, mas para seguircomigo para que possamos descobrir a causa e o culpado disso tudo.Como sempre, Monteiro era uma muralha que não se deixava levarpelos sentimentos, não importando a situação. Era em momentos de crisecomo aquele que mais se podia contar com Monteiro.Os generais conseguiram, com certo custo, reunir os soldados eprepará-los para adentrar os portões do ducado. O duque Alcides, que nãoquis se aproximar dos corpos, esperava longe, reclamando e gritando paraque os generais descobrissem logo os culpados.Eles seguiram para os portões da cidade, que se encontravam fechados.Alguns soldados tentaram abrir, mas não conseguiram. Quando eles aindaestavam tentando forçar os portões, ouviram uma voz vinda de cima domuro.— Olá, caros senhores! Que lindo, não? Fresco, de céu limpo... Bompara descansar e pensar na vida.Todos olharam para cima e viram uma garota, que devia ter unsdezesseis anos, sentada na muralha. Seus cabelos ruivos eram cacheados ebalançavam levemente com a brisa. Ela trajava um vestido brancoestampado com desenhos que os soldados não conseguiam ver direitodevido à distância, mas que eram vermelhos e se espalhavam pela roupa deforma disforme.— Vocês não vão conseguir abrir — continua — porque os portõesestão bem reforçados por dentro. Eu ia abri-los, mas acabei esquecendo.Um dos soldados indagou:— Quem é você, garota, e o que aconteceu por aqui?A garota ri, despreocupada, com seus olhos negros reluzindo.— O tal do... — ela olha para cima, pensativa — Como era o nomemesmo? Ah, sim! — volta a olhar para os soldados — Alcides! O Alcidesse encontra entre vocês? Ele é o duque daqui. Então ele deve ser... Aquelemagrelinho de nariz empinado ali, não é?— Responda ao soldado, garota! — gritou Carlos, visivelmenteabalado, mas se esforçando para demonstrar frieza, assim como Monteiro— Identifique-se e nos diga o que sabe sobre o ocorrido no feudo!A garota suspira e diz, novamente em um tom despreocupado:— Vocês são muito burocráticos aqui... Mas tudo bem, vou fazer dojeito que me pedem. Meu nome é Helena. Eu e uns amigos viemos aofeudo de vocês por dois motivos. Para recuperar algo que o Alcidesroubou de um... Conhecido nosso... Um colar, eu acho. É chamado deOlho de Hamatra, ou algo assim. — o duque, ao ouvir aquilo,empalideceu, mas não falou nada. Helena continuou — E para matar ele etodo mundo dentro do feudo. Isso significa que, se vocês nos entregaremele, não precisamos matar vocês. O que acham?Os soldados, irritados, começaram a gritar insultos e os que portavamarcos já apontavam para a garota, quando os dois generais os impediram.— Já chega! Já chega! Se acalme, vocês! Deixem que nós resolvemosisso. — gritou Monteiro.Carlos se aproxima mais da muralha e grita para a garota:— Você está dizendo que você e uns amigos fizeram isso com aspessoas do feudo? Olha, não é um bom momento para brincadeiras,garota.A jovem ri, se levanta e fala:— Tudo bem, então. Vou chamar meus amigos aqui e resolvemos logoisso. Estamos demorando muito com isso.Ela solta um longo assobio e depois arruma seu vestido,despreocupada. Então, de outras partes da muralha, aparecem dezenas depessoas. Trajavam armaduras vermelhas, bem trabalhadas e aparentementeresistentes. A garota tinha um sorriso sereno estampado no rosto, e nemsequer olhou para os companheiros.— É, rapazes, a burocracia não funcionou. Vocês são testemunhas deque, dessa vez, eu tentei.Os guerreiros rubros riram alto, soltando altas gargalhadas. Eles seaproximaram da borda da muralha e saltaram, como se aquela altura nãofosse nada, e se agruparam logo que chegaram ao chão. Helena, que osolhava de cima, ainda não havia se movido.Ela estava de pé, ajeitando seu vestido, ainda sustentando um sorrisodespreocupado. Quando parou, andou até a borda e se jogou da muralha.Enquanto caía, seu corpo foi coberto por uma armadura escarlate, cujasplacas que a formavam pareciam escamas de um réptil. O elmo era todofechado e sua forma lembrava a concepção tradicional de um demônio:Chifres curvados como os de um bode saíam das laterais, brilhando negroscom ranhuras em vermelho fluorescente. Por toda a armadura os tonsfluorescentes estavam presentes, brilhando por baixo das escamaslevemente.Como toda armadura mística, aquela se adequava totalmente ao corpoda garota que a usava, se moldando às curvas e ao volume dos seios, mas apartir da cintura, além das proteções normais para as pernas, havia umaespécie de tecido vermelho rendado que ia caindo e se fechando para trás,terminando em uma ponta, como uma pétala, pouco abaixo da altura dosjoelhos.Aquela armadura, ao mesmo tempo em que provocava pavor devido aoque se contava a seu respeito, era de uma elegância deleitosa aos olhos.Alguns soldados se mostraram receosos e começaram a murmurar "AnjoEscarlate". O general Monteiro já havia ouvido sobre aquele nome. Àsvezes também chamado de Anjo da Morte, há alguns anos ouve-serumores, quase como lendas entre os viajantes, de uma entidade quevagueia pelo mundo deixando um rastro de sangue e morte por ondepassa.A garota levanta o braço direito para o céu. Ouvem-se trovões um raiocai em sua mão, sua luz cegando parcialmente a todos ali. Quando osprimeiros que voltavam a enxergar se voltaram para cima da muralha,viram na mão direita dela uma espada longa, maior que uma espadacomum. Sua lâmina era prateada, limpa e sem ranhuras. A base e o caboeram negros, cheios de pequenos desenhos simétricos em vermelho neon.— E então, Alcides? — sua voz soa metálica por trás da mascara, masem um tom audível por todos — o que você escolhe?Depois de um momento de estranho silencio causado pelo espanto,Alcides, vermelho de raiva, grita:― O que há com esses homens, Monteiro? Estão com medo de algunsbandidinhos? Viraram galinhas?― Bom, senhor, os homens estão com medo dela por causa daarmadura, temem que ela seja o "Anjo Escarlate".― Anjo Escarlate? Tomem vergonha na cara, isso é história pracrianças!Os soldados continuaram parados, e até mesmo a garota reclamou. Elavoltou a adotar uma postura mais relaxada, com a espada apoiada sobre oombro.― Olha, vocês vêm ou não? Só pra saber se eu espero mais ou vamosaté aí.Nesse momento até mesmo o Monteiro se enraiveceu.― Atenção, homens, eu sei que vocês estão com medo de uma lendaque se ouviu com muita frequência, mas esses bandidos violaram nossascasas, assassinaram friamente nossas famílias e ainda brincaram com seuscorpos! Vocês vão deixá-los impunes depois de verem aqueles espantalhosfeitos com suas mulheres e filhos? Vocês vão deixar que isso continue ouvão lá acabar logo com isso e vingar a morte de nossos familiares eamigos?Os generais tomam a dianteira, gritando para seus soldados. Carlos sacasua espada e a brande, acima da cabeça, apontando para Helena e seushomens.— Ataquem! — ele gritou. Os soldados gritaram em uníssono ecorreram com suas espadas em mãos, caindo contra os inimigos com fúria.Helena e os guerreiros carmesins não titubearam e, com um brado tãoalto quanto de seus inimigos, eles avançaram.— Vamos acabar logo com isso e voltar pra casa, rapazes! — GritouHelena. Em seguida ela fala pra si — Já passamos tempo demais aqui.Os dois exércitos se encontraram, com o som do encontro das espadasressoando por todo o local. Os soldados de Altamira eram valorososguerreiros, mas a ferocidade dos mercenários era algo quase sobrenatural.Mesmo se acertados, os golpes não surtiam efeito. Espadas comuns não
conseguiam perfurar suas armaduras e, além disso, os inimigos lutavamsem medo de se ferir. Logo a diferença se tornou notável, pois já nosprimeiros instantes muitos soldados haviam tombado.Com Monteiro e Carlos as coisas já eram diferentes. Suas armas eramespeciais, assim como as de Helena, e também se somava a isso seuslongos anos de experiência. Os dois generais eram os únicos a conseguirvencer os mercenários com poucos golpes de suas espadas. A deMonteiro, uma espada aparentemente simples, tinha cerca de um metro emeio de comprimento e dela emanava um brilho prateado. Mesmo quandocercado por vários inimigos, sua velocidade de resposta estava acima donormal. Com poucos movimentos e alguns giros, ele derrubava seusadversários, os matando antes mesmo de eles entenderem o que lhesacontecia.Carlos usava uma espada um pouco diferente da do amigo. Sua lâminaera de um metal azulado e com o dobro da largura normal, embora seja domesmo tamanho que uma espada comum. Seus movimentos eram bemmais lentos que os de Monteiro, mas eram mortais. Ao acertar um inimigo,a arma propagava uma onda de choque tamanha que derrubava quem maisestivesse ao redor. Com isso, Carlos conseguia tempo para acabar comseus inimigos um a um. Geralmente seus inimigos morriam ao primeirocontato com a lâmina, que quebrava suas armas e armaduras e seguiacortando a carne desprotegida. Seguiram assim os dois generais,derrubando vários dos inimigos, enquanto seus aliados tombavam semmuita chance de reagir. Alguns ainda acertavam golpes certeiros pelasviseiras dos mercenários, sua única desvantagem até então, mas não eratão fácil mirar num único e pequeno ponto.O Anjo Carmesim controlava o campo de batalha. Helena pareciadançar enquanto sua lâmina, carregada de energia provinda dos raios,derrubava os soldados antes mesmo de acertar o alvo. Ela esquivava einvestia com uma precisão inumana, seguindo com um verdadeiro rastrode morte, como era dito nas lendas. As baixas que os generais causavamnos mercenários não se comparavam às que Helena sozinha estavacausando ao exército do duque.Em cerca de duas horas de batalha, já estava praticamente tudoacabado. O lado de Helena havia perdido muitos mercenários, mas dossoldados só restavam os dois generais, que mesmo sobrepujando osmercenários em força e habilidade, não conseguiram evitar seremcercados.Carlos e Monteiro estavam juntos, respirando pesadamente, olhandopara os mercenários, que riam e escarneciam dos dois. Os generais quasenão conseguiam se mover, suas espadas estavam sendo usadas para seapoiarem em pé, mas estavam dispostos a morrer lutando. O AnjoCarmesim se aproximou dos dois generais, abrindo caminho entre os seus.Seu elmo se desmaterializou e ela puxou a parte dos cabelos que estavapor dentro da armadura, sacudindo-os ao vento. Tinha no rosto umsorriso petulante, mas em seus olhos ardia um brilho especial, como o deum felino pronto para o ataque.— Eu gostei de como vocês lutam, poucos conseguiram causartamanha baixa em nosso grupo, então resolvi ser complacente com vocêse deixá-los vivos. Mas, é claro, a cabeça do Alcides vai conosco.Monteiro, cujos olhos emitiam seus sentimentos de raiva e humilhação,vociferou:— Não ouse nos poupar depois de acabar com todos de nossa terra. Senos deixar vivos, juro que vou persegui-la até o inferno, se for preciso,mas algum dia lhe farei pagar pelo ocorrido aqui.Helena, ao ouvir aquilo, começou a rir. Ela inclinou a cabeça para cimae o riso evoluiu para uma gargalhada sincera, que durou alguns instantes.Quando ela se recuperou do ataque de riso, ela olhou para os doisgenerais. Seus olhos estavam ainda mais duros, mesmo com um sorriso norosto.— Eu lhes convido a tentarem sua vingança quando se acharemdispostos. Vai ser um ótimo divertimento para mim.Ela se virou para seus mercenários:— Não ousem tocar nesses dois. A partir de agora eles são meus.Mudando de assunto... — ela olha para os lados, buscando algo — vocêsviram o Alcides por aí? O papo está bom, mas temos que voltar logo provelho.Os mercenários começaram a procurar pelo duque, e levou algumtempo para que o encontrassem escondido dentro de uma vala há algunsmetros de onde ocorreu a batalha. Ao ser capturado, o duque chorava epedia por clemência, prometendo riquezas e glória se o poupassem. Umdos mercenários lhe disse, rindo:— Depois que lhe matarmos, podemos pilhar sua casa a vontade elevar tudo que quisermos. Porque precisaríamos de um acordo com você?O duque, tomado de desespero, começou a gritar e a se debater, masnão conseguiu mudar seu destino. Foi arrastado até Helena, que oaguardava em meio aos outros mercenários.— Vamos lá, Alcides, me passa logo o colar. — disse Helena assim quepôs os olhos nele.Alcides, instintivamente, segurou algo à altura do peito, que estava pordentro das roupas. Seus olhos eram fúria e desespero.— Ah, então estava mesmo com você, não é? — Helena abriu umsorriso zombeteiro — Era tudo que eu queria saber.Ela sacou a espada e a levantou, levando-a para trás do ombroesquerdo para dar impulso. Nesse momento, seu elmo voltou a aparecer ea espada começou a emanar a energia de raios, como se estivesseconcentrando tudo aquilo. O céu começou a escurecer, trovões rugiram,ventos começaram a acossar a todos ali.Alcides olhava aquilo tudo com pavor. Ele chorava e pedia porclemência, mas era completamente ignorado pelos mercenários.— Não tem jeito, Alcides — disse Helena, sua voz saindo mais alta queo barulho ao redor — cortar sua cabeça é parte do trato.Ela tomou impulso e desferiu o golpe. A espada cortou a carne e osossos com facilidade, como se estivesse cortando o ar. Devido à energiaemitida, a lâmina cauterizou o corte no mesmo instante. Alcides emitiu umberro rápido, que pareceu até ter sido interrompido. A cabeça foiimpulsionada para o lado e ao cair no chão rolou por uma decida. O restodo corpo caiu no chão e ainda ficou se contorcendo por alguns instantes.— Peguem aquela cabeça, ensaquem e vão buscar os cavalos.Terminamos o serviço.Ao ouvir as ordens de sua líder, os cavaleiros carmesins começaram atrabalhar. Um deles desceu para buscar a cabeça levando um saco defeltro. Os outros voltaram para a cidade para buscar as montarias. Helenase abaixou perto do corpo decapitado e começou a vasculhá-lo, eencontrou em seu pescoço, por baixo de todas as vestes, o colar. E elasoube que era ele no momento em que o pegou.O Olho de Hamatra era um medalhão de ouro em formato de círculo,do tamanho de uma maçã. Ele tinha várias inscrições gravadas, em umidioma que Helena não conhecia, que circulavam uma jóia verde olivahexagonal presa ao centro. Nas costas o ouro era liso e reluzente à luz dosol.Helena ficou analisando o item até que o mercenário voltou a subircom a cabeça de Alcides. Ele ficou ao lado da líder, olhando por sobre osombros o objeto que vieram buscar, com certo fascínio.— Ei, chefe, esse negócio aí deve valer uma boa grana, não é?— Rapaz, se sequer tentássemos fazer isso, aquele velho iria dar umjeito de explodir nossas cabeças. Pode ter certeza disso.O mercenário engoliu em seco diante da resposta e deixou sua ganânciade lado. Lembrou-se de como o feiticeiro lhes tratava e resolveu nãoarriscar irritá-lo.Alguns instantes depois os outros começaram a sair da cidade com oscavalos, que estavam alojados em um estábulo ali perto. Cada um delesguiava um cavalo e trazia até cinco outros amarrados em uma fila.— O que faremos com os cavalos dos que morreram? — o primeiro achegar indagou.Helena pensou por um instante.— Vamos soltá-los, ou acabaremos perdendo tempo. Aquele velhodoido não vai fazer questão mesmo.E assim eles deram as costas para o ducado de Altamira, que estavasilencioso, exceto pelos gritos de dor e fúria de Carlos e Monteiro e dograsnar dos corvos, que pareciam rir dos mortos e da dor dos quesobreviveram.
Notas finais
E é isso, gente. Espero que tenham gostado.
Como falei no começo, comentem, me falem sua opinião. Até a próxima.
Como falei no começo, comentem, me falem sua opinião. Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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