Notas iniciais
Primeira fic. Espero que gostem!

100 anos antes

Apolo caminhava de um lado para o outro em meio a sala do trono. Fazia apenas uma hora que ele havia tido as visões, e ainda menos tempo que tinha requisitado uma reunião com o conselho. Agora que estavam todos ali, ele simplesmente estava atordoado demais para saber por onde começar. Um comportamento completamente inadequado para um deus.

Ainda assim, não podia acreditar que tudo estava para acontecer novamente. Não agora que seus poderes estavam enfraquecidos.

Olhou de relance para o pai. Sentado em seu trono de ouro puro, Zeus, com seu rosto jovem, contrastando com os cabelos brancos penteados para trás e um terno branco sob medida, se encontrava com o semblante ilegível para qualquer mortal que o olhasse. Mas ele, como filho, sabia melhor. A irritação que irradiava daqueles olhos de tempestade era quase palpável.

Em tronos de prata, Poseidon e Hades se encontravam respectivamente a sua direita e esquerda. O primeiro com um terno negro, cabelos louros metodicamente arrumados e olhos verde-mar, o encarava abertamente com cara de quem gostaria de estar em outro lugar. Mas Hades... Hades, com seu cabelo escuro, chegando na altura dos ombros, olhos prateados e trajando roupas completamente pretas – o que geralmente fazia com que ele parecesse um astro do rock – sempre fora o único que Apolo, por mais que tentasse, jamais conseguiu ler. Mesmo após milênios. Hoje, porém, o sorriso quase imperceptível que sempre pairava em seus lábios, havia sumido e os mesmos estavam pressionados em uma linha fina, revelando preocupação.

É como se ele soubesse que há algo errado, pensou Apolo.

– O que está acontecendo? – uma voz doce perguntou a sua esquerda, fazendo-o parar de andar e encarar a todos eles. Afrodite. – Por que pediu, com tanta urgência, que todos estivéssemos presentes?

Decidiu ser direto:

– Tive três visões hoje. – falou.

– Grande coisa! – retrucou Poseidon, aborrecido – Você está sempre tendo visões.

– Essas me deixaram, no mínimo, preocupado, querido tio. – disse sem se afetar. Os milênios de convivência o deixaram imune ao cinismo do deus dos mares. – Vi o passado e o futuro. Entretanto todas elas estão interligadas.

– Eu tenho coisas bem melhores a fazer do que ficar ouvindo seus enigmas estúpidos. – resmungou seu tio, cerrando a mandíbula.

– Cale-se, Poseidon. – ordenou Hades, ainda com a voz suave, mas carregada de autoridade, de um jeito que apenas um dos Três Grandes poderia fazer. – Quanto a você, – olhou para Apollo – chegue ao ponto.

– Irmão, – a voz de Artemisa se elevou, fazendo com que todos voltassem sua atenção a ela.

Seus olhos verde-esmeralda fixaram-se nos de Apolo. – todos nós temos ciência de que suas visões tem sido restringidas apenas ao passado ultimamente. Mais precisamente a Era das Trevas. O que o deixou tão perturbado?

Os antigos tem algo a ver com tudo isso? – a pergunta não feita, ficou pairando no ar entre eles. A perspicácia de sua irmão gêmea não o surpreendeu. Dentre todos ali presentes, ela era a única que não o decepcionaria quanto a isso. Bem, ela e Hades.

– Digamos que as moiras tenham andado brincando com o destino novamente. – disse com a mandíbula cerrada. Irritava-o a forma de como elas procuravam deixar as coisas mais “interessantes”, sempre que estavam entediadas. Suspirou procurando relaxar e continuou: – Minha primeira visão, recordava a Grande Guerra com os antigos, mas as duas seguintes... – suspirou – as duas seguintes eram apenas possibilidades. Uma delas me mostrou o que acontecerá se fizermos caso omisso da situação, – seu olhar disparou momentaneamente para Poseidon – a outra revelou o peso de nossa interferência. Contudo, será melhor que vejam por si mesmos.

Com um movimento de sua mão, o fogo da lareira voou para o meio da sala, formando um arco no ar. Em seu meio, figuras foram tomando forma.

Todos olharam fixamente as imagens transmitidas. Poderia ter-se ouvido a queda de uma agulha no silêncio que se formou. As mãos de Hades tensionaram-se visivelmente.

– O que vocês veem, – disse Apolo tristemente – é o futuro do mundo mortal. A Era das Trevas está retornando. Se não fizermos nada... temo que não haverá qualquer possibilidade de vitória.

– Isso não é possível! – urrou Zeus, – Estão todos mortos! Mortos!

– Eu diria sofrendo eternamente nas profundezas do tártaro. – disse Hades. Seu tom demonstrava desapego, mas sua expressão corporal contava outra história. Apollo teve a impressão de que o deus dos ínferos se importava com o mundo mortal bem mais do que deveria. – Não mortos.

– O que quer dizer, exatamente? – pediu Hermes.

– A raça dos feiticeiros se espalha sobre a terra. – explicou como se fosse óbvio, porque na verdade era. – Monstros de nível inferior já são convocados de volta a vida. Na velocidade que seus poderes aumentam, eu não me surpreenderia se eles conseguissem trazê-los de volta. Seria desastroso, mas não surpreendente.

– Impossível. – Zeus frisou. – São apenas mortais insig...

– Pai! – cortou-o Apolo – Não subestime os mortais. Todo esse tempo os observando e seu orgulho ainda o torna cego. Eles já provaram seu valor em batalha, a sua fé nos tornou o que somos, deu-nos força. Agora serão nossa única saída. – após uma pausa acrescentou – Ao menos em parte.

Os olhos de Atena se estreitaram:

– O que você não está contando? – indagou.

Com um meio sorriso ele respondeu:

– Essa foi minha terceira visão.

As imagens da segunda visão no arco de fogo se tornaram nebulosas e em seguida outras nítidas tomaram seu lugar. Dez pares de olhos se arregalaram. Hades, porém, pareceu relaxar.

– Só pode estar brincando. – disse Hera, levantando-se. Sua face mostrava uma expressão que os mortais poderiam chamar de assassina. – Você não pode achar que vamos pôr o destino da raça humana, e o NOSSO DESTINO, – aumentou seu tom de voz deixando bem claro com o que realmente se importava – nas mãos desses...

– Eu espero que sim, – Apolo cortou-a calmamente. – caso contrário estaremos em sérios problemas.

O rosto da rainha dos deuses se retorceu em fúria.

– Mas são apenas...

Dessa vez foi Hades quem não deixou-a continuar:

– Por mais que você queira mudar isso, o destino já está selado. – seu meio sorriso voltou. – Agora eles são a única esperança da terra. A nossa única esperança.

– A combinação das três raças. – resmungou Poseidon, com seu tom cinismo habitual. – O que poderia dar errado?

Notas finais
eaí, gostaram?