— Mais que merda está acontecendo hoje nesta cidade? – perguntei para janela.

Nunca pensei que a veria tão "tranqüila". O fato de ter sido tomada por anarquistas, uns meses antes, onde mataram o prefeito e os policiais de uma pequena delegacia, e como resultado as autoridades do país não terem feito nada deixou as coisas movimentadas por aqui.

Todos os dias tinham agentes do caos esperando alguém desobedecer a ordem de fazer uma reverencia a uma imagem dele. No começo, os moradores da pequena cidade ao perceber que as autoridades não iriam fazer nada, começaram a fazer arrastões e a saquearem os supermercados estocando comida. As escolas não funcionavam mais e nem os postos de saúde e o hospital. Havia carros abandonados no meio das ruas. Ouvia-se barulho de brigas e tiro todos os dias. Vários carros e motos passavam verificando algum movimento estranho e vigiando os moradores que ainda residiam em Slin para evitarem a fuga deles. Faziam escalas das oito até dez da noite, mas muitas vezes uns estavam drogado ou bêbado demais para ficarem atento as pessoas. Elas não estavam vivendo em paz há quase dois meses e algumas já estavam no seu limite. Os únicos lugares que tinham comida ainda eram as casas abandonadas e algumas escolas.

Um mês atrás quando eu cheguei aqui encontrei o motivo do governo faze vista grossa para o que estava acontecendo. A cidade não tinha valor para economia do país, então, contanto que não chegasse às outras cidades próximas das de grande relevância eles nenhuma atitude seria tomada. O que era revoltante, por que muitas vezes em que precisava sair da cidade esbarrei em muitos corpos em decomposição, quando indicava o caminho para outras pessoas colocando fitas vermelhas nos galhos das árvores mais altas.

Esse não era e nunca seria o motivo para voltar a Slin. Nem residir aqui. Muito menos ser espiã ou algo assim. Talvez um pouco de culpa, por não poder fazer nada de estrema importância. Mas o fato de que ele nunca me encontraria embaixo do seu próprio nariz nos mantém preso em uma cidade abandonada pelas autoridades e morando em ruínas de uma casa que só tem um cômodo, um telhado com um enorme buraco, quatro paredes de pé ligadas ao porão onde ficamos.

Fico algum tempo na janela e ouço uma movimentação na casa vizinha e volto para o porão descendo as escadas para ver se ele ainda está dormindo sobre um colchão improvisado no chão junto com as nossas poucas coisas espalhadas nas prateleiras das paredes.

Ele lembra muito ele, mas os olhos mel são dela. Como eu sempre, coloco a mão em frente ao seu nariz sentido sua respiração para tentar relaxar.

Ele está bem. Está respirando. Tudo vai se resolver . Respiro fundo.

Faço um agradecimento silenciosamente por ele ter entrado na minha vida e dando sentido a continuar ela. E prometo em pensamento que assim que as coisas nesta cidade se resolver iremos ter uma vida simples e feliz possível.

Plaf. Plaf. Plaf.

Alguém nos descobriu gelei.

Levanto saindo do choque. Olho para arma na prateleira mais alta lembrando que se alguém ouvir o barulho pode acabar com o disfarce de casa em ruínas vazia. Penso rapidamente, tiro meus tennis e devagar tento subir sem fazer a madeira da escada ranger. Abro a porta do porão que liga a sala e fecho rápido ao ver um vulto na janela me chama atenção. Agradeço mais uma vez por estar em forma quando descubro que é um homem. Observo quando sua sombra chega à porta e me preparei para o que vem a seguir.

Ouço um murmuro e quando a maçaneta começa a se mexer sou mais rápida, abro a porta com o punho direito fechado esperando que o homem segurasse e levantei o punho esquerdo acertando a parte superior da sua cabeça. Escutei uma reclamação enquanto ele segurava a minha mão direita.

— Ainda bem que você não acertou meu nariz – disse dando uma risadinha. Observo a pessoa que está na minha frente.

Lindo.

A única coisa que me vem à cabeça quando percebo que ele está com a farda do exército. Nunca na minha curta vida, encontrei um homem com cabelo preto estilo corte militar por baixo do chapéu, com olhos da cor da jabuticaba e portando um fuzil de assalto — IMI Tavor TAR-21 que ficasse maravilhoso. O que o deixa simplesmente mais lindo que ele já é tirando o sangue que escorria do super cílio onde eu o atingi.

Céus, quanto tempo eu não vejo um homem fardado? Balanço a cabeça.

Isso que dá passar quase um ano sem ver nenhum homem militar, já começa achar que o primeiro que aparece é o último homem vestindo uma farda no mundo.

No mesmo instante que o sorriso apareceu no rosto dele, segurando a minha mão direita impedindo o primeiro soco, ele desapareceu quando olhou para mim com surpresa. Levou a mão livre à parte superior da cabeça e voltou quando sentiu algo molhado.

— Você é louca?!

Espera! Tem um homem fardado na minha frente? Isso quer dizer que o exército está em Slin?

— Puts grila! Eu que pergunto: vocês são loucos? – retruquei tentando puxa a mão que ele estava segurando, mas ele continuou apertando mais – Eu não falei que o melhor dia para vir em uma segunda? Não em um sábado! O que vocês tem na cabeça minhoca?

Ele percorreu seu olhar em mim duas vezes. Franziu o cenho e perguntou com desdém:

— Você era o contato?

— Claro que sou eu! – grunhi. — Será que vocês leram a minhas cartas? Será que vocês leram direito o que eu escrevi – coloquei a mão livre na cabeça — Que merda! Sábado é o dia que eles entram nas casas, então, estão sóbrios e na segunda estão de ressaca. – falei como se tivesse explicando para uma criança. – Devia ter desenhado – murmurei.

— Sempre pensei que as mulheres tivessem letra bonita, mas a sua... Como eu ia saber que a informação veio de uma mulher, com uma letra feia daquelas. – respondeu ainda me encarando parecendo inconformado.

A segunda coisa que eu notei foi que ele com certeza é o Senhor Babaca. Ele deve ser o menininho da mamãe para pensar que todas as mulheres são educadas, comportadas, que não xingam e que tenham letra bonita. Uma pena ter que destruir esse pensamento de um filhinho da mamãe.

Perdi a oportunidade de retrucar, quando ouço o barulho do primeiro tiro. Seguido de outro e de outro começando assim um tiroteio. Por causa do barulho que nos assustou, ainda segurando a minha mão ele me empurrou para dentro da sala e fechou a porta, olhando para a janela que estava dando para ver alguns anarquistas e homens fardados trocando tiros altos. Ele puxou o resto da cortina que estava lá antes de eu descobrir a casa em ruínas. Agora sim ele estava em modo: soldado.